XI
Era uma terça-feira, após o expediente oficial. Ele e Alaudi revisavam alguns papéis que deveriam ser enviados para outras sedes de polícia. O louro havia recusado o cargo de Inspetor-Geral, mas recebia frequentemente relatórios dos demais Inspetores sobre assuntos relevantes e de interesse de sua divisão. Normalmente, aquela quantidade de trabalho atrasado era impensada, porém, com a chegada de sua irmã, e o último acontecimento envolvendo o pintor dos Cavallone, seu melhor amigo precisou recorrer a sua ajuda se quisesse despachá-los antes do prazo.
"Allegra me enviou uma carta. Seu navio chegará no começo da próxima semana." Alaudi falava enquanto os olhos azuis liam a folha de papel com rapidez. "Ela mencionou que está ansiosa para lhe ver."
"Eu estou ansioso por revê-la," Giulio sorriu. A irmã de Alaudi sempre teve um lugar especial em seu coração. "Ela ficará mesmo em um hotel?"
"Sim, e eu não consegui persuadi-la do contrário." O louro suspirou. "Ivan ofereceu sua casa, eu ofereci a minha própria casa, mas ela disse que não quer atrapalhar minha rotina e se sentirá mais à vontade em um hotel. Ivan acha que é culpa dele." Ele ergueu o rosto e juntou as sobrancelhas. "Talvez ela aceite ficar na sua casa."
"Impossível..."
Giulio não conseguiu não rir baixo, recebendo um meio sorriso do amigo que concordava com seu pensamento. Ivan Cavallone era uma pessoa extremamente preocupada e atenta às necessidades daqueles que o cercavam. Quando o assunto era Alaudi, ele não poupava esforços em atendê-lo e depois que soube que Allegra passaria alguns dias na Itália e gostaria de conhecê-lo, o Chefe dos Cavallone se apavorou. Pelos relatos que ouviu de Alaudi e de Mario, Ivan estava uma pilha de nervos com a chegada da moça.
"Ele não precisa se preocupar. Allegra é a mulher mais doce e compreensiva que conheço."
"Eu concordo." O Inspetor dobrou a folha de papel e a colocou dentro do envelope. "Você deveria ter se casado com a minha irmã. Nós seríamos família."
"Eu acredito que há alguns anos concordamos de não falar mais sobre isso..."
"Eu não concordei com nada, você disse que não queria que aquele homem soubesse disso. Aliás..." Alaudi piscou como se lembrasse de algo. "O pintor está morando na propriedade."
Giulio sentiu os músculos de seu rosto se tornarem rígidos e seu maxilar ser apertado a tal ponto que seus dentes rangeram. Seus olhos se ergueram e foi muito difícil não deixar transparecer sua reação àquela notícia. Eu desconfiei que isso fosse acontecer. Em sua mente, ele imaginou rapidamente Mario e o francês fazendo todas as refeições juntos, longos passeios pelo jardim, passeios a cavalos e sempre sorridentes e conversando como velhos amigos.
"Desde quando?"
"Há alguns dias," o louro voltou a dar atenção aos seus papéis, "ele está morando com o chefe da segurança, Niccolò, provisoriamente."
Saber que Jules morava afastado da mansão principal não fez desaparecer a sensação ruim que se alojou no fundo de seu estômago. Mario não me disse nada. O moreno soube sobre o incidente que envolveu o francês e de certa forma sua opinião sobre aquele homem havia mudado um pouco. Ele provavelmente nunca conseguiria gostar do pintor, no entanto, simpatizou com o que aconteceu, embora fosse da opinião de que o culpado deveria ter sido entregue à polícia. Conhecendo um pouco da máfia como ele conhecia, Giulio deduziu que o cidadão já havia morrido e certamente de uma maneira não indolor.
Independentemente de sua opinião sobre a situação, saber que Mario não o havia comunicado sobre algo tão importante o incomodou. Ele também não me disse de imediato que o professor de Catarina era o francês. Giulio passou a mão na nuca, sem conseguir esconder o incômodo. Ele conhecia seu amante, mas não compreendia como, depois de todos esses anos, o ruivo ainda receasse contar certas coisas.
O excesso de trabalho não se limitou àquele dia e a rotina de permanecer além do horário se prolongou pelo restante daquela semana. Na quinta e sexta-feira Alaudi não iria trabalhar, pois precisaria se focar em terminar de arrumar sua casa. E na segunda-feira eu começo a substituí-lo oficialmente. Ivan se prontificou a ajudá-lo com a reforma da casa e Giulio assegurou ao amigo e chefe que conseguiria dar conta do trabalho sozinho. Ele não mentira, contudo, os dias foram longos e pelo segundo dia consecutivo ele deixava a sede de polícia quase meia-noite. Eu ainda não terminei o trabalho e precisarei vir amanhã.
O moreno encarou o céu, ajeitando o cachecol em seu pescoço e suspirando. Não é como se ele fosse vir. Com a chegada de Allegra as coisas devem estar caóticas na mansão. Giulio engoliu seco, imaginando se o tempo livre de Mario era passado com certas companhias. Nós estamos muito longe e eu sei que ele tem se esforçado para que eu não fique chateado com o fato de Jules frequentar a mansão, mas isso não significa que tenha de esconder coisas de mim.
Intimamente, o Vice-Inspetor gostaria de não saber nada sobre o francês, ao mesmo tempo em que gostaria de saber tudo. Ele tinha plena consciência que não poderia monopolizar seu amante, entretanto, era muito difícil lidar com toda aquela situação. Jules era um lembrete vivo de um passado que Giulio havia superado, mas que às vezes retornava para assombrá-lo. Não havia dúvidas em seu coração sobre os sentimentos de Mario e essa certeza apenas tornava os seus próprios sentimentos difíceis de assumir. Eu sei que ele deve achar que não confio nele, que não me esqueci da pessoa que ele costumava ser.
Giulio nunca foi uma pessoa possessiva ou ciumenta. Seus irmãos e irmãs, seus amigos, suas antigas namoradas, ocupavam lugares diferentes em sua vida e nenhum deles disputava mais ou menos atenção e cada um tinha sua própria importância. Por várias noites ele se perguntou se aquele não foi o motivo de sua noiva tê-lo deixado. As dúvidas, todavia, nunca foram respondidas e ele desistiu de buscar uma resposta satisfatória, aceitando que aquela relação desde o início estava fadada ao término.
Se ela houvesse mantido o noivado, o moreno suspeitava que seu futuro não teria sido tão feliz, ainda mais pelo fato de que Mario teria aparecido em sua vida de qualquer maneira graças a Ivan. Em todos os futuros que visualizou ele sempre se viu ao lado do ruivo e isso teria acarretado uma série de problemas extras se fosse um homem casado.
Mario estava longe de ser perfeito, mas aquela pessoa havia trazido um sopro novo de ar em sua vida, além de sentimentos e emoções que ele nunca sentira antes. O retorno de Jules serviu para despertá-los, retirá-los de seu sono e lembrá-lo de que o tempo poderia ter passado, porém, seu amor não havia mudado. Eu me lembro perfeitamente do dia em que os vi juntos, há dez anos. Mario parecia tão feliz. E, embora Giulio se recusasse a admitir o que sentia, a cada dia aquilo o sufocava mais e ele sabia o que aconteceria se não lidasse com aquela emoção.
Da última vez que eu me senti dessa forma foi quando percebi que estava apaixonado por ele. Por semanas eu tentei esquecer, fazer outras coisas, ocupar minha mente e esperar que o tempo fizesse sua parte. No fim, aqueles sentimentos transbordaram e eu perdi completamente o controle da minha vida. Eu não posso deixar que isso aconteça novamente.
Giulio estava com ciúmes.
Todas as vezes que se imaginou compartilhando aquela informação ele via o sorriso de deboche nos lábios rosados de Mario, acompanhado pelos olhos verdes e que pareciam sempre rir. Na sua opinião, um homem de mais de trinta anos não deveria se portar daquela forma, agindo como um adolescente inexperiente e perdendo tempo com bobagens. Em todos aqueles anos o amante nunca lhe deu motivos para duvidar de seu comportamento e Giulio sabia que era o único a se sentir dessa forma. Ele sabia que Jules não significava perigo, mas não conseguia evitar sentir-se ameaçado por sua presença, mesmo que tais inseguranças soassem infantis.
O Vice-Inspetor entrou em seu carro, afrouxando um pouco o cachecol ao sentir o calor do interior do veículo. Estava tarde para jantar em algum restaurante e ele se sentia exausto para cozinhar. A decisão de chegar em casa e dormir após um banho parecia a mais sensata e ele percorreu o trajeto ponderando quanto tempo demoraria para terminar seu trabalho no dia seguinte. Não havia muito a ser feito, no entanto, com Allegra chegando no começo da semana ele sabia que Alaudi ficaria ocupado por alguns dias e se o trabalho se acumulasse não haveria tempo para apreciar a companhia da jovem mulher. Allegra era sua amiga de infância e uma de suas pessoas favoritas.
O carro foi estacionado no local de sempre, em frente à sua casa, mas ele não era o único parado naquela área. O veículo da frente estava desligado, contudo, assim que Giulio desceu a pessoa à frente fez o mesmo. Suas sobrancelhas se juntaram, pois ele havia reconhecido de imediato o carro e sabia muito bem quem o dirigia, mas não entendia porque aquela pessoa não havia simplesmente entrado já que tinha uma cópia da chave. A iluminação fraca daquela área o impossibilitou de olhá-lo diretamente, entretanto, quando chegaram à soleira seus olhos se arregalaram e ele automaticamente levou a mão ao rosto do amante. Mario estava gelado.
"Por que você não entrou?" O moreno retirou o próprio sobretudo, passando-o ao redor do ruivo, que vestia somente uma camisa branca por baixo do colete azul. A porta foi aberta e ele se apressou em colocá-lo para dentro. "Há quanto tempo você está lá fora? Por que não foi à sede de polícia?"
Não houve resposta e Mario seguiu atrás em silêncio, os olhos baixos e uma expressão tão distante que por um momento ele achou que o ruivo estava apenas de corpo presente. Giulio acendeu a lareira da sala de estar e pediu que ele se acomodasse enquanto prepararia um café quente. Seu amante obedeceu prontamente e a cada segundo de quietude sua preocupação aumentava. O que pode ter acontecido? Ele parece ter visto um fantasma. O moreno fez o café mais rápido de sua vida, colocando a quantidade de açúcar que Mario geralmente gostava e retornando à sala com duas xícaras.
"Obrigado," o agradecimento soou baixo e o ruivo deu um longo gole em seu café, fechando os olhos e suspirando. "Eu esqueci minha chave."
"Você está pálido, por que não toma um banho? Eu vou encher a banheira."
"Não... não agora." Mario o segurou pelo braço e sua atenção voltou ao café.
Giulio permaneceu ao seu lado distraído demais para dar atenção à sua bebida. O amante havia terminado há algum tempo seu café e olhava para o fundo da xícara de porcelana como se visse algo que mais ninguém pudesse ver. O moreno não sabia o que havia acontecido, se fora uma discussão com alguém ou algum problema com a Família, mas se o ruivo precisasse dele ele estaria ali. As xícaras vazias foram levadas para a cozinha e Giulio retornou com um cobertor que trouxe do segundo andar.
"Você continua gelado." Ele havia tirado os sapatos antes de pisar no tapete que forrava aquela área e ajoelhou-se para retirar os do amante. "Venha cá, você precisa se esquentar."
Ele deitou no sofá e fez um gesto para que Mario se deitasse por cima. O modo como o ruivo o olhou o surpreendeu, todavia, não tanto quanto a facilidade com que suas palavras foram acatadas. Mario parecia assustado com alguma coisa e acomodou-se sobre ele como um gato, afundando o rosto em seu pescoço e ficando completamente escondido pelo cobertor. Giulio encarava o teto da sala de estar sem saber o que fazer além de estar ali para aquela pessoa, e todas as suas dúvidas e inseguranças pessoais desapareceram. Ter Mario em seus braços no final do dia era a única coisa que importava.
Giulio não percebeu que havia pegado no sono, acordando algumas horas depois. O amante dormia profundamente em seu peito, a respiração alta e aparentando cansaço. O moreno se mexeu devagar, fazendo o possível para não acordá-lo. A cabeça ruiva foi colocada sobre uma das quatro almofadas e o Vice-Inspetor se espreguiçou antes de deixar a sala de estar, percebendo que não era mais tão jovem para dormir em locais ruins. Ele seguiu direto para o segundo andar, onde tomou um banho rápido. Ao retornar à sala de estar, Mario acordou quase de imediato e colocou a cabeça para fora do cobertor.
"Vá tomar um banho e eu prepararei alguma coisa para comermos. Você deve estar com fome." A sugestão foi seguida por um gentil beijo no alto da cabeça e, novamente, o ruivo mostrou-se estranhamente obediente.
Ele sabia que teria suas respostas em breve e principalmente depois que Mario estivesse de estômago forrado. O jantar seria omeletes e alguns vegetais fritos no azeite, somente o que dispunha sua despensa. O pão do café da manhã foi aquecido com queijo por alguns minutos e, quando Mario desceu, a refeição não parecia ter sido feita às pressas. O amante vestia um de seus pijamas, mas a aparência exausta não havia desaparecido, assim como os olhos fundos e preocupados.
Aquela foi uma peculiar refeição, silenciosa e breve. Mario mal tocou na comida, focando-se na garrafa de vinho, que bebeu praticamente sozinho. Giulio manteve-se vigilante, observando cada gesto e tentando descobrir o que poderia ter acontecido para deixá-lo naquele estado. O Mario que ele conhecia não era quieto e raramente perdia tempo com qualquer coisa que não pudesse ser resolvida com uma conversa imediata ou discussão. O que quer que houvesse acontecido fora grave o bastante para deixá-lo completamente sem vida.
O jantar terminou e o moreno se recusou a abrir outra garrafa de vinho, recebendo um dar de ombros. Mario perguntou se ele precisaria de ajuda para tirar a mesa, avisando que estaria no quarto quando sua resposta foi negativa. Giulio utilizou aqueles minutos para pensar no que faria, fitando o relógio e suspirando ao perceber que já passava das duas da manhã. Ele deveria ir para a sede de polícia antes das 6h, o que lhe dava tempo apenas para um breve cochilo, isso na teoria. Na prática, seus pensamentos estavam focados em Mario.
O ruivo o esperava próximo a uma das inúmeras janelas fechadas. O frio da noite contrastava com o calor do cômodo, aquecido pela grande lareira do lado esquerdo. Os vidros estavam embaçados, com exceção de um, cheio de marcas de dedos. Em suas costas estava o cobertor que o moreno levou para a sala e daquele ângulo Mario parecia uma criança perdida.
"Eu estou preocupado com você," Giulio o abraçou por trás, satisfeito por não ter sido afastado. Enquanto o amante não se recusasse a ser envolvido o problema não era direcionado a ele. "O que aconteceu? Por que você ficou esse tempo todo lá fora, no frio?"
Como esperado, a resposta não foi dada de imediato.
Mario conservou-se em silêncio por um bom tempo, os olhos enxergando além da janela e o mesmo rosto inexpressivo. O Vice-Inspetor ficou imóvel, envolvendo-o em seus braços e apoiando o queixo no alto de sua cabeça, ainda que de maneira desajeitada, visto que Mario não era tão baixo. Quando o silêncio começava a se tornar constrangedor e ele cogitava retirar sua pergunta, o ruivo respirou fundo.
"Giuseppe e Francesco estão juntos. Eles são amantes."
As palavras foram ditas sem afetação e com o único intuito de comunicar a informação. Giulio não conseguia ver qual expressão Mario vestia naquele momento, mas aquele estranho comportamento de repente fez todo o sentido. Sua mente passou a funcionar rapidamente, pensando qual seria a coisa certa a ser dita e qual seria o melhor gesto para ajudá-lo. Suas próprias palavras lhe faltaram e Giulio só reaprendeu a falar quando Mario virou-se devagar. Os dois se entreolharam e um amargo sorriso cruzou os lábios de seu interlocutor.
"Mas você já sabia, não é?"
A acusação camuflada pela pergunta o fez engolir seco. Os olhos verdes pousaram sobre ele por um instante e se abaixaram quando o ruivo se afastou, deixando o cobertor para trás. Aquela expressão ele conhecia muito bem e não achou que viveria para vê-la novamente. Era uma mistura de irritação com desapontamento.
"Todo esse tempo eu imaginei que Giuseppe estivesse apaixonado pelo Niccolò. Eu fui tão cego que me deixei manipular por você e não vi o que estava acontecendo bem debaixo do meu nariz. Vocês combinaram?"
"Eu nunca lhe manipulei." Ele pegou o cobertor do chão e virou-se devagar. "E ninguém combinou nada."
"Quando você me perguntou se eu me importaria em saber quem era a pessoa que havia mudado meu irmão, eu senti que havia mais por trás daquela pergunta, mas não disse nada porque acreditei que se você soubesse de alguma coisa teria me dito." Mario parou ao lado da cama. "Você se divertiu, Giulio? Escondendo coisas de mim e me assistindo agir como um perfeito idiota?"
A resposta estava presa em sua garganta e ali permaneceu. O moreno se manteve imóvel, somente ouvindo e sem ter coragem de responder. Havia tantas coisas que ele gostaria de dizer, tantas respostas que ele gostaria de obter, porém, sentia que suas preocupações não eram relevantes em comparação ao sofrimento do amante.
Giulio sabia que aquele que falava não era Mario, apenas uma parte, aquela que havia se machucado com a verdade. Ele desconfiou que aquele dia fosse chegar, mas intimamente esperou que Francesco e Giuseppe assumissem a situação ao invés de serem descobertos. Aparentemente eu estava errado.
Entretanto, Mario não estava. Ele sabia.
O Vice-Inspetor nunca ouviu claramente nenhuma confissão.
Nenhum dos dois envolvidos chegou diretamente a ele e confirmou suas dúvidas, mas ele desconfiou que alguma coisa havia acontecido. Como alguém que assistiu Francesco crescer a certa distância, as mudanças na relação com seu Braço Direito não foram nítidas, e provavelmente passavam despercebidas por aqueles que conviviam diretamente, como Alaudi, Ivan e até Mario. Mas para ele os sinais estavam ali, claros e distintos.
Giuseppe foi o que mais mudou e por esse motivo Giulio achou que o ruivo acabaria descobrindo. O louro sempre foi o oposto do irmão, tímido e sério, mais introvertido e dificilmente aquele novo brilho em seu olhar teria surgido por algum motivo banal. Sua desconfiança mais forte aconteceu há alguns meses, durante um jantar na casa dos Cavallone. Ele estava se dirigindo ao jardim para pegar seu carro quando viu Francesco e Giuseppe conversando no começo da escada. A cena não demonstrava nada além de uma conversa informal entre Chefe e Braço Direito, mas para Giulio significou muito mais. O modo como se olhavam, a maneira como se viam, a linguagem corporal mais íntima e próxima. Naquele instante ele soube que um dia aquela simples cena, e aquele simples sentimento, acabaria desencadeando uma tempestade.
"Mas não vou negar que não tinha conhecimento. Eu desconfiei, apenas isso."
"E por que eu nunca soube dessas suas desconfianças?" Mario passava as mãos nos cabelos, o que deixava evidente o quão nervoso estava. Anos de discussões e brigas tolas o ensinaram a ler aquela pessoa como a palma de sua mão. "O que mais você desconfia que eu não saiba?'"
Respire, repire... O moreno fechou os olhos e suspirou longamente. Ele sempre foi o lado ponderado e racional daquela relação, responsabilidade essa que lhe era inerente por ter como amante alguém tão arredio e indisciplinado como Mario. Quando discutiam, independentemente do motivo, raramente Giulio elevava o tom de voz ou deixava suas emoções transparecessem. Seu trabalho na sede de polícia fora responsável por aquela facilidade em omitir seus sentimentos, apesar de saber que o ruivo detestava quando ele se calava.
"Olhe nos meus olhos e diga: você teria acreditado em mim?" As palavras saíram com o mesmo tom de sempre. Não havia sinal de que ele estivesse em uma discussão. "Se eu falasse que desconfiava que seu irmão e Francesco eram amantes você realmente acreditaria em mim, Mario?"
Ele sabia exatamente o efeito que aquela implicação causaria e assisti-lo se desenrolar diante de seus olhos não foi satisfatório, pelo contrário. Tudo o que Giulio queria era abraçá-lo e envolvê-lo, demonstrando com todo o seu corpo o quão preocupado estava e que estaria presente para o que seu amante precisasse. Ele só conseguia imaginar a dor e sabia que não poderia fazer nada além de reconfortá-lo, mas nem isso Mario permitiria. Sua teimosia não tinha limites.
A expressão do ruivo mudou, da irritação para completa impotência. Ele sabia que Giulio estava certo, que ele não teria acreditado e provavelmente usaria aquilo como motivo de gozação sempre que estivessem sozinhos. No entanto, a mais sem graça das piadas havia se tornado realidade. As desconfianças do moreno eram reais e ele se martirizava por não ter um plano para aquela situação, por não ter pensado no que faria se Mario descobrisse.
"Eu vou embora."
Ele começou a desabotoar a parte de cima do pijama, mas parou assim que o moreno se aproximou. O olhar que Giulio recebeu foi ferino e carregado de resentimentos e ele percebeu que suas palavras, naquela noite, seriam em vão. Mario estava completamente incapacitado de escutá-lo, sua razão em frangalhos e se Giulio tentasse apelar para a racionalidade provavelmente desencadearia uma briga paralela.
"Eu não vou deixar que vá embora nesse estado e a essa hora. E infelizmente sou a última pessoa que você quer ter por perto," o moreno pegou um dos cobertores que estava dobrado ao pé da larga cama, segurando-o junto ao outro. "Use o quarto, eu dormirei na sala."
Giulio não esperou por uma resposta e deixou o segundo andar sentindo-se mais cansado do que se houvesse feito quatro plantões seguidos, como na época de juventude. A lareira da sala de estar foi refeita e ele adicionou a quantidade de madeira que achou suficiente para não permitir que ele congelasse durante a noite. O sofá era pequeno e metade de suas pernas ficaria para fora, mas soava melhor do que estar no mesmo cômodo que alguém que não queria sua companhia. Eu nunca achei que viveria para ver o dia em que Mario não iria me querer ao seu lado na cama. Um triste sorriso cruzou seus lábios e ele se afundou nos cobertores.
Ele dormiu quase imediatamente, exausto tanto fisicamente quanto emocionalmente. Aquele foi um curto sono e sem sonhos, e a sensação que teve quando seus olhos se abriram foi que havia simplesmente piscado. O som veio da porta de entrada e ao ver a claridade do dia por trás da cortina ele deduziu que fosse Mario. A lareira havia quase se apagado, mas Giulio não se levantou. Um de seus braços cobriu seu rosto e por alguns minutos ele nada fez além de permanecer deitado.
Aquele seria um longo dia... para todos.
Continua...
