CAPÍTULO DOZE REGINA

Mais alguns dias são deixados para trás e o coração de Regina fica ainda mais inquieto. Sentia-se como uma fera enjaulada e controlada pelo seu domador isento de chicotes, mas com armas mais poderosas para sua dominação.

Passava das oito da noite quando Regina abre a porta da casa e respira aliviada pelo final de mais um dia longo de trabalho. Caminha para a cozinha e encontra Vasco guardando os utensílios da mesa do jantar.

- Boa noite! – ela caminha até o marido e o vê desvencilhar-se de seu toque. – O que há?

Ele termina sua tarefa e depois vai organizar o restante de jantar em vasilhas que seriam refrigeradas para a conserva.

- Eu já jantei. – ela fala indo apanhar algo para beber.

- Deduzi isso. Esta é a terceira vez na semana que você se recusa a jantar comigo.

- Não me recusei, Vasco. São reuniões!

- Mentira sua. – ele se volta para a esposa. – Sabe o que quanto detesto os erros que comete contra mim. Eu conheço a sua agenda e sei de todos os seus passos, portanto, não insulte a minha inteligência, queridinha.

Regina o olha com espanto.

- Eu sou seu marido e exijo respeito e cumplicidade. Caso esteja cansada de nosso relacionamento, faça com que eu deixe de existir. É simples como da maneira que em fez existir.

- Foram reuniões de última hora.

- Na lanchonete na Vovó e com a Sra. Blanchard Nolan ou com a Srta. Swan? Elas não têm afazeres nesses horários?

- É minha família.

- Sua família sou eu. Sou eu quem cuida de todos os seus interesses e desejos. Zelo pelo seu bem estar e pela sua felicidade, ou isso já está incomodando a grande rainha acostumada apenas a dar ordens?

Regina sorri incrédula.

- Por menos que isso eu já transformei homens em insetos.

- Sim. E transformou personagens em seres humanos. – ele cruza os braços diante do peito e ergue o queixo. – Acha certo o que está fazendo? Em uma semana deixou-me sozinho em nossos jantares, por três vezes. Até quando vai continuar fugindo de mim?

- Não seja ridículo!

- Você me fez, você pediu por mim e agora que estou aqui, quer sair de minha vida? Para que vou servir, então? Sou exatamente o que você quis que eu fosse e agora está fugindo de sua criatura?

Regina entreabre os lábios para falar, mas não consegue argumentar. Sua mente está confusa.

- Você carrega meu sobrenome e eu exijo que o respeite. Caso contrário, terá de tirá-lo de seus documentos, assim como tirarei esta aliança de meu dedo e minha presença de sua vida, amor.

Os dois permanecem em silêncio, até que Vasco recomeça:

- Não há reclamação sobre minhas atitudes. Sou perfeito! Não deixo brechas para que você se queixe de mim, enquanto seu comportamento começa a tornar-se reles demais para ser digno de uma rainha. Uma vez a chamei de limítrofe e agora reforço e acrescento a palavra mundana ao seu comportamento. – ele rosna e exibe o dedo indicador em riste.

- Não me irrite, rapazinho! Posso ficar muito feia e malcriada quando sou provocada!

- Não a estou provocando, queridinha. Estou apenas interpretando as informações que você está deixando gravadas em minha mente. Quero que cite três falhas minhas, que corroborem com essa rebeldia de sua parte.

Regina não responde.

- Duas falhas, então.

Sem resposta mais uma vez.

- Apenas uma falha que a tenha levado a ser tão infantil dentro de nosso casamento.

Suspirando e admitindo a derrota, Regina apenas abre os braços.

- Você errou comigo outra vez, amor. Espero um pedido de desculpas e uma promessa de que isso não tornará a acontecer, a menos que você queira dar brechas para que as forças inimigas entrem em nosso casamento.

- Não sei o que dizer, Vasco.

- Não consegue dizer nada? Você sabe que está errada e eu estou certo, mais uma vez. – ele caminha na direção da saída da cozinha. – Vou preparar o seu banho e espero por você em nosso quarto. Não quero dormir fora dos seus braços, esta noite!

Noutro ponto da cidade, Henry terminava a leitura de um livro e iria começar a resenha para complementar sua nota escolar. Abre seu notebook e tenta organizar a mesa para ter espaço para trabalhar, imaginando como seria conseguir ter a organização de Vasco, com suas etiquetas coloridas e anotações. Leva os olhos para um romance policial presenteado pelo padrasto e ainda não lido. Apanha o livro e abre para ler a dedicatória mais uma vez. Fria e impessoal: "Boa leitura! Vasco Agilulfo".

- Quem é você, Vasco Agilulfo? – sorrindo, o garoto começa uma pesquisa pelo sobrenome do padrasto. Alguma coisa iria aparecer ou mesmo outras pessoas com aquele mesmo sobrenome nada comum. Poderia entrar em contato com essas pessoas e saber mais sobre tal singularidade. – Vejamos...significado do nome..humm...Agilulfo tem origem germânica e quer dizer wulf, lobo, ágil, de espada. Humm! Está sempre pronto a se aventurar, cheio de energia, possui personalidade ativa e decidida e é líder por natureza. Independente e dinâmico pode ser visto como egoísta e autoritária. – Henry acha graça. – Estão falando do meu padrasto.

Isso não o interessava. Não seria preciso internet para explicar o comportamento de Vasco.

- Vários nomes no Facebook...o que mais há? Deixe-me ver aqui mais para baixo...opa! o que é isso? "Agilulfo, o cavaleiro inexistente", conto de Ítalo Calvino? – interessado, Henry vasculha ainda mais em busca de informações e tudo em volta perde o interesse.