Capítulo 11 - Plataforma 9¾.
– Hermione, não! – berrou Harry, andando atrás de Hermione, entre os convidados que festejavam o casamento, sem ter a menor ideia do que acontecera a Draco Malfoy. – Nós temos que procurar Pansy!
– Não, Harry, não temos! – ela deu uma pausa brusca, se virou para ele e respirou fundo. – Pelo que você me contou, ela foi bem específica. "Não me procurem", não é mesmo? – ela revirou os olhos.
– Ela… Ela precisa de ajuda! – Harry disse com nervosismo. – Ela foi ferida e não tem nem para onde ir! Ela deve estar sofrendo por causa do… – ele deu uma pausa breve, percebendo o que acabara de dizer.
– Por causa do... O que, Harry? – Hermione perguntou com suavidade.
O garoto engoliu em seco.
– Harry, o que você está me escondendo? – ela arqueou a sobrancelha.
– Hum… Nada! – ele disse forçando um tom de indiferença; mas, durante praticamente oito anos Hermione vira Harry mentir daquele jeito sempre que se metia em encrenca e era pego no flagra.
– Me diga agora! – ela disse com raiva.
– Está bem, droga! – ele rosnou. – Pansy amava Draco o suficiente para sofrer vendo-o perder a memória.
– Do que você está falando? – Hermione estava com a expressão confusa.
– Eu vi! – ele disse, nervoso. – Ela o ama, mas obviamente nega isso, depois do que passou. Draco foi odioso com Pansy. Ela não… Merecia isso.
Hermione estava boquiaberta. Contudo, por um momento ela pareceu recuperar os pensamentos e sussurrou "abaffiato".
– Quê? Como…? – ela estava ainda mais confusa.
– Pansy Parkinson estava me dando aulas de Oclumência por todo esse tempo, Hermione. Por isso eu desaparecia à noite! Tudo o que eu sei agora, é graças à ela! Ela é brilhante, como Snape era. – finalmente o seu tom de voz parecia se acalmar.
– O quê? – a garota ralhou. – Não me diga que agora você é amigo dela?
Hermione jamais admitiria, mas nunca ouvira Harry chamar algum outro bruxo da idade deles de "brilhante", a não ser ela mesma. Seu peito ardia em ciúmes.
– Pansy amava Draco de verdade e ele a deixou para trás na guerra. Ela deve estar decepcionada. Hermione, precisamos ir atrás dela! Ela precisa de alguém! – Harry começava a ficar desesperado aos poucos.
– Harry, você é idiota ou cego? – Hermione revirou os olhos. – Ela não quer ser encontrada! Ela foi bem clara!
– ELA PRECISA DE NÓS, MIONE! – Harry aumentou o tom de voz.
– Pansy Parkinson não precisa de ninguém além dela mesma, Harry! – Hermione agora falava com a voz chorosa. – Eu tentei ajudá-la por meses! Eu a salvei de Bellatrix, eu fiz exatamente o que Snape me pediu para fazer! Eu salvei a pele dela duas vezes, fiz com que ela passasse no teste de aparatação, relevei as coisas que ela fez e… Ela quase matou Ron, Harry! Ela quase me matou! Ela mataria você se pudesse! Ela nunca deixou de me chamar de sangue-ruim e, nesses novos tempos, as pessoas estão aprendendo a mudar isso.
Harry parecia pensativo.
– Tudo bem, desculpe… – ele se curvou para frente e abraçou a amiga. – Eu entendo que você se sinta desse jeito, mas Mione, eu conheci um lado de Pansy Parkinson que ninguém jamais imaginou que ela tinha. Ela errou com você, mas… Eu senti quando invadi a mente dela. – ele dizia suavemente. – Ela sente dor, tanto quanto eu sinto. Ela se sente culpada por algo tão grandioso, mas não sei o que é. E, mais do que tudo, ela é capaz de amar. Eu senti o amor dela por Draco, por Snape, por sua ir… família. – ele suspirou. – Pansy está perdida.
Hermione agora chorava.
– Droga, você tem razão. – ela concordou com a voz de choro. – Pansy perdeu Blaise, Snape, os pais… Ela sempre foi arrogante e intolerante, mas ela parecia ser feliz em Hogwarts. E ela não tem mais nada disso, imagine só quando voltar para a Comunal da Sonserina e não ver nenhum dos seus amigos lá. E quando vir Draco, ele estará… Com a esposa?
– Exatamente. – Harry assentiu. – Temos de encontrá-la!
– Tá… – a garota revirou os olhos, olhando rapidamente para trás. – Escuta. Ron e Ginny estão com o Sr. e a Sra. Weasley nesse exato momento, cumprimentando o novo chefe dos aurores. – ela deu uma pausa rude e olhou feio para Harry. – Aliás, você deveria estar lá também! Será funcionário dele!
– Agora não é hora… – Harry a lembrou.
– É seu futuro, Harry! – ela falou como uma águia protetora, remetendo à Hermione de dois anos atrás que enchia a paciência de Harry e Ron para que fizessem os deveres de casa.
– Hermione, Pansy está em perigo! – Harry rosnou.
– Que droga, Harry! – ela suspirou. – Vamos aparatar daqui antes que eles tentem nos procurar e vamos aos locais mais óbvios e, depois, os menos óbvios. Você invadiu a mente de Pansy algumas vezes, então deve saber alguns lugares que ela iria! Guie-me até lá.
– Quando eu contar três. – ele puxou o braço da amiga. Hermione e Harry estavam tão acostumados a aparatar juntos, que nem era preciso preparação. – Um… Dois… Três.
Hermione fechou os olhos, concentrou a mente em Harry e eles foram sugados por uma escuridão gelada.
Eles desaparataram nos lugares mais óbvios possíveis, o que era, para Harry, uma perda de tempo, já que Pansy não seria imbecil de ficar nos mesmos lugares. Mas, segundo a lógica de Mione, a ideia de ir aos mesmos lugares era tão óbvia e idiota, que seria brilhante. Primeiro, foram à velha casa em que Harry teve suas aulas de Oclumência. Eles não puderam entrar porque Harry nunca descobrira como fazê-lo, mas pelo modo como o chão não tinha nenhuma folha caída (a árvore sempre desprendia muitas folhas quando alguém entrava na casa), provavelmente Pansy não passara por lá. Hermione seguiu Harry, em seguida, até a velha casa dos Parkinson, que agora era um monte de cinzas espalhado pelo chão. Hermione pareceu chocada com o que acabara de ver e se perguntou mentalmente se Pansy fizera aquilo; queimar uma mansão daquele tamanho com fogomaldito era algo extremamente arriscado, especialmente porque quanto maior o local, mais rápido as chamas se alastravam. Apenas um bruxo extremamente poderoso poderia fazê-lo sem ser pego, especialmente porque o fogo começaria no local onde fora conjurado.
– Pansy fez isso? – Hermione sussurrou. – Precisamos ter certeza de que ela não é uma dessas cinzas, Harry!
O garoto ficou de um tom esverdeado. Eles avançaram para o monte de cinzas e tentaram procurar alguma coisa.
– A julgar pelo modo como as cinzas estão frias… – Hermione estava abaixada, com um punhado de pó na mão. – Isso não foi feito agora, nem hoje. O fogomaldito é tão poderoso, que levam dias até que o lugar volte à temperatura ambiente normal. Sentiríamos o calor de longe se fosse recente. Pansy desapareceu há menos de uma hora. – ela explicava com naturalidade.
– Você já pensou em ser auror, Mione? – Harry estava boquiaberto. – Você seria o cérebro da equipe…
– Eu já falei! – ela disse com irritação. – Sempre quis proteger os elfos e lutar por seus direitos! Quero Regulação e Controle das Criaturas Mágicas!
– Eu só estava dizendo… – Harry tentou dizer.
– Já falamos sobre isso! – ela franziu o cenho. Harry sorriu.
Eles continuaram a andar entre as cinzas, até que Hermione olhou para baixo e, quase na ponta, onde já praticamente não era mais a propriedade dos Parkinson, algum objeto dourado brilhava no chão. A garota se curvou e pegou a fina corrente de prata nas mãos, observando o pingente.
– Harry, venha aqui! – ela berrou.
– O que foi? – ele correu até ela.
– Isso é de Pansy, eu tenho certeza! – ela pegou as mãos de Harry e colocou o cordão sobre a palma.
O garoto o analisou por algum tempo e assentiu com a face.
– Sim, isso é dela. – ele sussurrou e devolveu o objeto à Mione.
O pingente era de prata e brilhava, mas bem no seu centro, a letra "P" esculpida por esmeraldas de uma cor verde viva chamava a atenção. Enroscada na letra P, uma serpente feita de ouro branco dava ao objeto a elegância da casa da Sonserina.
– É o brasão dos Parkinson, Harry! – ela virou o pingente para o lado contrário. – Veja!
A parte de trás continha uma frase miúda em que se lia: "Orbis non sufficit".
– Significa "o mundo não é o bastante", em latim. – ela disse com orgulho.
– Hermione, desde quando você entende latim? – Harry, mais uma vez, estava impressionado.
– Ah, cale-se, Harry! – ela revirou os olhos. – É o lema dos Parkinson. Snape já falou isso uma vez em sala de aula e se referiu a eles!
– Quê? Eu não me lembro disso! – ele disse com surpresa.
– É porque você e Ron passavam as aulas conversando. – ela disse com reprovação na voz.
Harry ignorou a quase bronca que Hermione estava prestes a lhe dar.
– Pansy esteve mesmo aqui, então. Eu já a vi com esse colar uma vez. – Harry refletia. – Mas espera! Como o cordão não pegou fogo?
– Feitiço antidestruição! – Hermione respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Isto é uma relíquia do mundo bruxo. Deve ter sido repassado de geração para geração. Como o medalhão de Salazar Slytherin, ou o anel da mãe de Tom Riddle. Não é como uma horcrux, que só pode se destruir com certos objetos muito poderosos. Mas relíquias desse tipo possuem proteção contra fogomaldito e feitiços básicos de destruição.
– Hum… Tudo bem, vamos. E leve isso; temos que devolver à ela. – ele disse.
Ele, mais uma vez, segurou na mão de Hermione e, juntos, aparataram para outro local.
Eles visitaram o Caldeirão Furado, a mansão dos Malfoy - na parte interna da mansão, onde nenhum convidado tivera permissão de entrar -, a mansão dos Blaise, a antiga casa dos Greengrass, Hogsmeade, o jardim de Hogwarts, a República-Refúgio, entre outros diversos lugares pelo mundo mágico; todos sem nenhum sinal de Pansy. Eles desistiram quando notaram que já haviam se passado três horas e que, provavelmente, Ron e Ginny já estariam procurando-os feito loucos. Eles não contariam o que ocorreram com Pansy ou com Draco; na verdade, inventariam que Kingsley quis dar uns livros à Hermione e por isso ela fora ao seu gabinete no Ministério - uma péssima desculpa, na falta de outra melhor. Hermione já estava mais exausta e tonta do que nunca; aparatar não era difícil, mas quando ia com outra pessoa de guia, era sempre muito cansativo e enjoativo; ir sozinha era bem mais prático. Eles desaparataram no jardim da mansão Malfoy - com a capa da invisibilidade de Harry, para que ninguém os visse, a qual Harry sempre carregava consigo em algum lugar com um feitiço indetectável de extensão - e logo se arrumaram para que não deixassem óbvia a aventura que tiveram. Eles se despiram da capa, procuraram os Weasley na multidão, mas antes que pudessem encontrá-los, levaram um susto.
– MAS ONDE DIABOS VOCÊS ESTAVAM? – Ron berrava, furioso, enquanto Ginny o acompanhava com a expressão tão furiosa quanto a do irmão.
– Nós… Nós… – Hermione começou a gaguejar; nunca sabia mentir para o namorado.
– Kingsley quis emprestar uns livros à Hermione e fomos ao seu gabinete. Iríamos avisar, mas vocês estavam ocup...
– VOCÊS DEVIAM TER AVISADO, HARRY! – agora foi a vez de Ginny berrar. – Malfoy foi atingido por um Comensal. Aquele idiota do Avery. Ele foi para o St. Mungos com urgência. Não sabemos o que ele teve, mas foi grave.
Mione e Harry se entreolharam com discrição.
– Ele mereceu, não é? – Ron sussurrou. – Mas ficamos malucos atrás de vocês!
– Achamos que Avery tinha levado você, Harry! –Ginny choramingou. – Ah. Eu fiquei tão preocupada!
Ela se jogou nos braços de Harry, que a acolheu e tentou acalmá-la. Hermione pretendia fazer o mesmo com o namorado, mas nesse momento, Ron estava rosnando e bufando feito louco, prestes a explodir.
– Ron, nós só estávamos… estávamos… – ela disse, trêmula.
– Vocês podiam ter me avisado! Podia ter ido comigo, Hermione! – ele berrou novamente. Alguns convidados olhavam para eles. – Eu sou o seu namorado! Eu deveria estar lá!
– Ron, não seja tão infant...
– Você está errada, Hermione! – ele berrou mais uma vez. – Você sabe que está!
– Não precisa gritar comigo, Ronald! – ela sussurrou, começando a ficar bastante irritada e até humilhada.
– Eu estou nervoso! – ele tentava diminuir o tom, mas acabava berrando novamente. – Você me deixou assim!
– Por que você não pode ser como Ginny e simplesmente entender o que aconteceu? – ela ralhou pela primeira vez. – Sempre tem que brigar e ficar bravo, nunca pode conversar. Você sempre estraga tudo!
– Ótimo. – ele disse com raiva. – Agora posso entender porque Harry foi com você e não eu.
Hermione engoliu em seco. Sabia que o namorado tinha razão. Eles não foram ao Ministério; mas se essa fosse a real situação, a grifa iria escolher levar Harry ao invés de Ron. Não só porque Ron reclamaria o caminho inteiro, mas também porque pensaria que não tinha tanta importância assim. Nessas horas, Hermione achava a companhia do amigo mais agradável, especialmente porque ele topava qualquer coisa, desde que estivessem se divertindo juntos.
Por fim, ela fechou os olhos, respirou fundo, abriu-os novamente e sussurrou:
– Me desculpe, Ron. – ela olhava com sinceridade para os seus olhos.
– Vamos para casa. – ele disse com a voz robótica.
Hermione assentiu. Porém, não iria aparatar com Ron, porque ela não aguentaria outra viagem daquelas na companhia de alguém, ou passaria mal. Por isso, apenas mentalizou o seu quarto na República-Refúgio e, em menos de cinco segundos, estava de pé sobre ele. Ela ouviu um estalo segundos depois, mas o barulho vinha da sala. Provavelmente Ron tinha acabado de desaparatar também. Em seguida, ouviram-se mais dois estalos; Harry e Ginny. Pela primeira vez, Hermione não se preocupara em ser educada. Apenas retirou depressa aquele vestido, enfiou a blusa de seu namorado que estava em cima da cama e se jogou sobre o colchão, se cobrindo. Ela apagou o quarto com as mãos e, em poucos minutos, já adormecera com facilidade.
Os dias que se seguiram foram um tanto cansativos. Mione estava na correria para comprar o seu material de Hogwarts e tinha de fazê-lo sozinha, já que Harry, Ron ou Ginny não voltariam para a escola com ela. De alguma forma, apesar de gostar da companhia deles, seria bom ter um tempo para ela mesma. O último ano em Hogwarts era tão estressante quanto o quinto, pois dessa vez, era a hora de tentar os N.I.E.M.s; com isso, ficaria sem tempo de se relacionar normalmente e até de tirar a cara dos livros.
Hermione, Harry, Ron, Ginny e Neville foram convidados por Kingsley para se tornarem aurores sem que precisassem concluir o último ano em Hogwarts - exceto Neville, que já o concluíra no ano da guerra, apesar de não chegar a prestar exames. Harry e Rony aceitaram de primeira, pois tinham como desejo trabalhar como aurores desde o seu quinto ano. Ginny, por outro lado, negou por ter sido convidada a jogar Quadribol profissionalmente. Neville também recusou por já ter seu posto garantido como professor em Hogwarts, convidado pela própria Minerva McGonagall. Hermione fora a única convidada a participar de todos os departamentos do Ministério por obter notas boas o suficiente para qualquer um dos cargos; ela poderia escolher o que fosse de maior desejo. Quem conhecia a bruxa o suficiente, no entanto, saberia que ela recusaria; não só porque queria concluir seus estudos em Hogwarts e não deixar escapar nenhuma matéria, mas também porque ela não considerava justo com todos os bruxos que se esforçaram para trabalhar no Ministério. Ron achou que aquela fora a maior estupidez que ela poderia fazer, mas Harry, por outro lado, achou justo, digno de uma boa funcionária.
Hermione se perguntava quem da Grifinória voltaria para Hogwarts. Ela se consideraria uma pessoa de sorte se pelo menos um dos seus colegas de turma voltasse para a escola depois da Guerra. Não só porque a maioria já havia concluído o sétimo ano enquanto ela, Harry e Ron caçavam horcruxes, mas também porque, pela performance dos alunos na guerra, muitos deles foram convidados a trabalharem sem que precisassem do último ano escolar. Ela, provavelmente, conviveria com alunos da turma de Ginny - o que seria bastante esquisito, já que Hermione nunca pensou ficar uma turma atrasada.
Apesar de toda a ocupação com a volta às aulas, a grifa não deixara de ajudar seu melhor amigo a procurar por Pansy. Na verdade, eles insistiram por quase um mês em encontrá-la, sempre indo aos mesmos locais ou em lugares completamente diferentes. Hermione e Harry chegaram até a bater na porta da mansão Malfoy para perguntar por Pansy, o que gerou uma crise de raiva tão assustadora de Astoria Greengrass, agora Malfoy, ao ponto da garota tentar expulsá-los com fogomaldito. A sorte é que Hermione dominava esse feitiço tanto quanto qualquer outro e conseguiu apagá-lo antes que ele devorasse a mansão. Daphne algumas vezes ajudava na busca também, mas nem sendo muito amiga de Pansy, ela conseguia descobrir um local em que a loura pudesse estar. Por isso, depois de, aproximadamente, um mês de busca diária, Harry resolveu fazer o que a garota pedira e não procurar mais por ela. Não só porque não fazia ideia de onde mais procurar, mas também porque ela poderia estar se movendo tanto quanto eles, cada dia num lugar diferente. Hermione se sentia um tanto enciumada por ver seu melhor amigo insistir tanto em alguém que sequer se importava em lhe mandar notícias, principalmente quando dizia que Pansy o entendia em diversos sentimentos que jamais alguém entendera antes. É óbvio que entendia; entrando na mente de alguém e tendo tanta magia acumulada como Pansy Parkinson, até Lord Voldemort seria capaz de entender os sentimentos da vítima. Na verdade, ela não deveria ligar. Entendia mais de Harry do que qualquer pessoa - exceto Ginny, talvez -, sem precisar necessariamente invadir sua mente para descobrir. Sabia, por Harry ser seu melhor amigo. Mas era difícil entender como Parkinson conquistara a amizade de Harry depois do que fizera com ela e Ron.
Quando chegara na véspera da volta à Hogwarts, Hermione, Harry, Ron, Ginny e Daphne resolveram fazer uma despedida na República. Na verdade, Daphne aceitou por livre e espontânea pressão, já que só ficara mais mal-humorada depois que Pansy fora embora. Hermione, no entanto, tentava entender a colega. Não só estava morando com gente que, até então, sempre zombava nos corredores de Hogwarts, mas também tinha de suportá-los sozinha e conviver de acordo com as regras da maioria. Quando queria, Daphne era divertida, simpática e agradável; mas sem a presença de Pansy, ela ficava mais quieta e agressiva do que o normal, embora não tão agressiva quanto Astoria ou a própria Pansy. Hermione achava engraçado o fato de Daphne ser da Sonserina, porque a garota tinha uma forte personalidade que lembrava muito a dos ravinos. Era inteligente - mais até do que Mione gostava de admitir -, reservada, perspicaz e extremamente individualista. Mas a grifa não tinha certeza se tamanho individualismo de Daphne lhe dava uma extrema ambição, ao ponto de passar por cima de quem fosse para alcançar seus desejos - característica forte em quase todos os sonserinos que Hermione conhecera. A única coisa que lhe dava certeza de que a Greengrass mais velha era realmente pertencente à sua casa, era a frieza de Daphne para coisas que apenas bruxos com mentes obscuras como a dos sonserinos possuíam. A garota manteve uma calma impecável quando soube que a melhor amiga quase fora morta por Avery, o cunhado perdera uma parte da memória e a irmã estava em prantos, mantendo-se tão rígida que Hermione quase não a reconhecera. Mione não teria certeza de que conseguiria se manter da forma firme que Pansy ou Daphne se mantiveram se visse amigos em apuros, embora já estivesse mais do que acostumada a lidar com a dor e o medo - cicatriz deixada pela guerra, especialmente após ser torturada por Bellatrix Lestrange.
Quando anoiteceu, as bebidas já estavam separadas, a comida estava pronta e os moradores da República comemorariam e se despediriam de Hermione e Daphne. Entre as bebidas, uma garrafa enorme de uísque de fogo se destacava entre as cervejas amanteigadas e os sucos de abóbora - Ginny não era maior de idade ainda e todos os outros tentavam não beber quando ela estava presente para não deixá-la tentada a quebrar as regras. Apenas na hora de brindar, é que as canecas foram servidas - exceto Ginny, que se contentou com sua cerveja - e todos puderam se deliciar com o sabor ardente do uísque de fogo. Hermione e Ron, os mais fracos, logo ficaram alegres, enquanto Harry e Daphne quase acabaram com a garrafa sem uma mísera mudança no comportamento. Daphne confessou que ela, Pansy, Malfoy e Blaise sempre bebiam escondidos em Hogwarts nos finais de semana, por isso estava tão acostumada. Já Harry fora para a ala hospitalar tantas vezes e tomara tantas poções e ervas, que seu corpo acostumara a resistir a qualquer bebida mais forte.
– Um brinde para as duas sabe-tudo de Hogwarts! – Ron ergueu sua caneca e deu uma risada.
Hermione o fuzilou com o olhar. Harry precisou segurar os risos.
– Ahm… Um brinde às corajosas em voltar para Hogwarts! – Ginny tentou corrigir, mas Hermione não engolira o que acabara de ouvir do próprio namorado; não aceitava que outra soubesse tanto quanto ela.
– Um brinde às pessoas que são justas com quem se esforça e… – ela dizia, com a caneca erguida.
– Um brinde a todos nós, pronto! – Harry, impaciente, cortou, saiu brindando sua caneca na de todos e deu um gole rápido, arregalando os olhos quando notou que acabara de beber uísque de fogo rápido demais.
– Vai com calma, amor. – Ginny revirou os olhos. – Não queremos ninguém de ressaca na estação amanhã.
– E alguma vez vocês já me viram bêbados? – Harry arqueou uma das sobrancelhas.
– Você parecia estar muito bêbado quando tomou a poção da sorte, Harry! – Hermione disse aos risos, bebericando um pouco de sua caneca.
Harry cuspiu um pouco do líquido e eles gargalhavam tanto, que Ginny e Ron pareciam até um pouco incomodados em ver os dois sempre se dando tão bem.
Após alguns longos minutos de conversa e risadas, na última rodada de uísque, todos encheram novamente suas canecas e pretendiam voltar a conversar, porém…
– Caham. – Harry pigarreou e todos o olharam, confusos. – Eu proponho... Um brinde…
Hermione notou a voz arrastada do amigo de longe.
– Harry, já brindamos! – ela sussurrou, beliscando-o discretamente.
– Brindamos, mas esquecemos! – ele falou entre risos.
– Harry... – Hermione sussurrou mais uma vez, já sabendo que ele diria besteira. – Cale essa boca e esqueça o brinde.
– Um brinde à pessoa que deveria estar presente, mas não está… – Harry disse enquanto olhava para a caneca, enquanto Hermione tapava o rosto com as mãos. – À Pansy Parkinson, que eu espero que esteja bem onde quer que ela se encontre agora.
O silêncio fora anormalmente perturbador. Ginny fuzilou Harry com o olhar, Ron estava bêbado demais para entender, Daphne estava boquiaberta e Hermione fingiu não ter entendido - o que era impossível.
– O quê? Vocês não vão brindar? – ele disse com um sorriso.
– Pansy Parkinson? Você quer brindar por Pansy Parkinson? – Ginny estava mais séria do que nunca.
– Ele está bêbado! – Hermione sussurrou, tentando amenizar a situação, mas sabia que era tarde.
– Por que ele diria isso, mesmo bêbado? Eu nunca bebi, mas não sou idiota. – ela se levantou e sentou-se ao lado de Harry, puxando-o pelo queixo com raiva. – Harry, me diga. Por que você quer brindar por Pansy?
– Porque… ela é… minha amiga! – ele disse enquanto apoiava a caneca na mesa.
– Ele está bêbado, Ginny! – Hermione insistiu. – Você alguma vez já viu Harry conversar com Pansy desde que viemos para a República?
– Não! – ela retrucou. – Mas eu não estou aqui todos os dias!
– Eles nunca se falaram, Weasley. – Daphne defendeu a amiga, bocejando. – Estou aqui todos os dias e eu saberia se Pansy e Potter fossem amigos, não acha?
Ginny hesitou.
– Mas… Por que ele diria isso, então? – ela perguntou com desconfiança, virando mais uma vez para o namorado.
– Pansy precisa de amigos! – Harry arrastou a fala. – E vocês aí ignorando.
Hermione teve vontade de jogar a caneca em Harry.
– Harry é muito nobre, não é? – ela disfarçou. – Querendo que Pansy Parkinson faça amizades… Realmente, Harry, é muito legal da sua par…
– Pansy não precisa de nenhum de vocês. – Daphne cortou, ríspida. – Eu aposto todas as minhas roupas que ela está muito melhor se virando sozinha. Pansy é a pessoa mais livre e independente que já conheci.
– Sim! É quase um lobo na flores… – Harry gargalhou.
– Por Merlin, Harry, cale a boca! – Ron finalmente se manifestou, tonto e começou a rir.
Os dois ficaram rindo sozinhos um do outro. Ginny e Hermione se entreolharam, enquanto Daphne ignorava a situação e apenas finalizava o seu uísque.
– Muito bem! – Hermione se ergueu num salto. – É hora de todos nós irmos para cama. Amanhã temos um longo dia pela fr…
– Você tem um longo dia pela frente. – Ginny cortou. – Nós não. Apenas a levaremos e poderemos dormir o quanto quisermos.
Hermione estava alegre, mas sempre raciocinava demais, mesmo sob efeito de álcool.
– Não é amanhã que eles precisam ir ao Ministério se apresentar ao Departamento em que vão ficar? – ela disse como se fosse óbvio.
Ginny gelou.
– É mesmo! E esses idiotas bêbados! – ela também se ergueu num salto, começou a recolher tudo e a levar apressadamente para a cozinha.
Depois de muita insistência de Ginny e Hermione para que Harry e Ron fossem se deitar - e depois de Daphne cansar de presenciar a cena e simplesmente forçá-los a aparatar com ela para os quartos -, Hermione terminou de guardar o que restara na mesa e sentiu-se um pouco aflita. Apesar de toda a confusão, sentiria falta dos seus amigos. Das conversas, das piadas e da rotina. E de Ron; principalmente de Ron. Depois que eles se deitaram, cada um em seu quarto, Hermione deitou-se junto de Ron, lhe deu um beijo demorado e carinhoso - mesmo que ele mal soubesse o que estavam fazendo - e eles passaram um bom tempo trocando carícias e beijos. Algum tempo depois, tiveram relações e adormeceram. Hermione não gostava de fazer nada depois de beber; mas como só veria seu namorado no Natal, sabia que o melhor seria aproveitá-lo naquela noite. Por isso, adormeceu tranquila e relaxada.
No dia seguinte, desde cedo a correria já começara. Não só ao separar o malão de Hermione - Daphne fora mais cedo, porque encontraria-se com Astoria e Draco antes -, mas também na preparação para que Ron e Harry fossem ao Ministério depois que Hermione embarcasse.
– Hermione, você devia ter arrumado uma coruja, droga! – Ron resmungou. – Você sempre fica enfurecida com Pichi! – ele disse enquanto colocava a corujinha acizentada numa gaiola de porte menor.
– Sem essa! – Ginny revirou os olhos. – Pichi gosta mais dela do que de você, Ron. Contente-se!
– Ele come de duas a três vezes por dia e… – ele tentou lembrá-la.
– Eu sei, amor! – Hermione retrucou. – Eu praticamente convivo todos os dias com você há oito anos! Acha que eu ainda não aprendi? – sua expressão muito óbvia fez Ron franzir o cenho.
– Está bem! Mas prometa que vai escrever e vai dar atenção a Pichi. – ele pediu com a expressão séria.
– É óbvio. – ela sorriu. – Pichi gosta de mim, como Ginny disse.
Depois que tudo estava preparado, eles se deram conta de que faltava aproximadamente meia hora para o trem partir.
– Céus! Eu não posso perder o trem! – Hermione se desesperou. – Eu não acho o do meu distintivo!
– Calma, Mione, nós iremos achar… – Harry tentou acalmá-la. – Accio distintivo!
Nada aconteceu.
– Acha que ela já não tentou isso? – Ginny observou como se fosse a coisa mais idiota do mundo. – Não está aqui!
– Eles poderão lhe dar outro em Hogwar… – Harry tentou aconselhar.
– Eu sou monitora-chefe! – ela se desesperou. – Como esperam que eu seja uma boa monitora-chefe sem distintivo no meu primeiro dia?
– Mione, é só um distint… – Rony começou a dizer.
– É responsabilidade! – ela cortou mais uma vez.
Depois de quase quinze minutos procurando o distintivo perdido, Hermione o achara quebrado perto do corujal; Pichi provavelmente o deixou cair. Ela o consertou e, furiosa, o prendeu em seu uniforme, já encardido e envelhecido depois de seis anos de uso. Eles finalmente deixaram a República e aparataram até a esquina mais próxima da estação de King's Cross, já que seria muito esquisito se eles desaparatassem do nada na frente dos trouxas. Assim que eles entraram na estação, alguns trouxas desconfiados olhavam com receio para o carrinho com o malão e a gaiola de Pichi.
– Que estranho, não é? – Ron disse a Harry. – Nunca mais usaremos esse uniforme outra vez.
– Não é como eu sentisse falta de usá-lo. – Ginny disse com naturalidade, enquanto Harry gargalhava. Hermione estava ansiosa demais para prestar atenção neles.
Eles atravessaram a passagem entre as plataformas 9 e 10 e, de um passo para o outro, estavam na tão famosa Plataforma 9 ¾, a qual eles conheciam tão bem depois de seis longos anos em Hogwarts. Era esquisito para Hermione estar ali sem que seu namorado e amigos não estivessem uniformizados como ela. Mais estranho ainda, era o fato de que ela embarcaria no trem sozinha e, entre todos os alunos presentes, ela não reconhecera nenhum que fosse de sua turma. Com quem ela se sentaria quando embarcasse? Quem lhe faria companhia? Até que, após alguns minutos à espera da hora de entrar no trem, ela vira rostos conhecidos.
– Luna! Neville! Aqui! – ela acenou para os amigos, que sorriram e logo foram encontrá-la.
– É bom vê-la, Hermione. – Neville disse, enquanto a abraçava. – Harry, Ginny, Ron. Como vão?
Todos se cumprimentaram.
Para Hermione, também era esquisito o modo como Luna e Neville também não eram alunos como ela. Neville estava com vestes normais, porém uma capa acizentada cobria o seu corpo, como os professores de Hogwarts costumavam usar. Luna, como sempre, estava excêntrica. Na verdade, ela até lembrava um pouco a professora Trelawney com o vestido esquisito, o xale por cima das roupas e os brincos chamativos e pendurados nas orelhas. Os cabelos loiros, que pendiam até o meio das costas, eram o destaque e provavelmente atrairia o olhar de todos os alunos.
Quando o relógio marcou 10:55, Hermione abraçou os amigos e se despediu pouco a pouco, um por um. Primeiro de Ginny, depois de Harry e, por último, de Ron. Eles se beijaram demoradamente e ela sentiu seus olhos arderem.
– O que foi? – Ron perguntou com suavidade, passando com delicadeza o polegar no lugar do rosto que acabara de escorrer uma lágrima.
– Eu… Vou sentir a sua falta. – ela confessou.
Ron corou. Como sempre, não sabia direito o que dizer.
– Eu também. É, eu vou. – ele a abraçou mais uma vez e eles se beijaram novamente.
Ginny e Harry se entreolharam e reviraram os olhos.
– Não vai se apaixonar por outro ruivo, Mione! – Ron disse baixinho ao terminar de beijar a namorada.
– É óbvio que não! – ela revirou os olhos.
– Nem por qualquer outra pessoa. – ele pediu, claramente inseguro.
Hermione apenas sorriu e beijou-lhe a ponta do nariz. O relógio marcou onze horas.
– Preciso correr! – ela selou os lábios do namorado uma última vez e correu para embarcar. Logo voou entre o corredor e sentou na cabine onde Luna, Neville, Padma Patil e Dean Thomas estavam sentados. Todos conversavam animados e ficaram felizes em saber que ao menos não ficariam sozinhos. Hermione, uma última vez, olhou para os amigos do lado de fora e acenou antes que o trem partisse. Contudo, antes das portas se fecharem, ela viu o olhar de Ginny no outro lado, que logo arregalou os olhos. Em seguida, Harry e Ron olharam também, assustados. Eles logo cochicharam entre si e Hermione tentou ver o que eles viram que os deixou daquele jeito, mas logo as portas se fecharam e o trem começou a partir. Era esquisito porque ninguém mais pareceu se importar do lado de fora, então talvez não fosse nada preocupante. Até que a imagem das pessoas na estação desaparecesse, ela tentou localizar qualquer coisa esquisita, mas nada parecia fora do comum. Até que, depois de algum tempo ela apenas desistiu e tentou se distrair conversando com os amigos.
– O que vocês pretendem fazer? – Luna perguntou, curiosa.
– Quero ser curandeira! – Padma disse com o sorriso triste. – Era o meu plano com Parvati. Quero salvar pessoas da forma que não pude salvá-la.
– É realmente bonito, Padma. – Luna disse com um sorriso atencioso no rosto, tocando na mão da amiga, que era da mesma casa que ela.
Hermione já conseguia ver Luna como sua professora, embora ainda fosse estranho.
– Eu quero trabalhar no Ministério. Controle do uso indevido da magia. – Dean assentiu, orgulhoso.
– Regulamentação e controle de criaturas mágicas. – Hermione disse com entusiasmo, embora ainda pensasse no que seus amigos viram.
– Vai dar continuidade ao F.A.L.E.? – Luna perguntou com entusiasmo. – Eu posso ajudá-la… Meu pai disse que os elfos domésticos após a batalha passaram a reivindicar por algumas coisas.
Hermione sorriu e elas passaram o restante da viagem bolando planos e ideias para o F.A.L.E., embora Hermione não fosse ter o apoio de Luna quando estivesse no Ministério. Após muitas horas de viagem, quando o céu já estava escurecendo, a maioria das pessoas já estava adormecida na cabine; exceto Mione, que agora lia um livro de Runas Antigas. Ela quase pulara do banco quando o seu momento de concentração fora interrompido por batidas apressadas na porta da cabine. A grifa vira Minerva McGonagall do outro lado, apressada.
– Srta. Granger! – ela abriu a porta de repente. – Srta. Granger, se apresse! Você é monitora, precisa organizar os alunos. Estamos chegando!
– Ahn, claro. – ela se levantou com um pouco de tonteira, confusa.
– Neville, Luna, vocês vêm comigo. Precisarão se reunir na mesa dos professores antes do banquete se iniciar.
– Boa sorte… – Hermione sorriu para eles quando se retirou da cabine e logo fora para o corredor, começando, pouco a pouco, a ordenar que os alunos colocassem suas vestes e se organizassem para sair.
O desembarque era sempre confuso. Os alunos primeiroanistas eram sempre os mais ansiosos e perdidos. Por mais que Hermione desse as instruções repetidamente, sempre eles erravam e pareciam não ter entendido. Minerva percebeu que eles simplesmente não pareciam entender uma palavra que Mione dizia, então pediu que ela organizasse os alunos mais velhos. Com eles, fora infinitamente mais fácil. Hermione precisou dar as instruções apenas uma vez e logo todos já estavam preparados para sair. Quando desembarcaram - após a longa fila dos alunos primeiroanistas confusa -, ela guiou cada um até os barcos, que os levariam para o castelo. Depois que todos estavam seguros dentro dos barquinhos, ela finalmente entrou no barco dos monitores e se encontrou mais uma vez com Padma, que era monitora da Corvinal. Ela não conhecia o monitor da Lufa-Lufa, muito menos o da Sonserina que, aliás, costumava ser o cargo de Draco Malfoy e Pansy Parkinson. Onde estaria Pansy? Ela deveria estar ali agora. Apesar de querer procurar por ela, a confusão era sempre tanta, que logo os barcos chegaram ao castelo e eles tiveram que descer para pegar as carruagens. Mais uma vez, Hermione teve de guiar os alunos e separá-los em quartetos para as viagens. Cansada, quando ela finalmente colocara o último grifo na carruagem, ela subiu na sua dos monitores e quase caiu para trás ao ver o longo bicho que guiava as carruagens.
– Então testrálios são assim? – ela arregalou os olhos, assustada com as criaturas que pareciam cavalos que não comiam há meses e bem mal-cuidados.
Por anos, a grifa viajara para o castelo sem nunca ter presenciado uma única morte, por isso, não conseguia vê-los. Provavelmente todos os alunos de Hogwarts que estiveram na batalha eram capazes de vê-los agora.
Minutos depois, eles finalmente chegaram a Hogwarts e, mais uma vez, a garota teve de organizá-los e guiá-los. Hermione já não aguentava mais e agradecia por aquele ser o seu último ano como monitora, especialmente porque ela toda hora precisava dar broncas e ameaçar os alunos que insistiam em desobedecê-la. Pela primeira vez desde que embarcara, o seu coração apertou, pois Ron sempre conseguia aquietá-los num minuto, enquanto ela precisava falar várias vezes para que eles a obedecessem. Se o seu namorado estivesse ali, talvez ela não precisasse se cansar tanto. Depois que todos os alunos entraram no castelo e ela finalmente poderia ir até o salão comunal, ela se deu conta de que seu malão ficara do lado de fora.
– Você não vem, Hermione? – Padma perguntou de longe.
– Eu vou! É que esqueci meu malão lá fora. Volto em um minuto!
Ela correu para a parte externa e procurou por seus pertences, só encontrando-os depois de ouvir Pichi piar nervoso. Ela foi até o malão, o organizou no carrinho novamente e, depois de desistir de tentar acalmar a pequena corujinha, a soltou para que fizesse o que quisesse. Ron ficaria louco de saber que a corujinha estava solta, mas o animal não era nenhum imbecil que se perderia no castelo. Porém, quando a grifa deu os primeiros passos em direção ao castelo novamente, ela ouviu o portão se abrir novamente.
– Senhorita! Você está atrasada! – O Sr. Filch falava com fúria.
Hermione se virou para ver quem era o aluno que se atrasou e se sentiria uma droga se fosse algum dos alunos da Grifinória que ela teve tanto trabalho em guiar. Porém, assim que ela desviou o olhar para a direção da pessoa que mal fazia barulho enquanto caminhava, o seu coração gelou.
Pansy Parkinson, mesmo distante de onde Hermione estava, era inconfundível, embora estivesse muito diferente desde a última vez que a grifa a vira. Ela andava tão silenciosamente quanto um tigre pronto para a caça; sua capa preta, mais longa que a maioria dos uniformes de Hogwarts arrastava-se pelo chão, enquanto o distintivo verde e prata brilhava contra o peito. Seus cabelos, que antes eram cacheados e longos, agora estavam completamente diferentes; a altura do corte estava no ombro da loura e os cachos haviam sumido, considerando que eles apareciam apenas nas pontas quando o cabelo da garota era maior. A expressão da sonserina não era de fúria, nem de dor, como costumava ser anteriormente. Mesmo no escuro, Hermione via os olhos acizentados da garota vazios e a sua expressão indiferente, séria, como se não houvesse um sentimento restante em Pansy. O rosto era tão rígido, que até se assemelhava ao de Lord Voldemort na primeira vez que Hermione o vira. Hermione tentou demonstrar alguma reação, mas Pansy simplesmente passara direto por ela, como se a grifa fosse invisível. E, apesar da sua chegada chamar a atenção, Pansy Parkinson andava tão silenciosa e rápida, que Hermione jamais perceberia se não tivesse escutado Filch falar. A garota jogou a capa para frente - exatamente quando Snape fazia ao andar - e Hermione teve a sensação de que o ambiente ficara mais frio só pela presença da sonserina. A garota parecia tão assustadoramente vazia e perigosa, que Hermione temeu, pela primeira vez, estar sob o mesmo teto que Pansy.
– P… Parkinson? – Hermione disse com a voz trêmula, embora com a expressão firme.
Pansy, que parecia não ter notado a presença dela ali, apenas parou e virou somente o rosto para trás.
– Eu fico feliz que você esteja bem. – Hermione se odiou por ter dito isso.
Pansy Parkinson continuou imóvel. Apenas respirou fundo, tão suavemente quanto um animal prestes a atacar e, em um movimento rápido, fez novamente o mesmo movimento da capa que Snape fazia, voltou a se virar para frente e se retirou dali, sempre mais rápida do que as pessoas costumavam esperar, deixando a grifa sozinha. Por um momento, Hermione podia jurar que viu em Pansy o seu antigo professor de poções.
