Olá. Espero que todos estejam bem.
Essa é na verdade a segunda parte do capítulo 11, que eu resolvi dividir por considerar um texto muito denso.
Como uma segunda parte sei que vai soar um tanto quanto sem novidades... Não sei... Espero que não... Espero que gostem e que consigam perdoar o meu espírito totalmente angst desses dias... Eu mesma ando me estranhando.
Agradecimentos sempre:
Lady- Liebe – e suas fantásticas SHORT FICS
Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" que atualizou sua fantástica fic, mostrando um capítulo cheio de poesia. Adorei, amei mesmo. Leiam! Obrigada, amiga pelas reviews.
Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" / "DAROR E MÍRIEL". Mamãe Myri agora deve nos deixar na mão... Acho que vou me oferecer para levar aquela fofura para minha casa com o objetivo de dar tempo para a nossa talentosa escritora escrever. O que vocês acham? Acham que a desculpa cola e que ela vai me deixar carregar aquele anjinho comigo?
Nimrodel Lorellin – " CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Nim, a irmãzinha do meu coração está me deixando na expectativa do que vai acontecer com a MINHA Esperança... Eu quero saber o que aconteceu com ela... eu quero... eu quero... Excelente trabalho, como sempre... Minhas fantásticas crônicas de cabeceira...
Vicky Weasley "BITTERSWEET" Vicky apareceu!!! Está com n problemas, mas está bem e logo vai voltar... Espero que o destino lhe sorria e ela reencontre a paz que precisa para escrever. Nós te amamos Vicky. Não suma!!
Elfa Ju Bloom " ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" Super Ju terminou mais um projeto e já está com outro iniciado. Mas nada de SdA... tsc tsc.. Ju, Ju... e a gente fica aqui na mão... Mas estou sempre acompanhando o que você escreve, senhorita Talento. Não vou deixar nunca. Beijos e obrigada pela review.
Dark Lali "NARN VENDENIEL". Outra de quem queria notícias.
Kika-Sama "APRENDENDO" outra...
Chell1 "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Mais uma...
Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS Mais uma...
Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". A MINHA Estrela ressurgiu (viram como ando possessiva?) Mas ainda não se recuperou. Já mandei minhas ameaças (quero dizer, elogios) formais a essa fantástica escritora e ela já disse que logo nossa Estrela vai voltar com uma nova atualização. Beijos Kiannah. Amo sua fic e você sabe disso.
Soi – "IDRIL NÚMENESS". Super talentosa Soi. Soi não se esqueça de me avisar quando atualizar.... Please. Não recebi notícias suas...
Nanda's Menelin – "UMA HISTORIA MUITO ESPERADA" Nanda? Cadê você?
Regina – "ELDAR E EDAIN", "AS SUAS PALAVRAS" Me mandou uma review que me deixou sem ar. Não sei como agradecer. Como as grandes escritoras conseguem tempo para mim eu me pergunto... Obrigada Regina, de verdade.
Kwannon– "HALDIR E HALETH" Eu li... eu sei que não devia estar dizendo isso... mas eu li... eu li... e vai ser um grande estrondo. Essa fic promete. Obrigada pela confiança Lore.
Lady Eowyn – "OS JARDINS DE ITHILIEN", "TRIBUTO À SAUDADE", "A MELODIA DE ARWEN" E "CENTO E DEZ DIAS O FIO DA ESPERANÇA" Fiquei sem notícias dessa vez. Fico sempre pensando quando um escritor fica em silêncio no que ele devera estar escrevendo...Humm... muito bom pensar nisso, dá grandes expectativas.
Giby, a hobbit – "A MEDALHA" Uma grande escritora, grande amiga e grande colaboradora do grupo. Agora que já elogiei (embora nunca seria o bastante), cobranças. Cadê o capítulo novo??
Amigas...
Syn, the time keeper/Liah Liimatainem – Obrigada pelas reviews. Eu fico muito contente com suas observações. Beijos.
Botori –Obrigada pela review!! Obrigada pelo apoio e por estarem sempre comigo. Beijos
Leka – Leka, agradecimentos especiais. Muito bonito o que aconteceu com vocês... Não consigo esquecer. Obrigada por me contar.
Lali-chan – Lali ainda está sumida...
Phoenix Eldar – Obrigada novamente pela review. Muito bom saber que você está gostando.
Naru-sami – Sua última review foi ótima, atentando para pontos que ninguém tinha reparado. Obrigada.
Pitybe – Mais uma review no grito de novo, Pity! Que bom que gostou da minha Arwen. Obrigada!
Lele – Lele?? Voltou?
Pinkna – Pink está lendo o Destino. Ôba!
Karina – Suas reviews são indescritíveis. Fico feliz por tê-la emocionado mais uma vez. Obrigada.
Denise/Tenira – Obrigada pelas palavras de incentivo. Beijos. Não esqueci da promessa, não pude gravar ainda. Mas vou mandar.
Galadriel/Isadora – Grande e doce Isa. Obrigada pela review.
Belle Malfoy – Sumiu...
Estelzinha Tuk – Apareceu! Que bom! Estávamos com saudades.
Alice – Super beijos
Tata – Que não me deixou e-mail para agradecer a review. Obrigada por ler!! Beijos
Lene – Outra que me anima sempre, cuja satisfação de ter conhecido é imensa. Obrigada pela review.
Gostaria de dedicar esse capítulo a um príncipe pequenino que nasceu há poucos dias, o nosso Rodrigo, filhinho amado da fabulosa Myri e, pelo que meu coração me diz, mais um escritor com certeza. Todas as bênçãos da Terra e do Universo para você tithen-pen.
E também gostaria de dedicá-lo às minhas gêmeas do coração Leka e Botori que me contaram uma experiência bonita que tiveram (como gêmeas que se gostam muito) e encheram meu coração de alegria. Obrigada minha Elladan e minha Elrohir.
Vamos a segunda parte...
Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho ....
Porque cada pessoa é única pra nós,
E nenhuma substitui a outra...
Cada um que passa em nossa vida,
Passa sozinho,
Mas não vai só...
Cada um que passa em nossa vida,
Leva um pouco de nós mesmos,
E nos deixa um pouco de si mesmo...
Há os que levam muito,
Mas não há os que não levam nada...
Há os que deixam muito,
Mas não há os que não deixam nada..
Esta é a mais bela realidade da vida.
A prova tremenda da importância de cada um,
É que ninguém se aproxima do outro por acaso...
(Antoine de Saint-Exupéry)
REENCONTROS
& Mágoas passadas &
Legolas tentou erguer as pálpebras e descobriu que seu olho esquerdo sequer conseguia receber um resquício da luz do lugar. Ele levantou uma mão para tentar perceber como estava o rosto ferido, mas sentiu seu braço ser segurado por alguém.
"Não toque, ion-nin." Veio a voz de Elrond. "Está inchado ainda, muito inchado, procure manter os olhos fechados".
O jovem elfo soltou um suspiro e largou o braço, deixando que o mestre decidisse onde ele poderia voltar a apoiar a mão, já que se sentia tão dolorido a ponto de não saber que parte de seu corpo lhe incomodava mais.
Elrond sorriu complacente. Mergulhando uma gaze em uma mistura estranha e colocando-a com calma por sobre o rosto do príncipe que não pode conter o gemido de dor.
"Eu lamento, criança. Devia tê-lo feito quando você estava desacordado, mas temi que a dor fosse despertá-lo e você precisava do sono da recuperação. Mas infelizmente parece que seu corpo se recusa a manter as pálpebras fechadas por muito tempo, não é mesmo?"
Legolas tentou sorrir, sentindo que seu mestre fazia o mesmo, oferecendo-lhe uma expressão de consternação. Os olhos preocupados de Elrond observavam atentamente os ferimentos, enquanto continuava aplicando as compressas e ouvia os leves gemidos do príncipe.
"Logo vai melhorar." Garantiu o curador, franzindo também o rosto a cada sinal de dor do arqueiro como se fosse sua própria. "Descobri essas ervas há algum tempo e percebo que têm um poder curativo muito eficiente, principalmente para nós."
Legolas acenou com a cabeça, queria morder os lábios para que os gemidos não lhe fugissem pela boca, mas se o fizesse, inchados como estavam, seria a atitude mais tola que poderia tomar. Ele prendeu o ar nos pulmões então, apertando os olhos, para perceber que estes doíam até mais do que seus lábios inchados.
"Ai..." Queixou-se um pouco mais alto dessa vez, sem ter como evitar e sentindo-se a pior das criaturas por não estar suportando uma dor simples como aquela. "Desculpe-me, mestre..."
Elrond voltou a sorrir.
"Desculpe-me, mestre por estar sentindo dor..." Completou pacientemente o lorde elfo, enquanto continuava administrando as compressas no rosto ferido do príncipe. "Desculpe-me por ter me arriscado para ajudar uma vítima indefesa, desculpe-me por não querer vir para casa e acordá-lo. Desculpe-me, desculpe-me..."
O jovem elfo silenciou-se por alguns instantes. Elrond parou o que fazia e voltou a olhar para ele.
"Ainda se lembra do que eu acho de seus pedidos de desculpas, não lembra, criança?"
"Perdoe-me, mestre." Legolas respondeu inconscientemente e Elrond voltou a balançar a cabeça.
"Legolas, desculpas e perdão têm o mesmo significado nessa nossa nova língua." Informou o curador bastante sério agora, voltando a administrar a poderosa erva de cura.
O rapaz baixou os olhos, visivelmente envergonhado. "Parece que ainda sou tão bom em causar problemas e tirá-lo do sério quanto era no passado."
Elrond voltou a parar o que estava fazendo e ficou alguns segundos analisando o rosto do paciente. O olho esquerdo mal abria e o lábio inferior também estava bastante inchado, isso tudo, somado a todos os outros hematomas e as costelas comprometidas, já era no mínimo preocupante, mas havia outros detalhes que também desassossegavam o curador. Legolas não dormira nem até o entardecer e o pouco sono que tivera não fora tranqüilo como deveria ter sido com os analgésicos que tomara. Há tempos ele percebia uma estranha mudança no jovem elfo. Mudança esta que se iniciara com o fato do rapaz, mesmo depois de habituado ao local onde vivia, ainda não ser capaz de dormir o sono élfico, e que se perpetuava nos últimos tempos quando este simplesmente passara a abraçar um silêncio estranho, deixando de lado os questionamentos que sempre fazia e passando a desempenhar um mero papel de ouvinte nos poucos jantares dos quais participava com a família.
Legolas reabriu os olhos ao ver que o curador deixara de aplicar-lhe o medicamento e estava estranhamente silencioso.
"Mestre?"
Elrond suspirou.
"Gostaria que todos nesse mundo fizessem as coisas que você faz para me causar problemas ou me tirar do sério, criança" Disse então, resgatando o último comentário do rapaz, que Legolas julgava sequer ter sido ouvido, enquanto abria um pacote de gazes novas agora. "Vai doer mais um pouco, menino, mas preciso terminar o que já devia ter feito, antes que a inflamação se agrave." Explicou-se o curador, mergulhando o curativo novo na mistura que elaborara.
"O senhor é bom para mim, meu mestre. Sou-lhe grato." Respondeu o rapaz em um tom baixo e sofrido e Elrond franziu os lábios e uniu as sobrancelhas, realmente preocupado. Não gostava do que a voz do príncipe lhe transmitia, sabia o que se passava naquele coração e a grande tolice que era.
"Sabe que não deve se culpar pela preocupação que está despertando no momento." Declarou o curador, demonstrando o quão eficazes ainda eram suas percepções e olhando atentamente nos olhos do paciente agora. "Sabe que essa preocupação origina-se do amor que temos por você. Amor este ao qual sempre fez jus, criança e hoje o faz mais do que nunca."
"Sou-lhe grato." Repetiu apenas o príncipe, baixando os olhos, mas mostrando-se pouco convencido com as palavras a ele direcionadas.
"O que fez teve grande valia, menino." Reforçou Elrond pacientemente agora, na esperança de fazer com que o valoroso elfo voltasse sua atenção para o que de fato acontecera. Depois mergulhou mais uma vez a nova gaze na mistura, aplicando-a com cuidado por sobre o rosto do rapaz, que encheu o peito, parecendo descobrir finalmente uma forma de conter seus lamentos e silenciar-se.
"Certos atos de violência ainda estão enraizados na natureza dos edains." Elrond tentou explicar, lembrando-se inconformado do que Legolas se vira obrigado a tentar impedir. "Atos estes que jamais consegui compreender."
Legolas fechou os olhos, ainda travando seu combate contra a dor enquanto voltava a visualizar a cena e a moça que vira. Sentia-se ainda perdido, incapaz de saber o rosto que sua memória lhe expunha agora era de fato real ou fruto do desconforto de seu sofrimento. Por fim, concentrado como estava na busca de tal confirmação, acabou soltando o ar dos pulmões com um novo gemido, demonstrando depois o descontentamento que isso despertava nele.
Elrond franziu o cenho com a atitude que se repetia.
"Lembra-se do bem que surge do mal?" Ele adicionou a questão cuidadosamente.
"Eu... sei... o que o senhor vai dizer.." Respondeu o arqueiro com dificuldades, tentando prender o ar no peito mais uma vez, ao ver que o curador intentava reaplicar o curativo por sobre seu rosto. Elrond percebeu isso e parou o que fazia, a espera do final da sentença iniciada. "Sobre estar no lugar certo na hora certa... não importa porque razão..." Completou então o rapaz, voltando a esvaziar os pulmões vagarosamente.
"Exato." Sorriu o curador com pesar. "As línguas mudam, mas minhas palavras de consolo parecem continuar as mesmas. Preciso aprender a ser mais criativo."
Legolas balançou a cabeça, enquanto Elrond voltava a sua necessária tortura em forma de gazes e ervas.
"Eu é que preciso aprender..." Buscou dizer o príncipe, retomando sua tentativa árdua de camuflar a dor que sentia. "...a não colocá-lo em situações nas quais se sinta... obrigado a repetir desnecessariamente... ensinamentos que eu... que eu já devia conhecer...."
Elrond balançou a cabeça pensativo, olhos atentos no minucioso trabalho que fazia, tentando ao máximo não causar muita dor, mas vendo-se incapaz. Muito mudara em Legolas nesses anos todos, mas a essência de sua pureza e cordialidade não se perdera com a sabedoria que o rapaz adquirira. Ele então parou por mais alguns instantes. As ervas faziam um bom efeito e o príncipe já conseguia reabrir o olho esquerdo e agora olhava para ele.
"Melhor?" Indagou o lorde elfo.
"Sim. Bastante. Obrigado." Mentiu o arqueiro.
Elrond ergueu as sobrancelhas e suspirou, mas acabou ignorando a resposta para não levantar um argumento inútil.
"Acha que conseguirá dormir? Porque se não o fizer terei que lhe dar um sedativo."
"Sim, mestre. Não se preocupe."
O lorde elfo acenou com a cabeça então, encostando-se na cadeira onde estava.
"Não vai trabalhar hoje?" Indagou o elfo louro ao ver que Elrond não pretendia deixar o local no qual se sentara.
"É sábado." Sorriu-lhe o curador pacientemente.
Legolas fechou os olhos então. Sábado são dias nos quais não se trabalha. Pelo menos a maioria dos membros daquela casa. Outras pessoas trabalhavam. Elrohir, por exemplo, muitas vezes ia trabalhar aos sábados, embora não abrisse a oficina. Ele então se lembrou do gêmeo.
"Elrohir..." Disse quase como se o nome lhe tivesse escapado dos pensamentos. "Onde está Elrohir, mestre?" Indagou olhando para o curador com preocupação. Lembrava-se vagamente de tê-lo visto no carro e de que haviam conversado, mas não conseguia tragar dessa lembrança o assunto que tinham tratado.
Elrond voltou a sorrir. Um sorriso diferente dessa vez, um sorriso que Legolas não compreendeu.
"Está dormindo, acredito eu. Ao contrário de alguém que precisa dormir tanto quanto ele."
"Está ferido? Doente?"
Elrond voltou a desencostar-se da cadeira. Saboreando finalmente o melhor acontecimento dos últimos tempos e que se dera há poucas horas, mas não tivera tempo ou espaço de ser engrandecido como devia. Ele olhou para Legolas com mais carinho ainda. Conhecedor de todas as responsabilidades e contribuições que tornaram aquela cena que vira pela manhã possível e a quem atribuí-las.
"Muito pelo contrário, tithen-pen." Ele disse, fazendo Legolas sorrir e enrubescer com o tratamento que raramente o lorde elfo usava para qualquer um de seus filhos. O curador deslizou então seus dedos suavemente pelas costas da mão que o jovem elfo tinha apoiada no peito. "Ele está se curando."
Legolas soltou os lábios e piscou algumas vezes, mostrando total incompreensão e Elrond subitamente o achou tão semelhante ao menino que ele conhecera há tantos anos. A alguém que, mesmo em sua pouca experiência de vida, já tinha a mente voltada para grandes preocupações. Mas algo definitivamente mudara naquele menino inocente. Algo de fato mudara nele tanto quanto mudara em seus outros filhos, embora muitas vezes o jovem príncipe ainda se parecesse com aquele mesmo elfo teimoso que se julgava o centro de todos os problemas do mundo.
"Senhor, senhor!!" Surgiu a voz de um dos soldados da guarda, retirando o lorde de Imladris da atenção que tinha voltada ao livro que buscava ler.
"O que houve, rapaz?"
"O príncipe Legolas está no estábulo. Lorde Elladan e Lorde Elrohir pediram que viesse chamá-lo."
"Legolas?" Repetiu o curador incrédulo, nem sequer sabia da vinda do rapaz. "No estábulo?"
"Sim, meu senhor." Assegurou o elfo acompanhando seu líder escada abaixo agora. "A patrulha dele parece ter sido atacada, pelo que compreendi."
"Atacada?" Elrond franziu as sobrancelhas;
"Sim."
"Quantos feridos?"
"Não vi ninguém, meu senhor. Apenas o príncipe."
"E o que ele faz no estábulo?"
"Não sei, senhor. Algo a respeito do cavalo que conduzia... Lorde Elladan apenas gritou-me de longe que me apressasse a chamar pelo senhor."
O curador sacudiu a cabeça, dispensando o jovem soldado enquanto se dirigia a passos largos para o estábulo. Ao chegar perto da porta já pôde ouvir vozes que discutiam, argumentavam, mas nenhuma delas pertencia ao príncipe de Mirkwood.
Elrond entrou e pôde ver que várias pessoas se aglomeravam em um dos cantos do local. Percebeu a figura de Glorfindel em pé ao lado de Erestor. Ao redor deles estavam os elfos que trabalhavam ali e dois de seus guardas.
"O que se passa?" Indagou em voz alta, ocasionando assim a saída imediata de alguns dos elfos que estavam em seu caminho.Quando o grupo se dispersou, ele pôde ver Legolas ajoelhado em frente a seu cavalo, os gêmeos estavam cada qual em um dos lados do príncipe.
"Ada!" Disse Elladan erguendo-se, visivelmente aliviado com a chegada do pai. "Ada ele está ferido e não quer sair daqui." Completou o filho em um tom que apenas o pai conseguia ouvir
Elrond franziu mais o cenho, olhando para Legolas, cujo rosto ainda estava voltado para o animal que o trouxera e que jazia agora imóvel no chão, sendo cuidado por Elrochian, o senhor dos cavalos. O príncipe sequer parecia ter notado sua chegada. O lorde elfo pediu espaço e agachou-se ao lado dele envolvendo-o com um dos braços.
"Legolas?"
O arqueiro voltou-se para ele assustado e os lábios de Elrond se desprenderam de surpresa. O rosto do rapaz estava todo marcado, hematomas e escorriações adornavam toda a pele alva da face e pescoço do elfo. Elrond desceu seu olhar em uma busca rápida e viu que a roupa do filho de Thranduil estava coberta de terra, lodo e sangue, sangue escuro e sangue vermelho, sangue fresco.
"Venha, criança." Ele disse apertando levemente os ombros que segurava, seu olhar agravado pela preocupação agora.
Legolas sacudiu instintivamente o corpo. Não queria parecer uma criança teimosa, mas estava desesperado. Sua equipe toda desaparecera na floresta e ele mesmo cavalgara semi-desacordado por tanto tempo que nem se lembrava. Estava surpreso por ver-se às portas de Rivendell, nem imaginava que estivesse tão longe assim do caminho que tomaram.
"Mes... mestre... não... por favor..." Protestou o rapaz forçando o corpo em sentido oposto ao ver que Elrond não tinha intenção de soltá-lo. "Não me toque, minhas roupas estão imundas."
"Legolas, venha. Está ferido e precisa de cuidados."
"Não!" Retorquio o rapaz voltando a apoiar a palma aberta por sobre o animal ferido. "Ele me carregou até aqui, mesmo ferido, me foi fiel mestre. Quero ficar com ele..."
O curador comoveu-se com mais essa prova de afeto e fidelidade do príncipe de Mirkwood. Era de fato um sangue nobre que corria nas veias daquele rapaz, muito mais nobre do que o de muitos elfos puros que conhecera. Demonstrar lealdade para com seus iguais dessa forma já era admirável, mas para com um animal era de fato surpreendente.
"Elrochian cuidará dele, Legolas." Disse em um tom forte, procurando fazer de sua observação mais do que isso. "Agora venha. Seu animal está nas melhoras mãos da Terra Média."
Mas Legolas voltou a sacudir a cabeça teimosamente e Elrond apertou os lábios, ele ergueu os olhos então e encontrou o olhar de Glorfindel, um olhar que não lhe agradou. O louro guerreiro fitou-o, depois voltou-se rapidamente para o príncipe e por último para o animal caido no chão. A mensagem se fazia mais do que clara naquele diálogo sem palavras, uma mensagem que, de certa forma, o príncipe parecia também conhecer, mas estava desesperadamente procurando ignorar. Seu fiel animal estava morrendo.
Elrond buscou a confirmação no amigo Elrochian e o bom elfo, compreendendo bem o que o mestre queria dele, dirigiu-lhe o mesmo ar de consternação que o guerreiro de Gondolin lhe oferecera há pouco. O curador respirou fundo então, voltando a enlaçar o corpo trêmulo do louro elfo a seu lado com um pouco mais de força agora.
"Você vem comigo, criança." Disse enfim e Legolas voltou a estremecer mais com o tom forte e autoritário do lorde de Imladris. Ele se voltou para o sábio mestre e releu a mesma mensagem que sentia vir sendo passada entre aqueles poderosos guerreiros. "Vem comigo agora."
Legolas olhou para o animal mais uma vez e todos os presentes viram o brilho do rapaz desaparecer por completo. Aquela morte simbolizava mais do que a todos parecia. Elrond o apertou em seus braços mais uma vez.
"Mestre..." O rapaz disse com a voz embargada. "Não... não deixe meu amigo morrer... me ajude, mestre."
Elrond voltou a fechar os olhos, atingido em cheio de tal forma que o ar chegara a lhe faltar. Quem era ele para desafiar os designios de Ilúvatar quando o criador já os demonstrava mais do que claros diante de seus mais valorosos soldados? Se Elrochian nada podia fazer a respeito, quem seria ele para tornar diferente o que se fizera mais do que certo?
"Menino..." Elrond tentou explicar, mas só o tom de sua voz já fez com que Legolas apertasse os olhos com tanta força que o curador não acreditou na dor que o príncipe estava tendo que suportar para conseguir obrigar os músculos de seu rosto tão ferido a fazê-lo. Então os reabriu e seus olhos estavam de uma cor que Elrond jamais vira.
"Já que nada pode fazer, meu senhor." A voz do rapaz tornou-se subitamente fria e distante, como se falasse por tras de uma parede sem portas. "Ao menos permita-me ficar com ele até que sua luz se extinga, e permita-me que fiquemos sós."
Elrond voltou a encarar os demais. Erestor baixou os olhos e saiu sem que a ele fosse pedido. Aquela situação era por demais angutiante e, já que sua presença não a alterava em aspecto algum, o bom conselheiro julgou que o melhor a fazer seria ao menos poupar-se de todo aquele sofrimento. Elrochian ainda olhou mais uma vez para seu senhor e amigo, totalmente insatisfeito com o que o príncipe desejava fazer. Elrond conhecia aquele ar do mestre dos cavalos e sabia o que significava. Elrochian julgava que o sacrifício do animal era a mais sábia decisão e não simplesmente sentar-se ao lado dele e prolongar-lhe a dor de forma egoista e cruel. O elfo apertou os olhos angustiado, esperando avidamente que seu senhor levantasse um argumento a favor de sua opinião já que estavam em seu estábulo e cada animal que ali estivesse passava a ser sua responsabilidade. Mas Elrond pôde apenas apertar os lábios e lançar um olhar de desculpas ao velho amigo. Ele não se considerava capaz de oferecer tal conselho ao jovem príncipe, não sentindo o espírito do rapaz como estava, não ao perceber o quanto o menino se apegava àquele único sobrevivente do que fôra sua patrulha. Ele também preferiria acabar com o pesadelo de forma firme, como quem corta uma erva daninha pela raíz, ou a cabeça de uma cobra peçonhenta, mesmo porque os ferimentos de Legolas precisavam ser tratados e o tempo que o rapaz pedia também despertava nele, como curador, a mesma sensação de impotência amargada pelo amigo Elrochian.
"Saiam, por favor." Pediu o lorde de Imladris em um tom forte. Glorfindel balançou a cabeça e saiu sem que fosse necessário um segundo pedido. Elrochian ainda olhou mais uma vez para o mestre, mas, na falta de qualquer outro argumento, obedeceu, seguido dos elfos de seu estábulo. Ficaram apenas Elrond, os gêmeos e Legolas.
"Precisamos ir também, mellon-nin?" Indagou Elrohir, vendo Legolas fechar seus olhos mais uma vez. As pálpebras tremiam mesmo fechadas. Elrohir lamentava imensamente pelo animal do amigo. Apaixonado como era por cavalos podia sentir muito bem o que Legolas estava amargando, a dor que lhe crescia no peito como se não fosse ter fim.
"Por favor..." Pediu o príncipe em um quase sussurro e o gêmeo baixou a cabeça, erguendo-se sem qualquer outro olhar e deixando o local. Elladan acompanhou o irmão com os olhos, estranhando a atitude tão atípica de Elrohir que sequer esperara por ele. O primogênito ainda olhou para o pai, mas Elrond, contrariando tudo o que era esperado de um curador naquele momento, ergueu-se também e puxou levemente o contrariado e confuso Elladan para fora do estábulo.
"Ada... eu não acredito!" Dizia o rapaz ainda se deixando conduzir pelo pai. "Como pode deixá-lo ali? Está ferido e nem sequer sabemos a gravidade dos ferimentos que tem, não sabemos o que aconteceu, que providências tomar... E aquele pobre animal... como vai agüentar..."
Elrond parou diante do grupo de amigos que se reunia agora do lado de fora do estábulo. Incapazes de irem mais adiante, todos, exceto Elrohir que se sentara em uma cerca e apreciava o entardecer com tristeza, tinham estampados em seu rosto o mesmo misto de indignação e preocupação do jovem Elladan.
"Totalmente inadmissível, meu senhor!" Bradou o pobre Elrochian com os olhos negros de fúria. Ele compreendia e respeitava o coração bom do filho do rei Thranduil, mas não podia conceber o sofrimento de uma criatura bela e fiel como aquelas por causa dos princípios estranhos dos elfos silvestres. "Que conceitos confusos esses silvícolas têm?" Atreveu-se a perguntar o indignado mestre dos cavalos. "Não compreendo e não acredito que o vá."
Mas Elrond não teve tempo para responder. Em poucos instantes todos se voltavam para a porta do estábulo, de onde saia a passos lentos, procurando manter-se em pé como podia, o príncipe de Mirkwood. Em suas mãos, um punhal ensangüentado. Elrond deu dois passos hesitantes na direção do rapaz, que agora tinha um olhar totalmente diverso direcionado a ele pelo grupo. Os vários elfos, compreendendo finalmente o porquê das palavras e gestos do jovem da floresta, lamentaram ainda mais pelo já tão abatido príncipe.
Legolas caminhou para próximo deles, o braço esquerdo preso ao tronco, a palma aberta por sobre a lateral que parecia conter um ferimento muito sério, a perna esquerda sendo praticamente arrastada. A mão que segurava a arma tremia, mas ele não se deixou tocar pelo curador dessa vez.
Elrohir saltou da cerca ao ver o rapaz e aproximou-se com olhos compreensivos. Legolas afinou os lábios apertando-os com força quando o amigo finalmente parou diante dele.
"Elrohir..." Ele disse.
"Sim, mellon-nin."
"Por favor..." Ele respirou fundo, buscando administrar a dor que sentia. "por favor... faça com que a grama cresça por sobre ele... permita que haja flores... e não uma montanha de pedras frias..."
Elrohir assentiu com a cabeça, mas a palavras desapareceram de sua garganta antes de serem proferidas. Uma lágrima correu solitária por sobre a face pálida do gêmeo e Elladan, preocupado, apoiou o braço por sobre costas de seu irmão.
"Eu o ajudarei, Legolas." Assegurou o mais velho dos gêmeos. Em seu olhar o constrangimento de quem se antecipa em uma conclusão e descobre o quão errado estava. Seu tom continha mais do que uma promessa de ajuda, continha um pedido de desculpas.. "Não se preocupe."
O príncipe ainda olhou mais uma vez para os dois irmãos tão parecidos e tão diferentes, seus olhos ainda tinham dificuldades de distingui-los, mas seu coração sabia bem da qualidade de ambos e do quanto aquelas qualidades juntas formavam o que ele vira de mais próximo da perfeição em toda a Arda.
"Sou-lhes grato..." Ele disse, baixando finalmente a cabeça, para então permitir que Elrond voltasse a segurá-lo com carinho e o ajudasse como tanto desejava o curador.
Elrond encheu o peito de ar e o manteve cheio assim por alguns instantes, enquanto o final daquela recordação se esvaecia em sua mente. Quantas vezes Legolas ainda o surpreenderia? E, além de tudo, quantas vezes ele e os filhos pareceriam parte de uma mesma família?
"Posso trazer algo para você, criança? Tem fome?" Indagou o curador, sem saber o que perguntar. Queria na verdade que o rapaz dormisse um pouco, mas sentia que com certeza ele não tinha intenção alguma de fazê-lo.
"Sede..." Respondeu o elfo baixando levemente os olhos.
Elrond sorriu.
"Só um minuto."
Ele ergueu-se então, afastando-se em direção a cozinha. E Legolas suspirou, fechando agora os olhos e sentindo-se livre para poder tentar trabalhar a dor toda que estava sentindo. Ele sabia que não devia esconder nada do curador, mesmo porque seria praticamente inútil, mas o pobre Elrond tinha muitos problemas e os dias que se sucediam impiedosamente, não pareciam estar contribuindo para que essa gama de conflitos e preocupações fosse tirada dos ombros do bom elfo.
Alguns poucos minutos se passaram até que no lugar do lorde elfo alguém se ajoelhasse. Legolas voltou a abrir os olhos e conseguiu reconhecer o rosto de Elrohir.
"Oi, elfo valente." Disse o gêmeo com um sorriso.
Legolas tentou sorrir e percebeu o amigo franzir as sobrancelhas. Era evidente o sinal de complacência no rosto do rapaz.
"Onde não dói?" Indagou o elfo moreno com ironia.
"Nos cotovelos?" Riu-se o príncipe e Elrohir o acompanhou.
"Tenho certeza disso." Assegurou o amigo, depois ficou mais sério. "Legolas... eu..."
"Por favor, Ro..." Interrompeu-o o arqueiro, parecendo saber exatamente quais palavras o amigo buscava dizer. E houve um silêncio incômodo entre os dois. Em instantes Elrond surgiu, estendendo um copo e fazendo sinal para que o filho a oferecesse ao arqueiro. Elrohir ergueu os olhos e sorriu e Elrond aproveitou-se para deslizar o polegar pela testa do gêmeo carinhosamente, antes de voltar a se afastar até a janela.
"Quer água, quer, poço louro?" Ele brincou, voltando-se para o amigo que arregalou levemente os olhos erguendo ambas as sobrancelhas, desperto por uma lembrança de muitos anos. Legolas não pôde deixar de rir mais, apoiando agora a mão por sobre a região das costelas.
"Ro, tenha piedade!" Pediu então o príncipe, encostando levemente o rosto nas costas do sofá.
Elrohir lançou-lhe um sorriso irônico, passando com cuidado a mão por sobre a cabeça do amigo e ajudando-o a erguer-se tempo o suficiente para beber a água, fazer uma careta estranha e volta a se deitar.
"O que foi? Não desceu bem?" Ele indagou sorrindo.
Legolas balançou a cabeça, olhando agora para Elrond, que retribuiu o olhar de onde estava mesmo e ofereceu-lhe um sorriso sereno, voltando a observar a janela.
"Acho que meu mestre quer me fazer dormir." Sorriu o príncipe com um suspiro.
Elrohir voltou-se para o pai, depois olhou o restante do conteúdo do copo pensativo. Em seguida riu mais um pouco, repetindo a atitude anterior, para que o elfo bebesse o resto do medicamento. Legolas virou o rosto com um sorriso.
"Pare, Ro. Esse remédio é horrível." Queixou-se o príncipe, quase encostando a face no sofá para fugir das investidas do amigo e seu copo.
"Não me faça fazer uma cena, elfo bobo." Ameaçou o gêmeo ainda sorrindo.
Legolas voltou-se então para ele e ambos estagnaram-se, presos em uma mesma lembrança. Então Elrohir suspirou, encostando em seguida o copo nos lábios inchados do príncipe. Legolas, ainda incerto se a lembrança levantada era doce ou amarga ou ambos, acabou aceitando a oferta. Dormir um pouco não seria nada mal.
Outro momento de silêncio se fez. No qual o gêmeo apenas ficou ajoelhado onde estava, percorrendo traço por traço as feições do amigo, enquanto deslizava seus dedos pelo cabelo desfeito do elfo. Legolas olhava para ele com curiosidade, algo parecia diferente no sempre tão amargurado Elrohir.
"Lorde Elrond disse que você estava dormindo." Afirmou finalmente o príncipe, sentindo a dor em seu corpo aplacar-se um pouco com o medicamento recebido.
Elrohir voltou a olhar nos olhos do arqueiro, um ar triste tomou-lhe a face.
"Legolas... eu... eu sinto..."
"Não, Ro." Interrompeu-o bruscamente o arqueiro.
"Las..."
"Não... Por favor... não me diga nada triste," Ele suplicou fechando os olhos agora. "Não quero vê-lo triste hoje... Eu estou... Eu não... não quero chorar..." Ele admitiu em voz baixa, sem entender porque dizia aquilo com tal convicção, porque dizia aquelas coisas como se sentisse que apenas Elrohir as compreenderia. "Na verdade." Ele desconversou, pensando em uma desculpa, algo convincente. "Meu rosto todo está doendo e eu não sou capaz de rir ou chorar... Sinceramente...até para respirar já me dói."
Elrohir sorriu com indiscutível amabilidade.
"Posso lhe dizer então algo que não vai te fazer chorar ou rir?"
Legolas voltou a olhar o amigo intrigado. Elrohir guardava um estranho sorriso no rosto, que o fazia lembra-se do oscilar das suaves cortinas de seu quarto. Estranha associação de paz, ele ainda pensou, enquanto assentia com a cabeça como resposta.
"Eu..." Tentou dizer o gêmeo, depois deslizou nervosamente a mão no próprio peito. Legolas olhou para ele com atenção, e só então percebeu que o amigo não estava com sua camiseta preta habitual, ele vestia uma camiseta azul clara, da cor do céu, que fazia com que seus olhos, sempre tão escuros, ganhassem um tom muito parecido com os do pai. Legolas fixou-se naquele azul, lembrando-se que sempre fora uma cor que os gêmeos adoravam. Em cada festa eles costumavam vestir diferentes tonalidades de azul.
O príncipe franziu levemente a testa. Pensando em uma possibilidade que lhe parecia improvável demais, agradável demais para ser verdadeira. Mas o sorriso leve de Elrohir, o olhar que recebia do gêmeo agora, pareciam desenhar-lhe a mesma verdade com todas as cores e tons.
"Ro... você... você e seu..." Ele quis perguntar, mas como fazê-lo sem criar uma situação desagradável se estivesse enganado?
Mas Elrohir sorriu, mostrando os dentes muito brancos, um sorriso sincero que há muito não via no amigo. E os olhos do gêmeo brilharam em uma mistura estranha de alegria e esperança que fez com que Legolas também sorrisse, completamente esquecido das dores que isso lhe causava.
"Eu estou inteiro de novo, Las." Disse o gêmeo ainda com a mão por sobre o peito. "Estou inteiro de novo, gwador-nín."
Legolas alegrou-se profundamente e o mundo inteiro converteu-se em um momento de infinita paz. Ele nem sequer quis perguntar como tudo se dera, nem quis perguntar o que seria desse tudo agora. Ele sequer queria respirar, julgando aquele instante de imensa alegria, tão frágil que qualquer brisa pudesse carregá-lo para longe.
Elrohir aproximou seu rosto do amigo um pouco mais, deslizando a ponta dos dedos pela testa dele agora. Legolas estava tão feliz que o gêmeo podia sentir. Estava tão feliz quanto ele e lhe sorria mesmo com o rosto distorcido pelos inchaços e hematomas do castigo não merecido que levara. O gêmeo não pôde acreditar na bondade que habitava o coração daquele elfo que sempre lhe parecera tão frágil, mas que já se mostrara, diversas vezes, parecer ser feito do mais puro aço.
"Estão em paz então." Concluiu finalmente o príncipe, apoiando agora a mão por sobre a que repousava no peito do amigo.
"Estamos." Disse Elrohir. "E você é em grande parte responsável por isso, Las."
O rosto do príncipe perdeu o sorriso então.
"Eu não quero ouvir isso, Ro." Ele disse.
Elrohir franziu o cenho.
"Ouvir o quê? Ouvir a verdade? Você me ajudou Las. Me mostrou coisas que eu não queria ver... Contou a verdade que eu não pude contar a Elladan... Você foi mais corajoso que eu e eu não poderia..."
"Pare, por favor!" Interrompeu-o o príncipe apoiando os dedos por sobre os lábios do amigo. "Pare de me dizer essas coisas."
Elrohir não entendeu. Os olhos de Legolas agora estavam tristes e brilhantes. O que ele teria dito de errado?
"Las... " Ele disse, segurando a mão do amigo nas suas. "Por que? Por que minhas palavras te ferem?"
Legolas suspirou. Ele não parecia zangado, apenas entristecido e o elfo moreno não conseguia entender o porquê.
"Las... O que eu disse?"
"Nada..." Respondeu o elfo louro com um novo suspiro. "Só que..."
"Só o quê? Só o que, mellon-nin?"
"Me tira as esperanças ouvi-lo dizer tais coisas..."
Elrohir franziu ainda mais o cenho, apoiando agora uma palma inteira por sobre a testa do entristecido amigo.
"Como assim? Não entendo."
Legolas baixou os olhos, desviando-os para o nada que parecia contemplar. Depois voltou a olhar o gêmeo com carinho.
"É bom ter esperanças, Ro." Ele disse. "Ter esperanças que o destino pode conspirar a nosso favor e que as coisas podem se resolver do nada, quando a gente menos espera. Há pouco, quando meus olhos encontraram os seus, você ainda era o Elrohir sozinho e infeliz que eu conhecia, mas era ilusão, porque algo havia lhe acontecido, algo inesperado lhe trouxera a alegria..."
O gêmeo torceu os músculos do rosto no desconforto evidente de quem não está compreendendo o que ouve. Legolas esvaziou os pulmões com mais força, como se tentasse expelir mais do que o ar de dentro deles.
"E se não houver ninguém para nos ajudar?" Ele indagou por fim, seus olhos voltados para o nada, como se conversasse consigo mesmo. "É bom ter esperanças de que possamos sair de uma situação difícil resgatados pela própria mão de Iluvatar... Porque... porque às vezes pode ser a única chance que temos... a única ajuda com a qual podemos contar..."
Elrohir sentiu um grande calafrio ao ouvir tais palavras e naquele instante ficou mais claro do que nunca que Legolas escondia-lhe algo, algo que ele não estava disposto a revelar nem agora e nem nunca. A princípio o gêmeo pensou que tais palavras fossem reflexo da tristeza que o rapaz sentia por estar só, sem sua família ou esperanças de revê-los, mas parecia haver algo mais.
Legolas voltou-se para o amigo então e fechou os olhos para reabri-los em poucos instantes.
"Agora sou eu que lhe roubo a alegria." Ele disse por fim. "Viu? Não posso ser responsável pelo que lhe aconteceu... Não posso ter parcela alguma de crédito... Vocês voltaram a ser um só porque era assim que deveria ser... Era o que mereciam para si... Mereciam se lembrar da verdade da qual fugiam... E era só isso que lhes faltava... mas era muito... Era tudo o que lhes faltava..."
O gêmeo afastou-se um pouco, sentando por sobre os calcanhares e ficando em silêncio. Ele queria argumentar, mas não sabia o que dizer.
"Não me atribua mais valor do que tenho, mellon-nin." Disse por fim o arqueiro fechando os olhos e não mais os reabrindo. "Já basta Estel a fazê-lo... Já basta ele... Mas ele precisa ter mais sustentação em sua fé... Precisa sustentá-la em algo mais sólido por um tempo... Você não... você não precisa."
E dizendo isso Legolas pendeu devagar a cabeça para o lado e soltou mais um leve suspiro, desprendendo os lábios e adormecendo. Elrohir apertou o maxilar nervoso, insatisfeito com a conversa que tivera, sentindo o coração deveras preocupado. Ele apoiou a mão do arqueiro por sobre o sofá em uma posição que julgasse confortável e puxou um pouco mais os lençóis. Em seguida ergueu-se encontrando os olhos do pai a observar a cena.
"Alguma coisa está errada, não está, ada?" Ele indagou apreensivo.
Elrond olhou para o filho com carinho, depois se voltou para o elfo no sofá. Sim. Algo de fato estava errado. Algumas peças de um confuso quebra-cabeças pareciam estar desaparecidas e estavam fazendo uma grande falta.
& Espelho &
Legolas reabriu os olhos e surpreendeu-se em ver que já amanhecia o dia. Não acreditara que conseguira dormir por tanto tempo. Ele piscou algumas vezes e percebeu que seu rosto já estava bem melhor, completamente desinchado, embora doesse um pouco ainda. Voltou-se então e viu que alguém dormia no chão a seu lado, apoiado em uma simples almofada por sobre o tapete e reconheceu os fios escuros dos cabelos de Elrohir.
"Não acredito." Disse o rapaz em um tom quase inaudível. Um novo sorriso em seus lábios. "Depois eu é que sou o elfo bobo." Ele disse deslizando devagar os dedos pelos cabelos do elfo adormecido.
"Ele não queria deixá-lo sozinho." Veio a voz de Elrond. Legolas virou o rosto e pôde ver o curador vindo da cozinha com uma xícara de café nas mãos e um sorriso nos lábios.
"E o senhor? Dormiu?" Indagou o arqueiro, enquanto o mestre se sentava em uma cadeira próxima.
Elrond não respondeu, seus olhos analisavam o rosto do paciente.
"Está com um aspecto bem melhor agora." Disse com satisfação. "Apenas hematomas, mas nenhum inchaço."
Legolas sorriu.
"Obrigado. A erva realmente é uma grande descoberta."
"Sim. Essa erva e a outra que lhe ofereceu um pouco de sono forçado, não é rapazinho?" Veio então a voz suave de Celebrian que se encostou atrás do sofá e sorria para ele, ajeitando-lhe os cabelos desfeitos. "Você precisa dormir mais do que dorme e sabe disso. Acho que vou lhe dar esse remédio todos os dias para que durma tanto quanto dormiu hoje."
Legolas não pode evitar uma careta de repulsa ao se lembrar do sabor amargo do líquido que bebera e Celebrian riu baixinho com a ponta dos dedos por sobre os finos lábios.
"Aprenda a relaxar e dormir então se não me quer ver temperando sua comida com essa erva de sono." Brincou a elfa apoiando o indicador levemente na ponta do nariz de Legolas e sorrindo.
O elfo sorriu de volta, acenando a cabeça com forçada veemência.
Elrond olhava para ele com satisfação. O príncipe parecia ter acordado bem melhor. Ele cruzou os braços, apreciando a cena da esposa que ainda provocava o rapaz dizendo-lhe mais alguns gracejos e roubando-lhe risos. Legolas ainda apoiava protetoramente uma das mãos nas costelas para rir, sinal evidente de que a dor não o abandonara completamente, mas mesmo assim o lorde elfo permitiu que Celebrian ainda o provocasse mais um pouco. Era de fato muito bom ouvir aquele riso tão pouco freqüente ultimamente.
Elrohir despertou com a pequena cena que os outros elfos faziam e sorriu também, vendo a mãe passar carinhosamente os dedos pelas mechas douradas do arqueiro.
"Veja só quem acordou." Brincou Celebrian olhando agora para o gêmeo mais novo que esfregava os olhos. "Lembrando os tempos dos acampamentos e patrulhas, ion-nin?" Ela indagou.
Elrohir riu, totalmente encantado pela imagem que a mãe puxara da memória de ambos. Lembranças de tempos distantes.
"Nada." Disse o rapaz cruzando as pernas e sentando-se onde estava. "Nem havia tapetes e almofadas e dormíamos sempre pensando que acabaríamos acordando com o punhal de uma daquelas criaturas nojentas em nossos pescoços." Ele completou com uma expressão de total desgosto no rosto.
Celebrian baixou os olhos por alguns instantes. Amargando ela mesma lembranças que gostaria de esquecer. Viver na Terra Média Renovada tinha suas vantagens. Ela até pensou, mas depois se voltou para Legolas e lembrou-se do porquê do rosto do rapaz estar como estava e só pôde negar também o último pensamento e voltar a balançar a cabeça.
"Parece que esse chão só muda de aspecto, não é mesmo?" Ela brincou, dirigindo-se para a cozinha. "O que impera sobre ele não o abandona nunca."
Elrohir pressionou os lábios fechados ao ouvir as palavras da mãe que, mesmo em tom de brincadeira, traduziam uma grande verdade.
"Nem vou te responder isso." Ele disse procurando afastar os maus sentimentos que estavam em seu coração. "Você ainda não me serviu um café fresco."
A bela elfa olhou o rapaz com o canto dos olhos e Elrohir lhe ofereceu um riso matreiro, que desfez todos os protestos da mãe. Ela apenas sorriu de volta, um sorriso de satisfação agora, mas nada respondeu, limitando-se a entrar na cozinha.
O elfo moreno suspirou então
"Domingo." Ele disse olhando em direção da janela aberta. "Pelo menos não está chovendo."
"Vai trabalhar hoje, ion-nin?" Indagou o pai.
Elrohir sorriu.
"Não. Não vou." Ele respondeu categórico. "Dan vai me levar em um lugar. Mas ele não me disse onde é..." Confidenciou o gêmeo olhando agora alternadamente para o pai e o amigo em uma disfarçada empolgação. "Mas eu já disse para ele que se sentir o cheiro de algum medicamento ele vai voltar todo roxo."
Legolas riu agora, satisfeito por de fato não ter sonhado a conversa que tivera com o amigo. Então era verdade, os gêmeos eram uma dupla de novo.
"Vão passar o dia fora." Indagou Celebrian voltando da cozinha com duas xícaras.
"Não sei. Acho que sim." Respondeu o gêmeo aceitando a que lhe pertencia com um sorriso e observando enquanto Celebrian dava novamente a volta no sofá para entregar a Legolas a que lhe cabia. O arqueiro agradeceu, erguendo a cabeça o suficiente para que a boa senhora apoiasse uma almofada nas costas dele, a qual lhe ofereceria o apoio que precisava para ficar com o tronco mais erguido.
"Então acho que deve ir se arrumar." Disse a mãe com um olhar sereno. "O sol já surgiu no horizonte há tempos."
Elrohir assentiu com a cabeça, terminando rapidamente o café, depois olhou mais uma vez para Legolas, que apreciava o seu a goles pequenos, provavelmente lidando ainda com os lábios doloridos.
"Você vai ficar bem, mellon-nin?" Indagou com um olhar preocupado.
Legolas voltou-se para ele por meros segundos, depois continuou a soprar o conteúdo da xícara displicentemente com um pequeno sorriso. Elrohir soltou um riso zombeteiro.
"Está quente..." Defendeu-se o arqueiro como resposta a provocação implícita naquele sorriso. "Minha boca ainda dói."
Elrohir riu novamente e estalou os lábios no mais provocativo deboche.
"Não diga, elfo bobo! Põe um cubo de gelo nesse café preto dele, ada!" Brincou o gêmeo olhando agora para o pai.
Mas Elrond não lhes dava mais atenção. Ele mantinha um olhar admirado direcionado para o corredor. Elrohir franziu a testa e se voltou para encontrar uma visão que não esperava. Em pé, encostado na parede do corredor estava o irmão Elladan. Elrohir piscou ainda algumas vezes, acreditando que estava tendo um sonho estranho, depois se ergueu devagar, a cor fugira-lhe completamente do rosto.
"Dan..." Ele disse com uma voz trêmula. "O que você fez?"
O irmão sorriu timidamente e se aproximou devagar, enquanto Elrohir erguia uma das mãos em sua direção.
"Não... não acredito..." Completou o gêmeo mais novo escorregando os dedos pelos cabelos do irmão, agora tão curtos quanto os dele. "Por... por que... por que você fez isso?"
Elladan encheu o peito de ar e tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi apertar os lábios nervosamente.
"Por que, Dan?" Insistiu o mais novo com os olhos úmidos.
Elladan baixou o rosto enfim, incapaz, como poucas vezes, de encarar uma pergunta direta do gêmeo.
"Porque... porque eu... eu quero meu irmão gêmeo de volta." Ele admitiu por fim.
Os lábios de Elrohir tremeram e ele franziu o rosto todo em uma dor evidente. Lamentava imensamente o que compelira o irmão a fazer e nunca em sua vida imaginara-o capaz de tamanho sacrifício.
"Eu sou mesmo um idiota." Ele disse sacudindo a cabeça. "Olha o que eu te fiz fazer..."
Elladan franziu a testa, depois segurou o irmão pelos ombros.
"Olhe, Dan!" Lamentava-se o rapaz ainda sacudindo a cabeça. "Olhe o que eu fiz para com você!"
"Ro... Ro, não... não faz mal..." Tentou dizer o mais velho, apertando um pouco mais os dedos nos ombros do irmão.
"Como pode querer fazer as pazes comigo? Como pode?"
"Ro... não fique assim, toron-nin." Pediu o irmão. "Vai crescer de novo..."
Elrohir então parou de se debater e seus olhos reencontraram os de seu gêmeo. Tanto ele quanto Elladan tinham lágrimas a escurecer as agora acinzentadas órbitas. Estavam tão parecidos. E Elrohir percebeu-se não olhando mais para Elladan, mas olhando para si mesmo, como sempre fazia, como sempre fora, quando eles sequer usavam um espelho.
"Não vai, Ro? Vai crescer de novo..." Elladan repetiu a pergunta, com um leve sorriso a embelezar-lhe o rosto triste, enquanto ajeitava alguns fios do irmão para que ficassem na mesma posição que os dele estavam. E Elrohir entendeu o porquê de todo aquele sacrifício que o bravo Elladan estava se impondo. Ele entendeu o quão profundo era aquele "querer meu gêmeo de volta". Ele não apenas "queria" ele estava fazendo o que podia para que aquele querer fosse de fato possível.
Não vai?" Elladan repetiu uma última vez. Os olhos úmidos enquanto apertava o maxilar, esperando por uma resposta que parecia ser muito importante.
E Elrohir sorriu um sorriso diverso agora ao qual seu gêmeo imediatamente acompanhou. Espelhos de um mesmo afeto. Entregues novamente a alegria do ser todo, porém também ser parte. Entregues a alegria dessa segunda chance.
"Vai, não vai?" Repetiu o primogênito com um sorriso agora.
"Vai..." Respondeu rapidamente o mais novo. "Nós vamos deixar que cresça de novo."
