Nota: Os personagens de Naruto não me pertencem, pertencem ao seu criador Kishimoto Masashi e empresas licenciadas. Fic sem fins lucrativos a não ser diversão. Feito de fã para fã.


Obrigada: Sayuri Hatake, Jade Miranda, Karina de Angels, Lirit T, FranHyuuga, Hachi-chan2 e Patty por terem comentando o capítulo anterior!

Uma boa leitura a todos!


Um mal chamado Amor

Capítulo 11: Você não sabe o que é um beijo, Sakura

Um mês inteiro? Literalmente de molho em casa? Essa havia sido a sentença final de Tsunade-sama, mesmo que eu tivesse feito de tudo para convencê-la de que eu estava bem.

"Bem? Kami-sama! Você está realmente MUITO longe de estar bem, Sakura, MUITO longe... Ficará um mês longe de suas ocupações no hospital e qualquer outro tipo de tarefa. Repouso absoluto, ouviu bem? Ah, e, principalmente, fique longe dele, FIQUE LONGE DAQUELE IRRESPONSÁVEL DO KAKASHI!"

Ficar longe de Kakashi? Isso era mais fácil do que Tsunade-sama pudesse imaginar. Obviamente que não por minha vontade, afinal eu desejava a todo custo estar com ele, mas sim devido a um Kakashi que parecia ter tomado chá de sumiço. Já fazia uma semana desde que havíamos retornado de Suna e, a última vez que eu o tinha visto? Acreditem, havia sido naquele mesmo dia, na sala de Tsunade-sama enquanto ela desferia sua fúria sobre ele. Naquele dia ela havia dito que ele seria suspenso de suas atividades por conta do acontecido, mas eu não topava com ele há tanto tempo que já estava me perguntando o que realmente havia acontecido com ele.

Tsunade-sama teria realmente feito mais que o suspender? Seria ela a autora daquele chá de sumiço?

Não. É claro que não. Kakashi havia sumido e por um único motivo, me evitar. Ele havia me evitado o caminho de volta para Konoha inteiro, por que simplesmente me dar a devida atenção agora? O correto seria ele vir até mim e se explicar, explicar o porquê daquele plano maluco, se desculpar, mas estávamos falando de Hatake Kakashi, o mesmo homem que me beijou e depois ignorou o acontecido.

Eu já estava acostumada com os planos malucos de Kakashi, seus métodos pouco convencionais de ensino, eu já o conhecia há quase dez anos. O que realmente me magoava não era ele ter omitido de mim aquele plano, e, sim, não conseguir entender seus reais sentimentos por mim.

Eu havia quase morrido? Havia sim, mas enfrentar Kemal foi um verdadeiro aprendizado para mim. Aquela mulher me ensinou o que realmente era importante na vida, me ensinou a querer viver o que ela havia tão intensamente vivido. Valeu a pena quase ter perecido nas mãos dela para enfim poder abrir os olhos e decidir lutar pelo que eu realmente queria, mas isso se tornou verdadeiramente difícil com o sumiço de Kakashi.

Todos esses dias, enclausurada em casa, eu só consegui pensar nele e naquele beijo, no quanto eu queria ouvir da boca dele a explicação para o que havia acontecido, mas diferente de mim Kakashi claramente queria enterrar aquilo. E ele literalmente havia se enterrado para se esconder de mim.

Mas... Será mesmo que ele havia se esquecido?

Eu o encontraria até no inferno se fosse preciso! E se ele realmente estivesse se escondendo sob meus pés? Eu facilmente o desenterraria, assim como fiz no seu segundo teste com guizos.

Eu não teria a ajuda de Naruto dessa vez, mas prometi a mim mesma que iria vencer aquela barreira invisível que ele havia posto entre nós.

E por falar em Naruto, assim que eu cheguei e ele soube sobre o acontecido, Naruto simplesmente correu até a minha casa e me agarrou. Ele me abraçou tão forte que minhas costelas quase se partiram novamente.

Entre lágrimas ele só me repetia uma coisa:

"Eu vou matar o Kakashi-sensei, Sakura-chan! Dattebayo? Vou mesmo! Como é que ele pode arriscar a Sakura-chan desse jeito, teme?"

"Kakashi deve ter tido os seus motivos, dobe, mas concordo com você, foi um plano arriscado."

Sasuke também havia vindo me visitar e apesar de seu tom contido e de não ter me agarrado como o Naruto, eu sabia que ele também havia se preocupado comigo. E havia algo mais com relação à Sasuke, algo que eu já havia notado antes, mas que agora podia perceber com mais clareza. Quando eles vieram me visitar, Hinata também veio já que estava com Naruto, e isso pareceu incomodar Sasuke mais do que deveria. Ele simplesmente não tirou os olhos dela.

Eu ri, afinal era aquele mesmo olhar que um dia eu havia desejado em cima de mim.

Quem diria que justamente Hinata fosse ter a sua atenção? Mas o que de fato me preocupava é...

E se Naruto e ele acabassem se desentendendo de novo por conta disso?

Haviam levado tanto tempo para enfim se entenderem. Eu realmente não queria ver os dois brigados mais uma vez, mas ao que parecia Sasuke também não. Ele não parecia ter qualquer intenção de se aproximar de Hinata além daqueles olhares furtivos.

Naruto, como era de se esperar, sequer notava os olhares furtivos de Sasuke sobre sua namorada, mas eu não saberia dizer por quanto tempo Sasuke suportaria aquilo. Hinata, diferente de Naruto, já havia percebido. Eu a vi disfarçar e corar diversas vezes, e, principalmente, evitar ficar sozinha com Sasuke. Seria realmente terrível que uma amizade tão bonita fosse maculada dessa forma, mas eu sabia que uma hora ou outra o fio iria arrebentar.

Ino chegou no fim de semana e também correu para me visitar. Ela estava tão feliz e radiante que eu acabei até me esquecendo de que precisava de seus conselhos.

"Gaara está bem, muito bem. Esses últimos dias foram mágicos, testuda! O Gaara realmente é maravilhoso quando está inspirado, e, eu realmente consigo deixar aquele homem inspirado, sabe? Eu comprei um óleo corporal afrodisíaco em Suna, feito com flores e ervas raras que só florescem por aquelas terras e... Nossa! Fala sério! Quando eu usei? Juro valeu a pena cada centavo que paguei por ele. Gaara literalmente me devorou como um lobo faminto e..."

Realmente não havia como eu fazer aquela porca pervertida parar de falar, não é? Ela me falava de Gaara com tanto carinho, com tanta paixão, que tudo o que eu podia fazer era ouvi-la em silêncio. A verdade era que eu sentia inveja de Ino, da relação que ela mantinha com Gaara. Apesar da distância física que os separava era claro o quanto aquele sentimento era recíproco, tudo o que eu também desejava.

"Tome testuda! Eu comprei um para você também. A mulher que me vendeu esse aqui, disse-me que as noivas costumam usar para a sua primeira noite de casadas. Achei a sua cara! Então, faça-me um favor, sim? Use esse óleo quando topar novamente com o Kakashi se ainda quiser transar com ele. Eu sei que ele foi um cretino, afinal, ele te pôs em risco sem pensar nas consequências, mas eu também sei que você ainda quer que ele seja o primeiro. Acredite, ele não vai resistir."

Ino realmente era uma pervertida, não? Eu? Eu havia corado até a raiz dos cabelos, mas havia gostado do presente. O frasco de vidro tinha o formato de uma rosa, um botão que parecia lentamente desabrochar. O tal óleo afrodisíaco tinha um tom rosado intenso, cheirava a rosas e ao mesmo tempo algo levemente picante que lembrava pimenta e canela. Era agradável e eu certamente iria acabar usando, mas eu ainda era cética quanto um simples perfume ser capaz de atrair Kakashi até mim.

Acho que eu só seria capaz de atrair Kakashi se me enrolasse nas páginas de algum volume extra do Icha Icha, algum volume raro e que ainda não havia sido lançado.

Conclusão? Ino foi embora sem eu nem ao menos ter tocado no que havia acontecido entre mim e Kakashi em Suna.

Nessa mesma tarde minhas coisas haviam chegado também, o pássaro de metal de Suna apareceu em minha janela e as deixou. Eu queria poder ter perguntado a ele sobre Kakashi, se ele também havia entregado suas coisas, mas ele sumiu mais rápido do que chegou. Obviamente ele não me diria nada, não podia, sendo um simples pássaro mensageiro e mecânico, mas não custava tentar, não é? Eu realmente já estava ficando desesperada sem ter notícias dele.

Tsunade-sama havia me dito para ficar em casa um mês, literalmente coçando, mas eu não tinha saco para isso. Já havia arrumado meu armário na cozinha, meu guarda-roupa, e feito tudo o que poderia fazer para passar o meu tempo ali.

Havia assistido filmes melosos na tv, comido brigadeiro e feito as unhas, coisa que eu raramente tinha tempo para fazer. Eu estava lustrosa de tão limpa, assim como minha casa, não havia mais o que fazer para espantar o tédio. Nesse meio tempo eu também havia dado pequenos passeios furtivos pela vila, me esgueirando feito uma nuke-nin e temendo topar com minha mestra, mas eles haviam sido terrivelmente maçantes. Frustrantes! Era óbvio que meus pequenos passeios tinham um único intuito, cruzar com Kakashi.

A casa dele ficava um tanto quanto longe da minha, e eu achei melhor não desafiar as ordens de Tsunade-sama, que se me pegasse na rua iria acabar fraturando minhas costelas novamente, mas eu já estava cansada de ser ignorada. Decidi que iria até ele já que ele não vinha até mim. Bancar a difícil não iria trazê-lo até mim, muito pelo contrário, talvez fosse a hora de ser um pouco Yamanaka Ino, não?

Ok, só um pouco.

Retirei o pijama, meu fiel companheiro durante os últimos dias, e chutei as pantufas para longe. Vesti a primeira coisa que vi no guarda-roupa e pronto, estava pronta para sair, mas algo me chamou a atenção. Meu reflexo no espelho fez como que me analisasse em silêncio. A blusa de alças finas que vesti deixava a mostra meu ombro nu e havia um pequeno risco esbranquiçado ali, algo que descia até as omoplatas.

Como Kakashi havia me dito, eu havia ficado com uma pequena cicatriz. Tsunade-sama fizera o possível e o impossível para apagar aquela marca deixando-a quase invisível, mas ela ainda estava ali.

Involuntariamente puxei a barra da blusa até a base dos seios e vi outra marca ali. O pequeno arranhão teria sido facilmente removido por Tsunade-sama, mas eu a impedi. Queria ficar com aquela pequena cicatriz, queria olhar para ela e me lembrar de tudo o que havia acontecido. Aquela cicatriz faria com que me lembrasse de Kemal e do que ela havia me ensinado e, principalmente, faria com que me lembrasse de Kakashi.

Meu corpo simplesmente se arrepiava inteiro ao me recordar do toque dele, dos dedos dele ali enquanto me ajudava com os curativos na mata. Era como se aquelas cicatrizes fossem as únicas provas de que aquilo tudo havia mesmo acontecido. Eu precisava de algo concreto, algo que me motivasse a ir atrás de respostas.

Suspirei e então sai. Não iria voltar sem me encontrar com ele, não dessa vez.


As ruas de Konoha ainda eram as mesmas, as mesmas pessoas, os mesmos hábitos. Enquanto caminhava encontrei com Rock Lee e Tenten que voltavam dos treinos. Lee me cumprimentou animado e me encheu de perguntas mostrando-me solidariedade, mas não era o mesmo Lee. Quando eu o vi abraçar Tenten pela cintura algo dentro de mim sentiu-se ferido.

As coisas, as pessoas, tudo realmente estava mudando, ainda que parecesse igual, o que só reforçava minha necessidade em mudar também.

Vi os dois se afastarem e mais uma vez senti inveja. Senti inveja do que eles tinham, assim como sentia inveja de Ino e Gaara. Tenten havia pulado sobre as costas de Lee e ele a carregava enquanto conversavam animadamente sobre um assunto qualquer. Eu poderia estar no lugar dela se quisesse, se tivesse dado valor aos sentimentos de Lee por mim no passado, mas naquela época a doença chamada Uchiha Sasuke ainda me consumia.

Era em momentos assim que eu pensava em quantas oportunidades eu havia perdido, em quantas oportunidades de realmente ser feliz eu havia jogado no lixo por um simples capricho. Eu queria um homem que jamais me quis e com isso afastei para longe aqueles que realmente se interessavam por mim. Lee? Naruto? Segundo Ino até mesmo Kiba já havia demonstrado interesse por mim, mas como sempre eu não via nada além de Sasuke.

Eu não culpo o Sasuke, não posso culpá-lo por algo que eu mesma criei e deixei crescer como um câncer. Ele nunca me deu falsas esperanças, nunca me prometeu nada, mas eu inutilmente criei falsas esperanças e as nutri por anos. Seria mais fácil culpá-lo, culpar alguém mais além de mim, mas eu sabia que estaria mais uma vez mentindo para mim mesma.

Eu estava cansada de mentiras, de perdas, de sofrimento. Eu simplesmente queria ser como Ino e Gaara, Tenten e Lee.

Com Kakashi, por mais que ele fosse um covarde e estivesse se escondendo de mim, eu sabia que era diferente. Ele também precisava de mim, gostava da minha companhia e desejava o mesmo que eu. Desejávamos mais do que uma simples amizade entre aluna e professor, até mesmo porque, já fazia um bom tempo que não éramos mais isso, e sim iguais.

Como homem e mulher, simplesmente duas pessoas adultas e desimpedidas, nós podíamos nutrir aquele sentimento e descobrir juntos o quanto ele era importante para cada um de nós.

Quando finalmente cheguei à casa de Kakashi já era fim de tarde, uma tarde quente, porem agradável. Ele morava num dos prédios simples que serviam de moradia para os shinobis, eu mesma quase me mudei para um desses prédios, mas após a morte de meus pais, decidi que ficar em casa seria uma forma de sempre tê-los ao meu lado.

Subi as escadarias acinzentadas e simples assim como todo o prédio. Havia uma ou outra samambaia quase morta pendurada nas paredes, o único verde a colorir um conjunto cinza. Aquela falta de cor era quase que opressora, mas eu não iria desistir.

Diante da porta do apartamento dele, eu ponderei. O que eu iria lhe dizer? Como iria começar? Não tinha qualquer ideia de como faria para enfrentá-lo cara a cara. Era fácil treinar na frente do espelho, mas enfrentar a fera de frente não.

Suspirei e então bati em sua porta. Uma, duas, três vezes, até ouvir um já vou do lado de dentro que sinalizava que ele estava em casa. Se eu o chamasse, se ele ouvisse a minha voz, seria bem provável ele fingir que não estava.

Suspirei. Havia finalmente chegado a hora.

Como previ, quando ele enfim abriu a porta não conseguiu conter a surpresa em me ver ali. Ele usava máscara, mas seus olhos não conseguiram disfarçar o que sentia. Eu realmente não entendia porque aquele homem usava máscara, mesmo em casa e sozinho. Ignorei minhas recentes divagações e o palpitar ansioso de meu coração, precisava dizer por que havia vindo, não é?

-Sakura; Kakashi murmurou.

-Não vai me convidar para entrar? –foi a única coisa que consegui proferir. O cabelo bagunçado dele me fazia lembrar o quanto havia gostado de brincar com eles enquanto retornávamos de Suna.

-Claro.

Ele me deu passagem e eu entrei. Logo depois Kakashi fechou a porta e seguiu atrás de mim. Havia um sofá na sala e eu me sentei ali, aquele sofá tinha o cheiro dele. Kakashi caminhou na minha direção, mas não se sentou ao meu lado e sim, na cadeira em frente à escrivaninha. Ela ficava de frente para o sofá, mas do outro lado do cômodo. Perto e ao mesmo tempo longe, longe demais para o meu gosto. Talvez eu devesse dizer a ele que não mordia, não é?

O apartamento era minúsculo e tudo ficava interligado, só o quarto e obviamente o banheiro ficavam separados. Havia uma meia parede que separava a pequena cozinha da sala e só.

Ao lado da escrivaninha havia uma estante repleta de livros, todos de capa alaranjada e verdes, e em cima da escrivaninha um dos inconfundíveis volumes que tanto o agradava. Como eu imaginei depois de ter sido suspendido por Tsunade-sama, ele havia passado os dias trancado em casa e lendo. Seus pés descalços, a calça de moletom leve e a regata preta, ele realmente estava de férias forçadas.

Mais do que aquela maldita máscara, o que me incomodava era o porquê dele só usar preto, azul e verde. Preto quando estava em casa, como se tivesse aproveitado algumas peças de sua época como AMBU. Azul e verde de seu uniforme ninja. Será mesmo que ele não tinha nada mais colorido no guarda-roupa?

-Pensei que você ainda estivesse se recuperando, Sakura; ele finalmente me trouxe de volta a realidade. –Tsunade-sama a proibiu de sair de casa, segundo o Naruto; completou o copy-nin.

-Naruto esteve aqui? –indaguei surpresa e Kakashi assentiu com a cabeça.

-Ele não só esteve aqui como também me ameaçou de ter os braços e pernas arrancados se por ventura ousasse te machucar mais uma vez.

Eu realmente não sabia o que dizer. Naruto e sua boca grande...

-Não foi sua culpa; murmurei sem jeito vendo-o negar com a cabeça.

-Sasuke me disse que fui estupidamente equivocado e que violei um de meus primeiros ensinamentos, aquele que ensinei a vocês quando ainda eram gennins; nesse instante Kakashi fez uma pausa e então continuou. –Ninjas que falham nas missões são considerados lixo, mas aqueles que não se preocupam com seus companheiros são mais lixo ainda.

-Kakashi?

Eu não sabia o que lhe dizer. Até mesmo Sasuke havia vindo até ele para lhe dar sermões? Será mesmo que aqueles dois idiotas não entendiam que com isso só estavam piorando as coisas pra mim? Eu não queria que Kakashi me visse como uma vítima de sua imprudência. Queria que ele me visse como a mulher que ele havia beijado! Ele jamais me veria assim enquanto pensasse que havia quase me matado em Suna. Ele havia errado? Havia sim quando decidiu não me contar sobre Kemal, mas eu também havia errado quando me deixei capturar tão facilmente. Nós dois havíamos errado, portanto a culpa seria dividida e não um fardo para ele carregar sozinho.

-Acho que eu não te disse isso como deveria, mas eu realmente sinto muito por tudo o que te aconteceu em Suna, Sakura; recomeçou Kakashi. –Devia ter te contado desde o princípio sobre minhas suspeitas, mas achei que seria mais fácil atrair Kemal se você não soubesse de nada. Ela viria até você, eu sabia disso, e a ideia inicial era estar lá quando enfim acontecesse. Eu nunca quis que aquilo tudo tivesse acontecido, que você tivesse que enfrentá-la sozinha, mas você sumiu aquele dia e quando dei por mim, as coisas haviam tomado um rumo completamente inesperado.

Ao término das palavras dele eu me senti desconfortável. Eu havia sumido? Eu ainda me lembrava do porque eu havia sumido e mais do que da ira daquelas mulheres, eu me lembrava dele, de Kakashi me olhando. Talvez ele tivesse razão, talvez ele realmente tivesse culpa, afinal foi por causa dele que eu havia feito aquela dança estúpida. Eu ainda me recordava dos olhos dele em mim, de como ele me fitou sem qualquer pudor, e ainda que ele estivesse disfarçado sob aquele genjustu, eu sabia que ele olhava para mim.

Tudo o que eu queria era que ele mais uma vez me olhasse daquele jeito.

-Você me odeia, Sakura? –ele repentinamente indagou me pegando de surpresa. Que raios de pergunta era aquela?

-Eu...

-Você quase morreu por minha causa; ele completou amargurado.

-Você cuidou de mim; eu intervi a fim de afastar aquela atmosfera tensa, mas não consegui.

-Era o mínimo que eu poderia fazer, Sakura; ele me respondeu.

-Não, você fez mais do que isso e sabe disso; eu mais uma vez intervi. Suspirei e então tomei coragem. Já estava na hora de tocarmos naquele assunto, não é mesmo? –Kakashi? Aquele dia, aquele dia quando você...

-Kami-sama! –ele me interrompeu levando ambas as mãos à cabeça.

-O que foi? –indaguei confusa.

-Eu ainda te devo um almoço, não é?

-Como?

-Eu ainda te devo um almoço; ele me confirmou e só então eu compreendi. –Já que resolveu sair de casa escondida da Godaime, o que acha de irmos até o Ichiraku? Acho que não há problema em trocar um almoço por um jantar, não é? Eu realmente odeio ficar em dívida com alguém; completou num sorriso.

-Kakashi; ponderei. –Eu realmente prefiro que você nunca me pague esse jantar se for para irmos ao Ichiraku Lamen; completei entre dentes sem conseguir conter meu desgosto. Eu ir até o Ichiraku só para ver aquela atrevida de avental babando em cima dele? Não mesmo.

-Sakura? –Kakashi riu. –Eu realmente não sabia que você odiava lamen tanto assim...

-O que eu odeio não é o lamen e sim aquela garota idiota que trabalha lá; expliquei carrancuda. Como se ele já não soubesse disso.

-Ayame-chan?

-É, e eu a odeio ainda mais quando você a chama desse jeito! –rebati sem perceber que estava caindo no joguinho dele.

Kakashi riu e mesmo que ele estivesse rindo de mim, eu havia gostado de ouvir sua voz distante daquele tom tenso de ainda a pouco.

-O que sugere então? –Kakashi indagou dando de ombros.

Ele realmente estava me convidando para sair?

Mirei-o por alguns segundos e então sua pequena cozinha.

-Podemos comer aqui, se você por acaso tiver mais do que teias de aranha nos armários. Posso cozinhar para nós dois e...

Eu realmente estava me animando diante daquela possibilidade, mas Kakashi realmente gostava de ser um tremendo estraga prazeres.

-Você? Cozinhando? –ele indagou com a sobrancelha levemente arqueada.

-É, eu, cozinhando, por quê? –indaguei irritada.

-Bem; Kakashi ponderou coçando o queixo. –Aí não seria válido, não é? Eu te prometi um jantar e não fazer você cozinhar para mim; ele se explicou gesticulando displicente, mas não me convenceu.

-Eu realmente sei cozinhar, sabia? –revirei os olhos.

-Como aquele bolo de chocolate que você fez no meu último aniversário? –ele indagou num sorriso que eu sabia ser de troça ainda que não o estivesse vendo.

-Kakashi?

-Uhm?

-É isso, ou nada; completei me levantando e cruzando os braços na frente do peito.

-Ok; ele se levantou e eu tive de olhar para cima para poder encarar os olhos dele. Kakashi se afastou ignorando minha boca aberta em sinal de surpresa e caminhou até a cozinha. –Mas com uma condição.

-Qual?

-Eu cozinho.

-Kakashi?

Eu ainda tentei discordar, mas ele me deixou falando sozinha.


Soumen? Desde quando Kakashi sabia fazer soumen? Ok, fazer soumen não era a melhor das habilidades de um renomado mestre cuca, mas ele realmente sabia como fazer um bom soumen. E aquela era uma refeição perfeita para aquele fim de tarde de verão.

Macarrão gelado? Macarrão gelado e cozido por igual? Tão diferente do meu, todo grudado como se tivesse sido feito com super-cola? E aquele cheiro maravilhoso? Saquê? Shoyu? Konbu? Tudo isso junto se misturando e criando aquele molho maravilhoso? Confesso que me surpreendi com Kakashi, um Kakashi que aparentemente gostava de cozinhar quando podia e era bom nisso.

Ele claramente não queria a minha ajuda, mas depois de muito insistir, Kakashi me permitiu lhe oferecer pequenos favores, como procurar pela panela para cozinhar o macarrão e os ingredientes que ele ia precisar para fazer o soumen. Era realmente estranho procurar pelas coisas na casa de outra pessoa, fazia com acabássemos nos sentindo idiotas por não ver algo que aparentemente estava na sua cara, bem debaixo do seu nariz.

Acho que não preciso dizer que tão logo ele me enxotou dali?

Segundo ele, eu mais atrapalhava do que ajudava. Kakashi realmente não era nada sutil.

Ele realmente era um tremendo de um estraga prazeres, isso sim!

Me enxotar dali quando eu realmente estava me divertindo? A verdade? Acho que foi por isso mesmo que acabei enxotada.

Enquanto procurava pelas coisas que ele havia me pedido a gente inevitavelmente se chocava um no outro, pisava no pé um do outro e se espremia naquela cozinha minúscula.

Eu ria e ria ainda mais quando ele fazia uma careta desgostosa. Ele ainda usava aquela máscara idiota, mas eu sabia que ele estava fazendo caretas.

Às vezes Kakashi era tão transparente quanto eu. Eu sabia que ele estava incomodado com aquilo e se ele pensava que havia me enrolado com aquela história de jantar, estava muito enganado. Ele achava mesmo que eu não havia percebido a sua saída pela tangente? É claro que eu havia percebido, mas aceitar o seu convite me daria tempo para planejar como o encurralar até não ter mais como escapar de mim.

No fim eu tive de me contentar em esperar por ele sentada no sofá, assistindo-o cozinhar para mim. Ai que fetiche! Eu não conseguia parar de olhar para ele, para suas mãos habilidosas na cozinha, para aqueles braços fortes e despidos, e aquela tatuagem AMBU no ombro esquerdo. Ino na certa me diria que eu estava muito mais a fim de devorá-lo e não o macarrão.

Quando ele finalmente veio me servir e se sentou do meu lado no sofá, eu ainda me flagrei mais interessada nele do que na tigela de soumen que ele me oferecia. Ele obviamente percebeu, mas ignorou o fato. E se havia alguém bom nisso, era Kakashi.

-E então? –ele indagou esperançoso pela minha aprovação.

Eu mirei a tigela de macarrão, senti o cheiro bom que vinha dali e então finalmente experimentei. Estava bom, mais do que bom, como anunciava o cheiro vindo antes da cozinha, mas eu fiz questão de fazer uma careta antes de depositar os hachis dentro da tigela.

-Acho que...; ponderei vendo-o com o olhar fixo em mim. –Serve. É melhor do que nada; completei vendo-o fazer outra careta e depois sorrir.

-Você é realmente má, Sakura-chan... sabia disso? –ele indagou pronunciando o meu nome junto daquele chan carinhoso.

Normalmente eu achava aquele sufixo jocoso, mas ultimamente eu estava começando a gostar dele. Quando Kakashi me chamava assim normalmente nós estávamos brincando de gato e rato e eu gostava daquilo.

Kakashi depositou a tigela de soumen sobre o colo por alguns instantes e então levou a mão até a máscara que o cobria.

Aquela seria a parte pela qual havia ansiado o tempo todo. Ele iria se despir para mim, deixar que eu adentrasse aquele mundo de segredos por detrás daquela máscara.

-Acho que vou acabar me sentindo... assediado desse jeito, Sakura; ele me disse ainda com os dedos em cima da borda da máscara e eu corei.

-Baka!

Revidei recomeçando a comer meu macarrão com certa fúria. Acho que até mesmo o Naruto sentiria inveja de mim e da minha habilidade nata em enfiar comida para dentro da boca com tamanha rapidez. Kakashi era mesmo um idiota e me fazia oscilar entre beijá-lo ou socá-lo.

-Eu realmente não estou interessada em ver a sua verruga, sabe? –recomecei a falar sem parar de comer. Era grosseiro falar de boca cheia? Era sim, mas eu pouco estava me importando com isso. –Ela é nojenta! Talvez você devesse esperar eu terminar de comer para...

Eu parei, parei tudo o que fazia quando novamente tive coragem de fitá-lo. Ele estava livre daquela máscara idiota e seu rosto perfeito parecia-me ainda mais bonito. A primeira coisa que busquei foi sua boca, aqueles lábios perfeitos que haviam me beijado. Um meio sorriso de canto curvou-lhe os lábios e eu me senti arrepiar, como se borboletas travessas tivessem feito um voo rasante em meu estômago.

Eu realmente estava apaixonada por aquele homem.

E eu realmente queria ser beijada por ele novamente.

-Sakura? –ele me chamou e eu assenti. –Tem um fio de macarrão grudado no seu queixo...

Kakashi me apontou o rosto e eu corei até a raiz dos cabelos. Desesperada tentei me limpar. Eu estava ali o comparando a um deus e ele estava mirando a minha cara de idiota com o rosto sujo de comida? Senti-me tão mortalmente envergonhada que fixei imediatamente meus olhos na porção de soumen e não mais me desviei dali.

Kakashi riu e então começou a comer também.

Comemos em silêncio, mas vez ou outra eu me via buscando furtivamente pelos olhos dele que não abandonaram a tigela de soumen. Quando enfim terminamos de comer, eu o vi se espreguiçar e então se voltar para mim.

-Quer beber alguma coisa?

-O que você tem? –indaguei, estava mesmo a fim de beber alguma coisa.

-Água; Kakashi me respondeu com simplicidade, mas riu alto ao me ver fazer uma careta de desgosto. –O que foi? Não tenho nada melhor para te oferecer.

-Duvido que você não tenha uma garrafa de saquê em casa; murmurei contrariada enquanto ele pegava minha tigela vazia de soumen e a levava junto da dele até a cozinha.

-Não, não tenho. Não viu que eu usei o resto que tinha para preparar o soumen? –ele indagou se explicando da cozinha.

-Você não tem nem mesmo um pouco de shochu? Licor de ameixa? –indaguei esperançosa.

-Shochu? Isso é bem mais forte que saquê, Sakura; o tom de Kakashi me pareceu repreensivo e eu bufei irritada.

-Você tem ou não tem Kakashi? Porque eu tenho os dois em casa. Ou melhor, os três; completei e Kakashi suspirou balançando a cabeça para ambos os lados.

-Acho que a convivência com a Godaime não tem te feito muito bem, sabe? Uma criança como você, não devia estar bebendo esse tipo de coisa.

-Eu não sou criança, Kakashi! –revidei e agora sim estava irritada. Criança? –Eu sou uma mulher; completei.

Um longo instante de silêncio se instaurou entre nós e apenas nos fitamos. Kakashi levou uma das mãos até os cabelos com vagar e então se abaixou para pegar algo no armário.

-Ok. E eu acho que tenho um pouco de umeshu aqui; ele murmurou e então me mostrou a garrafa de licor de ameixa que havia encontrado.

Ele serviu duas pequenas doses e voltou até mim me entregando uma delas.

-Eu não sabia que gostava de coisas doces, Kakashi; trocei com ele bebericando minha bebida. Para a grande maioria dos homens coisas doces eram coisas de mulher.

Kakashi tomou sua dose num único gole, como se sequer tivesse ouvido meu comentário.

-Kanpai!

-Kanpai!

Eu o imitei e ingeri minha dose de licor de uma só vez também sentindo o seu gosto incrivelmente doce tomar conta de todos os meus sentidos.

-Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim, Sakura; ele murmurou sério, como se só agora pensasse no que eu havia lhe dito.

-Coisas que queria poder descobrir; respondi e mais uma vez o silêncio reinou entre nós.

-Não há nada de interessante para descobrir, acredite; ele por fim murmurou se recostando preguiçosamente contra o sofá.

-Ao contrário; murmurei procurando algum vestígio de informação no rosto dele. –Há tanto, tantas coisas que eu gostaria de lhe perguntar; completei.

-Pergunte.

-Como disse? –eu me surpreendi com aquela resposta direta vendo-o se endireitar no sofá.

-Pergunte o que quiser saber, Sakura; completou Kakashi.

-Qualquer coisa? –indaguei esperançosa e sem conter o sorriso.

Uma chance como aquela? Certamente era uma em um milhão! Era melhor aproveitar antes que ele mudasse de ideia.

-Qualquer coisa; respondeu-me Kakashi e então ponderou. –Bem, qualquer coisa que não seja imprópria para a sua idade é claro.

-Baka! –corei e ele riu. De novo aquela história de idade? Quantos anos ele achava que eu tinha? Cinco?

-O que quer saber, Sakura? –ele me incitou a continuar como se soubesse que eu estava adiando o momento. –Bom eu calço quarenta e dois e costumo usar cuecas do tipo...

-Kakashi? –eu intervi mais uma vez entre envergonhada e irritada. –Não é esse tipo de coisa que eu quero saber, entende?

-É claro que entendo, mas... Primeiro você me diz que tem curiosidade em me perguntar inúmeras coisas e então se cala; ele respondeu dando de ombros.

-Ok; suspirei pesadamente.

Ele tinha razão.

Eu havia começado aquela conversa e, agora, quando ele finalmente me dava total acesso para adentrar aquele mundo de mistérios, eu me continha? Havia muitas coisas que eu queria poder lhe perguntar, mas agora, diante dele, eu simplesmente me acovardava. Era como se parte mim ainda quisesse manter aquele segredo.

-Bem; eu ponderei. –Por que você usa máscara? Eu já pensei nisso milhões de vezes e nunca encontrei uma resposta verdadeiramente satisfatória para isso; completei.

-Acho que eu já te expliquei isso uma vez, Sakura.

-Não, não explicou; rebati apontando acusadoramente para ele. –Os motivos idiotas que você me deu não contam! Medo de gripe? Ah, fala sério Kakashi! –revirei os olhos.

-Ok, você tem razão; eu o ouvi murmurar, mas me surpreendi com o tom sério que ele tomou. –Meu pai.

-O que disse? –ajeitei-me melhor no sofá buscando seus olhos.

-Uso máscara por causa do meu pai; disse-me um Kakashi tão sério que eu quase me arrependi de ter-lhe feito aquela pergunta.

-E por quê? –indaguei temerosa.

-Por me parecer com ele; Kakashi me respondeu com simplicidade. –Você deve conhecer a história do famoso Canino Branco de Konoha, não? Pelo menos parte dela, a mesma que fez Chyo-baa-sama me atacar em Suna assim que me viu?

-Sim, mas; eu mais uma vez ponderei diante da reação inesperada dele. –Seu pai foi famoso, porque você teria vergonha de se parecer com ele? –completei.

-Porque ele foi o homem que foi tachado como lixo depois de falhar em sua última missão. O homem que falhou porque tentou salvar seus companheiros. E o mesmo homem que depois se matou por não suportar tamanha pressão.

Ao fim das palavras dele um enorme silêncio se fez presente. Aquela realmente era uma parte da história do Canino Branco que eu não conhecia. Eu sabia que a vida de Kakashi havia sido sempre um mistério, que a parte pública dela envolvia seus feitos grandiosos como ninja, mas eu nunca pensei que um drama pessoal como esse fizesse parte dela.

Por isso a necessidade de se esconder, de tentar provar ser mais que o filho do famoso e também recriminado Canino Branco. Ele precisava ser reconhecido por seus feitos e não por se parecer com o pai. Precisava encontrar o seu lugar num mundo que aparentemente o havia excluído pelo "erro" do pai.

-Eu precisava me desvincular da imagem do meu falecido pai, entende? –ele continuou como se tivesse lido meus pensamentos. –A maneira mais fácil para isso era esconder o que faria as pessoas se lembrarem dele ao olharem para mim.

-Kakashi; eu suspirei pesadamente. –Eu realmente não entendo porque você se sente envergonhado com tudo isso. Quando ainda éramos gennins, você nos ensinou que aqueles que não se preocupam com seus amigos é que são considerados lixo. Foi exatamente isso o que o seu pai fez, salvou seus amigos; completei confusa.

-Foi sim, mas você se recorda do que eu também lhes disse aquele dia? Que há muitos anos atrás um amigo meu havia me ensinado isso? Obito. Antes de conhecê-lo eu não sabia o quanto isso era verdade e por isso mesmo odiava meu pai e o que ele havia feito.

Havia sido coisa demais em tão pouco tempo e com uma única pergunta, mas eu ainda tinha dúvidas.

-Então por que ainda continua usando a máscara? –indaguei e ele riu, um sorriso triste.

-Charme? –ele indagou tentando parecer engraçado. –Não sei, sinceramente eu não sei, Sakura. Talvez por comodidade; completou Kakashi.

Eu queria lhe perguntar sobre o tal Obito, o amigo que havia lhe ensinado aquilo, mas decidi que ficaria para outra hora. Jamais desejei aquela atmosfera tensa entre nós dois. E a melhor forma para isso era mudar o rumo da conversa, para algo mais idiota e informal possível.

-Ok. Vamos a segunda pergunta então.

-Você tem mais? –ele indagou surpreso. –Quantas?

-Muitas; eu sorri vendo-o sorrir de volta. Olhei para os lados em busca de inspiração para continuar e tão logo me deparei com a estante cheia de livros. –Por que você lê esses livros idiotas, Kakashi?

-Não são livros idiotas, Sakura; ele me respondeu fazendo uma careta desgostosa do tipo: você não sabe o que está falando.

-São pornografia barata; torci o nariz.

-São romances, Sakura. Ro-man-ces; Kakashi discordou soletrando a palavra romance demoradamente como se assim me fizesse entender o seu gosto duvidoso quando se tratava de leitura.

-Dá no mesmo; dei de ombros e ele voltou a discordar.

-Você sabe o que é um romance, Sakura?

-Duas pessoas se pegando? –arqueei a sobrancelha e ri alto quando ele franziu o cenho.

-É, tem isso também, mas antes disso tem toda uma história; Kakashi bufou aparentemente cansado em tentar me explicar. –Toda uma história, um enredo onde...

-Onde tudo termina com duas pessoas se pegando! –eu o cortei mais uma vez rindo com a expressão contrariada dele. Kakashi gesticulava poeticamente como se tentasse enfatizar suas palavras. –É sempre assim, termina exatamente assim, Kakashi; completei.

-Ok; ele suspirou cansado e se recostou no sofá. –Você venceu Sakura! Próxima pergunta.

-Espera! –foi a minha vez de me acomodar melhor no sofá. –Você ainda não me respondeu. E o que eu quero saber é porque você lê esses livros idiotas.

-Um... Vício?

-Uma tara talvez; revidei.

-Sakura.

-Eu acho esses livros ridículos Kakashi, de verdade; completei rindo.

-Talvez eu me sinta menos sozinho junto deles enquanto leio; pela primeira vez o que ele me disse chamou a atenção.

-Você se sente sozinho? –indaguei mirando sua expressão distante.

-Na maioria das vezes sim; Kakashi me confirmou sincero e então fitou a prateleira de livros. –Acho que mergulhar num universo diferente, ainda que fictício, viajar junto dos personagens e participar de suas vidas, faz com que a minha vida seja menos solitária. Quando estou lendo sinto-me parte de algo, ainda que como um telespectador passivo. Rio e coisas bobas, choro com o pesar e os infortúnios de outras vidas e...

-Você chora lendo esses livrinhos fajutos, Kakashi? –eu interrompi o relato sério dele, simplesmente não resisti. Ele realmente levava aqueles livros idiotas tão a sério?

-Choro, rio, e até...

-E até? –eu o instiguei a continuar.

-Até mesmo aprendo com os personagens. A gente realmente aprende muita coisa lendo, Sakura; Kakashi me explicou com simplicidade.

Eu que até então ria corei até a raiz dos cabelos. Aprender com o Icha Icha? Percebendo o rumo de meus pensamentos ele riu. Seus lábios se curvaram naquele sorriso cafajeste e eu senti vontade e enfiar a cabeça num buraco bem fundo.

-Certamente que não esse... tipo de coisa, Sakura. Esse tipo de coisa a gente aprende na prática; Kakashi completou numa sonora gargalhada.

-Pervertido! –eu o acusei desviando o olhar. Sentia minha garganta seca e aquele frio estranho no estômago. Minha face queimava feito ferro em brasa. –Quem disse que eu estava pensando nesse tipo de coisa, hã?

-Estava na sua cara; ele voltou a rir divertido.

-E eu tenho cara de pervertida, é? –retruquei irritada.

-Não. Você tem cara de; ele ponderou aproximando-se de mim e me mirando por um bom tempo. –Cara de garota curiosa!

Ele bagunçou o meu cabelo e então se afastou recostando-se novamente no sofá.

-Eu não sou uma garota, Kakashi.

-Eu sei.

Mais uma vez silêncio.

-Então por que você faz questão de me dizer que continuo sendo uma criança? –indaguei irritada com a insistência dele naquilo. –Por que você insiste em fazer de conta que nada aconteceu?

-Sakura.

-Por que você insiste em agir como se aquele beijo jamais tivesse acontecido?

Eu havia suportado tempo demais, já não aguentava mais guardar aquilo só para mim. Ele precisava saber o quanto aquilo havia mexido comigo e eu precisava saber o que aquilo havia verdadeiramente significado para ele.

-Que beijo?

-Não se faça de desentendido, Kakashi! –eu o acusei com o dedo em riste. –Você sabe muito bem do que eu estou falando, daquele dia quando você me salvou em Suna.

-Aquilo se chama respiração artificial, vulgarmente conhecido como respiração boca a boca. Acho que você, como uma nin-médica, sabe melhor do que ninguém como funciona esse procedimento, Sakura.

Eu realmente queria e muito socá-lo naquele instante. O tom dele era desprovido de qualquer emoção.

-Exatamente por isso é que eu sei que o que você fez depois não foi um procedimento médico. Você me beijou, Kakashi; sentenciei irada.

Kakashi se desencostou do sofá e então se aproximou até ficar perto o suficiente, o suficiente para eu poder julgar perigoso. Pude sentir sua respiração quente contra a minha, mas não desviei meus olhos dos seus.

-Você não sabe o que é um beijo, Sakura.

Kakashi finalmente se afastou sem ao menos perceber a tamanha revolução que causava dentro de mim. Uma parte de mim queria socá-lo por ser tão cretino e outra parte desejava ardentemente me jogar em cima dele e beijá-lo. Era como se com aquelas palavras ele estivesse me prometendo um mundo de sensações que eu sequer conhecia. Aquele era o jogo dele? Atiçar e então fugir?

-Acho que já está ficando tarde, Sakura; ele murmurou sem qualquer emoção buscando o relógio na parede, um relógio que não estava funcionando.

Ele ia mesmo me expulsar dali? Depois daquela promessa velada de que tinha muito mais a me oferecer? O que mais eu tinha que fazer para aquele homem entender porque eu havia vindo até ele?

Sem pensar, eu me aproximei e o beijei. Segurei seu rosto com ambas as mãos e colei minha boca na dele. Pressionei os lábios quase que com fúria sobre os dele, como se quisesse castiga-lo, mas ele sequer se moveu. Seus lábios quentes se mantiveram imóveis, assim como o resto do seu corpo. Ele não me abraçou, não acariciou meus cabelos e nem me motivou a continuar. Decepcionada eu me afastei dele e me sentei sobre as próprias pernas.

Ele me mirou em silêncio por alguns segundos. Na certa ele ia me chamar de idiota, não é? Dizer para que eu realmente fosse embora e que nunca mais me serviria álcool. Eu estava fora de mim? Essa seria uma boa desculpa, mas contrariando todo e qualquer pensamento que eu tivesse naquele momento, ele se reaproximou de mim.

Kakashi abandonou aquela atitude apática e se aproximou. Senti quando os dedos dele se enroscaram em minha nuca e gemi quando o senti puxar levemente meus cabelos para trás. Ele me fitou diretamente nos olhos e então os baixou para poder mirar minha boca. Minha respiração se acelerou e eu entreabri os lábios, o que foi a deixa para ele.

Sua boca cobriu a minha, faminta, sedenta, tão sensualmente quanto eu poderia imaginar. Seus lábios macios moviam-se perfeitamente sobre os meus, como se soubessem exatamente como me agradar. Sua língua me pediu passagem e eu a dei, deliciando-me com o quão quente e doce era o seu toque. Eu ainda podia sentir o gosto do licor na boca dele, mas sabia que o prazer que sentia vinha do gosto dele, algo realmente indecifrável e delicioso que se misturava ao sabor da bebida.

Eu não sabia ao certo como corresponder, mas foi mais forte do que eu, puro instinto. Da mesma forma prazerosa eu busquei a língua dele, busquei os lábios dele, beijei-o da mesma forma desesperada que ele me beijava. Minhas mãos rumaram até o pescoço dele e eu o puxei pelos cabelos querendo tê-lo mais perto de mim. Eu o queria grudado em mim, colado, perto o suficiente para que nunca mais o pudesse perder.

Kakashi mordeu, sugou, brincou comigo, e eu gemi de excitação. Jamais havia me sentido assim, como se meu corpo estivesse em brasas e eu não precisasse de absolutamente mais nada para me sentir completa. A contra gosto senti seus dentes mordiscando meu lábio inferior, sugando-os no que seria o cessar daquele beijo e então se afastar.

Abri meus olhos e mirei os olhos preguiçosos a minha frente. Eles tinham um brilho diferente, eram quentes, intensos. Meu coração batia acelerado e eu me sentia parcialmente gélida longe dele. Já estava sentindo falta da deliciosa letargia que ele havia me proporcionado instantes atrás.

-Isso é um beijo, Sakura.

Continua...


N/a: E aí curtiram? Haha não aconteceu o tão esperado POVs do Kakashi, mas acho que compensou, não? Como disse, daqui pra frente a coisa só esquenta... rsrsrs

Não se esqueçam dos reviews, hein?

Ja ne! ^^

Shochu: É um tipo de aguardente, feito de cereais, batata doce, arroz, cevada, bem mais forte que o saquê, de 20 a 25% a mais de teor alcoólico, mas menos difundido.