Avisinho: tem 3 POVs diferentes nesse capítulo. Boa leitura!
Capítulo 12 - A bordo do Argo II
POV Annabeth
Logo que Percy disse as palavras, decidimos nos mexer. Leo disse que ficaria no Bunker para preparar o Argo para zarpar, e em seguida faria as malas. Combinamos o horário de partir e saímos do Bunker, deixando os filhos de Hefesto fazendo sua mágica.
— Você parece mais animado. — eu disse a Percy enquanto andávamos de volta até a área dos chalés. — Foi o navio? Ou a missão iminente?
Era difícil adivinhar o humor de Percy esses dias. O Tártaro o mudara muito, e eu tinha consciência disso. Geralmente eu podia ver o Percy que eu tinha conhecido por trás dos olhares vazios e atormentados, mas às vezes ele se fechava de um jeito que era difícil saber o que estava acontecendo. Como ontem, depois do duelo com Clarisse.
Agora, no entanto, ele parecia mais com ele mesmo. Especificamente, com o Percy Jackson que eu tinha ajudado a trazer para o acampamento, tantos anos atrás.
— Foi o navio. — ele sorriu, respondendo minha pergunta. — Faz tempo que eu não navego. Vai ser bom.
— Você sabe que o navio de Leo voa, certo? Podemos não estar na água o tempo todo. — eu o lembrei.
— Sim, mas tenho certeza que ele será tão rápido na água como no mar, e eu sei que posso convencer Leo a mantê-lo na água até chegarmos na Europa. — ele deu uma piscadela pra mim, e eu sorri largamente de seu entusiasmo. — Além do mais, só de estar em um navio... Sei que vou me sentir melhor, independente do que vier pela frente.
— Nada como estar no seu território. — eu provoquei, lhe dando uma empurradinha com o ombro.
Ele riu. — Sim. Nada como estar no meu território.
Eu me estiquei e lhe dei um beijo.
— Preciso ir. Você não tem um Chalé inteiro pra comandar, então só precisa fazer as malas. Eu tenho ordens para delegar.
Ele riu de novo e me beijou mais uma vez, demorando um pouco mais do que eu tinha demorado.
— Vá lá. Nos encontramos no almoço.
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No almoço, Quíron anunciou a todos os presentes que os Sete estariam de partida no final da tarde. Ele reconheceu Leo como o responsável pelo maior projeto já visto na história do Acampamento Meio-Sangue, e falou que todos seriam bem-vindos na praia, de onde o Argo II iria zarpar. Bem na fronteira que dividia os Acampamentos na praia. Eu imaginava que Jason estaria dizendo algo parecido para os romanos nesse momento.
Depois do almoço, me sentei com Malcolm no Chalé de Atena e lhe passei minhas responsabilidades. Piper, no chalé de Afrodite, fazia o mesmo, e Leo também o fazia com os semideuses de Hefesto. Todos éramos Conselheiros, e os Chalés precisariam de alguém no nosso lugar até que voltássemos.
Percy, tecnicamente, também era conselheiro, mas ele era o único campista do Chalé de Poseidon, então ele tinha a tarde livre. Eu sabia que ele ia falar com a mãe e lhe dizer o que estava acontecendo, e então Nico, ele e Thalia tinham combinado de fazer alguma coisa à tarde. Eles brincaram comigo dizendo que era "coisa dos Três Grandes" quando perguntei o que eles iriam fazer, e eu evitei rir para fingir aborrecimento, mas deixei o assunto pra lá.
Quando finalmente terminei com Malcolm, minhas malas e tudo que eu precisava fazer, passava das três da tarde. O horário combinado para nos encontrarmos no Argo era às cinco, e eu tinha o resto da tarde livre, já que minhas coisas estavam prontas.
Eu poderia ir ajudar Leo com os preparativos, mas sabia que ele estava tendo ajuda de seus irmãos e eles sabiam mais do que eu, de qualquer maneira. Resolvendo que era a melhor coisa a se fazer, eu deitei na minha cama no Chalé e fechei os olhos. Eu poderia muito bem conseguir algum descanso agora; eu não fazia ideia de quando poderia tê-lo de novo.
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POV Nico
Thalia e eu estávamos em apuros. E pior que era tudo culpa nossa.
Quer dizer, quem em sã consciência se oferece para lutar contra Percy Jackson? Ninguém. Clarisse tinha feito isso ontem, mas todo mundo sabia que ela era meio louca. Eu achei que tinha algum senso, já que vi tantas almas sofrendo por arrependimentos, mas aparentemente eu tinha alguns parafusos soltos também. Ou Thalia tinha e me convencera a fazer isso mesmo assim, como ela fazia com a maioria das coisas.
De todo jeito, Percy estava nos dando uma surra. Éramos dois contra um, e mesmo assim ele estava vencendo. Como eu sabia? Bem, eu tinha passado perto demais da lâmina da Anaklusmos mais do que apenas uma vez nos últimos dez minutos. Estava ficando ridículo.
Percy sempre fora rápido, mas agora parecia três vezes mais. Ele sempre fora habilidoso com a espada, mas agora era diferente. Seu estilo de luta não mudara muito, mas ele tinha mais fluidez, e alguns golpes e movimentos novos que nos pegaram de surpresa. Ele não tinha usado esses movimentos com Clarisse.
— Você realmente aprendeu truques novos. — Thalia ofegou enquanto escapava da lâmina de bronze celestial mais uma vez. — E como exatamente você está conseguindo nos dar uma surra?
Percy riu, e a risada dele de algum modo me deixou nervoso, de um jeito ruim.
— Eu sempre consegui dar uma surra em vocês. — ele desconversou.
Eu e Thalia nos olhamos por um segundo, entendendo que não era hora de falar sobre isso.
— Eu me rendo. — eu disse, soltando minha espada pra ele ver que eu falava sério.
Ele deu de ombros e se concentrou em Thalia, que resistiu bravamente por dez segundos, até que ele deu o golpe final. Bem, não exatamente. Mas a espada dele tinha feito Thalia largar sua lança, e ela se rendeu, sabendo que não tinha chance.
— Droga, Percy. — ela reclamou. — Não é justo. Eu quero aprender alguns desses movimentos também, e você está indo embora de novo.
Ele riu de leve, e transformou Contracorrente de novo em caneta. Eu peguei minha espada e a guardei. Ele fez o mesmo com sua caneta e Thalia recuperou sua lança.
— Então vamos torcer pra que eu volte, aí eu te ensino umas coisas. — ele deu uma piscadela.
Thalia parecia nervosa, mas disfarçou e olhou séria pra Percy. — Você sempre volta.
Ele sorriu, parecendo agradecido, e então virou pra mim.
— Então, vamos ficar só de bate papo agora ou querem revanche?
— Revanche coisa nenhuma. — bufei. — Vamos fazer algo em que eu seja bom!
Fui em direção à saída da arena de combates que tínhamos usado, ao mesmo tempo que alguns filhos de Apolo iam entrando para treinar também. Will Solace, o conselheiro do Chalé, cumprimentou Percy, e os dois conversaram por um minuto enquanto os outros campistas entravam na arena, olhando para Percy em admiração.
Um deles, na verdade, um loiro baixinho com espinhas, que não devia ter mais de doze anos, tomou coragem pra falar comigo e perguntou:
— É verdade que você conhece o Percy desde que ele veio ao acampamento pela primeira vez?
Eu dei um sorrisinho.
— Sim. Somos primos.
Ele arregalou os olhos. Thalia, ao meu lado, riu.
— Nós três somos "primos" — ela fez aspas com os dedos para enfatizar. — Você sabe. Os Três Grandes são irmãos, então nos consideramos primos de primeiro grau.
— Ah. — ele não parecia entender muito bem, mas deu um aceno curto e foi tomar seu lugar com os outros.
Percy e Will terminaram de falar e nós recomeçamos a andar. Cumprimentei Will de leve quando passamos ao lado dele, e continuamos nosso caminho.
— Me deu fome. — disse Percy.
Thalia abriu um sorriso enorme.
— Pelos deuses, como eu não lembrei de te mostrar isso?! — ela pegou a mão de Percy e saiu correndo, e eu estava logo atrás deles, rindo da empolgação de Thalia.
— O que é, Tha? — perguntou Percy.
— Você vai ver. — eu respondi, correndo ao lado dele. — Foi ideia dos Stolls. Ninguém deu muita fé no começo, mas acabou virando algo muito bom.
Paramos em frente à lanchonete, que ficava um pouco atrás dos campos de morangos. Era um pouco escondida, você só saberia que estava ali se já tivesse estado lá.
— Uma lanchonete? Estou aqui há quase três dias e ninguém me falou que agora temos uma lanchonete? — Percy ficou indignado.
Thalia e eu rimos.
— Bem, estamos dizendo agora. — repliquei.
— Mais um motivo pra você voltar dessa vivo, Percy. Você tem que aproveitar a lanchonete. — Thalia incentivou.
Ele riu e se aproximou.
Tinha sido uma boa ideia. Lanches saudáveis (ou não, nos fins de semana era permitido fast-food) no meio do dia era uma coisa boa, porque muita gente tinha fome entre as refeições, com todo o treinamento que precisávamos fazer. Por uma dracma de ouro, você comprava um belo lanche saudável, com direito a uma bebida gostosa de sua preferência.
Percy pegou três dracmas do bolso, e eu e Thalia arregalamos os olhos. Ele nem olhou para nós enquanto ficava na fila e olhava o menu pendurado na parede atrás do balcão.
— Vocês querem o quê? Estou pagando. Tenho dracmas acumuladas dos anos que passei fora.
Eu e Thalia nos olhamos e sorrimos, entrando na fila ao lado de Percy sem questionar.
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POV Percy
Depois que eu, Nico e Thalia comemos, conversei com eles por um tempo. Acabei falando como me sentia depois do Tártaro pra eles, quase o mesmo que falei pra Annabeth no dia anterior depois do fiasco com Clarisse. Eles me entendiam também. Prometeram que eu podia lhes mandar uma Mensagem de Íris a qualquer hora se sentisse que precisava falar com alguém (que não fosse Annabeth).
Thalia acabou sendo chamada pra resolver uma bronca, e Nico ficou. Quando ela saiu, ele reiterou:
— Estou falando sério. Acho que ninguém aqui entende o quanto o Tártaro é poderoso, o quanto a simples essência daquele lugar pode sugar uma pessoa. Eu estive lá por um dia uma vez, Percy, antes de encontrar Hazel... — ele engoliu em seco e eu o olhei atentamente. — Eu não sei como você sobreviveu por três anos.
Dei uma risada sem humor. — Eu me pergunto isso de vez em quando, também.
Ele deu um sorriso triste. — É por isso que eu digo: se durante essa missão, ou até depois dela, você precisar conversar e... apenas deixar essa escuridão do Tártaro sair, desabafar... pode contar comigo.
Eu sorri, certo que Nico estava sendo sincero. Como filho do Mundo Inferior, ele sabia do que estava falando. Mais do que os outros. Talvez mais do que Annabeth, que era a pessoa mais inteligente que já conheci. Mas Annabeth só sabia dos mitos e histórias. Nico tinha estado lá. Ia e vinha do Mundo Inferior com mais frequência que o próprio Hades, e mesmo que seu tempo no Tártaro tivesse sido menos que um dia, ele entendia.
— Valeu, Nico.
— Disponha.
Estávamos sentados perto da fonte na área comum dos chalés, e notei que o sol estava começando a baixar. Olhei para o meu relógio e franzi.
— Parece que está quase na hora. Melhor eu ir me preparar.
— Claro. Eu te encontro na praia?
— Combinado.
Partimos em direções diferentes. Nico provavelmente ia encontrar Thalia, e eu decidi tomar um longo banho pra relaxar meus nervos, que estavam ficando tensos novamente depois da conversa sobre o Tártaro. Eu precisava controlar isso.
Passei pelo menos vinte minutos embaixo d'água, pensando, suspirando, deixando a água limpar o suor do dia e acalmar meus nervos e minha mente. Saí e me vesti como sempre, mandei mais uma mensagem para a minha mãe, que colocou Paul e Sophie diante do arco-íris e os três me deram tchau.
— Fique seguro, Percy. — minha mãe pediu, lágrimas nos olhos enquanto sorria.
— Vou ficar. — prometi, sem saber se conseguiria cumprir essa promessa.
Mas minha mãe entendia. Me despedi deles e peguei minhas coisas, indo até a porta. Respirei fundo e a abri, saindo para o dia que pouco a pouco dava lugar à noite. Encontrei Piper e Annabeth saindo de seus chalés também. Eu sorri para elas e peguei a mão de Annabeth na minha, segurando firme.
— Leo já foi? — perguntei.
— Não sei... — Piper franziu, tentando lembrar.
Bem nessa hora, passamos pelo chalé de Hefesto, e Leo saiu de lá com uma mochila nas costas, o cinto de ferramentas pendendo na cintura, uma bolsa preta pequena e uma maleta que parecia ser de bronze celestial, com dois rubis no centro.
— Badboy supremo se apresentando! — ele fez uma continência para nós, nos fazendo rir, e fechou a porta atrás de si. Me ofereci para carregar alguma coisa e ele me deu a bolsa preta, e andamos em um silêncio agradável até a praia.
Não estava surpreso em ver os dois acampamentos nos esperando lá, em peso. As pessoas deram espaço para nós passarmos, sorrindo e dizendo palavras de encorajamento enquanto andávamos. Acho que elas estavam tentando ajudar, mas só me fez sentir como se estivesse indo pra forca.
— Me sinto caminhando pra forca. — disse Leo, resmungando e ecoando meus pensamentos.
— Eu também. — ri com ele. — Não ajuda muito ficar ouvindo isso à beira de uma missão potencialmente fatal.
As meninas concordaram com a gente, e finalmente chegamos na fronteira, que era mais imaginária que outra coisa. A primeira coisa que notei foi a enorme rampa de madeira que tinha sido colocada, provavelmente pelo chalé de Hefesto. Ela saía da arrebentação da praia e se estendia por pelo menos três metros para cima, parando no piso principal do Argo II, que flutuava sobre as ondas do mar. E não digo flutuava no mar, o navio estava planando no ar mesmo.
Deixei meus pensamentos sobre a beleza do navio de lado por um momento e me voltei para a frente. O acampamento romano quase inteiro, eu imaginava, estava do outro lado, em suas camisetas roxas e armaduras, conversando entre si enquanto Reyna e Jason conversavam. Ele não usava sua toga de pretor, o que era sinal de que estava pronto pra partir.
Hazel e Frank estavam vestidos como ele: calças jeans e a camiseta roxa do acampamento, e tênis. Suas mochilas e bolsas estavam na areia, e nós fizemos o mesmo ao chegar à frente da nossa comitiva grega. Notei que eu, Leo, Piper e Annabeth todos usávamos shorts ao invés de calças jeans, e também estávamos com a camiseta do acampamento. Eu me perguntava se teríamos muitos problemas com os romanos no caminho por causa das diferenças de costumes, mas deixei pra lá.
Quíron e Rachel apareceram, assim como Thalia e Nico. Jason e Reyna pararam de conversar e Quíron disse algumas palavras para os campistas e para nós, e todos nos aplaudiram, e de repente estávamos prontos para partir. Quando estávamos prestes a começar a subir a rampa que nos levaria ao Argo II, um centurião que eu não lembrava o nome perguntou se levaríamos um acompanhante na missão. Missões perigosas podiam precisar de acompanhantes maiores de idade. Eu segurei o riso.
— Os Sete não precisam de um acompanhante. — disse Quíron com firmeza.
— Tem certeza, Quíron? — Frank perguntou. — É uma missão perigosa. Um acompanhante legal parece boa ideia.
— Sim. Mas Percy e Annabeth têm 21 anos. Os dois são maiores de idade. E eu confio que eles serão responsáveis o suficiente. — ele nos deu um olhar tão profundo que nos fez corar involuntariamente.
Ouvi Nico e Thalia rirem e sussurrarem (pra todo mundo ouvir) pra nós: — Comportem-se.
Annabeth fez cara feia pra eles, mas eles não ligaram e continuaram rindo.
— Se é assim, não tem nada pra discutirmos. — disse Jason, com a testa franzida. — Precisamos partir.
Assentimos, e nos despedimos de nossos amigos próximos. Nico repetiu sua promessa no meu ouvido, e eu o agradeci novamente. Thalia me mandou ficar seguro, e eu prometi que tentaria. Acenei para Clarisse, Will, Chris e os outros antigos conselheiros que eu conhecia, e segui Annabeth e Piper pela rampa, tentando não olhar para trás. Essa não seria a última vez que eu veria meus amigos.
Já no Argo II, Leo nos mandou ficar quietos enquanto ele colocava o Argo no ar. Ouvimos vivas e saudações romanas e eu me inclinei sobre o batente com os outros para acenar. Parecia cena de filme antigo, com a exceção que nosso navio voava. Logo os acampamentos sumiram do nosso campo de visão, e só o que nos rodeava eram nuvens.
E lá vão eles. E agora? Não deixem de comentar!
