Sofia: Três reviews... assim mimas-me! Sabes o que acontece depois? Levas Mms! 3 MM's pa ti!

Placebo: Obrigadaa! Adoro reviews grandes:D E aqui desenrolo o que te deixou em pulgas...lol. E não é bom... 1 MM's pa ti! Grande!


Capítulo XII - Uma escolha difícil

Faltavam ainda mais de dez minutos para as nove da manhã quando Gabriel se sentou na sua cadeira com o caderno de Matemática à sua frente. Era tão bom se o professor Spivey se lembrasse de faltar... Duas horas livres era bom. Para estudar, claro. Matemática era a seguir.

Pela pressão do teste estar perto, talvez, Gabriel envolveu-se naquilo profundamente e não prestou atenção a mais nada à sua volta. Assim, quando alguém se sentou ao seu lado, ele nem se deu conta.

"Olá."

Gabriel levantou a cabeça e ficou chateado por ver Brooke, mas o que o incomodou especialmente foi o sítio que ela escolhera para se sentar. "Sai daqui." foi a única coisa que conseguiu dizer.

A rapariga foi apanhada de surpresa com o tom áspero dele, mas isso não a fez desistir de ficar ali.

"Preciso falar contigo."

"Sai daqui."

Brooke engoliu em seco, mas não recuou. Levantou a cabeça e falou-lhe sem medo "Não te preocupes, a tua amiga não vem hoje."

"Queres dizer a minha namorada?" Gabriel não conseguira mesmo resistir e depois de ver a cara dela, então é que não se arrependeu mesmo.

"O quê?" Brooke falou num tom baixo e via-se que estava chocada. Mesmo que ela se fartasse de insinuar isso, agora que ouvia a confirmação, não queria acreditar.

"Ela não vem porquê, pode-se saber?"

Brooke não ouviu a pergunta. A sua cabeça baixou-se um pouco e o seu estômago embrulhou-se. Quando o seu cérebro processou completamente o que ouvira, ela sentiu a pouca humanidade que possuia deixa-la. O seu olhar subiu para encontrar o dele e ele viu que ela quase chorava. Contra tudo o que Gabriel podia esperar, Brooke sorriu. Mais nenhuma parte do seu rosto se moveu, a não ser os seus lábios onde se desenhou aquele gesto frio, sem sentimento.

"Vocês estão juntos?"

Gabriel não se mexeu para responder, mas Brooke teve a confirmação pelo seu olhar e continuou a conversa como nada ele tivesse dito.

"Ela não vem hoje. Tem uma imensa dor de barriga."

Gabriel fechou o caderno com força e enfrentou-a "Foste mal informada. É a cabeça que lhe dói, não a barriga. Agora será que podias ir directa ao assunto? Ou então bazas daqui."

"O assunto é este." assegurou ela com uma expressão séria. "Ela não vem hoje, nem vem amanhã e só vem quando eu quiser, o que vai depender de ti."

Gabriel não teve tempo de perguntar o significado da baboseira que ela acabara de dizer, pois Brooke levantou-se de repente e foi para o seu lugar a passos largos.

Velkan estava parado a meio da sala há quase um minuto. Não se atrevia a chegar perto de Brooke com medo de fazer algo que mais tarde certamente se iria arrepender. Não estava a ter um bom dia e não queria que piorasse ainda mais. Gabriel avistou-o e sentiu um frio na barriga ao vê-lo sozinho.

"Ela não está bem." disse Velkan ao senti-lo na expectativa "Não veio." Depois encostou a testa à mesa enquanto enterrava os dedos no cabelo.

Gabriel sentiu o frio na barriga acentuar-se ao lembrar-se do que Brooke acabara de afirmar e fez a pergunta à qual temia a resposta. "Cabeça?"

Isto pareceu irritar Velkan que levantou a cabeça de repente "Não! Agora é a barriga, acreditas!"

Gabriel congelou por momentos, mas depois acalmou-se e tentou pensar numa razão lógica para aquilo, em vez de acreditar que Brooke pudesse de algum modo provocar aquela situação.

"São sintomas da menstruação. Não pode ser isso?"

"Não sei. Mas eu nunca a tinha visto chorar devido a uma dor de barriga antes."

"A chorar?"

Velkan anuiu com um suspiro e depois olhou o namorado da irmã de relance ao lembrar-se de algo.

"Ela... ahem..."

"Sim? Fala!"

"...mandou-te um beijo."

"Outro p'ra ela..."O sorriso de Gabriel não durou muito. Estas pequenas coisas, embora boas, eram efémeras enquanto ela estivesse doente e em casa, longe. Ao ver o professor Spivey entrar, os seus olhos caíram em Brooke. Já não via hora da aula acabar.

Gabriel não teve muita sorte. No final da aula, o professor Spivey entregou os testes e à medida que o fazia, deixava os alunos saírem e Brooke escapuliu-se mal recebeu o seu. Gabriel, sendo dos últimos, saiu tarde da sala e não conseguiu encontrar a rapariga durante o intervalo.

Quando o teste de Matemática terminou e Brooke saiu da sala uns bons minutos antes de tocar para sair e depois não apareceu na aula de Educação Física, Gabriel teve a certeza que ela estava mesmo a fugir dele. Mas não ia desistir. Depois das aulas e em vez de ir para casa almoçar e estudar para História, Gabriel dirigiu-se para um sítio que jurara nunca mais ir, que pedira a Deus esquecer-se do caminho. O desejo não fora concedido e agora agradecia.

Saindo do carro com pressa, Gabriel admirou uma vez mais a pequena mansão onde Brooke vivia e dirigiu-se ao portão negro que lhe antecedia. Odiava aquele lugar.

Ao vê-lo aproximar-se da entrada, o porteiro foi, naturalmente, ao seu encontro. Era um homem já bastante velho e tinha um bigode farafalhudo que não se adequava muito com o fato que vestia mas que lhe dava um ar simpático.

"Sr. Van Helsing, quanto tempo..."

Gabriel forçou um sorriso "Ol� Gregg. Posso entrar?"

"Tenho de o anunciar."

Gabriel concordou, mas sabia que com aquilo as suas hipóteses de falar com Brooke naquele dia desciam drásticamente se ela não o quisesse ver.

Depois de entrar na sua gorita e ligar para dentro de casa a anunciar a presença de Gabriel, Gregg voltou nem dois minutos depois com uma cara tão desconfortável que nem precisou falar para Gabriel saber que ele ia mentir.

"A menina Brooke não está em casa" disse "Saiu com umas amigas."

Gabriel não evitou rir "Olha, Gregg faz-me um favor: diz-lhe que eu disse que ela não é suficientemente genial para sair de casa na véspera dum teste de História e que não insulte a minha inteligência." O rapaz não esperou que o homem respondesse e afastou-se "Fica bem, Gregg" disse por cima do ombro.

Ao chegar a casa, Gabriel deitou-se no sofá e avaliando o seu dia, concluiu com frustração que tinha sido péssimo. A única coisa boa tinha sido o seu B a Psicologia e o B+ de Anna já agora, a terceira melhor nota a seguir a Carl e Frank.

Gabriel só esperava que ela tivesse num estado em que pudesse receber essa notícia.

Pelas nove da manhã do dia seguinte, Gabriel batia com a caneta na mesa sem parar. Quem visse iria pensar que estava nervoso pelo teste em si, ou talvez pelo facto do professor que lhes ia dar o teste ser o professor deles do ano anterior com quem Gabriel tivera uma péssima relação. Era-lhe preferível que fosse qualquer uma destas hipóteses mas isso não acontecia.

Francamente a esta altura, ele já não queria saber do teste (sendo o único senão, a reacção de professor Valerious quando o corrigisse) e quanto ao professor Smith, Gabriel desejava ardentemente que o homem tropeçasse no tapete da sala dos professores, desse com a sua testa grande no chão e os testes fossem parar todos à lareira.

O motivo da sua impaciência, não nervosismo, era a ausência de certas pessoas. Pouco tempo depois do toque de entrada, porém, Brooke apareceu finalmente e Gabriel suspirou de alívio. Pelos vistos não era doida o suficiente para faltar a um teste só para fugir dele.

Logo a seguir entrou Velkan. Sozinho. Não precisou dizer nada, a sua cara dizia tudo. Gabriel pousou os cotovelos na mesa e esfregou os olhos tentando não desanimar. Tudo o que Brooke dissera tinha-se passado, como era isso possível? De qualquer modo, ele iria descobrir isso não tardava muito. Mesmo que a loira voltasse a fugir de novo, ele faria questão de passar a escola a pente fino no intervalo e se isso não fosse suficiente, assim que ela pusesse os pés na aula de Psicologia voltaria a sair com ele.

Isso ele prometeu a si próprio.

Ao terminar a sexta pergunta dum total de oito, Gabriel deu uma olhadela ao que já tinha feito e pensou que para quem mal pegara no livro até que não estava a correr mal. Ou estava muito enganado, ou o professor Valerious tinha feito um teste bem acessível. Vendo que já faltavam menos de quinze minutos para o final do teste, ele pegou na caneta de novo e começou a sétima resposta.

Nesse momento, Gabriel notou um movimento no canto do olho e viu que Brooke se levantava do lugar com as suas coisas de Psicologia numa mão e o teste em outra. Quando ela se dirigiu para a saída e desapareceu, Gabriel olhou para o seu teste. 'Que se lixe...'

Achando esta a melhor saída, Gabriel entregou o seu teste e saíu de imediato. Alcançou Brooke ainda no corredor.

Brooke sentiu uma mão no seu ombro e virou-se de repente.

"Pára de fugir."

Ao ouvir isto um sobrolho elevou-se na sua expressão "Agora andas atrás de mim."

"Brooke eu não estou a brincar." avisou Gabriel ao perceber que ela só estava a fugir para o provocar "Porque é que disseste que a Anna vir para a escola ia depender de mim?"

"Exactamente." confirmou ela com uma expressão de satisfação.

"Podes ser mais específica? Não tás a fazer sentido."

O rosto de Brooke tornou-se mais sério e a voz dele saíu firme "O estado dela é um feito meu."

"Teu?"

"Sim, meu. Ela está sempre no meu caminho, estou farta dela, Gabriel." Ao proferir sito ela pareceu mesmo aborrecida. Gabriel teve a certeza que não estava a ser enganado, que ela falava mesmo o que sentia.

"Continuas a não ser específica."

"Eu lancei-lhe um feitiço." ela confessou por fim. A sua cabeça estava bem levantada e a sua voz sem qualquer remorso.

Gabriel ficou algum tempo calado pelo simples motivo de não saber o que dizer. "Esperas mesmo que acredite em ti?"

A testa da rapariga franziu-se e Gabriel pode dizer que quer ela dissesse a verdade ou não, estava a apreciar aquilo. "Consegues arranjar outra explicação para ela ter ficado tão mal de repente apenas após a partida do pai e eu magicamente saber de tudo?"

"Não acredito nessas coisas." Mas mesmo 'não acreditando', Gabriel seguiu-a quando ela começou a andar.

"Queres outra demostração?"

Gabriel sentiu um breve tom trocista nas palavras dela e aconteceu algo que ele não pensou que alguma vez fosse acontecer: começou a sentir raiva dela. Apesar de tudo, ele guardara boas memórias do ano anterior quando eles tinham estado juntos. Afinal de contas ele amara-a, porém olha-la nos olhos e ver tanto desprezo e desconsideração por um ser humano como ela, especialmente alguém tão especial como Anna, ele não conseguiu evitar de sentir pena. Anna tinha razão: Brooke ia acabar sozinha e amargurada.

"Devias de estar zangado contigo próprio, não comigo."

Se Gabriel não se sentisse tão perdido no meio daquela situação toda ele ia rir. "Zangado comigo?"

"Sim. És tu que lhe fazes mal..." Brooke parou enquanto disse isto para dar ênfase à sua afirmação. "... É com a tua presença que ela se sente mal, a partir daí é que eu controlo o resto."

Ele não podia sentir-se culpado por aquilo. A culpa não era dele. Eles não tinham feito nada de mal para serem castigados. Anna em especial, não merecia nada do que se estava a passar com ela. Era injusto.

"És tu que a estás a deixar assim..." ele murmurou não conseguindo esconder a tristeza que sentia.

"Vês o que me fazes?" acusou ela elevando o som da sua voz de repente "Fazes-me mostrar o pior de mim. Eu não gosto dela, não a suporto e confesso que não tenho pena dela e não acho que ela não o mereça, mas também não quero que morra."

"Morra?"

"Bem, morrer, morrer, não ia ser fácil, mas o corpo dela pode muito bem ficar danificado interiormente e as dores de cabeça e pesadelos que ela tem tido podem muito bem enlouquecê-la."

"E TU DIZES ISSO COM ESSA NATURALIDADE!"

Agitada pelo repentino desabafo dele, Brooke agarrou-o pelo colarinhos "Volta para mim, Gabriel. É tudo o que quero! Se aceitares, prometo que nunca, NUNCA mais lhe falo uma palavra, nem me meto com ela e ela volta amanhã completamente normal! Prometo-te!"

Cá estava a chantagem. Gabriel tinha a impressão que ela acabaria por vir mais cedo ou mais tarde. Se bem que provocar o sofrimento de Anna sem receber nada em troca provavelmente seria algo que Brooke se proporcionaria a fazer.

"E tu pensas que isso ia durar até quando? Não achas que assim que ela melhorasse eu acabaria tudo entre nós?"

A expressão de Brooke enrijeceu-se "Não. Não destruirei o feitiço por enquanto."

Gabriel entuou o riso mais seco de toda a sua vida. "E isso ia durar até quando? Vais chantagiar-me a vida toda?"

"Claro que não, tonto..." disse Brooke com um sorriso e as suas mãos no pescoço do ex-namorado "Tu amas-me. Só precisas de um empurrãozinho para te aperceberes disso. Ela é que te lançou um feitiço a ti. Ela cegou-te, não percebes?"

"Tu enlouqueceste, Brooke. Trata-te..."

"Tu és o único que me pode curar." sussurrou a rapariga. "Dínos uma chance, Gabriel. Ninguém ficará a perder. O que achas que ela prefere? A ti ou o bem estar dela?"

Isto fez as certezas que Gabriel tomava por garantidas, abalarem-se um pouco no seu pensamento. É claro que Anna preferia a saúde dela à frente dele. Estava encurralado.

Vendo que ele estava a ponderar (o que para ela já era uma vitória), Brooke esperou pacientemente até ele dar uma resposta.

Mas ele não deu. Por mais que soubesse que não tinha outra hipótese, que tinha de ceder, Gabriel não conseguia dizer que sim. Estaria a trair Anna, a trair ele próprio, os seus sentimentos, o que ele tomava por certo e honesto.

"Aceitas?" pressionou Brooke.

Anna ficará boa. Gabriel fixou este pensamento na cabeça antes de responder, no entanto Anna ir para a escola no dia seguinte constituía um problema. Ele tinha duas namoradas. Enquanto que muitos não se importariam com isso, Gabriel detestava a ideia. Ele só queria uma! E a primeira!

"Uma condição."

"O que quiseres." assegurou ela rapidamente.

"Isto fica entre nós... por enquanto."

Brooke deu um sorriso enorme e pôs-se em bicos de pés para o beijar. Gabriel recuou a tempo.

"Entre nós." repetiu ele antes de recuar um passo e afastar-se sem mais palavras. Já estava farto da presença dela.

"Ela não te ama como eu te amo." afirmou Brooke.

Gabriel olhou para trás "Eu não espero o amor dela neste momento. Eu não a amo."

"Vês!"

Gabriel sorriu um sorriso sincero "Mas estou a caminhar para lá. E tu só estás a acelerar o processo."

Não houve necessidade de Gabriel esperar pela reacção dela. Para além de saber que aquilo não era bom de se ouvir e que ela com certeza não havia gostado, ele francamente não quis saber. Mas acreditava plenamente nas próprias palavras. Se Brooke procurava separílo de Anna, estava a fazer exactamente o contrário pela parte dele. Por parte de Anna, provavelmente as coisas não se iam passar do mesmo modo, pelo menos até ela conhecer a verdade. O grande problema a seguir era se ela o perdoaria depois de tudo. De qualquer modo ele já sabia o que fazer e a quem recorrer para ajuda.

Gabriel esperou pacientemente até Velkan sair da sala. Aquando do toque e ao mesmo tempo em que as pessoas iam saindo, algumas perguntavam-lhe casualmente como o teste correra e ele não respondia, a sua mente não estava ali. Quando Velkan notou o estado dele, aproximou-se e estalou os dedos à frente da sua cara.

"Acorda."

"Gabriel estremeceu um pouco e sacudiu a cabeça. Estava cansado. "Preciso falar contigo."

"Agora?" Velkan perguntou isto olhando para o relógio "Daqui a pouco toca, não pode ser a seguir? Temos furo."

Gabriel abanou a cabeça "Não. É importante. É sobre a tua irmã."

Velkan não precisou de mais explicações e vinte minutos depois, estavam sentados à entrada do polivalente, abrigados pelo coberto e ao ar livre pois Gabriel tinha a certeza que Velkan iria precisar de ar, depois de lhe contar tudo.

Velkan posou a testa nas palmas das mãos e cerrou os olhos com força enquanto assimilava tudo o que Gabriel falara. Estava completamente estupefacto.

"Se eu não tivesse presenciado o que se passou na semana passada, eu não acreditaria em ti. Ela agia como se fosse minha amiga, ajudou-me quando eu estava menos bem..."

Gabriel entendia-o perfeitamente. Afinal de contas ele fora namorado dela durante cinco meses e ela não era nada do que agora aparentava ser.

"Eu vou matar aquela miúda. Se algo acontecer à minha irmã, eu mato-a."

"Calma, Velkan. Temos de jogar pelas regras dela por enquanto, até acharmos uma solução."

"'Temos?'" perguntou o irmão de Anna "O jogador és tu. Vais conseguir..."

"Que mais posso fazer? Não há outra saída. Mas já sei o que fazer, acho que há quem nos possa ajudar." Gabriel pareceu pensativo "Só temo o que acontecerá durante o tempo até tudo se resolver."

"Quem pode ajudar?" perguntou Velkan não por curiosidade, mas ansiedade.

"Verás." garantiu Gabrel "E serás o único."

Velkan fixou o olhar nos seus pés e não lhe respondeu. Ficaram ajgum tempo em silêncio até Velkan falar de novo.

"O meu pai ligou ontem. Disse-lhe que a Anna estava no banho e que não podia responder. A Angelica começa a desesperar por não conseguir fazer nada. Ontem falou em levíla para o hospital." Velkan fitou Gabriel "Espero mesmo que a minha irmã melhore."

"Ela vai melhorar." O olhar de Gabriel baixou-se "Podes trocar de lugar comigo amanhã?"

"Claro..." Era curioso. Velkan não queria ficar com a irmã.

Gabriel assentiu e mais nada disse. Ele sabia - ambos sabiam - que o dia seguinte ia ser difícil.

A escuridão envolvia-a a ponto de não ver mais nada excepto uma luz fraca à sua frente. Não sabia ao certo onde estava, apenas que era um sítio frio, sufocante, perigoso. Anna não queria estar ali, no entanto ela deu consigo a subir por umas escadas de pedra que dariam a um sítio que ela não conhecia mas que precisava alcançar. Oito... Mesmo enquanto corria, não conseguia de modo nenhum sentir-se menos fria. A chuva que apanhara minutos antes congelava-a e as imagens de almas perdidas cravadas nas paredes faziam com que mais arrepiada se sentisse. Nove...

Ao chegar ao fim do seu caminho, Anna encontrou uma porta de pedra que empurrou com a pouca força que lhe restava e entrou, parando apenas para ver o a esperava ali. Dez...

Um esqueleto desfazia-se e caía ao chão, juntamente com as cinzas em que se transformara a sua carne e um fumo escuro que simbolizando a sua maldade evaporava-se tal como a sua alma. À sua frente erguia-se um imponente lobisomem que assim que deu por a sua presença, lhe rugiu ameaçadoramente. Anna olhou-o nos olhos e não viu qualquer rasto de humanidade, apenas um monstro irracional e selvagem, pronto a atacar. Mas Anna não fugiu. Mesmo que quisesse as suas pernas não queriam colaborar e começaram a correr em direcção ao monstro. Porquê? Ele ia atacíla. Onze...

Depois desta conclusão, o lobisomem fez mesmo isso: começou a correr na direcção dela a toda a velocidade. Ela ia morrer...

"Doze..." ela disse antes do seu peito se encher de ar, o monstro a poucos metros dela, aproximando-se cada vez mais rápido...

E Anna gritou com todas as suas forças e sentou-se na cama olhando para todos os lados para ver a sua localização. Reconhecendo o seu quarto, ela abraçou-se à sua almofada e começou a chorar silenciosamente, ainda assustada mas aliviada por estar a salvo. Velkan abriu a porta de repente e acendeu a luz com medo de encontrar um ladrão ou algo do género a atacíla, mas não, tal como no dia anterior, fora apenas um pesadelo. Mais um. Mas desta vez fora diferente: ela tinha acordado.

Ao ver o irmão, Anna estendeu os braços e ele atendeu indo ao seu encontro e abraçando-a. Ela estava a tremer.

"Shh, foi só um sonho..."

"Eu sei mas... meu Deus, a minha barriga..." disse ela pondo as mãos no seu estômago.

Velkan deu um suspiro exasperado. Ele sabia que tinha de ter forças por ela, mas começava a desesperar. Aquilo ia durar até quando?

"De novo..."

Anna gemeu baixinho e perdeu o equilibrio. Cairia na cama não fosse o irmão seguríla. Ficou algum tempo a respirar aos solavancos até que conseguiu formar palavras. "Está dolorida... muito dolorida... Velkan, eu tenho tanta fome."

"Só dolorida? Não sentes dor nenhuma?"

"Não..." murmurou ela. Estava tão fraca que lhe custava até falar.

Velkan deu um enorme suspiro e sorriu aliviado. Era normal ela estar fraca visto que não ingerira nada durante dois dias excepto a água que Angelica a forçara a beber quando ela se abraçava a ela própria com as dores na barriga e nem se levantar conseguia.

"Vou preparar-te o pequeno-almoço, fica quieta que eu já volto."

Antes que ele saísse, Anna chamou-o um pouco baralhada.

"Que dia é hoje?" perguntou-lhe.

Velkan hesitou em responder-lhe, mas cedeu. Ela ia acabar por saber mais cedo ou mais tarde. "Quinta-feira."

Anna afligiu-se de imediato "Quinta-feira! Eu estive dois dias de cama!"

Velkan anuiu e quando ela deixou cair a cabeça para trás, apressou-se ao andar debaixo. Anna tapou os olhos com o braço e um eco de trovoada soou nos seus ouvidos. Só nos seus. Ela ignorou-o querendo esquecer o pesadelo que tivera; tinha outras coisas com que se preocupar, como por exemplo ter faltado a dois testes importantíssimos.

Ficando relativamente melhor fisicamente após um banho relaxante, Anna desceu as escadas devagar e encontrou o irmão na cozinha a preparar waffles com muita pressa.

"Que fazes aqui? Ia levar-te isto lá acima."

"Deixa l� agora estou aqui." Anna sentou-se à mesa e olhou o relógio da cozinha. Nove da manhã. "Hoje é teste de Francês, não é?"

Velkan colocou o prato de waffles e uma maçã à frente dela "É... Se não dormires mais, convinha que desses uma olhadela ao livro. Se ainda estiveres com sono, então é melhor descansares."

"Não... Só me doem os abdominais..." E as costas e o pescoço e os músculos dos braços, mas isso ela preferiu ocultar. "Não tenho sono. Acho que vou a casa do Gabriel."

"Não!"

"Não?"

"Não."

"Porquê?"

Velkan tentou ao máximo desencantar uma desculpa "Porque..."

"Achas que ele se importa?" Anna estava agora um pouco insegura. Supostamente ele estaria com saudades dela depois de dois dias sem vê-la, não estaria?

"Sim." Anna ostentava uma expressão questionativa e ele continuou dizendo a primeira coisa que tinha pensado "Ele também tem teste de Latim, hoje. Deve estar a estudar, agora."

"Pois é..." Velkan engoliu em seco com a cara de desconsolo da irmã e virou o rosto.

"Tens a tarde para estar com ele..." Velkan teve de afastar de Anna ao dizer isto. Não deixava de ser cruel. Gabriel pouca ou nenhuma atenção lhe ia dar...

"Velkan, despacha-te! Já vai tocar."

"Espera." Velkan estava a fazer o máximo que podia para que se atrasassem, mas Anna passara o caminho todo a pedir que Angelica acelerasse o que não tinha ajudado muito no plano dele. "Temos de ir ao cacifo."

"Vamos depois!"

"Nem pensar!" insistiu Velkan "Depois não vais querer vir e eu vou ter de carregar com quatro dicionários, sozinho."

"Tu és mau!"

Velkan suspirou enquanto ela o guiava puxando-o pelo braço. 'Não fazes ideia...'

Pela segunda vez que alguém entrava na sala, Gabriel dava as costas completamente à porta e fixava o olhar no caderno. Ele não estava no seu lugar. Pedira a Victor que o deixasse sentar-se ao pé de Carl para que estudassem um pouco Latim. Gabriel obviamente não estudava absolutamente nada.

Quando a porta se abriu pela terceira vez, Gabriel chamou Carl.

"Quem entrou?" perguntou-lhe baixinho.

"Quem entrou?"

"Sim, Carl. Quem entrou?"

Carl questionou-se por que raio não via ele quem havia chegado, mas escolheu não dizer nada àcerca disso. "Seth..."

"Só?"

"...E o Velkan..."

"Sim?"

"...E a Anna..."

Os olhos de Gabriel logo se dirigiram a Brooke que, sem surpresas, já olhava para ele à espera de qualquer sinal. Gabriel apenas olhou e segundos depois voltou ao seu 'estudo', sentindo-se mais nervoso do que o normal.

"...E a Chloe... e o Igor..."

"O que faz ele ali" perguntou Anna depois de finalmente localizar o namorado.

"O Carl deve estar a ajudílo." tentou assim Velkan a sua sorte. Anna aceitou isto e não criticou Gabriel por aquilo, mas que ficou desanimada, lá isso ficou.

Antes de começar a aula o professor Frankenstein retirou da sua mala os dois testes que faltava entregar e foi ao lugar de Gabriel que estava mais à frente.

"Gabriel, o que é isto?" perguntou ao deixar cair o teste dele na mesa.

O rapaz olhou para a sua nota e depois olhou para cima com um sobrolho franzido.

"Não tens vergonha, rapaz? B? Tu!"

A cara de Gabriel não mudou e Frankenstein imitou o gesto dele "Mal disposto, hã?"

Gabriel continuou a não se mexer.

"Okaaay. Próxima! Anna!" exclamou ele movendo-se rapidamente à sua mesa "Minha musa, C, muito bem."

Anna sorriu. Aparentemente ele estava mesmo bem humorado. Devia de ser mesmo por causa dos testes, já que as notas haviam sido boas no geral. Carl e Frank, inclusive haviam tido A.

Anna olhou para Gabriel à espera de qualquer sinal de vida mas nada. Ele estudava, ela já sabia, mas não podia pelo menos dar-lhe um sorriso? Um olhar bastava-lhe, mas Gabriel nem se mexeu. Tinha o nariz enterrado no caderno e o teste já guardado no de Ciências.

Quando Frankenstein deu a indicação que já podiam arrumar, para Gabriel um azar visto que ainda faltavam quase dez minutos para o intervalo, as pessoas apressaram-se como de costume e começaram a sair. Gabriel foi especialmente rápido a fazê-lo e saiu da sala o mais rapidamente possível.

Anna viu isto e ficou a olhar para a porta sem saber o que pensar. Será que ele estaria chateado com ela? Não era possível, não acontecera nada que justificasse isso.

"Mana, reparaste nos cartazes que havia lá fora?" perguntou Velkan tentando iniciar uma conversa.

"Não..."

"São do Halloween. Vai haver uma festa cá no Domingo..."

"Que bom..." Anna pegou nas suas coisas e ambos sairam para o intervalo.

Gabriel evitou Anna durante toda a tarde. Na aula de Inglês perguntou a Vanessa se se importava que ele se sentasse ao lado dela em vez de Velkan. Ela aceitou. A professora deles, Margareth Larby não era como Frankenstein e não deixaria Gabriel ir para junto de Carl para estudarem. Ele só esperava que a professora não desse pela troca de lugares atrás.

Ao ver que Anna entrava, desatou a escrever no caderno rapidamente, como se estivesse muito ocupado e não pudesse dar atenção a mais nada. Ele não olhou para a rapariga nem a ouviu a dizer nada mas ele sabia que ela não estava a gostar nada daquilo.

E tinha toda a razão, Anna pousou os cadernos na mesa e ficou algum tempo de pé até Velkan a puxar para baixo.

"Porque éque ele está ali?"

Velkan coçou o pescoço e quase quis bater em si próprio quando as palavras deixaram os seus lábios "Vocês não se chatearam?" perguntou baixinho quase desejando que ela não ouvisse. Sentia-se tão mal agindo assim, mas depois lembrou-se de Gabriel e concluiu que estava a ser egoísta. Gabriel estava muito pior do que ele de certeza.

No intervalo seguinte, Gabriel tentou a proeza de fugir novamente, mas não conseguiu. Anna estava muito perto. E atenta. Quando ele se levantou, ela não perdeu tempo e interceptou-o antes que ele se afastasse de novo.

"Olá" disse ela esperando que lhe desse a entender o deu descontentamento.

"Olá..." Gabriel tentou parecer apressado "Tenho de ir tirar umas fotocópias e tenho teste a seguir, desculpa." ele não esperou qualquer continuação da conversa e escapuliu-se o mais rápido que pode.

A rapariga sentou-se na mesa dele e Velkan aproximou-se dela "O que se passa com ele?"

Quando os irmãos chegaram a casa ao fim da tarde, Anna cruzou as pernas em cima do sofá e encostou a cabeça para trás tentando perceber o que se estava a passar.

"Que cara é essa? Correu assim tão mal o teste?" Desta vez Velkan quase se bateu mesmo. Era hipocrisia demais de sua parte para conseguir viver com isso, mas ele tinha de se conter a todo o custo. Mesmo que o custo fosse um relacionamento.

Anna fixou o olhar no tapete "Ele nem esperou por mim..."

"Se calhar... se calhar estava com pressa. Não te esqueças que ele agora está sozinho em casa, sabe-se lá se ele-"

"Nem quis saber se eu estava melhor..."

Era o fim. Velkan ficara sem argumentos para o dia. Que podia fazer agora?

"Se calhar ele tem uma razão qualquer... não fiques assim, mana."

Anna levantou-se impacientemente "Vou buscar o Boppy." Ela não queria consolo, queria respostas. Não era estúpida, sabia que se passava algo.

Gabriel não jantou nessa noite. Tratou de alimentar Nakya e depois de embrulhíla num cobertor, deitou-se na sua rede na varanda. Não soube ao certo quanto tempo ali ficou, mas sabia que já estava farto de ver estrelas quando um barulho vindo de baixo o chamou à vida. No pátio do rés-do-chão, quatro crianças não com mais de seis anos, gritavam e riam enquanto jogavam com uma bola. Por momentos ele pensou que não seria mau trocar de lugar com um deles. Voltava a ser criança, não tinha problemas de maior e brincava quando lhe apetecesse, sem quaisquer preocupações. Era uma vida simples a deles.

De repente soprou uma brisa mais forte e olhando para o céu, Gabriel não via mais estrelas, o céu havia-se cobrido de nuvens cinzentas que pareciam querer largar a água contida nelas a qualquer momento. De baixo ouviu-se uma janela abrir-se com uma certa urgência.

"Venham para dentro!" ouviu Gabriel uma mulher dizer "Está frio e vai chover!"

E o divertimento acabara. Pelos vistos até eles tinham inconvenientes. Deixarem de brincar devido a mau tempo não era um problema sério, mas para elas, as crianças, era decerto um problemíssimo enorme. Mas iriam elas deixar de tentar divertir-se e esperar até ao dia seguinte para verificarem se tinham tido a sorte de terem bom tempo de novo? Não. Os quatro rapazes entrariam em casa e procurariam outra coisa para fazer para brincarem, não iriam desistir.

Gabriel não pode deixar de comparar isto à sua situação. Ele tinha um problema, um sério problema que começava seriamente a fazer-lhe mal. Era a chuva e o vento da sua vida. Agora teria de tentar resolver o seu problema, mas não propriamente arranjar outra coisa divertida para ocupar o seu tempo em vez de jogar futebol. Gabriel abraçou Nakya, deitou-a na sua cama e depois de se sentar num sofá da sala, pegou no telefone.

"Já aqui?"

Gabriel tirou os pés de cima da mesa ao ver o Professor Frankenstein à sua frente. Não dera por ele chegar.

"Sim..." Gabriel sabia que tinha vindo cedo demais, ainda ninguém havia chegado.

"Passa-se alguma coisa? Pareces meio... esquisito, ultimamente."

"Posso pedir-te uma coisa?" Gabriel achou melhor não responder. Não gostava de mentir àquele professor pois de uma maneira, ele considerava-o seu amigo e se ele continuasse com perguntas e Gabriel com respostas, acabaria por contar-lhe tudo, o que não era conveniente.

"Força."

"Deixas-me trocar de lugar com o Velkan?"

Gabriel planeava em pedir apenas a Frankenstein já que era aquele que poderia deixar e também aquele mais se apercebia das coisas que se passava entre os alunos. A professora Margareth dificilmente se aperceberia que Velkan e Gabriel haviam trocado de lugares. Com Frankenstein isso nunca iria acontecer.

"Depende."

"De quê?"

O professor sentou-se em cima da mesa em frente à do aluno "Estás a tentar aproximar-te da Vanessa ou afastar-te da Anna?"

"O que estás a insinuar?"

Frankenstein levantou as mãos mostrando as palmas. "Eu não estou a insinuar nada. Atendendo ao facto de não haver diferença na localização das mesas visto estarem ao lado uma da outra, eu parto do princípio que não estás com problemas de visão ou audição. Isso leva-me a crer que o problema é a tua companheira. Queres uma nova ou não queres mais a anterior?"

Como podia Gabriel competir com isto? Impossível. "Tens razão" admitiu por fim. "Mas não vais deixar-me trocar se deixar de te responder?"

"Não queres contar-me?"

Gabriel abanou a cabeça "Desculpa, mas não."

Ouvir isto não mudou a anormalmente séria expressão de Frankenstein "É mesmo isso que queres?"

"É... Pode ser?"

"Muito bem. Se a Vanessa não se importar pela troca..."

"Não. Ela não se importa." assegurou Gabriel rapidamente.

"E a Anna importa-se?" Depois de reparar no súbito desconforto do aluno, ele continuou "Se me vais mentir, mais vale estares calado."

Quando Gabriel fez isso mesmo, calar-se, Frankenstein anuiu lentamente "Estou a ver..."

"Vá l� Victor!" exclamou Gabriel odiando aquela 'suave' pressão. "Ajuda-me."

"Ajudar-te em quê? Não dizes o que há de errado!"

"Victor, eu sei o que estou a fazer. Mas não consigo fazê-lo sozinho. Ajuda-me sem perguntas, por favor! Não posso dizer-te o que se passa, mas é mau."

Frankenstein fitou o aluno durante alguns segundos, estudava o seu rosto, Gabriel sabia.

"E afastares-te da tua companheira vai ajudar-te?"

"Vai! Por favor, Victor, afasta-a de mim. Prometo contar-te tudo, mas quando a altura certa chegar. Confia em mim..."

"Como quiseres."

Gabriel ia agradecer, mas quando o professor se levantou para tomar o seu lugar na secretária, perdeu a coragem. Sentia-se um pouco mal, agora. Não queria que Victor pensasse mal dele. Se isso tivesse que ocorrer, porém, que acontecesse por pouco tempo. Gabriel sabia que Victor gostava dele e não queria perder isso.

Anna estava com medo de entrar na sala, agora. E assim que passou da porta, descobriu que tinha toda razão para isso. Gabriel estava ao lado de Vanessa de novo. Anna começou a sentir-se exasperada e curiosamente desejou que Velkan tentasse uma das suas explicações para aquilo, mas elas não vieram. E foi melhor assim, Anna tinha a certeza: ele estava a fugir dela. Mas porquê?

Assim que ela decidiu averiguar isso em primeira pessoa, Frankenstein chamou Gabriel à secretária e ela sentou-se no seu lugar, agora chateada. Frankenstein nunca chamava ninguém a si. Ele adorava passear pela sala e fazia sempre questão de ir ter com os alunos aos seus lugares. Pelos vistos até ele parecia querer afastar Gabriel dela...

Depois da aula começar foi impossível a Anna qualquer tentativa de manter contacto com Gabriel e para seu azar, Frankenstein lembrou-se de chamíla a ela mesmo na altura de tocar para o intervalo. Depois de olhar para trás e ver Gabriel sair, mais uma vez sem dizer nada, ela voltou com a sua atenção ao professor, sentindo-se triste.

"Então sentes-te melhor?"

Sentia-se triste mas não ia deixar as coisas ficarem assim. Se ela não soubesse o que se passava, ainda explodia.

"Desculpa, Victor mas eu tenho de ir..."

Deixar um professor a falar sozinho, Anna nunca pensou que pudesse fazer tal coisa. Ainda por cima, o mais simpático de todos. Esperava que ele não ficasse muito chateado, mas havia assuntos mais importantes para resolver. Assim que saíu do corredor do rés-do-chão, Anna olhou para todos os lados na esperança de ver algo e teve sucesso. Avistou-o não muito longe dali a entrar por uma porta. Correndo até l� ela parou em frente à entrada e benzeu-se. Repleta de força de vontade, Anna abriu a porta da casa de banho dos rapazes e entrou.

Gabriel estava encostado à porta e tentou deixar de olhar para o relógio já que o tempo parecia andar mais devagar quando ele o fazia. Era naquele sítio que ele se escondia desde o dia anterior durante todos os intervalos.

"Gabriel?"

Ao reconhecer aquela voz, Gabriel sentiu o seu sangue virar gelo.

"Gabriel... eu sei que tás aí. Vi-te entrar."

Ele encostou a cabeça à parede "Anna, que estás aqui a fazer?"

"O que se passa? Porque me andas a evitar?"

E agora? O que iria ele responder? Não havia por onde escapar, estava encurralado. A não ser que...

"Anna... vai embora."

A rapariga pensou não ouvir bem. Ele estava a mandíla embora? Começou, finalmente, a irritar-se com tudo aquilo.

"Não vais sair daí?"

Gabriel mordeu a língua para não responder, talvez assim fosse a melhor maneira. Ao não obter uma resposta, Anna tentou acalmar-se. Tinha de haver uma resposta lógica para a atitude dele e ela tinha de saber qual era por mais magoada que ela ficasse no final.

"Gabriel... se tu... se tu tens dúvidas sobre alguma coisa, sê verdadeiro, diz o que sentes. Por mais mau que seja, eu prefiro assim." Anna tentou não ceder à emoção "Não brinques comigo, por favor..."

Gabriel tinha agora a cara encostada aos braços que estavam dobrados contra a porta. Ele sabia que isto acabaria por acontecer, mas não sabia que iria custar-lhe tanto.

Recebendo novamente silêncio em resposta às suas palavras, Anna tapou a boca com uma mão para impedir que o seu choro fosse ouvido e caminhou para a saída decidida a esquecer, mas depois algo que estava a pesar-lhe imensamente no seu peito pediu para ser libertado e ela não conseguiu evitar de falar.

"És um cobarde."

Dizer isto fê-la sentir melhor? Não. Não fez. Não queria insultílo, queria que ele saisse dali e eles conversassem, mas ele parecia não querer isso. E Anna com certeza não ia obrigílo. Tinha pena, muita pena por aquilo ter acontecido e muita mais pena ainda por não saber porque tinha acontecido, mas mais uma vez não iria perguntar de novo. Por mais que ela gostasse dele, ainda tinha o seu orgulho. Além do mais, Gabriel tinha mostrado as suas intenções claramente.

Deixando de sentir a presença dela ali, mesmo não tendo ouvido a porta a fechar, Gabriel abriu a sua porta e saiu lentamente. Ao ser invadido por uma onda repentina de fúria, o seu punho foi ao encontro da porta e ela foi bater na parede com um estrondo enorme. Não havia palavras para descrever quão injusta a situação era para ele.

Anna pensou seriamente em ir para casa e não ir a Matemática, mas mais uma vez o seu orgulho falou mais alto. Não ia prejudicar-se a favor de alguém que visivelmente não tinha tanta consideração por ela como pensara.

Quando se sentou na cadeira, ela não se sentiu tão decidida como antes e temeu o momento que Gabriel entrasse pela porta, mas ele fez-lhe o favor de não aparecer à aula.

Mesmo tendo conseguido manter-se forte durante o resto da manhã, Anna quebrou assim que se viu no seu sofá e rodeada das suas paredes onde sabia que ninguém a ia ver, excepto o seu irmão. Afundou a face nos joelhos e começou a chorar silenciosamente. Como era possível ela ter-se enganado assim? Todavia a culpa não era sua. Ele era o culpado. Se não gostava dela porquê deixar as coisas chegarem até ali? Porquê iludi-la ao ponto dela pensar que eles tinham algo especial? E Gabriel havia-a iludido muito bem. Isto porque ela sabia, ou pensava que sabia, que Gabriel nutria algo por ela. Ela via isso na maneira em que ele lhe falava, no modo como a olhava, sentia isso no beijo dele...

Mas estava enganada. Anna já tinha visto disso antes, mas não com ela. Quando isso acontecia, ela sempre achava que o mesmo nunca se passaria consigo, que nunca se deixaria enganar, que conseguiria ver o que há para além das pessoas.

Enganada mais uma vez. Depois pensara que para o caso de isso acontecer, ela nunca ia sofrer tanto como as outras pessoas sofriam. Ela era forte e nunca daria demais de si para depois se arrepender.

Enganada de novo. Anna era, sim, forte, dura, mas continuava a ser humana e tal como a maioria dos seres humanos, o seu ponto fraco era o coração. E Anna, infelizmente neste caso, prezava o bem estar do seu coração acima de muitas coisas.

Velkan pousou a mão no ombro da irmã e depois deu-lhe um abraço apertado. Anna deixou-se ficar quieta mas logo a seguir afastou-se de Velkan quando se lembrou do que acontecera da última vez que ela tinha sido consolada daquela maneira, uma semana antes.

Uma semana de namoro...

Velkan observou-a sentindo-se impotente. Para ser sincero consigo próprio não sabia mais o que era pior: se vê-la doente ou se vê-la assim.

Gabriel passou incontáveis horas deitado no sofá. Fora a dor que sentia no peito, sentia-se vazio. Como é que as coisas haviam chegado àquele ponto? E quando iria ela ligar-lhe de volta?

Quando finalmente o sono começou a levar a melhor sobre ele e Gabriel se levantou para ir para o seu quarto, a campainha tocou. Perguntando-se quem seria àquela hora, ele aproximou-se da entrada e parou a dois metros da porta. Reconhecia o cheiro dela de longe. Brooke.

Depois de por a hipótese de a deixar ali a tocar e ir para a cama, Gabriel decidiu contra a favor da curiosidade. Talvez ela quisesse algo importante com ele. Mal abriu a porta, Brooke lançou-se para ele e beijou-o.

"Finalmente! Dois dias juntos e ainda não tinha recebido nem um beijo. Começava a sentir-me negligenciada."

"Brooke eu estou cansado, quero dormir. O que vieste aqui fazer?"

Brooke aproximou-se novamente e beijou o ombro dele "Queres companhia?"

"Estou cansado, quero dormir." repetiu ele.

"Podiamos dormir abraçadinhos..." A voz aguda fingida dela começava a irritílo. Como podia ela achar que ele ia amolecer com ela a falar de uma maneira doce?

"Não é boa ideia. Os vizinhos iam todos ouvir-te." Gabriel não teve vontade de rir-se da sua própria piada. Na verdade nem soubera porque a dissera. Aquele humor parecia estar-lhe no sangue.

Brooke ficou um pouco baralhada mas quando entendeu, riu-se "Maroto hoje, hã?"

Gabriel escolheu não responder "Para além disso, queres mais alguma coisa?"

A rapariga assentiu energeticamente "Sim, a festa de Halloween na escola é no Domingo! Vais, não éÉ uma espécia de baile de máscaras! O disfarce é secreto! Vai ser fantástico!"

Gabriel sorriu sarcasticamente "Que bom..."

"Tu vens, não vens" Brooke parecia agora uma criança a pedir à mãe um brinquedo "Já que ninguém vai saber a identidade de ninguém, podíamos dançar sem sermos incomodados."

"Não acho que v� Brooke..."

"Vem! Vai ser divertido!"

Quando Gabriel não respondeu um sorriso desenhou-se no rosto dela. "Eu sabia que ias concordar! Não te esqueças: não contes o teu disfarce a ninguém! Promete!"

Gabriel suspirou "Prometo..."

"Que bom! Já sabes o que vais vestir?"

Gabriel pensou durante um tempo " Sei." mentiu.

"O quê?" perguntou ela curiosamente.

"Não vou dizer-te!"

"Porquê? Como vou reconhecer-te?"

"Acabei de prometer que não contava o meu disfarce a ninguém."

"Mas... como vou reconhecer-te" repetiu ela "Posso ao menos dizer o meu?"

Gabriel começou a conduzi-la à saída "Não nem pensar. Regras são regras. Se tivermo-nos de encontrar, encontramo-nos. Tem fé no destino."

"Mas-"

"Até domingo."