- Como pode uma mãe ser castigada de forma tão cruel?! Os céus são testemunha do meu sofrimento! – Felicia falava com um tom de voz firme enquanto lia as suas falas em um pedaço de papel.
Jon que estava deitado no sofá. Ele revirou os olhos em um nada disfarçado gesto de irritação. A garota não fazia nada nos últimos cinco dias a não ser treinar para equela maldita apresentação. Já havia falado aquelas falas tantas vezes que ele já as estava decorado.
Felicia deixou o papel de lado e se espreguiçou, cansada. Ela sorriu para ele.
- Esta bom por hoje. Você acha que esta bom Jon? Eu acho que sim, mas... sinto que falta algo... talvez deva virar a noite ensaiando para ficar perfeito.
Pelos deuses não! Pensou ele. Não agüentava mais ouvir aqueles monólogos.
- O diretor disse que eu deveria ser melodramática... acha que estou sendo melodramática? – perguntou ela o olhando com atenção e expectativa.
- Acho que esta sendo meloirritante. Essa mulher só fica se lamentando pelo sumiço da filha. Deveria parar de chorar e agir! Quando chega a hora de resgatar a menina ela vai pedir ajuda ao irmão. Porque não faz logo tudo sozinha?! – ele resmungou - Não suporto pessoas que ficam se fazendo de coitadinhas, e dependendo dos outros para tudo.
Dessa vez foi Felicia quem suspirou.
- O que eu faço para você se tornar um pouquinho mais culto Jon? – perguntou ela com desanimo – você não deveria falar assim dela. É uma deusa – sua voz se elevou em um tom de orgulho - A peça que estou ensaiando conta o mito de Deméter e Persefone. É uma das mais lindas historias da mitologia grega – Felicia deu um sorriso leve encorajador, tentando fazê-lo se interessar pelo assunto - O teatro nasceu na Grécia sabia?
Serio? Bom, agora ele tinha um bom motivo para odiar os gregos. Jon se remexeu no sofá, ficando em uma pose mais confortável.
- Se fosse realmente interessante não teria virado mitologia. – disse ele com descaso.
Felicia suspirou novamente e afastando os pés de Jon se sentou no sofá. Logo que fez isso ele voltou a colocar os pés no colo dela.
- Você deveria trabalhar também Jon. Estamos morando nessa cidade a tanto tempo... – ela o olhou preocupada – como você se sustentava quando viajava sozinho?
Ele riu.
- Como um bom darkstalker Felicia. Eu caçava quando precisava de alimento. Caçava animais – explicou quando ela abriu a boca para protestar – e quanto ao dinheiro... – ele deu de ombros - felizmente neste mundo existem muitos assassinos e ladrões. Quando tem a infelicidade de esbarrar em mim eu os mato e pego seu dinheiro.
Felicia se levantou do sofá tão repentina e tão irritada que derrubou Jon do sofá fazendo-o se chocar no chão.
- Nada mais de agir assim Jon! – exclamou ela autoritária. Parecia que a tal deusa Deméter tinha incorporado em seu corpo, pois agia como uma mãe dando bronca em seu filho – Você vai procurar um emprego Jon Tailban! Um decente que não envolva mortes!
Ele se levantou irritado. Pro inferno com aquele jeito dela. Não recebia ordens de ninguém. Não ia ser uma darkstalker adoradora de humanos que ia começar a fazer isso.
- Olhe aqui Felicia! – gritou ele irado – eu fiz muito mais por você do que já fiz por qualquer um em décadas! – ela se encolheu assustada com o tom dele o que o deixou mais incentivado a continuar – eu me enfiei em ternos apertados! Fui a todas as suas peças chatas! E pior do que tudo eu aturei essa porcaria de seus ensaios todos os dias!
Quando ele viu como ela ficou ao ouvir aquelas palavras desejou não telas dito. Felicia tremia com os olhos encharcados de lagrimas.
- Você... não gosta dos meus ensaios...? – começou a chorar, escondendo o rosto com as mãos.
- Olha Felicia... eu não quis dizer isso... – disse se aproximando, sentindo o peso de suas palavras. Ele tentou consolá-la, mas ela se virou se afastando dele.
Ela o empurrou com violência. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar e ela estava transtornada.
- Seu idiota! – gritou jogando um jarro que teria se quebrado na cara dele se ele não tivesse bloqueado com a mão – bruto! Parasita aproveitador! Mentiroso! – ela jogava mais e mais coisas e Jon recuava, mais por espanto do que por medo.
- Você enlouqueceu?! – perguntou a tempo de desviar de um castiçal dourado que voara na sua direção.
- Não! Eu estava louca por ter gostado de você! Suma da minha casa! AGORA!
Aquelas palavras doeram. Doeram quase tanto quanto a mesa de madeira irlandesa que ela despedaçou em sua cabeça um segundo antes de chutá-lo para fora da casa.
- Maluca! – grunhiu caído de joelhos no chão da rua. A vontade que tinha era de chutar aquela porta e dizer umas verdades pra ela – e você ainda diz que mulheres-gatos são pacificas!? Vocês são uns demônios!
Jon saiu irritado. Andando pela cidade de mal-humor e resmungando consigo mesmo. Foi ate a praia, lá era o local a qual ele mais gostava, era silencioso e solitário e ele achava um bom local para pensar e colocar as idéias em ordem.
Era de manha, o sol porem havia se escondido atrás de uma grossa camada de cinzentas e pesadas nuvens. O clima prometia uma chuva forte.
- Ótimo! Ser expulso em uma manha chuvosa! – reclamou ele irritado – o que mais pode acontecer!?
Ele estava furioso. Queria que algum humano idiota fosse mexer com ele. Seria uma ótima forma de extravasar sua raiva dando uma surra em alguém.
- Cães e gatos... é claro que isso nunca daria certo! Espero que aquele teatro expulse ela!
- Darkstalker. Classe: Lobisomem. Poderes excedem os parâmetros aceitáveis. Iniciando processo de eliminação – ele ouviu uma voz metálica atrás dele.
Jon se virou e se deparando com uma das coisas mais estranhas que já havia visto. Uma criatura de metal, feita de peças arredondadas e amareladas. Saia uma espécie de fogo de suas costas que o fazia levitar.
- Mas que merda é essa...? – Perguntou ele, e logo mais duas coisas idênticas a primeira surgiram. Os três golens de metal estenderam seus braços na direção dele e como por mágica eles mudaram de forma se transformando em algo que pareciam três canos. Os instintos de Jon diziam que aquilo era uma arma, e os instintos dele nunca erravam.
Ele pulou para o lado enquanto assumia a forma de Galleon. Disparos atingiram o local aonde ele se encontrava um segundo atras.
Ele correu usando as quatro patas. Uma sombra indistinta que dançava feroz na escuridão. Seus oponentes disparavam tentando acompanhar seus movimentos, mas os ataques nem passavam perto dele.
Galleon avançou, pulando na direção de seu primeiro inimigo. A criatura transformou seu braço novamente, agora uma espécie de bola de ferro ligada ao ombro por um grosso cabo de aço.
Galleon curvou o corpo para a esquerda desviando da esfera de aço ainda no ar. Com um movimento rápido partiu e destroçou o corpo da criatura com suas garras. Ficou surpreso ao perceber que ela era feita de ferro tanto por fora quanto por dentro.
Pulou novamente, mas seus movimentos foram interceptados por algum tipo de força estranha. Outro dos monstros de ferro havia transformado seus dois braços em imas gigantes. Eles o puxavam com uma atração poderosíssima.
Os corpos dos dois ficaram colados frente a frente. Galleon mordeu a cabeça da criatura arrancando metade dela de uma vez. Mesmo assim ele ainda tinha seu corpo atraído pela energia magnética. Abriu a boca para morder a criatura novamente, mas ao invés disso soltou um urro de dor.
O ultimo dos monstros havia disparado uma rajada de tiros que perfuraram seu abdômen e atingiram o seu parceiro de metal. A coisa explodiu e Galleon foi arremessado ao chão.
- Então não se importa em destruir seus próprios aliados?! Não esperaria menos de vocês suas aberrações de metal!
Galleon se levantou uivando de fúria e prazer. O ferimento no abdômen não era nada. Precisava muito mais que isso para matar um darkstalkers como ele.
- Se queriam me ferir deviam ao menos ter usado prata!
A criatura de ferro se fez indiferente as suas palavras. Ela ainda levitava e como sua replica transformou seu braço em uma esfera de ferro e a lançou na direção do chão, aonde ele estava.
Galleon pulou para o alto, se elevando muito mais do que a criatura. Ela reagiu erguendo seu braço para cima e o transformando em um grande cano aonde um projétil de ferro surgiu.
Você é cheio de truques pensou ele com um sorriso feroz. Bem, aquela coisa não era a única a ter truques. Já estava na hora dele mostrar os seus também.
O corpo de Galleon foi envolvido por uma energia branca. Ele desceu como um cometa na direção de seu oponente. O coisa lançou seu projétil em resposta. Uma forma pontuda de ferro impulsionada por um jato de fogo voou e se chocou contra ele provocando uma explosão. Isso porem não era nem de longe suficiente para pará-lo.
A energia o protegeu da explosão. Galleon atingiu a criatura com tudo, atravessando-a e fazendo-a explodir. Finalemnte os três inimigos haviam sido derrotados.
Ele olhou para os destroços. Aquelas coisas não iriam se levantar de novo. Não tinham um truque para isso tinham? Pensou ele sorrindo. Se sentia mais calmo depois da luta. Quase podia agradecer pelas criaturas pela experiência que fora terapêutica.
Uma coisa porem o incomodava. O que eram aquelas coisas e porque o atacaram? Havia destruído três, mas poderiam haver mais.
Eles se lembrou que elas tinham dito algo. Alguma coisa sobre poder elevado demais e sobre ele ser um darkstalker. Felicia! Eles poderiam estar atrás dela agora!
Ignorando a dor em seu abdômen e a briga que tivera ele correu na direção da casa dela. Ainda estava transformado em Galleon e sua preocupação crescia a cada segundo.
Ele farejou sangue, sangue dela. O ódio e a culpa tomaram conta de sua mente. Havia tido luta, ele tinha certeza disso, e temia que pudesse ter chegado tarde demais.
Galleon viu os sinais de combate na rua, perto da casa. O local estava danificado. O chão coberto de pedaços dos corpos das criaturas de ferro. Continuou a seguir o cheiro dela e então a viu sentada no chão encostada a uma parede na calçada. Havia um corte na coxa esquerda e o ombro direito sangrava. Ela sorriu quando o viu.
- Jon! – disse se levantando com um pouco de dificuldade. Ele voltou a sua forma humana e a ajudou a ficar de pé.
- Pensei que eles tinham te matado! – respondeu ele preocupado. Seus olhos percorriam o corpo dela, estava aflito, mas para sua felicidade percebeu que apesar de tudo ela estava bem.
Felicia deu um sorriso fraco, mas de uma grande ternura e falou com seu costumeiro bom humor.
- Eu sou uma darkstalker esqueceu? É preciso muito mais que alguns pedaços de ferro ambulante para me matar.
Ele riu.
- Ora você pode ter aquele papo entediante de ser boazinha e pregar a paz, mas na hora da luta age como uma autentica darkstalkers! Esta no sangue gatinha!
O rosto dela ficou vermelho e ela virou a cara.
- Humpf! Não fiz nada disso! Essas coisas nem sequer estão vivas eu senti isso! Parecem mais com marionetes... ou algo do tipo... seja como for, não foi assassinato!
Isso é verdade pensou Jon serio. Ele também lutara com as criaturas e sentira o mesmo. Não pareciam vivas, mas mesmo assim podiam ser "mortas" por assim dizer.
- Você esta ferido! – exclamou ela preocupada olhando para seu abdômen. Então ela percebeu que ele estava completamente nu e corou cobrindo o rosto com as mãos.
- Só alguns arranhões... – ele revirou os olhos quando percebeu que ela estava envergonhada – ah deixa de frescura Felicia!
- Eu sou uma dama! – protestou ela ainda mais vermelha ainda com o rosto oculto – vista alguma coisa!
- Olha só quem fala. A garota que fica semi-nua o tempo todo! Alem do mais você acha que eu não notei esse seu rabo balançando de um lado pro outro? Isso só acontece quando você esta feliz... embora a palavra para descrever o que você esta sentindo agora não seja bem essa.
Dessa vez ela ficou tão vermelha quanto um tomate. Jon riu mais.
- A-Apenas se vista logo! Não vou conversar com você assim!
Para não ficarem naquela discussão pelo resto do dia ele foi ate a casa vestir algo. Voltou cinco minutos depois usando um calção azul e uma blusa grande da mesma cor. Felicia olhou para ele aliviada.
- O que eram aquelas coisas? – perguntou ela retornando ao tom serio da conversa – foram elas que te feriram?
Jon apenas deu de ombros.
- Foram sim, mas eu não faço a menor idéia do que sejam... algo me diz que a mais deles. E eles virão atrás de nos.
Ela concordou com um aceno triste com a cabeça.
- Então o que faremos...? – perguntou desanimada e sem esperanças.
- O que nos sempre fizemos – respondeu ele com naturalidade – vamos nos mudar. Ir para outra cidade e tentar uma nova vida lá. Se ficarmos aqui os ataques continuaram e muitas pessoas inocentes irão morrer.
Aquelas palavras atingiram ela com força. Felicia balançou a cabeça negativamente com movimentos bruscos. Não queria aceitar isso, não queria fugir dali. Amava aquela cidade.
- Não! Não! Não! Estava indo tudo tão bem! Eu tinha meu emprego! Iremos apresentar "Deméter e Perséfone" Semana que vem! Eu não quero largar tudo de novo! – ela fazia esforço para conter as lagrimas – porque tem que ser assim?! Só porque somos dakstalkers?!
- Sim – disse ele serio. Não tinha o menor prazer em lhe falar aquilo, mas era necessário.
- Não é justo! – ela chorou e começou a limpar as lagrimas de forma apressada e desajeitada. Suas mãos tremiam.
- Não é... – ele se lembrava das poucas vezes em que ela costumava ser justa – não é Felicia... raramente é.
Ela chorou mais. E ver aquilo machucava muito mais do que qualquer ferida. Para ele não era difícil largar tudo, não se apegava as cidades nem as pessoas. Felicia porem era diferente. Ela amava os locais aonde ficava, amava a todos com quem convivia. Para ela a partida sempre seria mais dolorosa.
Ele então não agüentou mais assistir aquilo. Pegou Felicia com firmeza e a beijou com intensidade. Ela ficou perplexa, sem acreditar no que estava acontecendo, mas aceitou o beijo e então o retribuiu com muito amor.
Ficaram abraçados por muito tempo. Jon sentiu os lábios macios dela. Suas mãos percorreram todo o corpo da darkstalker acariciando as coxas, seios e a bunda. Ela encolhia o corpo tímida, mas mesmo assim deixava que ele continuasse.
- Porque fez isso? – perguntou ela com a voz baixa, timidamente, com aquele seu olhar inocente no rosto.
- Já queria fazer a um bom tempo – ele a beijou novamente – só estava esperando a oportunidade.
Ela sorriu novamente e lhe deu um ultimo beijo antes de se afastar devagar, saindo do abraço.
- Sabe... pensando bem não é tão ruim assim – disse sorrindo meigamente.
- "Não é tão ruim assim"?! – indagou ele furioso – você deve se achar muito boa para falar assim do meu beijo hein?
Ela riu, colocando as mãos na boca para sufocar o riso. O gesto porem se mostrou inútil.
- Não seu bobo! – disse ela quase sem ar de tanto rir – não me referia ao beijo, ele foi maravilhoso!
- Ah então se referia ao que? – esperava que ela arranjasse uma boa desculpa para aquilo.
Felicia se aproximou dele e o beijou na bochecha.
- A nos mudar... não é tão ruim assim entende? Acho que se estivermos juntos ficaremos bem. Isso é o mais importante certo?
- Sim – ele deu um leve sorriso – ate que você fala umas coisas interessantes de vez em quando.
- ahhhh! Porque você sempre faz isso?! – disse ela irritada – tinha que quebrar o clima romântico!?
- Claro que sim, odeio essas coisas melosas demais – falou ele maliciosamente.
Ela suspirou, derrotada. Bom, vamos ficar juntos certo? Vou ter tempo para mudar esse jeito desleixado dele pensou ela.
- Então para onde vamos agora...? – perguntou ela o abraçando de lado, com delicadeza.
- Tanto faz – ele deu de ombros – como você mesma disse: se estivermos juntos ficaremos bem.
Ela o abraçou mais forte.
- Sim... ficaremos bem...
-... e eu o destruí – completou Morrigan. Acabara de contar todo o acontecido em Shin-tzen. Ela não sabia o que era aquela criatura de metal, mas se alguém sabia esse alguém era seu pai. Belial era o mais forte, velho e sábio darkstalker em todo o makai.
O soberano do clã Aensland estava como sempre. Em seu trono, oculto por uma cortina que permitia ver apenas sua silhueta.
-... Phobos – a palavra foi pronunciada como uma brisa de ar gelado.
- Phobos? – perguntou a sucubus curiosa – então esse é o nome da coisa que eu matei.
- Não... – a voz de Belial era fantasmagórica e atemporal – Phobos não é um e sim vários. Eles tem vários corpos, mas apenas uma mente.
Aquilo não a intimidou nem um pouco. Não importava se era um, dez, cem ou ate mil. Jamais seria derrotada por criaturas tão inferiores como aqueles Phobos.
- E o que eles realmente são pai? O que desejam? – ela se lembrava que haviam falado algo sobre ela ter uma força que excedia os parâmetros. Qual era o significado daquilo? – eles pretendem destruir os darkstalkers?
Belial não respondeu de imediato, apenas a fitava por detrás da cortina. Ele parecia um estatua ali, nem sequer parecia respirar.
- Eu posso lhe contar... mas é melhor que descubra por você mesma Morrigan... – ele fez uma pausa – no nosso castelo a um livro que fala sobre eles... Phobos são criaturas antigas, talvez mais antigas do que nos...
E foi tudo. Belial voltou ao seu total silencio. Morrigan o conhecia suficientemente bem para saber que de nada adiantaria insistir. O jeito era procurar o livro. Ela achou boa a idéia, fazia tempo que não lia algo.
Morrigan foi ate a escura e bem protegida sala de arquivos do castelo Aensland. Lá estava guardado uma coleção gigantesca de livros não apenas originários do mundo dos demônios, mas também do mundo humano. Dentre aquelas preciosidades estavam diários de viajantes, relatos de caçadores de darkstalkers, livros contendo a linhagem das sete famílias nobres do makai, suas origens e as incontáveis guerras a qual participaram. Havia também pergaminhos antigos contendo mapas de cidades antigas e de regiões muito distantes e desconhecidas, alem de feitiços arcaicos que de tão antigos ninguém sabia ao certo se funcionavam ou não.
Morrigan passou muitos dos seus setecentos anos ali. Pesquisou e estudou sobre vários assuntos. Na verdade o seu primeiro contato com o mundo dos humanos foi através dos textos ali guardados.
Hoje porem ela estava interessada em apenas um livro. Havia levado Dik e Gek com ela. Os dois darkstalkers podiam ser irritantes as vezes, mas eram eles que haviam organizado todos aqueles livros. Bem, Gek organizara. Dik ajudara apenas por ser alto e assim poder guardar os livros nas prateleiras mais altas.
- É um livro que fala sobre Phobos – disse ela enquanto o trio caminhava pelos sombrios e intermináveis corredores do aposento.
- É um livro dourado cheio de gravuras antigas certo? – perguntou Gek – tenho certeza que esta nessa sessão.
- Se eu soubesse como era não teria pedido sua ajuda para encontrá-lo... – respondeu sem dar muita atenção ao servo.
Eles continuaram a andar, Morrigan apenas olhava de relance para alguns dos livros nas estantes, leu um dos títulos "A divina comedia", era um livro bem interessante escrito por um humano que havia visitado o makai séculos atrás. Ela já o havia lido pelo menos umas três vezes.
- Ahh! Esta aqui! – exclamou Gek tentando pegar um livro em uma prateleira, mas por causa de seu tamanho minúsculo isso era impossível.
Dik ergueu o braço e pegou o livro. Ficou olhando para a capa dourada com seu olhar abobalhado.
- Me deixe ver isso – disse Morrigan pegando o livro de suas mãos. A capa era dourada e havia escrito "Phobos, os guardiões" com letras bem trabalhadas e em baixo relevo.
- Ele tem uma historia muito interessante – falou Gek com orgulho – o livro f...
- Me deixem sozinha – falou a sucubus em tom calmo, porem autoritário.
Os dois servos se entreolharam. Gek parecia querer responder, mas não o fez. Eles saíram em silencio.
Quando ficou só, Morrigan se sentou em uma cadeira de madeira e começou a leitura. O livro era antigo, muito antigo. Parecia ter sido escrito em uma época em que nem todas as casas nobres haviam se consolidado no poder. Ela se concentrou na leitura e esqueceu todo o resto.
Oito horas depois havia terminado. Um bom tempo tendo o livro quatrocentas paginas, cerca de duas dezenas delas com gravuras simples representando os Phobos. O livro era detalhado e preciso. Nele Morrigan obteve informações valiosas sobre aquelas criaturas.
Seu pai estava certo, haviam muitos deles, e eles eram sim como um grande individuo. Não havia um líder ou qualquer grau de hierarquia entre eles. Phobos também não eram criaturas vivas, eram espécies de bonecos movidos por energia provinda dos raios. De alguma forma eles absorviam a energia do sol e a transformavam em energia elétrica. As informações eram vagas quanto a isso, ninguém sabia ao certo como eles faziam isso, apenas que faziam.
Os phobos eram seres bastantes flexíveis. As gravuras mostravam que seus braços e pernas poderiam se transformar em um enorme leque de armas diferentes. Dentre essas armas existia as metralhadoras (que ela descobriu ser os canos que o Phobos usara para atirar projeteis nela) eles também lançavam mísseis que eram projeteis maiores que explodiam quando se chocavam com algo. Os membros da criatura "robôs" como eram denominados muitas vezes, podiam se transformar em esferas de ferro, discos com laminas giratórias e ate mesmo imas que puxavam os inimigos para si. Isso poderia ser perigoso.
Havia também registros sobre uma habilidade bem interessante de lançar raios congelantes dos olhos, alem de uma infinidade de outros truques de menor importância.
Passando dos capítulos sobre o funcionamento e as armas dos Phobos, o livro se concentrava em explicar os objetivos daquelas estranhas criaturas.
Eles atuavam no mundo humano, jamais no makai. Em toda a historia da humanidade já haviam se revelado nove vezes, todas com longos intervalos de tempo, geralmente alguns milênios.
Pelo que ela via, Phobos eram como guardiões. Eles surgiam sempre que o mundo estava repleto de seres poderosos e então exterminavam todos em ataques que envolviam milhares deles. Os registros eram bastante numerosos quanto a isso. Havia o caso de uma ilha, Atlantida, que fora afundada por Phobos. Alguns povos os chamavam de "anjos do apocalipse" pela sua aparência bela e reluzente e seu poder destrutivo letal.
É claro que os humanos sempre reagiam aos ataques. Guerras de proporções gigantescas se iniciavam, mas no final os Phobos sempre venciam.
Morrigan achou dois pontos muito interessantes na historia. O primeiro era que, não importava quantos Phobos eram destruídos em uma dessas guerras, sempre surgiam mais. Eles podiam não serem seres-vivos mas ela deduziu que "de algum jeito" os phobos se reproduziam. Provavelmente perdiam grande parte de seus números nas guerras e passavam os milênios seguintes restaurando seu exercito para lutarem na próxima grande batalha.
O outro fato que chamou a atenção da sucubus era que os Phobos jamais exterminavam a humanidade. Tal atitude era bastante irracional, pois estando eles em guerra o mais inteligente era destruir todos seus oponentes de uma vez, mas não eram isso que faziam.
A explicação que o livro dava quanto a isso era que o objetivo dos Phobos não era a exterminação da raça humana e sim sua correção (daí o porque do "guardiões" no titulo). Os phobos apareciam sempre que o mundo humano estava desordenado, repleto de seres fortes que se mantinham no poder obviamente abusando dos mais fracos.
Assim Phobos "reiniciava" o processo humano. Destruindo tudo, para que os humanos voltassem a construir suas cidades a partir das ruínas. Para ela o trabalho deles era bem idiota. Os humanos tinham a violência e a sede de poder em suas origens. Eles procuravam guerra. Não importava quantas vezes interviessem. A humanidade nunca aprenderia a lição.
Ela fechou o livro. Havia encontrado as informações que procurava. Morrigan não deixaria ninguém destruir o mundo humano. Ele era o lugar aonde ela conseguia alimento e diversão. Eles não tirariam isso dela. Phobos podiam ter tido nove vitorias seguidas, mas já estava na hora de conhecerem a derrota... mas não pelas mãos dela.
Morrigan não precisaria intervir. Os Phobos poderiam lhe ser úteis, se usasse ela as peças daquele jogo a seu favor.
- Então Demitri – ela riu falando consigo mesma – você quer conquistar o makai? Que Phobos o destruam antes disso...
E se Demitri os derrota-se? Bem, ele com certeza não sairia da luta ileso. Morrigan precisaria apenas aparecer e dar-lhe o golpe de misericórdia. Simples, fácil e rápido. Ela poderia pedir algo melhor?
