CAPITULO XII

Depois daquela noite e da festa do seu aniversário, Ravena se entregou mais ainda aos estudos. As reuniões do grupo se tornaram diárias, faltavam agora menos de um mês para os exames de N.I.E.M.s. Ela continuava recebendo cartas pelo correio matinal do seu "admirador secreto" e teve que enfrentar um inquérito por parte de Rita sobre o anel que estava em seu dedo. Em relação a esse último assunto, porém, Ravena podia se vangloriar de ter se saído muito bem. Havia explicado à amiga que Dumbledore a tinha chamado em seu escritório no seu aniversário para dar uma jóia de família, que seus pais tinham deixado com ele junto com a chave do cofre em Gringotes. Aparentemente, Rita recebeu a justificativa sem nenhuma contra argumentação.

Assim os dias continuaram passando rápido. Faltava apenas uma semana. Os alunos do último não falavam em outra coisa e a proximidade dos exames fez com que cada conversa só girasse em torno disso. Ravena estava sentada no jardim com um livro aberto no colo quando Rita entrou correndo com o rosto rubro.

– O que foi Rita? - perguntou a amiga. - Aconteceu algo?

– Acabei de saber que teremos outra pessoa para aplicar as provas de Poções - disse Rita.

– Como? - Ravena parecia atordoada. - Por quê?

– Eu estava no corredor quando ouvi a professora McGonagall e o professor Snape conversando - ela fez uma pausa para respirar. - Ele dizia que era inevitável que se ausentasse amanhã, pois a madrinha estava às portas da morte - e refletindo. - Esse é um termo antiquado, não?

Ravena fechou o livro, jogou na mochila e deixou Rita falando sozinha. Percorreu o caminho até as Masmorras e bateu a porta da sala de Snape. Ouviu um murmúrio lá dentro e em seguida uma ordem.

– Entre !

– Professor, eu gostaria de... - e percebeu que havia mais alguém na sala, virando-se falou -, boa tarde, professor Dumbledore. Desculpe-me, senhor. Volto mais tarde - e girou nos calcanhares para sair, quando foi interrompida.

– Eu já estava de saída, Ravena - e piscou-lhe o olho. - Acredito que o professor queira lhe falar algo. Com licença - e deixou os dois a sós. Ravena se aproximou dele e abraçando-o, perguntou:

– O que aconteceu a sua madrinha? - e angustiada continuou - ela está...

– Não, Ravena - abraçou-a também. - Porém, fui informado pela enfermeira do Saint Mungus que não deverá passar dessa noite. Tenho que ir para lá, Dumbledore já se certificou da veracidade do estado dela e veio até aqui me falar.

Ele a soltou e recomeçou a arrumar suas coisas enquanto continuava explicando

– O próprio Dumbledore aplicará amanhã as provas por mim - e voltando-se para ela -, você vai me prometer que não se preocupará com mais nada além dos exames. Você me promete?

– Sim, mas... - e andava atrás dele de um lado para o outro da sala -, e o nosso casamento?

Ele parou e a fitou sorrindo, depois voltou ao que estava fazendo e respondeu:

– Acha que estou fugindo? - disse com malícia. - Não acredito que consiga ir muito longe com uma auror no me encalço - fechou o armário que acabara de organizar. - Infelizmente, senhorita Brown, tenho que lhe informar que esse anel não sairá mais do seu dedo. Não no que depender de mim - e beijando-a ardentemente se despediu dizendo -, espere por mim aqui em Hogwarts, ouviu mocinha? - e deu-lhe um último beijo. - Não ouse me desobedecer! - entrou na lareira a sua frente e sumiu nas chamas.

Ravena deitou-se cedo naquela noite, precisava estar em forma no dia seguinte. Teriam uma série de exames discursivos e outros tantos práticos. Afinal, ela ansiara por esse momento mais que tudo, estava a um passo de sua carreira. E também prometera a Severo que passaria. Ele contava com isso e ela só precisava fazer aquilo que sabia fazer: tirar boas notas. Pensando nisso adormeceu.

Acordou no dia seguinte renovada. Estava preocupada com Snape, sim, mas precisava se concentrar para poder passar nos exames. Assim, romperia a última barreira que os impedia de ficarem juntos. Foi com esse espírito que fez cada prova. No final do dia estava exausta e adormeceu rapidamente outra vez. Um lindo dia entrou pelas cortinas do dormitório fazendo com que ela e Rita pulassem para fora da cama. Desceram para o café e Ravena pode constatar que Severo ainda não havia voltado. Olhou então para Dumbledore que meneou a cabeça para ela e piscou-lhe o olho. Não sabia exatamente o que o diretor queria dizer, mas sua resposta entrou sob asas na hora do correio matinal. Uma carta foi deixada a sua frente. Rita, para sua felicidade, havia ido falar com "Theo". Ravena abriu a correspondência com o coração aos pulos.

"Minha Querida,

Sei que corro grande risco ao mandar-lhe tal carta, mas você deve estar aflita sem notícias minhas, não é? Minha tia está muito mal e não há mais nada que se possa fazer mesmo. Não há mais nenhuma esperança de melhoras. Porém, sei que irá compreender que terei que ficar aqui o tempo necessário. Voltarei tão logo possa. Soube que foi admirável nos exames. Nosso "padrinho" me contou. Aliás, seria uma boa idéia convidá-lo, não? Não vejo melhor escolha já que teremos que nos casar em segredo. Penso em você todos os dias e todas as horas.

Saudades, Severo."

Ravena olhou para os lados certificando-se de que ninguém a vira e guardou a carta nos bolso das vestes. O resto do dia transcorreu bem. À noite, antes de se deitar releu a carta e a beijou colocando embaixo do travesseiro.

O dia do resultado dos exames estava chegando e ela não havia tido mais notícias de Snape, mas tinha certeza que se acontecesse algo saberia no mesmo instante. Rita tinha ficado nos últimos dias grudada em "Theo - o magnífico" e soube que algo mais estava acontecendo entre os dois, mas não se sentia no direito de perguntar nada, afinal, também não contara nada sobre Snape.

No dia seguinte Ravena acordou com o coração aos pulos, dentro de poucas horas saberia suas notas. Notou que Rita já havia descido e isso só podia significar que dormira demais. Arrumou-se correndo e dirigiu-se para o Salão Principal, sentou-se ao lado da amiga e percebeu que o lugar dele ainda estava vazio. Comeu muito pouco, suas entranhas pareciam vivas. Após o café se dirigiram em fila para a sala do diretor de suas casas. Ravena estava em pé do lado de fora quando Rita saiu radiante da sala e a abraçou chorando.

– Obrigada, Ravie - e abraçou-a de novo. - Se não fosse por você eu não passaria. Obrigada mesmo! - e dirigindo-se para o corredor que levava à torre, mas ainda voltou-se para Ravena e disse -, ia me esquecendo, McGonagall pediu que entrasse.

Ravena bateu na porta e a voz fina da professora se fez ouvir do outro lado.

– Entre.

– Oh, bom dia, senhorita Brown! - disse sorrindo, passando-lhe o envelope que continha suas notas. - Creio que poderá ver que não tirou uma nota inferior a Excede Expectativas - e acrescentando rapidamente -, fico muito feliz por você, Ravena.

A garota olhou o conteúdo do envelope e um enorme sorriso aflorou em seus lábios.

– Eu consegui, professora - e levantando-se abanou o papel e disse novamente -, consegui!

A professora sorria para ela, enquanto dava a volta na mesa e ia abraçá-la.

– Obrigada, professora - e com olhos cheios de lágrimas as duas se abraçaram novamente -, obrigada por me ensinar e pela paciência comigo.

– Ora, deixe de bobagens - e enxugou rapidamente suas lágrimas, sentando-se. - Esse é o nosso dever. E você foi uma aluna excepcional, Ravena. Agora vá, o professor Dumbledore quer vê-la.

– Sim - e também enxugando suas lágrimas -, estou indo. Foi para porta e quando ia sair, lembrou-se que não tinha a senha da gárgula. E virou-se para perguntar. - Professora, qual é a senha de hoje?

– Não, minha querida. Não precisará de senha hoje - e fungando um pouco o nariz disse -, o diretor está nas Masmorras entregando as notas dos alunos da Sonserina.

Ravena saiu e não percebeu que ao falar as últimas palavras a professora lhe lançou um olhar furtivo. Assim que chegou ao corredor, contornou o Salão Principal e entrou no seguinte que levava direto às Masmorras. No caminho foi pensando quantas vezes já fizera isso e como seria estranho entrar naquela sala sem Snape lá. Chegou diante da porta e bateu.

– Entre - e a voz de Dumbledore encheu a sala.

– Oi, professor - e dirigiu-se até escrivaninha que outrora Snape estivera sentado. - O senhor me chamou?

– Sim, Ravena - e esticando-lhe um envelope com um selo azul que ela não lembrava de ter visto antes. - Isto é uma convocação do Ministério da Magia para que faça os testes de auror.

Os olhos dela brilhavam, abriu rapidamente o envelope e leu o que estava escrito. Dumbledore a fitava por cima dos oclinhos de meia-lua.

– Obrigada, professor - e ela o encarou - por tudo!

– Bom, senhorita Brown. Fico muito feliz pela senhorita, mas - fez uma pausa - ainda tenho um último pedido a lhe fazer. E gostaria muito que aceitasse o convite pessoal de pertencer a Ordem da Fênix. A senhorita aceita?

– Claro, sem dúvida - e antes que ele se despedisse Ravena resolveu lhe fazer um convite -, professor, eu e Severo gostaríamos muito que o senhor fosse padrinho de nosso casamento - e encarando-o, continuou - Gostaríamos também de que fosse o fiel de nosso segredo, pois teremos que casar escondido. O senhor aceita?

– Senhorita, terei o imenso prazer em sê-lo - e ainda sorrindo para ela -, quando será, senhorita?

– Mês que vem.

– Bom, estarei lá - e virando-se para porta disse - agora se me der licença, preciso ir.

Ravena se dirigiu para porta também, mas ele a impediu.

– Não, senhorita! Fique! Há alguém chegando que terá uma enorme alegria em lhe ver.

Ela assentiu e ficou ali sentada na cadeira perto da escrivaninha. Depois de alguns minutos levantou-se e foi até as janelas. Estava olhando os jardins quando um estalo na lareira fez com que ela se virasse a tempo de ver Snape saindo das chamas. Ele largou a pequena valise no chão e abraçou-a.

– Ela se foi, Ravie - e abaixou os olhos.

– Sinto muito, meu amor - e levantou-lhe o rosto. - Mesmo. Eu gostava muito dela.

– Eu sei - e recobrando seu autocontrole -, não quero mais falar disso. Soube que passou nos exames. Parabéns, senhorita!

– Sim - e ela sorriu - e já fui chamada a me apresentar no Ministério da Magia daqui a duas semanas. Farei os testes para auror. Dumbledore acabou de me entregar a carta. Não é maravilhoso?

– Claro que é - e lançando-lhe um olhar malicioso. - Só que isso apressa nosso casamento para semana que vem. Você se importa?

– Não, acho até que foi providencial - e retribui-lhe o sorriso. - Só existe um problema, convidei Dumbledore para padrinho como combinamos, mas disse que casaríamos daqui a um mês.

– Bom, então não há problemas - e pegando-a nos braços - Dumbledore será padrinho mais cedo.

Eles ficaram ali rindo enquanto ele a rodava no meio da sala vazia. E depois se entregaram a um longo beijo.

– Sabe, senhora Snape - e a beijando de novo - eu a amo!

O dia seguinte foi o encerramento das atividades da escola. Ravena se despediu de Rita, que prometeu escrever-lhe sempre. Dumbledore havia dito a Ravena que Snape a acompanharia até Hogsmeade no dia seguinte. O trem partiu cedo levando os alunos e Ravena e Snape seguiram para o pequeno vilarejo perto da escola. Não encontraram dificuldade nenhuma em alugarem uma pequena casa numa rua perto da Dedosdemel. O lugar era lindo, a casa era simples. Bem típica de um casal novo. Ele a deixou bem instalada e falou que Dumbledore destacara alguns membros da Ordem para ficarem de guarda, pois precisava resolver alguns problemas em relação aos bens da tia e deixar tudo ajeitado em Hogwarts. Voltaria tão logo tivesse posto tudo em ordem.

A segunda amanheceu com um lindo céu de primavera. Para que não houvesse desconfiança, eles fizeram um casamento trouxa numa igreja nos subúrbios de Londres. Snape e Dumbledore pareciam incomodados com os ternos que vestiam, o que fez Ravena sorrir ao entrar na igreja. Ela estava com um vestido branco de cetim com a saia bordada de fios de prata, que deixava os tornozelos e os sapatos a mostra. A coroa era de flores do campo e lhe prendia parte dos cachos no alto da cabeça enquanto os outros caíam em desalinho sobre os ombros. Os dois a olharam e Severo tinha que concordar que nunca a vira tão linda. O padre rezou a missa tranqüilamente. Foi muito rápido, pois não havia mais ninguém a não ser os três. Acabada a cerimônia, a garota passara a se chamar Ravena Brown Snape. Era em muito tempo, o dia mais feliz da vida dos dois. Dumbledore os acompanhou até Hogsmeade e pediu desculpas por não poder se demorar mais, assuntos urgentes em Hogwarts. Despediu-se do casal e partiu para a escola.

Eles transpuseram o portão do jardim e Snape tomou a mulher nos braços enquanto Ravena entrelaçava os seus ao redor do pescoço dele. O professor tomou o caminho das escadas. O sol baixo no horizonte e um céu alaranjado serviram de fundo para o casal.