"A gravidade está trabalhando contra mim.
E a gravidade quer me pôr pra baixo.
Oh, eu nunca saberei o que faz esse homem.
Com todo o amor que o seu coração pode agüentar.
Sonhar com modos de jogar tudo isso fora."
Gravity – John Mayer
Arrependimento.
Palavra que está ligada supostamente a uma ação prévia, para todos os efeitos, errada. Alicia havia concordado e em partes estabelecido as regras do jogo e foi a primeira a trapacear. Ela deveria dar um basta aos beijos que traçavam sinuosos caminhos pelo corpo; afastar as mãos habilidosas que insistiam a arrancar-lhe as últimas peças de roupa; evitar as mordidas que deixariam marcas no dia seguinte, mas além disto, ela estava obrigada a reprimir a si mesma e impedir a própria pele de experimentar sensações tão prazerosas.
Não, não era arrependimento. Era autopreservação.
Desconectou os lábios de Stark do pescoço e levantou em um pulo. No movimento, mal conseguiu se suster, por sentir as pernas fracas demais. Errado. Errado. Errado. Era a única palavra que girava sem parar na mente. Errado deixar Tony possui-la ou errado continuar a se afastar do inevitável? E, a resposta, falhou em surgir.
Ao contrário, a impressão nauseante se fez presente. Incomodada, analisando a instabilidade do carpete e o ambiente claustrofóbico, coletou a saia localizada próximo aos pés e ignorou a blusa rasgada no chão, indo diretamente para a porta. Antes que pudesse alcançar a maçaneta, escutou a voz seca de Tony sobre a nuca.
- Fugindo senhorita Martins?
Ela, em outra situação, levaria o insulto ao ponto mor da revolta. Mas, o que poderia rebater? Era exatamente o que estava fazendo. Fugindo. Agindo em visível covardia. Não estava em condições de enfrentar alguma discussão calorosa com Tony e muito menos em ceder mais uma vez à tentação. Deu mais um passo, mas a atitude foi das piores.
- Não dê as costas para mim! - ele bradou nervoso, virando Alicia de maneira violenta. Stark estava cansado; de si mesmo, da imprecisão do futuro com ela e das sensações estranhas crescentes a cada dia. O feitio dele passava longe da agressividade, porém estava tão consternado pelo andamento das manifestações de emoções, que nem sabia que possuia, que agarrou-se na primeira alternativa de raiva. E recebeu como reação uma expressão transtornada da mulher.
- Eu preciso … de ar … - ela sussurrou, parecendo mais debilitada do que antes. Surpreso, Tony afrouxou o aperto no braço de Alicia e a observou andar a passos incertos até a porta, desaparecendo de vista.
Com os cabelos caindo sobre o rosto, Martins caminhava apressada pelo corredor, quando colidiu em Rhodey, que vinha pelo lado oposto. O militar fixou o olhar nas formas da amiga, notando a ausência da blusa e o sutiã branco exposto, deixando à mostra o esculpido torso, parcialmente desnudo. Ele tragou saliva antes de questioná-la:
- Alicia? Mas o que …
- Eu só quero; eu … preciso de ar. - ela murmurou, encolhendo-se, tentando esconder o máximo de pele possível.
- Infelizmente, eu não posso informar algum lugar … - e então, Alicia ergueu os olhos do chão, mostrando uma expressão transtornada. Ela precisava de ajuda. De um ombro amigo. E, ali, James era o único. - … venha comigo. - retirou o sobretudo de si e o entregou à Lily, que sem protestar o vestiu, aceitando de bom grado o braço de Rhodey, em sinal de oferta para um passeio.
- Obrigada. - foi a única frase que conseguiu formular, em voz baixa, sendo guiada para fora do hotel.
O clima estava agradável; sem resquícios de chuva ou Sol escaldante. Apenas, uma limpa tarde de inverno. Preenchendo os pulmões, alegrando-se com a umidade do ar, Alicia sentiu como se todo o peso dos ombros fosse retirado. Ela necessitava desanuviar. Entrar em contato com o mundo exterior. Sair do ambiente sufocante. Ambiente este impregnado pela presença vivaz de Tony Stark.
Ah … Mr. Stark … ela recordou e então, sentiu-se: Fraca. Inconsequente. Rendida aos próprios desejos. Alvo do embuste carnal. Puxada pela gravidade dos fatos. E a culpa, desta vez, não era do bilionário egocentrista. Como Alicia chegara ao ponto do masoquismo psicológico e físico? Ela sabia que a relação com Tony estaria fadada ao fracasso e que aprofundando o envolvimento, acabaria por machucar-se ... uma vez mais.
- Problemas no paraíso? - Rhodey instigou, cortando o silêncio que permaneceu desde que saíram do hotel.
- Eu diria problemas no Inferno de Dante*. - e acabou por sorrir com a frase cheia de doce ironia.
- Bem, pelo menos, depois do Purgatório, você irá para o Paraíso, de qualquer forma. - alegou, acariciando amistosamente a mão de Lily, atrelada ao seu braço.
- Oh. Mas levará muito tempo. Ainda estou no Segundo Círculo.
Rhodey calou-se por um momento, considerando; sabendo que o Segundo Círculo era a luxúria, que Tony lançava olhares libidinosos para Alicia, mesmo depois de ter transado com ela, a visível reação de Martins às investidas do bilionário e, claro, ligando o passado de Mr. Stark a toda a situação. Decidiu mudar de assunto.
- Está incomodada com os seguranças? - inquiriu, apontando com a cabeça para a direção dos guardas, a pelo menos trinta metros de distância.
Lily balançou a cabeça de forma negativa e completou:
- Eles são necessários. Principalmente aqui. - olhou ao redor, notando a praia deserta, mas temerosa por alguém os estar espionando. Afinal, a assistente e o amigo de Tony Stark seriam alvos fáceis para um sequestro, se andassem desprotegidos.
- Quer caminhar um pouco na areia?
Não precisou perguntar duas vezes. Alicia retirou os sapatos e esperou que o militar se livrasse do coturno. De mãos dadas, sentiram o contato dos pequeninos grânulos dourados com a sola dos pés, recebendo a suave maresia nos rostos.
Desnecessárias as palavras no momento. A existência da natureza conspirava somente à apreciação do belo marear das águas azuis sobre o solo brasileiro. Sem quebra violenta de ondas, excesso de pessoas, interrogatórios ou Tony Stark.
Voltaram para o hotel também em silêncio, aproveitando um a companhia do outro. Logo que chegaram ao hall, Rhodey se despediu e rumou para o próprio apartamento, mas antes fez Lily prometer que quando estivesse mais segura e quisesse confessar o que a incomodava, que imediatamente entrasse em contato com ele, assegurando que sempre estaria ali para escutá-la. E assim deixou Alicia à mercê de enfrentar o inevitável.
No corredor, às portas do quarto cedido por Stark, Alicia planejava retirar o sobretudo, tomar um banho relaxante, trocar de roupa e só depois pôr um sorriso mascarado na face e enfrentar o chefe. Procurou o cartão no bolso da calça e prestes a colocá-lo, saltou de susto, pois ouviu Tony confidenciar em seu ouvido:
- Precisamos conversar.
O ruído agudo da turbina potente do avião tornava-se perturbador para os ouvidos sobre-humanos de Logan, que esperava impaciente o anfitrião, ainda na pista de pouso. No entanto, suas especulações estavam equivocadas. Não era O anfitrião e sim A anfitriã. Cabelos ruivos, corpo simétrico, caminhar vagaroso e habilidades invejáveis; Natalia Romanova, Natasha Romanoff ou simplesmente a conhecida Viúva Negra. De súbito, o Wolverine despertou no interior de Logan e manifestou o sorriso digno de um canídeo.
Estendendo uma das mãos para um breve cumprimento, Natasha curvou os lábios para cima e analisou o espécime de masculino a frente, antes de pronunciar o nome dele, sem necessitar elevar a voz, visto a audição primal do outro:
- Senhor James.
- Logan. - ele a corrigiu, tomando a mão dela entre a sua.
- Senhor Logan, bem-vindo ao Brasil.
* Inferno de Dante. O Inferno é a primeira parte da "Divina Comédia", escrita por Dante Alighieri. Existem nove círculos de sofrimento, localizados dentro da Terra, em que o personagem Dante acaba por passar. O Primeiro Círculo é o Limbo, seguido por Luxúria, Gula, Ganância, Ira, Heresia, Violência, Fraude e Traição. Após conseguir o êxito, direciona-se para o Purgatório e finalmente o Paraíso.
