Notas iniciais do capítulo

Olá. Tem alguém aí ainda? Espero que sim. Esse capítulo foi difícil, mesmo curto, de escrever. Eu tentei descrever toda a confusão que se apossou dos corações dos irmãos depois do beijo e, do jeito que eu mesma estou confusa com o que deverá acontecer a seguir, devo ter tido sucesso na minha intenção.

Enfim, peço desculpas aos meus leitorinhos pela demora, mas o capítulo seguinte deve vir semana que vem, tendo em vista que já está iniciado. Ainda assim se alguém tiver uma sugestão para compartilhar aceito de bom grado. Até porque já tenho ideia para uma nova Padackles e quero pôr em prática logo. Mas, para isso, esta aqui tem que estar encerrada.

Não vou me atrever a pedir reviews porque depois de tanto atraso não me sinto nem no direito. Mas agradeço de coração se alguém tiver uma sugestão de final para esta história.

Um grande beijo e uma ótima semana aos leitorinhos remanescentes.

CAPÍTULO 12

O beijo foi interrompido quando os irmãos sentiram falta de ar. Eles se olharam ofegantes e assustados.

No olhar de Sam um espanto deslumbrado, quase feliz, por ter tido os lábios de Dean nos seus, por ter sentido o seu sabor, seu calor, sua doçura e, ainda por cima, por iniciativa dele.

No olhar de Dean um espanto apavorado, como o de quem não acreditava no que havia acabado de acontecer, no que havia acabado de fazer. "Deus, o que eu fiz... o que eu fiz..."

Neste instante Lisa entrou no quarto.

- Dean, o que está fazendo fora da cama? – perguntou preocupada, enquanto corria para ajudar Sam a amparar o irmão.

O mais velho não respondeu, não apenas pelo choque causado pelo beijo recém trocado com Sam, mas porque estava cansado demais, quase sem forças, até mesmo para falar alguma coisa coerente. O loiro foi colocado na cama num esforço conjunto de Sam e Lisa, que o encarava ainda mais preocupada com a expressão pálida e suada de seu paciente.

- Dean, aqui, tome um pouco de água. – orientou a morena. Ao perceber que a respiração de Dean aos poucos voltava ao normal, ela insistiu. – O que aconteceu?

- Eu fui... ao banheiro... mas não consegui... subir na cama... sozinho – sussurrou o bombeiro, olhando para as próprias mãos, encabulado diante de sua incapacidade.

- E por que não chamou uma enfermeira? – insistiu a jovem, em um tom que mesclava bronca com preocupação.

- Deixei cair o botão de emergência... – respondeu, ainda baixinho, sem encarar a fisioterapeuta.

Percebendo a vergonha no comportamento de Dean, Lisa abrandou o tom.

- Tudo bem, Dean. Me prometa que não vai mais aprontar dessas, ok? Ainda é muito perigoso, você podia ter caído e agravado alguma lesão, ou mesmo criado alguma nova.

Dean apenas acenou um sim com a cabeça, ainda evitando olhar Lisa nos olhos.

- Você está bem? Sente alguma dor?

- Não. Só estou cansado...

- Está certo. Vamos cabular a terapia desta noite porque você precisa descansar. Mas amanhã cedo voltamos ao trabalho, viu? Temos apenas três dias antes de você ter alta e quando você for pra casa as sessões serão reduzidas, então quero aproveitar todo o tempo que temos, certo?

- Certo.

Lisa ainda ajeitou Dean um pouco mais confortavelmente na cama e passou um pano molhado em seu rosto antes de se despedir. Depois que a fisioterapeuta deixou o quarto um silêncio pesado se instalou entre os irmãos.

- Dean? Você está bem? – perguntou o caçula, numa clara tentativa de dar um fim ao clima estranho que se abateu sobre eles. Passados alguns minutos, quando Sam já se preparava para insistir um pouco mais, Dean disse baixinho, ainda sem desviar os olhos de suas próprias mãos, gesto que se repetia sempre que o loiro se sentia constrangido:

- Sam, me desculpe.

- Dean, você não precisa...

- Sam, o que eu fiz... foi tão errado que nem tem como explicar... sei que você deve estar com nojo de mim e...

- Dean! Pare aí mesmo. Eu jamais vou sentir nojo de você.

- Mas, depois do que eu fiz, deveria.

O choque pelo que acabara de ouvir fez com que Sam parasse e encarasse o irmão com espanto.

- Dean! Eu te amo e nada fará com que isso mude – respondeu Sam num impulso, sem realmente pensar no que estava dizendo.

Um olhar igualmente espantado tomou conta do rosto do mais velho que encarou o caçula em retorno. No entanto, mais nada foi dito naquele quarto. Não haviam palavras adequadas para aquele momento. Não havia sido escrito um manual que ensinasse como agir quando dois irmãos deixavam vir à tona sentimentos proibidos, tampouco o que dizer depois que o peso de um silêncio carregado de embaraço se instalasse entre eles com a força de um tornado, pronto para destruir o que estivesse pelo caminho.

Depois de um longo momento os dois mudaram o foco de seus olhares. Dean voltou a analisar suas mãos, mais uma vez largadas em seu colo. Sam olhava para um ponto qualquer na parede. Até que o moreno não aguentou mais a confusão que tomava conta de sua alma, o turbilhão que tumultuava seu coração e saiu do quarto, sussurrando apenas um "sinto muito, Dean" antes de atravessar a porta, deixando o irmão desolado para trás.

~~~D&S~~~

Dean observou o caçula sair do quarto subitamente, como se tivesse lembrado que deixou uma panela no fogo em outro lugar, não sem antes resmungar um "sinto muito, Dean". Mas não esboçou reação nenhuma para impedi-lo de ir embora. Não se sentia no direito de clamar para que Sam ficasse depois do que havia feito. Por isso, ficou deitado ali, até porque não tinha forças nem capacidade física para levantar da cama mais uma vez. Ficou ali, estático, tentando entender o que havia acontecido minutos antes, por que havia sentido – e seguido – o impulso de beijar o irmão, o que eram todos aqueles sentimentos que se confundiam em seu coração, por que Sam havia dito que sentia muito, o que seria da relação dos dois a partir de agora.

"Oh, meu Deus, o que eu fiz? Não é certo beijar um irmão na boca desse jeito... Deus, me perdoe, eu sei que o que fiz foi errado, mas sentir o calor do Sam, o cheiro dele, o abraço dele, seu amparo... foi tudo tão intenso, quando dei por mim já estava beijando-o. Foi tão errado, mas também foi tão bom... Deus, me perdoe, e ajude com que Sam também me perdoe, por favor."

De olhos fechados Dean repetia seu novo mantra. "Deus, me perdoe e faça com que Sam também me perdoe." Sem perceber estava chorando em silêncio mais uma vez. Aliás, nas últimas semanas ele havia chorado mais do que em todo o restante de sua vida, mas não sentia necessidade de esconder sua vontade de extrapolar toda a tristeza e indecisão que o machucavam por dentro de formas para ele inéditas. Quando percebeu havia mudado a oração para "Deus, me perdoe por eu amar Sam de um jeito que não deveria, e faça com que ele me ame também."

O moreno havia retribuído o beijo e isso plantava novas dúvidas na mente de Dean. O que isso poderia significar? Que Sam foi pego de surpresa e não soube como reagir? Que Sam havia correspondido por pena de Dean? Que Sam também o amava do que Dean vinha chamando de "jeito errado"? Quanto mais o loiro pensava a respeito, mais confuso se sentia. A única certeza é que amava o caçula mais do que como um irmão e que havia gostado de beijá-lo, sentir seus braços o amparando, o calor que o mais novo emanava, o cheiro único que ele possuía. Aliás, duas únicas certezas: de que amava Sam e que isso era errado.

Dean não sabia como seria dali pra frente. Muito provavelmente seu ato intempestivo de beijar o moreno iria afastá-lo, fazer com que o rapaz fosse para Stanford e não voltasse nunca mais, apenas para não ter que encará-lo. Muito provavelmente Sam sentiria, sim, nojo do mais velho, embora no momento tivesse negado. Muito provavelmente o jovem havia dito que o amava apenas num ato reflexo, para consolá-lo. Porque Sam havia, sim, dito que o amava. Mas e se ele havia entendido errado e o que Sam queria realmente dizer é que o amava como irmão?

Mas e se não? O que eles iriam fazer com esse amor proibido? Como iriam superar esse sentimento? Como iriam disfarçar para que mais ninguém desconfiasse que estavam em pecado? E Lisa? O que era esse sentimento que o acalentava toda vez que ela estava presente e que, até poucos minutos antes, julgava ser paixão?

Confuso, indeciso, machucado de formas que julgava impossíveis, Dean se deixou vencer pelo cansaço do corpo e da alma e adormeceu antes que as lágrimas de seu rosto estivessem secas.

~~~D&S~~~

Sam ligou o piloto automático enquanto deixava o hospital e se dirigia para casa dos pais naquela noite. Não sabia como reagir diante do que havia acontecido minutos antes. Ele fora amparar Dean que estava caindo e, enquanto lutava contra o impulso de beijá-lo ali mesmo, fora surpreendido pelo irmão fazendo exatamente aquilo que ele tentava evitar. Esperava que a caminhada ajudasse a clarear os pensamentos que se revolviam em um turbilhão em seu cérebro e os sentimentos que tumultuavam seu coração. Mas logo descobriria que seria um esforço em vão.

O rapaz havia descoberto com o acidente que o amor que sentia pelo irmão não tinha nada de paternal. Irmão que havia arriscado a própria vida para salvar a sua. Irmão que era conhecido pelo jeito mulherengo de ser. Aquele que, justamente por ser irmão, não poderia ser alvo de um amor como o que ele vinha sentindo. Isso não tinha nada a ver com homofobia. Na opinião de Sam não haveria nada de errado com seus sentimentos se Dean fosse qualquer pessoa que não aquela que tem os mesmos pais que ele.

"Dizem que a gente não escolhe por quem se apaixona, mas isso é errado demais para..." Sam não concluiu seu pensamento. Queria admitir ao menos para si que o seu maior sonho era poder mandar todas as convenções da sociedade, da igreja, das leis e de quem mais que fosse contra esse amor para o inferno. Queria admitir ao menos para si que sonhava pôr em prática aquele amor que sentia pelo mais velho. Andar de mãos dadas, sair para jantar, dormir de conchinha, todas essas pequenas coisas que os apaixonados têm vontade de fazer com o amado. Mas ele jamais poderia. Dean era seu irmão. Era errado diante dos homens e diante de Deus.

Então ele começou a questionar a atitude do loiro. Se ele havia tomado a iniciativa, isso talvez significasse que Dean também o amava como homem. Mas ele também havia pedido desculpas depois do beijo, o que poderia significar que ele havia se dado conta que cometeu um erro, um engano. Chegou a dizer que Sam iria sentir nojo de um jeito que soava quase como uma sugestão. Talvez fosse a medicação deixando o mais velho confuso com o que acontecia ao seu redor ou em seu coração. Ou uma sequela que os médicos não haviam descoberto. Porque era claro como água que Dean tinha uma queda pela fisioterapeuta, pois não perdia uma chance sequer de flertar com a morena.

Mas o que mais incomodava o rapaz eram as dúvidas sobre as consequências daquele beijo no relacionamento com o irmão. Como seria dali pra frente? Como ele seria capaz de voltar ao hospital para visitá-lo naquele final de semana? Pior: como seria a partir de terça-feira, quando o loiro tivesse alta e os dois seriam obrigados a conviver sob o mesmo teto por quase um mês inteiro? Como fariam para evitar que os pais desconfiassem que havia acontecido algo que os envergonhava? Que os fazia se afastar um do outro com vergonha e culpa?

Dúvidas, medos e sofrimento. Esses três habitavam os corações dos dois Winchesters a partir daquela noite. A partir daquele beijo.