9 anos atrás – Miami, Flórida.
O mar estava calmo e por mais que o céu estivesse limpo de qualquer nuvem, o Sol já não atingia a área privada. Demi estalou o pescoço pela enésima vez antes de suspirar. A ansiedade já havia lhe rendido tremedeira, dor no estômago e vontade de chorar em menos de meia hora. Estava sentada em uma cadeira de madeira, abrigando sua irmã mais velha de pé entre suas coxas.
- Se você ficar se contorcendo desse jeito eu nunca vou consegui finalizar a maquiagem. - Dallas advertiu segurando um pequeno refil com sombras em uma mão e pincel na outra. Demi bufou. - Eu vou dar um tapa na sua cara se não sossegar.
- Você já foi mais delicada.
- E você mais confiante. - Um tom divertido pôde ser notado na mais velha. - Quem diria que minha irmãzinha seria laçada assim?
Demi apenas escondeu os lábios entre os dentes na tentativa de não sorrir. Fazia um pouco mais de dois meses que Selena havia lhe surpreendido com um jantar romântico acompanhado de vinho tinto e um pedido de casamento prontamente aceito. Nunca passou por sua cabeça que a Juíza quem faria tal proposta, estava tão certa de que aquele papel era seu, que a surpresa ao ver a aliança delicada dentro da pequena caixinha de veludo, que Selena havia aberto diante de si, a surpreendeu mais do que o normal. Repassava a informação várias vezes na cabeça, mas a ficha parecia não cair nunca. Talvez só cairia quando a aliança de ouro branco com raspagem em diamante estivesse em seu anelar esquerdo.
A areia da praia era o palco do matrimônio. A decoração em branco recebia alguns toques de verde-água, o que deixava a sensação de leveza ainda mais notável. Um pequeno altar havia sido arquitetado com um arco robusto de lírios diante de cadeiras em madeira branca que já estavam sendo ocupadas por alguns convidados. Um pouco mais afastado dali, estava localizado duas tendas, uma na qual Demi surtava e outra onde Selena procurava se manter respirando.
- Pronto. - Priscilla sorriu ao terminar de prender um pequeno acessório prateado na lateral direita do cabelo da Juíza. - Você está linda.
Selena piscou os olhos esperando sua prima sair de sua frente para só então focalizar em seu próprio reflexo no espelho. Precisava admitir que Priscilla havia feito um ótimo trabalho, uma vez que seu cabelo e maquiagem estavam exatamente como queria. O vestido de noiva, composto por seda e renda na parte do busto, caia como uma luva no corpo magro. As alças finas deixavam suas costas expostas e causava um leve decote entre os seios, enquanto o cabelo castanho formava cachos largos até um pouco abaixo dos ombros.
- Demi já está pronta. Oh meu Deus. - A voz de Mandy rompeu o silêncio na tenda fazendo as duas mais novas virarem na direção da entrada e encontrar a mais velha segurando a mão de Gracie que vestia um charmoso vestido branco rodado, digno de uma princesa. - Priscilla, me alcance algumas caixas de lenço por favor. - Abanou o rosto ao mesmo tempo em que as lágrimas lhe chegavam aos olhos.
- Mamãe.. - Selena sorriu, indo de encontro à mulher que lhe olhava com emoção. - Pare com isso. Irá borrar a maquiagem.
- Dane-se a maquiagem. Minha filha está se casando.
Selena riu negando com a cabeça e depositou um beijo carinhoso no rosto da mulher antes de se abaixar para ficar na altura da irmã mais nova.
- Ual. Que coisa mais linda. - Sussurrou, causando um leve rubor nas bochechas infantis da loira. - Lembra direitinho o que tem que fazer? - Gracie concordou com a cabeça. - Ótimo, então a partir de agora você será a guardiã do tesouro, tudo bem?
- Tudo. - A mais nova respondeu com um sorriso animado.
Selena se esticou até uma pequena cestinha preenchida com pétalas de rosa vermelha, que também abrigava uma pequena caixinha de veludo preto, e a entregou nas mãos da pequena.
- Só entregue o tesouro para mim, certo? - Ergueu a mão direita esperando que a garota realizasse o simples toque de mão.
- Certo!
O estalo fraco da mão pequena na mão maior fez as outras duas sorrirem para a interação. Selena puxou a criança para seus braços a apertando brevemente e depositando um beijo entre os cabelos claros.
- Eu te amo. Agora vai. - Deu um tapinha na bunda da garota que saiu correndo tenda afora. - Okay. É agora. - Falou mais para si mesmo do que para as duas mulheres que lhe aguardavam.
A única complicação para a realização do casamento foi a escolha do local. Além das belas praias de Miami, o casal tinha os campos do Texas como opção. Ao acertar o lugar, todas as outras coisas aconteceram com simplicidade. Ambas optavam por uma cerimônia simples que abrigasse suas famílias e amigos mais chegados. Sem dor de cabeça ou estressa, mas que agradasse ambas.
O som limpo do piano se misturou ao do mar e Selena precisou puxar algumas respirações mais profundas ao pousar os olhos em Demetria. O vestido sem alças era revestido de cristais minúsculos, os cabelos negros soltos ao natural batiam quase na altura da cintura curvilínea e a maquiagem era tão leve que podia jura nunca ter visto alguém mais lindo. Simples, porém magnificamente linda.
- Oi. – Selena sussurrou quando Demi chegou ao seu encontro.
- Oi. – Respondeu em mesmo tom com um sorriso que lhe rasgava os lábios.
Nenhuma das duas imaginava que um dia chegariam até ali, mas já não se imaginavam sem viver aquele momento.
-x-
Dias atuais – Miami, Flórida.
O scarpin na cor nude ganhou o corredor a passos leves assim que as portas do elevador se abriram. As pernas grossas eram bem abraçadas pela jeans rasgada e um elegante paletó preto cobria a blusa branca de gola V. Mexeu nos cabelos curtos quando percebeu alguns olhares fixos em seu corpo, mas não soube dizer se a atenção era por causa de sua beleza ou pelo distintivo pendurado em seu pescoço juntamente ao revólver guardado no coldre da cintura.
Abriu a porta almejada sem cerimônia, encontrando a jovem estagiária diante de um computador razoavelmente bom para o serviço que executava.
- Senhora Lovato. – A jovem a saudou, levantando-se de sua cadeira. – Quanto tempo não a vejo por aqui.
- Olá, senhorita Reyes. – Estendeu a mão direita em cumprimento, acompanhada de um sorriso brincalhão. – Sentiu falta de meu charme irresistível?
- Obviamente. – Raven rolou os olhos em um meio sorriso, já buscando o telefone no gancho, mas a Comandante segurou em sua mão, a parando.
- Não avise. – Sussurrou para a morena confusa. – Quero fazer uma surpresa. – Ergueu o pequeno mimo que trazia em mãos, suavizando a expressão da estagiária.
- Sabe que eu posso perder meu emprego se fizer isso, certo?
- Eu digo que coloquei uma arma na sua cabeça. – Demi sugeriu como uma boa opção. – Creio que não será muito difícil de acreditar. - Raven riu silenciosamente e negou com a cabeça antes de se sentar de volta na cadeira. – Isso é uma permissão? – A estagiária apenas indicou a porta da Juíza com a cabeça, concedendo a passagem da comandante. – Você é maravilhosa. Se eu já não fosse casada, me casaria com você.
- Entre logo aí, Senhora Lovato. – Bufou segurando o ar divertido.
Dado o horário próximo ao almoço, Selena se mantinha informal demais sentada em sua cadeira. Os cabelos estavam enrolados de qualquer forma em um coque seguro por um lápis, os dois primeiros botões da camisa social azul marinho se encontravam abertos, revelando o singelo top preto, e os pés estavam livres das sandálias jogadas no chão. O queixo delicado repousava na palma de sua mão esquerda enquanto os dedos da direita corriam pelas teclas do notebook sobre a mesa. Uma balada indie tocava baixo na caixa de som do próprio aparelho e vez ou outra se pegava cantarolando a melodia.
Os olhos por trás dos óculos de aro fino deixaram a tela do notebook assim que percebeu a porta se abrir, encontrando então uma Demetria suspeita com as mãos para trás.
- Hey. - Selena se recompôs cruzando os braços sobre o tampo da mesa, observando Demi se aproximar. - Que surpresa boa. - Sorriu.
- Eu estava passando por aqui perto e resolvi fazer uma visita. - A Comandante deu de ombros com as mãos ainda nas costas.
Selena estreitou os olhos desconfiados, a analisando de cima a baixo.
- O que você está aprontando?
- O quê? - Demi lançou um sorriso ensaiado.
- O que você tem ai? - Selena se levantou, dando a volta na mesa.
- Não é nada, mulher. - Deu alguns passos para trás, sem conseguir esconder o ar de diversão.
- Me deixe ver.
A cada passo pra frente que Selena dava era um passo que Demi dava para trás, até que se encontrou encurralada entre dois armários de arquivos.
- Você é muito curiosa. - Brincou, aproveitando-se de que estava maior que a latina, graças aos saltos de seu scarpin e também aos pés descalços da mulher. - Não é nada muito especial.
- Se não é nada muito especial, deixe-me ver.
- Feche os olhos. - Sussurrou, tentando não rir da expressão impaciente de Selena. - O que custa fechar os olhos? - A Juíza bufou e rolou os olhos antes de fechá-los. - Boa menina. - Demi se inclinou levemente pra frente e beijou rapidamente os lábios da mulher. - Pode abrir. - Tão logo as pálpebras da latina se abriram, o sorriso se estendeu ao encontrar o pequeno ramalhete com cinco lisiantos brancos nas mãos da Comandante. - Eu disse que não era nada muito especial. - Deu de ombros.
Selena correu as pontas dos dedos pelas pétalas bem detalhadas, sentindo a textura conhecida contra sua pele. Demi costumava lhe presentear com, pelo menos, um lisianto em datas especiais, dependendo da relevância da data. Era uma flor típica das terras texanas e depois que descobriu que seu significado era o da entrega amorosa ficou impossível de não se tornar sua flor preferida. Correu a mente pelo calendário, tentando se situar do dia em que estavam e sorriu ao notar as cinco flores combinando com o número de meses. Estavam completando nove anos e cinco meses de casamento.
- Tudo o que vem de você é especial. - A juíza se colocou nas pontas dos pés e enlaçou o pescoço da mulher com um braço para deixar um beijo de gratidão nos lábios vermelhos. - Obrigada.
- Hnn, vai ter que fazer mais do que isso se quiser me agradecer. - Disse com malícia, arrancando um sorriso divertido da Juíza que lhe deu as costas, caminhando até a estante do outro lado da sala. - Você não acha que está muito… - Demi pausou, olhando a mulher descalça se agachar para abrir uma pequena porta da estante e, como consequência, sua saia social preta ficar ainda mais justa.
- Estou muito o quê? - Selena perguntou confusa, ao se levantar com um jarro de vidro nas mãos.
- Gostosa. - Respondeu gesticulando para o corpo da mulher que franziu o cenho. - Você não recebe ninguém assim, né? Raven não deixa ninguém passar por essa porta sem te avisar, correto?
- Bom, ela deixou você passar sem me avisar. - Ergueu os ombros, ensaiando uma expressão inocente.
- Sim, mas é diferente. - Deu alguns passos até a mulher que preenchia o jarro com água do bebedouro em silêncio. - É diferente, certo? - Perguntou em desespero.
- Você colocou uma arma na cabeça dela? - Selena a encarou.
- Não, mas agora eu quero colocar. - Selena jogou o pescoço para trás para soltar uma sonora gargalhada, fazendo então Demi perceber sua implicância. - Eu venho aqui com todo amor e carinho para você fica fazendo hora com a minha cara. Palmas para você, doutora.
- Eu não consigo resistir. - A juíza confessou entre risadas curtas, arrumando as flores no jarro com água. - Me perdoe. - Enlaçou o pescoço da Comandante com os dois braços, tentando contornar a situação. - Eu não tenho mais o que fazer aqui hoje e pedi à Raven para que falasse que eu não estava aqui, caso alguém me procurasse. Então, não. Eu não recebo ninguém assim. Nem ela me vê assim.
- Bom, nesse caso, eu coloquei uma arma na cabeça dela para que me deixasse entrar. - Demi sussurrou próximo à boca da juíza.
- Bela tentativa de encobri-la. Vou perdoá-la só pela demonstração de lealdade entre vocês.
Demi sorriu por pouco segundos antes de sentir os lábios macios de Selena sobre os seus. A boca delicada lhe beijava de maneira lenta, aprofundando aos pouquinhos, demorando-se a ceder a língua molhada por entre seus lábios. O batom vermelho na boca carnuda deixava o contato dos lábios mais consistente, deslisando uns nos outros de tal forma que as faziam querer mais da boca uma da outra. As unhas de Selena arranhavam levemente a nuca exposta da Comandante que lhe apertava a cintura de maneira proporcional ao beijo: lento e intenso.
- Melhor pararmos. - Selena murmurou entre os lábios que ainda mordiscava. - Demi…
- Você disse que ninguém vai entrar aqui. - A mais nova argumentou, indo em direção à orelha da juíza.
- Sim, mas.. - Suspirou, sentindo os lábios de Demi se fecharem na cartilagem de sua orelha. - Se eu começar, eu não vou querer parar na primeira.
- É só não parar. - Ouviu a Comandante falar colada em seu ouvido, então a empurrou. - O quê?
- Hoje a noite, okay? - Pediu com um singelo sorriso no canto dos lábios. - E então eu te recompenso pelos Lisiantos.
- Vou cobrar. - Demi ergueu uma sobrancelha.
- Não vai precisar. - Selena piscou e a puxou pela mão até sua mesa. - Vem, eu preciso da tua ajuda.
A Juíza colocou a mulher sentada em sua cadeira e se acomodou em seu colo. Olhou as horas no canto da tela do notebook, concluindo que já tinha avançado o horário do almoço, mas não se preocupou, uma vez que iria se auto dispensar naquele dia.
- O aniversário de Camila é daqui a três semanas e eu estava pensando em que presente darmos para ela. - Selena explicou para Demi que apoiou o cotovelo na mesa e descansou a cabeça na mão. - Já que faltam um pouco mais de dois meses para que ela vá para Yale, estava pensando em um carro. O que você acha?
- Um carro? - Demi engasgou em um riso surpreso, olhando a expressão séria da latina. - Você está falando sério?
- Sim. - A mais velha franziu o cenho com a obviedade. - Vai ser algo extremamente útil.
- Se for pra ser útil, melhor dar uma lata de spray de pimenta para que ela possa se defender. - A comandante gesticulou.
- Você deu uma caixa de spray quando ela tinha doze anos. - Selena contra-argumentou pacifica. - Ela vai completar dezessete anos, é responsável, já tirou a carteira e estará longe da gente em uma cidade onde precisará de conduções. Eu ficarei muito mais aliviada de saber que ela estará no próprio carro do que em um transporte coletivo.
Demi ponderou, encarando os olhos escuros da juíza. Por mais que quisesse que Selena estivesse errada, sabia que estava coberta de razões. O problema na cabeça de Demi era que pensar em dar um carro para Camila era a mesma coisa que deixar a adolescente sair da barra de sua saia. Não estava preparada para admitir que a filha já estava com as asas crescidas e abertas para poder voar sozinha, nem havia parado para assimilar que no próximo semestre a cubana já não estaria mais morando com elas.
- E qual você tem em mente? - A Lovato suspirou em rendição, provocando um sorriso satisfeito na Juíza.
Selena não se demorou em reabrir a aba que analisava antes da mulher chegar, revelando a foto do automóvel.
- Não faz muito tempo que a flagrei paquerando um desses no estacionamento do shopping. É resistente, confortável e bem jovial.
- Você não acha que é um carro muito grande para uma pessoa tão pequena? - Demi franziu o cenho.
- O tamanho do condutor não se aplica ao tamanho do carro.
- Isso vindo de uma pessoa que passou por cima de uma cerca dando ré em uma 4x4 não é muito valioso. - A Comandante riu com o próprio comentário, ao lembrar-se do episódio.
- Teu histórico com carros compactos não é dos melhores, então melhor ficar quieta. - Selena riu ao ver a esposa rolar os olhos. - Você vai fazer alguma coisa agora?
- Sim. - Suspirou, observando a latina levantar-se de seu colo. - Tenho algumas coisas para resolver no departamento.
- Tudo bem. Vou buscá-la no colégio e tirar o resto do dia de folga também. - Disse, terminando de abotoar a blusa. - Aproveitar o ócio para reavaliar a proposta de Justin.
- Hn. - Demi se levantou enquanto a mulher calçava o par de sandálias. - Ele parte semana que vem mesmo?
O nome do advogado ainda fazia o estômago da Comandante revirar, mas algo na calmaria de Selena ao tratar do assunto como apenas mais um contrato a tranquilizava de certa forma. E saber que faltava pouco para o canadense desaparecesse outra vez de suas vidas a deixava ainda mais tranquila.
- Se tudo der certo, sim. - Selena se pôs de pé, soltando os cabelos. - Você acha que consegue chegar em casa antes das nove hoje? - Buscou a bolsa atrás da mesa, enganchando-a no ombro.
- Farei o possível. - Suspirou, recebendo a latina de volta em seus braços. - Mas pode ser que eu me demore um pouco mais. A menina que estava internada, faleceu essa madrugada. - Explicou com um toque de dor na voz e os olhos de Selena vacilaram.
Demi não era do tipo de demonstrar emoções no trabalho, muito menos frustrações. Estava acostumada a agir como se estivesse no modo automático e aquilo a protegia de muitas coisas, além do fato de fazer sua imagem ser respeitada entre os demais. Mas Selena sabia que dentro daquela máscara de dureza existia uma mulher sensível que poderia se sentir muito frustrada quando algo daquele tipo acontecia. Não sabia muito do caso que a polícia estava investigando, além, é claro, do fato de ter um maníaco fazendo vítima atrás de vítima, mas tinha certa noção de como aquela situação estava mexendo com o psicológico da Lovato.
- Eu sinto muito. - Sussurrou, acariciando a nuca da comandante. - Vocês conseguiram achar alguma coisa?
- Ally já está com o corpo. - Respirou fundo, procurando esquecer-se da imagem desesperadora da mãe da garota no departamento. - E Harry está fazendo o que pode para achar qualquer fagulha.
- Vocês vão acabar com isso, okay? - A latina deixou um beijo na bochecha da mulher, a fazendo sorrir fracamente. - Apenas se cuide.
- Pode deixar.
-x-x-
Demi conseguia ouvir o telefone incomodo tocando do outro lado da parede de sua sala que ninguém se disponibilizava para atender. O paletó jazia no encosto da cadeira, a deixando com a simples blusa branca de manga ¾. Estava de pé com os braços cruzados, olhando o movimento de policiais uniformizados na porta do prédio através do vidro da janela fechada. Se achava mais legal quando era uma simples oficial, realizando rondas e prisões diárias.
Sua vida profissional costumava ter mais adrenalina do que o que estava tendo naquele momento. Já não aguentava mais sentar e esperar outras pessoas lhe trazerem resultados. Queria ir para campo, mas não podia. Queria ficar em segurança, mas não aguentava. Havia passado uma vida dentro daquelas paredes e nunca pensou que um dia sentiria falta de dividir uma viatura cheirando à café e óleo queimado com Lautner no banco do motorista.
- Com licença. - A voz de Tiffany veio acompanhada de uma leve batida de dedos na madeira da porta. - Mandou me chamar?
A Lovato girou sobre os calcanhares para encontrar os olhos azuis da jornalista. Por mais que tenha passado boa parte de sua juventude ao lado de Selena, a presença da loira lhe causava mais nostalgia do que apreciaria. Todas as vezes que olhava para Tiffany era como se ainda estivesse com seus vinte anos de idade, ou pelo menos, ansiava ainda ter.
- Sim. - Suspirou, indicando a cadeira oposta à sua. - Por favor.
- Você está séria. - A loira comentou, acomodando-se no assento. - Estou aqui como amiga ou repórter?
- Chamei a repórter. - Demi descansou as costas contra o acolchoado da cadeira, mirando nos olhos azuis. - Mas isso não significa que a amiga não possa aparecer. - Tiffany sorriu, rendendo o mesmo feito nos lábios da comandante. - Eu estive pensando sobre a sua irritante insistência em cobrir o caso dos assassinatos anônimos, mesmo depois de todas as minhas proibições.
- Eu sei que posso ser bastante irritante quando quero. - A loira jogou o cabelo para trás em um nítido ato de convencimento.
- Sim. Você pode. - Apontou, erguendo uma sobrancelha para a jornalista. - Mas isso não vem ao caso. - Demi se inclinou para a frente, descansando os braços no tampo da mesa. - Eu quero te propor um acordo. Você receberá informações do caso em tempo real, terá livre acesso às provas e pode acompanhar meus detetives quando e onde quiser.
- Estou esperando o "mas". - A loira gesticulou com um brilho de satisfação nos olhos.
- Você não pode publicar absolutamente nada até que o caso esteja encerrado. - A Comandante jogou, observando o franzir de cenho da mulher. - Já tive muitos problemas com a mídia atrapalhando minhas investigações e você é uma mulher inteligente, sabe que se aparecer com um dossiê completo em mãos para teus superiores, tua carreira irá alavancar para nunca mais parar.
- Então, você só me concede as informações se eu não publicá-la antes do desfecho. - Concluiu com os olhos cerrados.
- É pegar ou largar. - Demi deu de ombros, voltando a se recostar na cadeira.
- Bom. - Tiffany suspirou, parecendo relaxar um pouco mais. - Isso com certeza é melhor do que nada.
Demi não gostava de trabalhar com a mídia. Para ser realmente franca, ela odiava. Detestava a forma como distorciam e manipulavam para algo inexistente. Sempre teve problemas com discrição, graças aos jornais. Sem contar com acréscimos ou cortes que faziam apenas para se beneficiarem. Inicialmente encaixou Tiffany justamente nessa categoria, como alguém que deveria repelir de todas as formas possíveis. Entretanto, após analisar melhor toda a situação, viu que aquela seria uma forma de ter um caso sendo relatado fielmente como ocorrido. Fez questão de deixar isso claro para a antiga colega de faculdade, que concordou sem poder pensar em discordar.
Já era fim de tarde quando a Comandante decidiu levar Tiffany até a sala onde as investigações estavam realmente acontecendo. Os olhos da jornalista contemplavam as fotos e mapas fixados nas paredes cinza. Buscou o pequeno gravado no bolso traseiro e o ligou assim que se deu conta de onde realmente estava. Estava, finalmente, no meio.
- Crianças, sei que vocês já a conhecem, mas quero apresentar formalmente a jornalista Tiffany Thornton. - Falou alto, ganhando a atenção de Harry, Louis e Taylor. - Ela vai estar cobrindo esse caso.
- Como é que é? - O detetive Tomlinson guinchou, escorado ao lado da janela aberta. - Você abriu as portas desse caso para a mídia? Sabe que isso compromete 70% das investigações?!
- Sim, detetive. Eu abri. - Respondeu dura, com os olhos fixos nos do homem. - E engula qualquer opinião ou informação que eu já saiba porque eu não perguntei se vocês estão de acordo. Tiffany irá trabalhar com vocês e ponto final. - A Lovato abandonou os olhos do homem e caminhou até o lado da mesa que Harry ocupava, alguns aparelhos estavam distribuídos por ali junto a algumas caixas vazias de comida japonesa. - Temos alguma novidade?
Os olhos do hacker dançaram em direção a Comandante antes de voltar para a tela iluminada na qual trabalhava.
- Achei uma falha. – O rapaz disse, sem parar de digitar. – Consegui um rastreamento padrão partindo de um histórico recente de conversa entre o tal de Brandon e a menina, mas uma espécie de nuvem bloqueia a minha visão da máquina dele. – Harry pausou por alguns segundos para esfregar as vistas. – Parece que ele usa algum programa que borra a informação.
Demi suspirou, puxando uma cadeira vazia e sentando de frente para o rapaz.
- Então você não consegue localizá-lo? É isso? – A voz de Louis veio um pouco mais alterada do que o de costume.
- Tecnicamente. – Harry ergueu o indicador, mas socou a mesa assim que sentiu o cheiro peculiar preencher a sala. – Louis, você quer parar?! – As três mulheres se voltaram para o Detetive na janela que mantinha o cigarro entre os lábios. – Se você quer alimentar o teu câncer, alimente-o lá fora!
- Foi apenas um trago. – O detetive explicou um pouco mais calmo, apagando o cigarro no batente da janela. – Podem continuar.
Demi e Taylor se entreolharam por dois segundos, mas logo Harry puxou o foco novamente.
- Não consigo rastrear o computador propriamente. - Gesticulou em direção a tela ainda acesa. - Mas consegui uma forma de coletar informações da banda larga de cada conversa que encontrei nas últimas duas semanas através do banco de dados do jogo. Não garanto conseguir a localização precisa dele, mas como os dados são trocados de rede para rede acho que dá pra saber com quem ele tem interagido.
- A próxima vítima em potencial? - Swift perguntou bem ao seu lado.
- Exatamente. - A hacker balançou a cabeça em concordância.
- Tá legal. - A comandante respirou fundo, assimilando as informações. - E pra quando consegue isso?
- Dentro de 45 segundos e diminuindo. - Harry apontou para o notebook.
Demi sentia o corpo tenso e aliviado ao mesmo tempo. Tenso porque, se a ideia de Harry fosse dar certo, finalmente estariam com uma direção a ser seguida. Aliviado pelo mesmo motivo. A Comandante se levantou da cadeira e deu a volta na mesa quando julgou que a listagem já estivesse na tela do aparelho, e estava certa. Letras verdes pipocavam na tela preta e precisou fazer um esforço extra para entender do que se tratava, mas algo nas primeiras informações compreendidas um nó se formou em sua garganta.
- Espera. Esse é o endereço da minha casa. - Disse rouca, franzindo o cenho para entender o que estava diante de seus olhos. Harry não estava procurando o psicopata, estava rastreando pessoas que mantinham contato através daquele maldito jogo. Sentiu o arrepio lhe cortar a espinha quando a pequena ficha caiu em sua cabeça. - Camila.
