Origem
Edmund andava rapidamente pela mata densa onde eles estavam, segurando firmemente Alexandra de encontro a si. Temia correr, pois o lugar estava escuro e ele sabia que poderia facilmente cair. A última coisa que queria era deixá-la cair. Ele a olhou de forma relutante, o rosto dela estava pálido, a cor rosada dos seus lábios já havia abandonado sua boca há muito tempo. O vestido dela estava molhado, pois ela ficara na neve por algum tempo. Edmund observou uma mancha escura no vestido, indicando que ela estava sangrando.
Mas algo estava estranhamente errado. Quando pegara Alexandra no colo, ele via facilmente o sangue dela correr pelo vestido. Mas agora não. Apesar da grande mancha no tecido, o sangue parecia ter cada vez mais dificuldade de sair pela ferida, como se estivesse formando coágulos ali. Ele não era curador, mas aquilo não podia ser normal. Coágulos demoravam muito para acontecer.
Ele observou alguns globos de cristais pendurados nas árvores e ficou aliviado ao constatar que já estava no perímetro dos castelos. Alguns centauros estavam por perto, e logo ficaram em alerta ao escutar passos vindos das árvores. Eles levantaram seus arcos e flechas rapidamente, alguns suas espadas, mas quando viram Edmund sair por entre as árvores carregando um corpo, logo abaixaram as armas e rumaram de encontro ao rei.
Peter estava entre eles.
- O que aconteceu?
O rei perguntou, correndo em direção ao irmão e ficando alarmado ao ver Alexandra inconsciente em seus braços. Susan estava por perto, e percebeu a movimentação facilmente. Ela correu em direção aos irmãos com Lucy em seus calcanhares e olhou para a garota nos braços de Edmund.
- Peça para todos voltarem para os castelos. – Edmund ordenou. – Ela está por perto.
Ele não precisou dizer o nome da feiticeira para que todos soubessem de quem ele falava. Susan não esperou explicações, apenas se afastou e começou a pedir para os animais de Nárnia entrarem em ação e colocarem todos que estavam na festa de volta aos castelos.
- Eu vou chamar Aurora.
Lucy disse, afastando-se do grupo e correndo para o castelo principal. Edmund agachou-se na grama, colocando com um cuidado extremo Alexandra ali. A garota respirava cada vez com mais dificuldade, e seus lábios agora estavam ainda mais pálidos. Ele passou calmamente o dedo nos lábios dela, logo depois acariciou o rosto dela.
- Não morra, Alexandra... – ele sussurrou. – Não agora...
Ele não queria pensar o que aconteceria caso aquela garota morresse. Ela estava daquela forma por causa dele. A Feiticeira Branca não havia enfiado aquela lâmina em Alexandra por qualquer motivo. Edmund sabia que a bruxa tinha percebido a ligação que ambos possuíam. Mesmo que para ele aquela ligação fosse mais... intensa.
Seus pensamentos foram cortados quando ele escutou passos apressados. Olhou para a origem do som e viu Aurora andando rapidamente em direção ao grupo, acompanhada de dois lacaios de seu próprio reino. Edmund rotulava a rainha como uma pessoa sempre calma, mas naquele momento ele conseguiu observar a preocupação nos olhos verdes dela, contudo, ele percebeu que ela ainda estava calma, e determinada.
Ela agachou-se ao lado da filha, colocando a mão no pescoço da garota para sentir sua pulsação. Edmund percebeu alívio correr os traços do rosto da rainha ao ver que sua filha não estava morta. Aurora olhou para os dois homens que estavam atrás dela e gesticulou com a cabeça para que eles se aproximassem.
- Levem Alexandra para o quarto dela.
Ela ordenou, um dos homens agachou ao lado de Alexandra, pegando a garota facilmente no colo enquanto o outro permanecia ao lado da rainha. Edmund andou ao lado dela também.
- Eu vou com você. – ele disse.
- Não. – ela respondeu convicta. – Fique ao lado de seus irmãos e os ajude. Eles estão precisando.
Quando Aurora viu a relutância de Edmund, parou momentaneamente de caminhar e o olhou. Ele observou o lacaio se afastar com Alexandra no colo e depois olhou para a rainha.
- Ela vai ficar bem, Edmund. – ela disse. – Eu prometo.
Ele não sabia o motivo de ela estar com tanta convicção, mas de algum modo ele sabia que a convicção dela era real.
Horas se passaram desde o ataque. O castelo estava silencioso, as velas que faziam parte da decoração do jantar ainda estavam acesas pelo gramado principal. Os guardas a mantinham assim para terem uma claridade melhor, e o calor que elas emanavam era bem vindo. O tempo estava mais frio naquele momento.
A maioria das pessoas já estava dormindo, isso incluía alguns reis e seus ajudantes. As rainhas e princesas se recolheram mais cedo. Outros reis estavam descansando em uma sala privada, apenas esperando respostas de perguntas feitas horas atrás.
Edmund estava em uma sala perto do quarto de Alexandra. Mas não estava descansando, muito menos sentado. Ele andava de um lado para o outro, visivelmente ansioso e estressado. Seus irmãos não estavam ali. Susan e Peter estavam cuidando da segurança do perímetro dos castelos, e Lucy andava de castelo em castelo vendo se todas as pessoas estavam ali, bem alojadas e calmas.
Depois de mais alguns minutos de angústia, finalmente a grande porta da sala se abriu, e Aurora e Peter entraram no cômodo. Edmund não esperou primeiras palavras, andou rapidamente em direção à dupla.
- Como ela está? Como Alexandra está?
Ele perguntou, visivelmente preocupado. Mas o sorriso que Aurora lhe deu o tranquilizou.
- Alexandra está bem, Edmund. Fique tranquilo.
Por mais que Edmund apreciasse a boa notícia, ele não conseguia entender como Alexandra estava bem. Conhecia aquela adaga, sabia que os poderes daquela lâmina eram incomuns. Peter percebeu a confusão no rosto do irmão.
- Eu acho melhor deixá-los a sós. Vocês precisam conversar.
Ele disse, olhando de forma significativa para Aurora e saindo logo depois da sala.
- Aurora, sei que posso estar sendo paranoico... mas como Alexandra já está bem?
- Alexandra é forte... – ela respondeu.
- Me desculpe, longe de mim reclamar da recuperação de sua filha, mas já vi homens e animais muito mais fortes do que ela perecerem com o poder daquela adaga.
Aurora apenas sorriu e sentou-se em uma poltrona confortável ali perto, gesticulando para que Edmund se aproximasse. Ele puxou uma cadeira de madeira que ficava ali e colocou-a ao lado da rainha, sentando-se perto dela.
- Acalme-se, Edmund. – Aurora começou. – Agora, deixe-me perguntar algo estranho. Você conhece a história de vida da minha filha?
Os três reis de Nárnia estavam em silêncio em uma sala privada. Peter estava mais tranquilo ao ter recebido a notícia de que Alaya já estava bem e com segurança reforçada em volta do quarto. Lucy quebrou o silêncio dos irmãos.
- Eu conheço Edmund... – ela pensou em voz alta. – Ele não irá aceitar facilmente as condições de Alexandra.
- Acalme-se, Lucy. – Peter pediu. – Não podemos dizer como Edmund reagirá até ele saber de tudo.
- Edmund está apaixonado por Alexandra. – Susan completou. – Apenas um tolo não vê isso.
Novamente o silêncio se instalou na sala, até Lucy voltar a quebrá-lo.
- Quando Alexandra acordará?
- Aurora disse que amanhã, pela parte da noite. – Peter respondeu.
Todos ficaram com seus próprios pensamentos. Depois de algum tempo, cada um se levantou de onde estavam sentados, indo ao seu tempo para os respectivos quartos a fim de dormir um pouco e descansar para o dia tenso que teriam.
Estava quase amanhecendo quando isso aconteceu.
- Isso não pode ser verdade.
Desde que conhecera Nárnia e tornara-se o rei daquele mundo, Edmund havia escutado e descoberto muitas histórias estranhas. Para ele, era comum conviver com animais falantes, anões, magos, bruxas. Até mesmo estrelas. Já conhecera muitas espécies. Ele adorava as sereias, particularmente, e adorava o modo afável dos faunos. Mas aquilo? Alexandra...
- Uma semideusa?
Ele perguntou novamente para se certificar. Aurora estava o olhando de forma atenta, mas logo sorriu amavelmente, procurando deixá-lo mais tranquilo. Ouvir uma notícia assim não era nada usual. Ela se levantou de onde estava sentada, andando de um lado para o outro da sala.
- Alexandra chegou até nós quando ainda era um bebê. Estava dentro de uma pequena cesta. Posso me lembrar perfeitamente da noite em que abri aquela porta...
Ela ficou imersa em seus próprios pensamentos por um tempo, e Edmund deu esse tempo a ela. Por mais que quisesse saber mais da origem de Alexandra, ele não ousava interromper a rainha. Todavia, ela continuou.
- Dentro da cesta, eu achei uma carta. O conteúdo era praticamente a história de Alexandra. Ela tem sangue real, Edmund. Não meu sangue, nem de Borges. Ela descende de uma linhagem da divindade marinha Euríbia.
Euríbia. Edmund já havia escutado aquele nome em algum lugar. Possivelmente na sua escola em Londres? Mas já fazia tanto tempo... Ele gostava de mitologia grega... não sabia como os narnianos ou os outros povos daquele mundo viam a mitologia grega, se como mitos ou como verdades. De qualquer maneira, apenas a existência de Alexandra confirmava que a mitologia naquele mundo era bem mais concreta do que no mundo que um dia ele viveu.
- Euríbia era filha do Mar e da Terra, mais conhecidos como Pontos e Gaia. – Aurora esclareceu a Edmund. – O mito diz que ela casou-se com o titã Crios, e no casamento deu a luz a três filhos. Astreu, Pallas e Perses.
- Espere... Pallas?
- Sim. Pallas. A pantera de Alexandra possui esse nome em homenagem ao filho de Euríbia, mas não representa fielmente a divindade.
Aurora percebeu o alívio formar-se nos traços do rosto de Edmund. Era o que ele menos precisava, dois semideuses em seu castelo, em formas diferentes, mas ligados de uma maneira impossível de ser controlada.
- Todavia... – ela continuou, deixando-o em alerta novamente. – Os filhos de Euríbia representam respectivamente o vento, a belicosidade e a destruição.
- Pallas representa a belicosidade?
- Sim, mas ela não a carrega com ela. Lembre-se, Edmund, Pallas é apenas uma pantera. Todas essas características você pode encontrar na garota que você está apaixonado.
Edmund achou estranho o modo como Aurora disse aquilo, como se ela tivesse certeza da paixão dele. Mas também sabia que aquela mulher a sua frente era muito mais sábia do que ele imaginara. Se alguém nutria sentimentos por sua filha, ela seria a primeira a descobrir.
- Então é por isso... é por isso que me sinto agressivo quando estou perto dela?
- Principalmente quando opiniões divergem-se. Mas para que você se sinta assim, você precisa ter uma ligação muito forte com Alexandra. Ela não influencia a todos. Senão o mundo seria um caos... – Aurora sorriu. – Provavelmente essa influência dela sobre você deve ter começado no momento em que vocês se interessaram um pelo outro.
Edmund se sentiu desconfortável, mas nada disse. Aurora começou a andar novamente pela sala, ficando interessada em um quadro em particular que estava pendurado ali. A pintura mostrava um navio muito bonito e todo ornamentado.
- Euríbia tinha uma beleza anormal até mesmo para as divindades da época... – ela retornou às informações. – Alexandra puxou isso. – Edmund não ousou discordar. – Porém, apesar de ter esse ponto positivo, Euríbia era considerada propensa à violência e à guerra.
Ela parou de falar, deixando com que Edmund digerisse aquela informação. De todos os mitos e histórias que ela havia contado, esse era o que Aurora temia em deixar claro ao rei. Euríbia era propensa à violência e à guerra, e parte disso foi passado para Alexandra, mesmo que tal parte fosse ínfima.
- Alexandra é a garota mais teimosa que já conheci.
Ele colocou o pensamento em voz alta, esperando uma repreensão da rainha, que não chegou. Aurora sorriu.
- Ela é teimosa e impetuosa, mas nunca foi violenta. – ela olhou para cima, como se estivesse agradecendo a alguém superior.
- Mas Alexandra confrontou a Feiticeira Branca... quando cheguei no local, percebi que ela estava nos braços da bruxa, ela não se afastou quando pôde.
- Como eu disse, Alexandra é impetuosa. Se a feiticeira a observou por algum tempo, percebeu isso. Ela deve ter falado algo para que minha filha ficasse irritada, o que acontece com frequência.
- É uma grande sorte Alexandra ser uma semideusa. Acho que ela não sobreviveria àquela lâmina, caso fosse humana.
- É uma grande sorte Euríbia ter sido famosa por ter entranhas de aço. – Aurora sorriu ao ver a expressão assustada de Edmund. – Alexandra se recupera muito fácil.
Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. Edmund levantou-se de onde estava, caminhando para um móvel que ficava ali perto. Havia uma jarra de água pousada ali. Ele pegou um cálice de prata e encheu-o, bebericando. Estava com pensamentos confusos e a cada segundo que se passava, mais perguntas invadiam sua mente. Era muita informação para apenas uma conversa.
- Além da belicosidade, há algo que Alexandra herdou dos filhos de Euríbia?
- Diretamente não... mas Alexandra consegue controlar o mar.
Edmund engasgou, quase cuspindo a água que havia acabado de colocar na boca.
- Con-controlar o mar?
Aurora sorriu. Sabia que de todas as particularidades da filha, essa era a que mais fascinava Borges e todos que sabiam de sua condição.
- Euríbia podia personificar as forças contidas no mar, como ondas grandes, redemoinhos entre outros fenômenos. Alexandra possui um resquício desse... dom. Algumas vezes isso sai do controle dela... você deve ter notado as mudanças bruscas das praias narnianas.
- Era Alexandra o tempo todo?
- Costuma acontecer quando o humor dela muda.
Dessa vez ele sentou, algo lhe dizia que a conversa iria demorar, e que a cada informação que ele recebesse, suas pernas perderiam um pouco a força. Aurora observou Edmund por algum tempo, esperando o rei fazer a pergunta fundamental, a pergunta que ele esquecera-se de fazer, pois estava atento demais às peculiaridades de sua filha.
Edmund tomou mais um gole de água, apreciando o silêncio da sala. Todavia, uma pergunta surgiu em sua mente... uma pergunta estranha e ao mesmo tempo importante. Porém, ele não sabia se gostaria de ter aquela resposta, e não sabia se poderia fazer a pergunta a Aurora sem quebrar a fina linha do respeito. Mas ele precisava...
- Por que Alexandra foi mandada para você?
Os olhos de Aurora brilharam. Edmund tinha astúcia. Ela apreciava isso em um rei, e ficou mais tranquila ao perceber que ele seria sim, um homem ideal para sua filha.
- O conteúdo da carta não foi tão esclarecedor quanto eu e Borges queríamos. Mas algumas coisas podemos ter certeza pelo que foi dito. Pallas foi mandada junto de Alexandra para protegê-la de algo que não temos certeza. Alexandra veio com um instinto de guerra anormal até mesmo para sua origem...
Edmund não gostou muito da resposta, mas permaneceu calado. Aurora continuou.
- Acho que Alexandra tem um objetivo aqui... nesse mundo.
- E quando esse objetivo for alcançado?
Estava lá, a pergunta que Aurora esperava depois da resposta principal dada. Edmund queria saber o futuro da garota que ele estava apaixonado. Nada mais justo e comum do que isso. Porém, Aurora não tinha essa resposta. Ela deu de ombros calmamente, vendo a confusão e a decepção dele, alguém que estava acostumado a obter respostas rápidas.
- Eu não sei... teremos que esperar tudo acontecer. O futuro de Alexandra está nas mãos do destino. Reze ao seu deus Aslan para que seja um bom futuro.
O rei Borges chegou ao reino de Nárnia pela parte da manhã, e rumou diretamente para o castelo principal, sendo escoltado por faunos e centauros. Sabia que Aurora estava lá, bem como Alexandra. Pediu gentilmente que fosse levado até sua mulher, e acompanhou um fauno ruivo até o segundo andar, onde ele parou em frente a uma grande porta, fazendo uma reverência e gesticulando para que o rei entrasse.
Logo quando abriu a porta, percebeu rapidamente Aurora ir ao seu encontro, beijando-o ternamente nos lábios e se afastando para que ele visse ao redor. Borges percebeu o rei Edmund se levantar de um sofá ali perto, com um rosto sonolento e traços visíveis de desconforto. Os dois reis se cumprimentaram com um aperto de mão forte.
- Sua filha teve uma sorte divina, rei Borges. Peço desculpas por estar no quarto dela.
- Não precisa se desculpar, meu caro.
Borges respondeu afavelmente. Sabia que Aurora já havia contado a história de Alexandra para Edmund, e não se incomodou muito com a presença do garoto ali. Sabia que parte por sua filha estar ali era por causa dele, e sabia que quanto mais os dois ficassem juntos, maiores as chances de Alexandra finalmente se casar, o que era seu objetivo desde que a enviou para Nárnia.
Ele se aproximou da cama da filha e passou gentilmente a mão no rosto dela. Estava gelado, como se ela estivesse morta. Ele estremeceu, sabendo que era apenas um mau pensamento. Ela não estava morta. Sua temperatura estava assim porque seu corpo estava trabalhando internamente para se curar. Toda vez que Alexandra ganhava um machucado, esse ficava frio até se fechar.
- Vou poder voltar aqui apenas amanhã. – ele se virou para Edmund e Aurora. – Peter solicitou minha presença em uma reunião na parte da noite. A reunião será em um castelo afastado dessa vez, devido ao ataque da noite anterior.
Aurora percebeu que Borges já estava atualizado de tudo. Não se surpreendeu, seu marido era conhecido por sempre estar informado de tudo o que se passava à sua volta.
- Eu vou com você, Borges. Preciso saber o que todos farão para eliminar de vez a mulher que fez isso à minha filha. – Aurora disse e Borges conseguiu ver ali a convicção que ele tanto amava em sua mulher. – Edmund ficará com Alexandra.
Ela completou, deixando Edmund surpreso com aquela decisão. Mas ele não ousou reclamar. Havia guardas por todo o castelo, Susan e Lucy ainda estavam por lá, pelo menos até a hora da reunião. De qualquer maneira, ele não deixaria ninguém chegar perto de Alexandra.
- Eu vou cuidar dela.
Ele disse, deixando os dois mais confortados com isso. Despediu-se dos dois, pedindo licença para subir ao seu quarto. Eles gesticularam afirmativamente e Edmund saiu do quarto de Alexandra para deixá-los a sós com ela, mesmo que a garota estivesse desacordada. Ele sabia que Borges e Aurora tinham muito o que conversar, e para ser sincero, sentia uma necessidade absurda de um banho quente, um prato de comida e um pouco de descanso.
Não dormia há horas.
Edmund bateu na porta do quarto de Alexandra na parte da noite, sentindo-se bem melhor depois de ter dormido por algumas horas. Aurora abriu para que ele entrasse ali. Ele percebeu que ela e o rei já estavam de saída, pois usavam capas. A noite estava fria, indicando uma quebra de padrão e a aproximação mais evidente da Feiticeira Branca.
- Cuide dela, sim?
Aurora pediu com carinho e Edmund assentiu.
- Sempre. – ele olhou para Alexandra, que ainda dormia. – Parte de mim é culpa por ela estar assim.
- Não diga bobagens, Edmund.
Aurora o olhou com irritação pela primeira vez desde que pisara em Nárnia, pegando a mão de Borges e puxando-o para fora do quarto. No momento em que a porta se fechou, Borges olhou para Aurora com atenção.
- Será que estamos sendo omissos em deixar Alexandra nesse estado?
Ele perguntou de forma baixa para não correr o risco de Edmund escutar. Aurora sorriu.
- Não seja tolo. Você só está com ciúmes. – antes de Borges abrir a boca, ela o cortou. – Os dois precisam de tempo, e nós precisamos fechar o cerco para achar a bruxa.
Borges concordou, andando calmamente pelo corredor com Aurora ao lado.
- Todos vão achar que estamos praticamente abandonando Alexandra.
- Nossa filha é uma semideusa, Borges, não uma criança.
Dentro do quarto, Edmund se aproximava da cama de Alexandra, observando-a dormir. Achou no mínimo estranho seu ferimento já estar completamente curado e fechado. E ainda achava estranho o fato de ela ser uma semideusa. Mas ele preferia isso a ter Alexandra morta. Ela estava bonita, mesmo que tecnicamente estivesse se recuperando de um trauma.
Pallas estava ao lado da cama, seus olhos amarelos observavam o garoto atentamente. Mas, pela primeira vez, a pantera não se incomodava com a presença dele. Todavia, Edmund sabia que o animal estava irritado, ele estivera preso por cordas encantadas enquanto Alexandra tinha se afastado da floresta. Pallas não foi permitido ir à festa de Nárnia, mas havia pulado a janela do segundo andar ao sentir que a garota estava correndo perigo.
Edmund olhou para Pallas e percebeu que o animal não havia sequer quebrado a pata. A altura do segundo andar era grande, e ele se perguntou se realmente aquela pantera também não tinha poderes como Alexandra.
Ele não quis pensar sobre isso, passou a mão no rosto da garota rapidamente e andou até o sofá, desabando ali e esperando-a acordar.
Aquilo ia demorar um pouco.
