Perto do apartamento de dois andares onde vivia Naomi, Hisoka observava aquele prédio de estilo retrô sentado em um galho de uma árvore perto. Mas as janelas frontais eram apenas da sala. Desde que entrou em sua casa, a moça sequer aparecia na janela. Sua vizinha do apartamento de baixo fazia o contrário: Aparecia toda hora, estendia roupas no peitoril, reabastecia o filtro de água que tinha pendurado lá para os passarinhos. Ele não mentiu para ela quando disse que queria auxiliá-la e nem quando a avisou que, como membro do Ryodan, não poderia negar ordens do Kuroro se ele quisesse acabar com ela. Precisava saber o que o líder e os outros iriam fazer com ela. Ele tinha uma ideia a respeito, mas precisava confirmar. Ele não queria ver seu brinquedo destruído pelos outros garotos maus...

...

Kuroro terminava de ler o segundo livro escrito por ''Claire Noir'' aos prantos. Ela era dotada de certa sensibilidade em sua escrita, naquele livro. Certos fatos no livro retravavam sua infância e adolescência em Meteor City, onde viveu entre lixões. Com exceção a parte dos abusos sexuais que o personagem do livro, Kuroro se identificou com este. Até parece que a pessoa por trás de Claire viveu naquela cidade onde pessoas não eram reconhecidas em registros oficiais, bem como a existência da cidade em si era conhecida por pouquíssimas pessoas.

Ele se encantou com a escritora, mas ainda tinha a pulga atrás da orelha em relação a Naomi. Daria uma lição nela, e já preparava os outros. Mas quando pensou nos seus companheiros, pensou em um deles, em particular. Aquele que, muitas vezes, foi seu conselheiro dentro do Ryodan, substituindo até mesmo Pakunoda. Resolveu ligar para ele e acertar um encontro, sem que os outros aranhas soubessem, já que estes pareciam um pouco ''enciumados'' com esse membro que havia entrado há mais ou menos dois anos atrás.

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Três meses o Ryodan estava longe de sua cidade natal, Meteor City. Desde que Kuroro estava naquela missão de caçar e acabar com os Hunters e aliados que estavam perseguindo-os. Shizuko havia sido excluída de contribuir na missão desde que Naomi havia fugido. A garota de óculos apenas fazia serviços interiores, auxiliada por Kurotopi.

No esconderijo, ambos seguiam cuidando dos próprios afazeres. Ubo tinha resolvido pregar todas as janelas bem pregadas, inclusive a janela por onde Naomi fugiu. Pakunoda e Shalnark haviam capturado um cadáver coberto, sem identificação ainda. Todos pareciam que estavam preparando algo como ''recepção''. Danchou tinha avisado que retornaria breve.

Machi andava pelos cantos, pensativa. Tinha lá seus pensamentos que a incomodava. Ela pensava se Danchou iria retornar mesmo com a Naomi. Achava um desperdício Kuroro querer retornar com aquela garota, pensava mais ou menos igual Hisoka. Só não tinha intenções com ela como ele tinha.

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- Quero que me ajude a encontrar aquela mulher ao meu lado. – pediu Kuroro.

- Por mim... tudo bem. Mas... se me permite uma pergunta... já que o tal padrinho dela já foi exterminado aquele dia, ela realmente tem uma utilidade para nós? – arriscou Hisoka em tentar fazê-lo esquecer dela antes que ele a capturasse.

- Só a quero por uns dias para puni-la. Sabe bem que eu gosto de dar o troco quando sou enganado por minhas vítimas. – disse, com um ar sorridente, mas de forma sádica.

Hisoka se controlava por dentro. Ver aquele homem emanar poder, precisava lutar com ele logo. Não aguentaria esperar muito tempo. Talvez, com essa aproximação, pudesse ter um momento em que pudesse desafiá-lo longe dos outros. Por um momento, havia mudado de idéia. Ainda queria Naomi para seu entretenimento, mas com aquela interação com Danchou... poderia adiantar as coisas.

- Que ótimo! – disse o mágico, já com suas típicas roupas que usava.

- Mas que isso fique entre nós! Eu só apenas decidi chamar mais dois de nós para nos ajudar, em última hora! – alertou o cabeça do Ryodan.

- Por mim... tudo bem, já lhe disse.

- Quero que também descubra onde mora essa garota...

- Eu sei onde ela mora. – adiantou.

- Sabe? – perguntou o outro, surpreso.

- Sei...

O ruivo passou as informações que sabia, ao mesmo tempo que Kuroro passou as suas. Surpreso em saber que ela era uma pseudônima escritora, Hisoka também ficou curioso com isso. ''Tão perfeita... digna de ser corrompida...'' pensava o mágico assassino.

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Era um belo dia acentuado pelo intenso calor, misturado à poluição daquela grande cidade. Uma tarde de sexta que convidava as pessoas a saírem de casa. Naomi tinha decidido ir a um parque local, onde sempre buscava inspiração para escrever. Seu primeiro livro escrito foi iniciado e terminado naquele mesmo parque.

Naomi estava melhor, parecia que havia esquecido tudo que havia se passado há semanas atrás. Vestia um vestido de cor bege escuro, que fazia um contraste bonito com sua pele clara, quase totalmente branca, e estava com um chapéu pequeno, de estilo retrô que foi moda nos anos 20 ou 30. Com uma caneta na mão e um bloco, ela estava sentada em uma das mesas de jogo vazias que tinha lá, escrevendo suas ideias no rascunho. Um senhor, aparentemente de meia idade, sentou-se frente a ela, e começou a olhá-la, como se tivesse curioso sobre o que ela estava escrevendo. Naomi parou o que fazia, e olhou para ela normalmente, talvez admirando aquela curiosidade dele.

- Desculpe-me, eu não queria atrapalhar...

- Não, – interrompeu a moça - imagina, eu estou apenas escrevendo umas ideias aqui, estou curtindo a tarde.

- Eu não estou atrapalhando aqui? – disse o senhor de voz grave e levemente rouca.

- Que isso! Quem sou eu para te dizer tal coisa? – Nami disse, com um sorriso amável no rosto. E retornou a escrever.

O senhor mudou de vista por uns minutos, e Naomi já esboçava sua próxima história.

- Você sabe onde fica o metrô da cidade? – perguntou o velho, com seus olhos grandes, levemente caídos e negros.

- O metrô principal fica pertinho aqui do parque, ao lado do palacete principal. – tinha parado novamente de escrever para dar a atenção pedida.

- Er... importaria se você me acompanhasse até lá?

Naomi sentiu certa desconfiança.

- Bem, é que eu marquei um encontro nesse mesmo lugar com alguém, e ela já deve estar perto de chegar, sabe... – mentiu a jovem, desconfiada.

- Tudo bem, eu vou seguindo suas dicas – disse se levantando, ajeitando com certa dificuldade o enorme casaco de jeans de cor bege que vestia, e quase similar a cor do vestido de Naomi.

Ambos se despediram. Aquele senhor parecia andar com certa dificuldade, e subitamente, ele havia tropeçado do nada e caiu. Algumas pessoas viram também e foram ajudar, incluindo Naomi.

- O senhor está bem? – perguntou ela.

- Não... não precisa me ajudar, ai! – disse, exclamando de dor.

- Precisa, sim! Olha, eu posso acompanhar rapidamente o senhor até a estação, depois eu tenho que retornar, OK?

- Mas... minha filha...não quero te causar... – disse, acariciando o rosto dela.

Por um momento, aquele toque... fez a moça lembrar ligeiramente de uma pessoa. Mas foi só uma simples lembrança, que não a impediu de ajudar o tal senhor. Ele apontou a bengala que estava caída um pouco longe dele, mas outra pessoa pegou para ele, entregando a Naomi, primeiramente.

- Ah, a minha bengala! – terminou a frase com algumas tosses e gemidos. Ai minhas costas!

- Já vai passar, senhor. – Naomi confortava-o. Vamos andando devagar que as dores vão diminuindo!

- Ah, minha cara... sinto-me tão embaraçado em te agradecer, que...

- Não é necessário, senhor! – disse ela, com vermelhidão nas bochechas. Naomi sempre ficava assim quando recebia um elogio ou uma graça.

Ambos foram até o metrô. Naomi o ajudou a descer as escadas. Ela estranhou o lugar estar vazio; geralmente, perto das seis horas da tarde, o metrô estava cheio de pessoas voltando ou indo para seus destinos.

- Cadê as pessoas? – Naomi comentou baixinho.

- Eu não tenho a mínima idéia... – respondeu o senhor.

- Bom, já chegamos. Ali ao lado é a bilheteria, mas isso o senhor deve saber!

- É claro, minha doce criatura... – disse o homem amavelmente.

- Mas está tudo bem para andar? – Naomi estava preocupada.

- Sim...

- Então, até mais! – disse a moça, dando-lhe as costas.

Mal ela dirigiu-se para fora da estação, perdeu a consciência rapidamente, caindo no chão. O tal senhor foi até ela calmamente, e a carregou nos braços, saindo dali numa velocidade similar a de um ninja.

...

Ao chegar a um local abandonado – que não era o esconderijo de Ryodan ainda, Kuroro tirou seus disfarces, primeiramente a máscara que simulava muitos anos a mais que ele próprio tinha. Logo em seguida, a peruca com o chapéu que estava irritando o tempo todo, por causa da coceira. Só a bengala que ele não trouxe consigo, com prioridade óbvia em Naomi.

Naomi estava intacta, mas sem seu chapéu retrô que usava antes de ser capturada. Inconsciente, ela estava amarrada pelos pulsos e tornozelos, ambos unidos pela mesma corda. Parecia um cordeiro prestes a ser sacrificado.

Danchou foi se sentar, perto da sua ''caça'', esperando por um dos três que convocou para ajudá-lo. Antes de retornar a base do Ryodan, iria dar uma lição nela. Tudo já premeditado pelo moreno. Machi e Feitan foram os convocados, junto com Hisoka, para auxiliarem o líder. Enquanto esperava os três, Naomi estava desacordada, parecendo um anjinho enquanto dormia. Às vezes, passava-lhe na cabeça a ideia de ignorá-la, mas não queria. E para piorar a situação, ela fez o que Kuroro não gostava que fizesse suas vítimas: escapar às escondidas. Motivo o suficiente para castigar aquela ''menina desobediente''...

O homem escutou um barulho. Olhou para a direção da porta principal. O lugar era um casebre abandonado, no meio de certa mata, há uns poucos quilômetros do próprio esconderijo do Ryodan.

- Danchou, somos nós. – anunciou Feitan, que chegava ao lado da Machi. Ele estava com um saco manchado de sangue envelhecido.

- Ótimo que chegaram, falta o outro agora...

- Danchou... poderíamos saber quem é o outro de nós que está ajudando nessa captura?

- Hisoka. – falou tranquilamente.

Feitan estreitou os olhos com certa desconfiança. Machi arriscou a palpitar.

- Espero que ele não seja um empecilho ou um traidor nessa missão...

- É aí que você se engana, Machi. Foi ele que nos ajudou crucialmente a localização dela e conseguiu informações dela. Ele foi excepcional nessa captura! – disse Kuroro, num tom meio sério.

Machi se calou. Feitan continuou.

- Trouxemos o presentinho dela! – levantou o saco misterioso.

- Era mais que obrigação! – disse Kuroro, estendendo a mão para Feitan entregar o saco.

Feitan assim o faz. Machi foi verificando as janelas do local.

- Onde está a garota? – perguntou Feitan.

- Dormindo como um anjinho no quartinho aqui atrás.

- Começaremos o trabalho quando ela acordar?

- Exatamente, Feitan.

Nesse mesmo instante, apareceu o mágico. Exatamente com as roupas típicas que estava quando Naomi ainda estava presa no esconderijo base.

- Cheguei atrasado?

- Não muito, Hisoka. Foi em boa hora...