Capítulo 12
Quando Victoria acordou, ela ouviu que chovia lá fora.
Oh, não! Estava a chover? Se chovesse ela não podia ir montar a cavalo com Lord M!
Victoria levantou-se da cama e foi espreitar à janela.
Chovia, de facto, mas não era demasiado e talvez parasse antes das 10 horas. Lord M não tinha enviado nenhuma mensagem em retorno à carta dela e, portanto, o passeio a cavalo aconteceria. A não ser que chovesse!
Enquanto se vestiu e foi penteada por Skerrett, e depois, enquanto tomou o pequeno-almoço, Victoria estava constantemente alerta para a chuva lá fora. Teria de parar de chover!
Por volta das 9h30m a chuva parou. Finalmente!
Victoria pode então vestir o traje de montar e encaminhar-se para o passeio a cavalo com a escolta habitual de dois cavaleiros. Algum dia ela poderia livrar-se deles?
Melbourne estava à janela a ver chover através do vidro. Apenas de calças, camisa e colete. A chuva lenta, que dava àquela manhã um ambiente triste, mas ao mesmo tempo belo e romântico, era uma metáfora ao seu estado de espírito nos últimos anos. Amar a Rainha, por todos os impedimentos existentes, era um sentimento de uma tristeza profunda, mas também de uma beleza singular e de um romantismo privilegiado.
A carta que ela enviara na véspera estava aberta em cima da secretária. Ele devia ter enviado uma resposta onde dissesse que não podia ir montar a cavalo com ela hoje. Mas ele não tivera força para isso! Agora ali estava ele à espera, a ver se parava de chover, para poder sair para ir passear com ela.
Quando a chuva parou ele movimentou-se no sentido de acabar de se preparar para sair. As botas, o lenço, o casaco, o chapéu e as luvas.
Ele sabia que estava a caminhar à beira do fogo. A qualquer momento ele podia cair e queimar-se. Como uma borboleta que esvoaça à volta da chama de uma vela, atraída pela luz, ele sabia que podia queimar-se. E, no entanto, ele continuava a aproximar-se da chama. O pior era que se ele se queimasse, ele iria queimar Victoria, com ele! Porém, ali estava ele numa agitação para ficar impecável aos olhos dela e mandando selar o seu melhor cavalo!
A antecipação do momento do encontro, no local marcado do parque, estava a deixar ambos num alvoroço interno.
Como de costume ele chegou antes dela, mas ela chegou pouco depois.
Eles observaram-se mutuamente durante a aproximação.
Victoria sentia-se como se tivesse ganho uma batalha! Ele tinha vindo! Ele tinha recusado o amor dela outra vez no dia anterior, mas hoje ele tinha vindo! Se ela continuasse a ganhar batalhas assim talvez ela pudesse ganhar a guerra. Ela não podia desistir.
Como sempre, ela achou que ele ficava esplêndido em cima do cavalo e ele achou que ela era muito elegante naquela pose reta de um corpo de cintura fina.
Ela cumprimentou sorrindo:
"Bom dia, Lord M!"
"Não está muito bom, mas desejo-lhe um bom dia também, ma'am!"
Ela sorriu e depois observou:
"Eu estava preocupada com a chuva…Se não parasse de chover não poderíamos fazer o nosso passeio."
"Parece que a natureza nos favoreceu, então…" Ele concluiu enquanto incitava o cavalo para começar a andar.
Eles fizeram alguns metros de caminho em silêncio ao lado um do outro. Os cavaleiros da escolta seguiam a muitos metros de distância.
Para dizer alguma coisa, e sem nenhuma intenção de voltar ao assunto do dia anterior, ele informou:
"Será a esposa do arquiteto Charles Barry que irá colocar a primeira pedra da obra de reconstrução de Westminster."
"Em quanto é que me tinha dito que a obra está estimada?" Perguntou Victoria.
" Em quase 725.000 libras, mas é óbvio que vai custar muito mais aos cofres do Estado."
"Está previsto que as obras demorem seis anos, não é Lord M?"
"Sim, mas eu aposto que vão demorar muito mais. Presumo que já não estarei a exercer funções políticas no dia em que a Câmara dos Lordes puder sair da Painted Chamber que estamos a usar provisoriamente."
"Não diga isso, Lord M! Você continuará a exercer funções políticas por muitos anos! Eu preciso de si…"
Melbourne compreendeu que o significado de "Eu preciso de si" era mais profundo do que uma mera necessidade política.
Ele sorriu e disse:
"A propósito disso, devo alertar que ultimamente nós temos descurado as nossas reuniões de trabalho, ma'am."
"Nós conseguiremos recuperar! Eu sei como você também gosta de montar a cavalo e podemos usufruir um do outro não apenas em reuniões de trabalho." Victoria declarou com um ar decidido.
Ele sentiu um baque no peito.
Subitamente começaram a cair alguns pingos de chuva. Eles estavam numa zona do parque mais aberta onde existiam apenas algumas árvores dispersas e era necessário que eles se abrigassem.
A copa de um carvalho ancestral, nas imediações, podia servir de proteção para aquela chuva miúda. Ambos apressaram os cavalos até lá.
Muito distanciados deles, os dois cavaleiros da escolta, vendo que a Rainha e o Primeiro-ministro se abrigavam debaixo de uma árvore, decidiram fazer o mesmo numa outra árvore que lhes estava próxima, mas bastante distante do local onde o par que eles seguiam, se recolhia.
Uma vez protegidos debaixo da copa do carvalho, Victoria quis descer do cavalo e, por isso, pediu:
"Lord M, por favor, pode ajudar-me a descer?"
"Claro, ma'am!" Ele respondeu enquanto se apressava a desmontar, passando a perna direita por cima da cabeça do cavalo e saltando para o chão com agilidade e elegância.
Era sempre deslumbrante vê-lo executar aquela desmontagem!
Victoria soltou a perna direita do apoio específico da sela lateral, e ela permaneceu sentada de lado, antes de escorregar pela lateral esquerda do cavalo, enquanto Lord M lhe amparava o corpo lateralmente com ambas as mãos. Sem qualquer pressão que pudesse ser considerada ousada. Apenas para evitar que ela se desequilibrasse na descida.
Poder sentir as mãos dele no corpo, mesmo de forma superficial, rápida e com várias camadas de tecido pelo meio (a camisa interior, o corpete, a camisa do traje e o casaco dela, e as luvas dele), era uma experiência emocionante!
Chegada ao chão, ela deixou-o com os cavalos e caminhou para o lado oposto do tronco da árvore, procurando ficar camuflada pelo largo tronco e deixar de estar visível pelos dois cavaleiros da escolta que aguardavam à distância.
Ele prendeu ambos os cavalos à árvore e caminhou até junto dela. Ela estava de costas para ele, olhando a vastidão do parque em frente. A brisa ligeira fazia esvoaçar as pontas do véu do chapéu que pendiam atrás do elegante pescoço de Victoria. Melbourne posicionou-se ao lado direito dela olhando o campo e a chuva miúda e esparsa que continuava a cair.
Eles ficaram ali em silêncio. Muitas vezes existiam silêncios entre eles. Um entendimento sem palavras.
Era possível sentir o cheiro da terra molhada e Victoria achou que havia qualquer coisa de confortável e de estimulante nesse cheiro.
Ela tinha os braços caídos ao longo do corpo, e ele também. Lord M fazia um movimento que lhe era típico com os dedos da mão esquerda, que consistia em passar o polegar pelos restantes dedos.
Lentamente, Victoria afastou o braço direito do seu próprio corpo, avançando na direção dele. E, então, lentamente, a mão direita dela, enluvada, agarrou a mão esquerda dele, também enluvada.
Ele recebeu o gesto dela com naturalidade. Ele não era capaz de afastar a mão e de não retribuir. Ele precisava do contacto dela.
Eles deram as mãos.
Victoria fechou os olhos, sentindo a força gentil e o calor da mão dele através das luvas.
Eles ficaram assim, de mãos dadas, durante mais algum tempo em silêncio, olhando o campo e a chuva miúda e sentindo o cheiro da terra molhada. Daquele lado do tronco eles não podiam ser vistos pela escolta, mas convinha estar alerta para mais alguém que pudesse aparecer naquele local do parque. Era tão certo para ambos estar assim, ligados por aquela intimidade tão simples, mas de significado tão profundo.
Ela olhou para ele e observou como as pestanas dele eram longas e bonitas. Depois ela voltou a olhar em frente.
"Lord M…"
Ele não disse nada nem se mexeu. Ele esperou.
"Eu quero que você seja meu "companheiro"." Ela concluiu.
O coração dele caiu. Ela estava a propor que eles se tornassem amantes! Como Elizabeth e Robert Dudley. Mas Elizabeth era solteira…
O constrangimento e a indecisão sobre o que era mais apropriado responder fizeram com que ele, sem olhar para ela, reagisse com humor:
"Colocado dessa forma, até parece que você está a propor-me a ocupação de mais um cargo político, ou de uma função na Corte…"
"E há alguma outra posição que lhe pudesse agradar mais ocupar, na Casa Real?" Ela perguntou virando o rosto para ele.
Melbourne riu. Riu de ironia e riu de embaraço. Como a vida podia ser enredada! Ele tinha-a recusado em Brocket Hall e sofrera como um condenado quando ela casara com Albert. Agora que ela já era casada, ele descobria que ela se mantinha virgem por causa dele e ela voltava a tentá-lo, oferecendo-se de forma muito mais explícita do que em Brocket Hall. E já não era só o amor dela que ela lhe oferecia, agora ela oferecia-lhe o próprio corpo. Se ele a tivesse aceitado em Brocket Hall, ainda antes do casamento, as coisas teriam sido mais fáceis, de certa forma.
"Ma'am, eu…" Ele verbalizou, um pouco atrapalhado, enquanto largava a mão dela.
"Você não me ama?" Ela perguntou direta, virando-se para ele.
"Não me faça essa pergunta!" Ele pediu virando-se para trás, visivelmente desconfortável, para desviar o olhar dela.
"Porque não?" Ela insistiu.
A resposta imediata que surgiu no cérebro dele foi: "Porque então eu serei obrigado a responder que sim!" Mas ele abriu a boca e hesitou. Ele não podia confessar isso! Se ele dissesse isso o que é que ela seria capaz de fazer a seguir?
"Porque… não importa o que eu sinto! O que importa são as circunstâncias em que estamos e o que você me está propor é uma loucura!" Ele exclamou sem olhar para ela. O olhar alternando entre o chão e o tronco da árvore.
"Todos os monarcas tiveram amantes." Ela afirmou com naturalidade, aproximando-se mais dele na busca de que ele olhasse para ela.
Ele ficou surpreendido pela forma como ela falava, como se aquilo fosse a situação mais simples do mundo.
"Mas você não pode fazer isso!" Ele pediu, olhando finalmente para ela.
"Porque não? Só porque eu sou uma mulher?" Ela perguntou indignada.
"Porque você é muito melhor do que eles!"
Ela ficou em silêncio durante uns segundos. Ele tinha usado os argumentos dele para a manter afastada quando tinham conversado no pavilhão do jardim. Agora ela ia contar a ele como tinham sido, para ela, aqueles dias antes do casamento! E depois do casamento!
"Você sabe como eu me senti quando eu regressei de Brocket Hall?" Ela perguntou.
"Eu imagino que não tenha sido fácil…" Ele disse embaraçado.
"Dizer que não foi fácil é uma forma de dizer…"
"Mas depois você rapidamente pediu Albert em casamento…" Ele recordou.
Agora era ele que estava interessado em que Victoria explicasse o que se tinha passado com os sentimentos dela entre o regresso de Brocket Hall e o dia daquele maldito casamento!
Ela riu de modo irónico e a seguir ela justificou:
"Eu estava a ser pressionada pelo meu tio e pela minha mãe, a minha condição de Rainha exigia que me casasse, Albert estava ali ao lado à espera de um pedido de casamento…"
Ela parou um pouco e depois continuou, agora num tom que revelava alguma indignação:
"Você tinha-me recusado em Brocket Hall; a seguir, no baile de máscaras, você tinha dito que nós não estávamos em condições de casar; e depois você tinha insistido que eu precisava de um marido…Não havia nenhuma razão para esperar. Não havia esperança! E, se tinha de acontecer, não servia de nada adiar…"
"Compreendo…" Foi a única coisa que ele pôde dizer.
Então ela continuou a contar-lhe o que ele não sabia, num tom que mostrava a opressão que tinha sentido:
"Você não sabe como eu me senti obrigada e insegura quando eu me preparei para fazer o pedido de casamento, como se eu fosse dar um salto no escuro! Você não sabe como eu estava nervosa naquele momento do pedido…"
Depois ela mudou o tom de voz para falar daquilo que acabara por ser positivo:
"Mas a reação de Albert acabou por ser agradável e … ele fez o que você nunca tinha feito. Ele tratou-me como mulher, sem barreiras entre nós…Ele beijou-me…"
"Por favor, ma'am! Eu não preciso dos pormenores!" Ele pediu em desespero.
"Você sente ciúmes de Albert?" Ela perguntou deliciada com essa perspetiva.
Ele olhou para ela e embora não tenha dito nada fez uma expressão de quem considerava que ela só fazia perguntas difíceis, com as quais ele se sentia desconfortável e às quais ele não devia responder.
Ela estava de facto a testá-lo em cada pergunta incómoda. Cada pergunta que ela fazia, à qual ele não respondia, era um sim!
Vendo que ele não ia responder ela continuou em tom de protesto:
"Lord M, você não reagiu quando eu lhe contei que eu tinha pedido a Albert para casar comigo, e que ele tinha aceitado! Eu esperava que você dissesse alguma coisa naquele momento! Alguma coisa que me fizesse voltar atrás, desistir do casamento…"
Ele olhou para ela com ar surpreso. Ela ainda esperava que houvesse um retrocesso naquele momento? Não podia haver um retrocesso naquele momento! Aquele era o caminho certo. Mas ele agarrou apenas a parte prática da situação para poder responder:
"O seu tio interrompeu-nos…Não houve oportunidade de dizer mais nada…"
A partir daqui o tom de voz e a velocidade do diálogo desenvolveu-se em sentido crescente.
"Eu queria que você me tivesse dito que lamentava! Que você me tivesse dito que você não podia conceber a ideia de me ver casada com Albert!"
"Eu não podia dizer isso!"
"Se o meu tio não nos tivesse interrompido você teria dito?"
"Eu não sei o que é que eu teria dito se ele não tivesse entrado…"
"Mas você lamentou?"
"Sim! Sim! Eu lamentei! Eu lamento até hoje! É isso que você quer que eu diga? Victoria, você não sabe nada do que aconteceu comigo!" Ele gritou em desespero, terminando o que dizia pressionando o punho direito no tronco da árvore.
Ela ficou espantada a olhar para ele.
"Você não sabe nada…" Ele disse depois baixinho olhando-a nos olhos.
Ela estava ofegante. Por causa do diálogo acelerado, pela excitação de estar ali com ele a falar sobre aquele assunto, pela confissão dele e pela forma atormentada como ele a tinha feito. E ele tinha-a chamado pelo nome! Ele tinha-lhe chamado Victoria! O nome dela na boca dele era de uma intimidade penetrante!
Victoria achou que os olhos dele brilhavam mais do que era habitual e que isso se devia a lágrimas que queriam brotar. Ela tentou estabilizar a respiração e perguntou calmamente:
"Então você quer contar-me o que eu não sei?" E depois ela acrescentou num terno tom de voz: "Eu gostaria de ouvir…"
No entanto, contrariamente às expectativas dela, ele reagiu de modo transtornado como ela nunca tinha visto:
"Não! Eu já falei demais! Eu não vou dizer mais nada e esta conversa acabou aqui! Parou de chover e nós temos de regressar! Agora!"
Ele caminhou na direção dos cavalos, do outro lado da árvore, na certeza de que ela o seguiria.
Ela ficou chocada com o tom de autoridade dele sobre ela. Ele estava a repreendê-la e ele estava a dar-lhe uma ordem! Ninguém lhe dava ordens a ela! E, no entanto, ela não conseguia reagir e retaliar. Ela ficou calada e limitou-se a segui-lo.
Ele aproximou-se da lateral esquerda do cavalo dela, juntou as duas mãos, encaixando os dedos uns nos outros, com as palmas viradas para cima, e baixou-se um pouco.
Ela sabia o que devia fazer a seguir. Então ela segurou, com a mão direita dela, o apoio para as pernas que existia na sela. Depois ela colocou o pé esquerdo sobre as mãos dele e sentiu que ele a impulsionava para cima. Victoria sentou-se na sela e posicionou as pernas adequadamente no apoio específico. Obviamente, ela usava calças por baixo da saia e nenhuma parte do seu corpo ficava exposta nesta manobra.
Depois de perceber que Victoria estava montada de forma segura, Melbourne soltou o cavalo e entregou-lhe as rédeas sem dizer uma palavra. De seguida ele dirigiu-se ao seu próprio cavalo, soltou-o e montou-o rapidamente, fazendo-o rodar em sentido contrário.
Sem esperar pela vontade dela, ele incitou o cavalo dele a andar e ela seguiu-o a poucos passos de distância, os quais conseguiu recuperar rapidamente para poder caminhar ao lado dele.
Depois de terem passado pelos dois cavaleiros da escolta estes seguiram a Rainha e o Primeiro Ministro.
O percurso de volta foi feito em silêncio.
Ele estava capaz de explodir! Ele estava furioso com ela e com ele próprio e com Albert e com toda aquela situação complexa e ridícula e torturante! Ela era teimosa e irritante com toda aquela insistência que os conduziria à ruína! E ele estava a fraquejar na sua tentativa de controlar a situação!
Ela estava frustrada porque ele não tinha dito o que ela queria e porque aquela conversa tinha acabado de forma abrupta e porque ele tinha sido verbalmente desagradável! Mas se ela analisasse aquela conversa, ele tinha dito muita coisa…Ele sentia ciúmes! E ele não dissera que a amava porque era efetivamente isso o que ele sentia! E pelo desespero dele e pela reação intempestiva inédita, o efeito do casamento dela sobre ele tinha sido muito mais devastador do que ela podia imaginar. Ela queria que ele lhe contasse como tinha sido! E ela tinha mais coisas para lhe dizer e com aquele corte abrupto da conversa ele tinha impedido que ela pudesse dizer tudo o que precisava. Agora ele estava irritado e não valia a pena dizer mais nada. Ela apenas esperava que aquele estado de espírito dele passasse depressa.
"Bem, ma'am, a partir daqui eu sigo para casa. A vossa escolta acompanha-vos até ao palácio." Disse ele, tentando disfarçar a impaciência, quando atingiram, de novo, ponto de encontro de onde tinham partido.
"Lord M…Não me quer acompanhar até ao palácio? Podíamos reunir agora durante algum tempo antes do almoço…" Ela sugeriu na tentativa de que mais algum tempo juntos permitisse uma reconciliação.
"Desculpe, ma'am. Eu não estou com disposição para reunir agora…" Ele respondeu sem olhar para ela.
Ela já presumia que a resposta dele seria negativa, mas não pôde deixar de ficar triste e desiludida. Ele ia-se embora, ela não voltaria a vê-lo hoje e, além disso, ele estava chateado com ela.
"Compreendo…Tenha um bom resto dia, então…" Ela acabou por concordar.
"Bom trabalho, ma'am."
Ele partiu e ela ficou alguns segundos parada, a vê-lo afastar-se de costas para ela. Depois Victoria esporou o cavalo e voltou para o palácio.
Agora, cada vez que se encontravam eles acabavam separados. O amor de ambos, que devia uni-los, estava a afastá-los. Mas ela não podia evitar falar naquele assunto quando estava com ele. Aliás, sempre que estavam juntos ela só desejava falar naquele assunto. Agora, que ele já sabia de tudo, não interessava falar de mais nada.
Contudo, hoje ela não tinha vontade de chorar por causa do desacordo durante o passeio a cavalo. Hoje ela precisava de analisar o que tinha acontecido.
Ela não tinha gostado que ele ficasse bravo, claro, mas ao mesmo tempo, agora que ela recordava o que ele tinha dito e feito lá debaixo daquela árvore, ela achava que tudo aquilo dava a ele um ar sedutor! A forma como ele tinha gritado com ela, o facto de ele lhe ter dado uma ordem e de lhe ter chamado Victoria, a atuação dele em silêncio a ajudá-la a montar a cavalo e depois a montar o cavalo dele de forma repentina… Aquela recordação deixava-a sem chão!
"Oh, Lord M, Lord M! Você está a perder o controlo! Isso deve significar alguma coisa…E isso pode vir a ser muito favorável…" Victoria pensou.
Mas ela não queria que existisse entre eles aquele mau estar. Ela podia escrever-lhe para tentar recuperar as coisas e para tentar saber quando é que ele voltaria ao palácio.
Então, na repetição de um hábito aprazível, ao final da tarde, ela sentou-se e escreveu.
Ela tinha-lhe proposto que fossem amantes! Ela devia estar a enlouquecer! E queria enlouquecê-lo juntamente com ela! Ela não sabia o que estava a propor, o que isso implicava, todos os perigos que estavam associados a uma situação dessa natureza! Melbourne estava atordoado com a atuação de Victoria.
A culpa era dele que fora um tolo e a afastara antes do casamento. Contrariamente ao que ele queria que ela tivesse feito, Victoria, embora casada, continuava fixada nele, agora de forma muito mais explícita. De facto, o sistema social e político em que eles se inseriam é que tinha a culpa. A lei não permitia a união da Rainha com alguém sem sangue régio, como ele, e o Parlamento e a Coroa não podiam formar um casal.
Ele tinha confessado que lamentava que ela tivesse casado com Albert. Porque é que ele tinha dito tal coisa? Ele estava a abrir possibilidades na cabeça dela! Isso não era admissível! Então ele queria que ela cumprisse o dever de fidelidade para com o marido e para com a Inglaterra e agora ele dizia que lamentava o casamento dela com o Príncipe? Onde é que iriam chegar as coisas entre eles?
A carta dela chegou.
Mais uma carta, pois! Ele podia prever isso. Depois dos acontecimentos da manhã, agora ela vinha tentar remendar as coisas, e recuperar a paz entre ambos.
Ele leu:
"Buckingham Palace, 15 de Abril de 1840
A Rainha espera que Lord M esteja mais calmo a esta hora. Não era intenção da Rainha inquietar Lord M da forma que parece que ele ficou perturbado.
A Rainha compreende o desconforto que Lord M sente com o assunto discutido durante o passeio a cavalo de hoje de manhã e só deseja que esse assunto não seja uma barreira entre ambos e que o relacionamento com Lord M retome a paz anterior.
A Rainha deseja também saber quando é que Lord M pensa que ele poderá regressar ao palácio. Para retomarmos as nossas reuniões pelas quais Lord M manifestou legítima preocupação."
Claro, ela usava a necessidade de reunirem como o motivo para querer saber quando é que ele poderia voltar ao palácio.
Ele respondeu:
"South Street, 15 de Abril de 1840
Lord Melbourne apresenta o humilde dever dele para com Vossa Majestade e informa Vossa Majestade que ele está agora mais calmo.
Lord Melbourne agradece que Vossa Majestade compreenda o desconforto dele para com o assunto discutido hoje de manhã e também deseja que haja tranquilidade entre ambos. Para tal seria útil que Vossa Majestade não voltasse a abordar o assunto em causa.
Lord Melbourne também pede desculpa a Vossa Majestade pelo tom de voz usado durante a conversa de hoje de manhã, pelo tratamento dado a Vossa Majestade – que pode ter parecido desrespeitoso – e pelo eventual abuso de autoridade, se Vossa Majestade assim o tiver considerado.
Lord Melbourne não sabe quando poderá regressar ao palácio. Quando for oportuno Vossa Majestade será avisada com antecedência."
Ele estava a colocar o selo na carta quando ouviu a porta abrir e percebeu que alguém entrava na biblioteca.
Melbourne virou-se para ver quem era, lembrando-se do dia em que Victoria ali aparecera sem aviso prévio. Por Deus, ela não podia aparecer ali agora!
"Ah! Emily, é você!" Ele exclamou mostrando-se aliviado e levantando-se da cadeira.
"Sim, William! Quem é que você esperava que fosse?" Ela perguntou enquanto caminhava, com desenvoltura, até ele.
Emily beijou-o e ele disse:
"Eu não sei…Eu não esperava ninguém…"
Ela olhou para ele com ar de quem desconfiava que ele escondia alguma coisa com aquele ar atrapalhado e disse sorrindo:
"Bem, fosse quem fosse, acho que você ficou mais descansado por ser eu, em vez de ser essa mulher…"
"Mulher? Quem é que falou em mulheres?" Ele perguntou, tentando colocar um ar indignado, de quem estava a ser falsamente acusado de um crime.
"Oh, William! Eu conheço-vos! Sempre que você está em apuros é por causa de uma mulher!" Emily exclamou enquanto, em passo acelerado, já se encaminhava novamente para a porta da biblioteca.
Melbourne não pôde fazer mais nada além de sorrir, enquanto ele ouvia Emily dizer-lhe do hall:
"Vim colocar a sua casa em ordem!"
Victoria recebeu a resposta de Lord M.
Oh! Ele não dizia quando ele voltaria!
Mas ele dizia estar mais calmo, ele dizia que também desejava a paz entre ambos e ele pedia desculpa pela reação intempestiva. Tudo coisas boas.
No entanto, ele não queria que ela falasse sobre "aquele assunto" outra vez!
Bem, havia uma diferença entre aquilo que ele não queria e aquilo que ela mais desejava!
