Acho que este é um dos capítulos mais intensos que eu já escrevi... não me batam! Nem atirem pedras...(Kika se escondendo atrás do escudo de plástico!).

Particularmente, e olha que eu não sinto isso sempre, estou super orgulhosa desse capítulo. Ficou do jeito que eu tinha imaginado! Acho que alcancei o Nirvana aqui. Até que eu ache que superei este capítulo... vai demorar. Vou ter que comer muuuuito arroz com feijão.

No mais, como sempre, agradeço as reviews recebidas. Beijos para vocês amigas!

Parte em itálico flashback

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Hannah levantou cedo e saiu. Chegou ao estúdio onde Legolas trabalhava, mas Hilda a informou que ele havia saído, porque tinha aceitado um trabalho de restauração que deveria ser feito diretamente em uma igreja próxima, dando-lhe o endereço.

Pouco depois Hannah entrava na igreja em obras, olhando todos os cantos do lugar até que achou quem procurava, em meio ao som de marteladas, andaimes, madeiras empoeiradas e cimento. Olhou-o trabalhar concentrado por alguns instantes. Observou a imagem que ele fotografava e media meticulosamente: a tinta já gasta e descascada pelo tempo, o desgaste de algumas formas mais delicadas, principalmente do rosto, os pontos esburacados por ação de cupins... aproximou-se dele devagar, mas se fazendo notar.

"Legolas? Podemos conversar?" – Disse ela, chamando a atenção do rapaz, que a olhou com certo espanto. Hannah nunca gostou muito do ambiente austero das igrejas ocidentais. Os estilos gótico e barroco lhe davam arrepios. Típico ambiente propício a filmes de terror. Estava acostumada com a paz e tranqüilidade emanadas dos templos orientais sempre muito abertos, ou mesmo descobertos em meio a bosques. Sempre se sentia sufocada nesses locais, e evitava freqüentá-los o mais que pudesse.

Ele assentiu com a cabeça, trazendo-a para um canto mais afastado de todo o pó do local e onde as serras usadas fizessem menor ruído para não terem que gritar.

"A Hilda me falou que você estava aqui. Ontem eu liguei várias vezes, mas você não respondeu meus recados, e de noite você foi lá pra levar a Arwen e não falou comigo... então eu pensei que se eu viesse falar com você, a gente podia..." – Hannah parou de falar quando percebeu que Legolas sequer a olhava nos olhos. Tinha a atenção presa em algum ponto do chão. Talvez ela merecesse, mas esse não era o comportamento que ele normalmente teria, a menos que ela não o conhecesse tão bem assim.

Legolas estava perdido em seus próprios pensamentos, sobre se aquele relacionamento deveria continuar ou não, um estranho sentimento de culpa surgindo nele. Hannah não parecia mais tão estável quanto ele acreditou que ela fosse, e essa possibilidade de mudança de comportamento talvez não fosse o melhor pra ele nesse momento. A quem ele queria enganar? Melhor para ele nesse momento? Não estava em recuperação! Havia se viciado novamente. Não faria diferença a estabilidade de um relacionamento. A verdade era que não sabia se ainda gostava dela. Sentia algo estranho por Arwen, por ela lembrar tanto Elrohir, nos modos e olhares. Sempre contida. O que estava sentindo de verdade... nem ele saberia dizer.

"Eu... eu vim aqui prá dizer que sinto sua falta. Que eu ainda gosto muito de você. Eu seu que eu não sou a pessoa mais confiável do mundo pra você, mas eu ainda te amo. Muito."

"Eu também. Também sinto sua falta, Hannah, você não sabe o quanto. Desde aquela noite, mas... o que você fez comigo..."

Legolas não sabia mais como continuar aquela frase. Ela ainda mexia muito com ele.

"Legolas, eu sei que o que eu fiz não tem desculpa. Eu deixei você sem qualquer explicação... como se você não fosse se magoar com isso, e agora eu vejo o quanto eu fui burra e sacana com você. No hospital, quando você falou que teve medo de que algo me acontecesse, a preocupação que eu vi nos seus olhos me fez sentir uma idiota por tudo o que eu fiz." – Dizia ela enquanto se sentava, acompanhada por ele. – "Eu sei que foi meio imprevisível, mas eu prometo que não vai acontecer de novo."

"Por ser imprevisível é que eu tenho medo. Eu nunca disse nada pra você, mas quando você me conheceu eu estava saindo da reabilitação por dependência química. Tinha perdido minha mãe anos antes e depois outra pessoa muito importante pra mim e... foi aí que eu te conheci. Nem tinha terminado meu tempo mínimo de estabilidade, sabe, aquele doze meses que você não se envolve com ninguém, não pode beber, fumar, tem de ir aos encontros regulares... e eu achei que estava tudo bem. Ouvi um monte do meu médico, mas no fim ele acabou dando uma folga. Só que ninguém esperava que fosse ficar assim. Só que há uns dois meses, antes da gente se desentender começou de novo. Não é culpa sua, nem de ninguém. Só que as coisas que aconteceram pioraram isso. Daí eu parei outra vez, mas esse vai e vem não me ajuda em nada." – Desde quando tinha coragem de dizer tudo aquilo pra alguém fora do seu, muito restrito, círculo de amizades muito íntimas. Talvez já fosse hora de contar à ela alguns fatos sobre sua vida, mas não que se sentisse muito à vontade com isso. Agora começava a pensar o quanto poderia ter soado pedante essa atitude dele. Será que ela estava pensando que ele estava fazendo isso para que ela não o deixasse? O seria que era porque queria deixá-la que estava fazendo isso? Como se fosse uma desculpa para evitar a continuação do relacionamento deles? Jamais seria capaz de dizer o que ela poderia ter entendido naquele momento em que ela permanecia com os olhos fixos nele.

"Grande!" – pensou ele! Duas mentiras, uma verdade e algumas omissões. Para quem estava mentindo? Para os outros, ou para si mesmo? Essa dúvida o enlouquecia. Era essa a visão eu tinha de sua vida? Mentir era seu mais novo vício? Sentiu seu coração acelerar um pouco à medida em que o seu lado dopado conflitava com alguns resquícios do seu 'eu' moralizado e careta.

Hannah, por seu lado, o olhava sem saber exatamente o que dizer, como tentar explicar a si mesma o que sua inconseqüência poderia ter feito com a vida dele? É o preço que se paga por ter segredos. Legolas a olhava de forma estranha. Ela não sabia mais o que se passava com ele há algum tempo. Não conseguiam mais ler os sinais que ele dava. Era como se fosse outra pessoa.

"Legolas, eu te prometo. Não vai acontecer de novo. Vai ser como era antes. Me dá uma chance?"

"Eu... eu não quero voltar, Hannah. Tenta entender o meu lado. Eu andei pensando e acho melhor eu ficar sozinho por um tempo." – Esse era o 'eu' bonzinho falando. Por que arruinar a vida dela?

"Legolas. Eu sei que foi cruel. Não vai acontecer outra vez. Volta pra mim..." – Hannah não sabia mais como pedir. Sentia falta dele todos os dias em que eles não se falaram.

"Olha, eu quero, mas... quando você me deixou eu comecei a ter problemas porque não sabia mais o que fazer. Achei que ia morrer de tanto sofrer por sua causa. Procurei meu pai, deixei o Boromir preocupado comigo... eu não quero passar por tudo o que eu passei novamen..." – mentiras, mentiras e mentiras! Quando disse a verdade sem qualquer engodo junto pela última vez?

Hannah o fez parar de falar com um beijo desesperado e apaixonado. Legolas foi a melhor coisa da vida dela em anos. Não queria perdê-lo. Podia senti-lo tremer, e essa era uma tentativa de mantê-lo em sua vida.

"Você promete que não vai me deixar?" – perguntou ele, sem olhar para ela, se sentia inseguro e não tinha plena certeza sobre se devia correr esse risco. Era como se tivesse duas personalidades conscientes dentro dele. Uma querendo e a outra não.

"Eu te amo, Legolas. Muito."

Legolas nada respondeu, apenas se deixou beijar novamente. Hannah não queria que ele se arrependesse da decisão que tomou, podia sentir o coração dele acelerado, batendo contra a palma de sua mão.

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Naquela tarde Aragorn saía do hospital, encontrando todos os seus amigos reunidos na casa dos pais dele. Ainda sentia algum desconforto com o braço na tipóia, mas seria só por algum tempo. Durante esse período ele ficaria na casa dos pais. Aceitou essa exigência após muita insistência dos mesmos, pois fosse por sua vontade estaria levando sua vida por sua conta e risco. Não conseguia mais se ver dependente dos pais para qualquer coisa. Acostumou-se com a liberdade que tinha antes e pensava que aqueles dias sendo vigiado seriam uma nova forma de tortura.

Todos percebiam que Legolas e Hannah tinham acertado os ponteiros e estavam felizes pelos dois, salvo Boromir, que como sempre estava preocupado. Não achava que ela fosse uma boa companhia para Legolas no momento. Mas ele não era o único que se sentia um pouco estranho lá.

Arwen estava sentada do lado de fora 'tomando um ar'. Legolas a tinha convencido a ir a festa de boas vindas, embora ela relutasse em ir ao hospital e aguardar a saída dele. Quando percebeu já tinha concordado. Talvez fosse melhor ficar na companhia de outras pessoas do que sozinha em casa, amargando seus dissabores. Queria tanto falar com Aragorn, mas não tinha coragem e sempre que percebia isso tinha vontade de chutar a si mesma.

Aragorn também não era um exemplo de alguém que se sentia à vontade. A notícia de que Arwen e Haldir não estavam juntos o fizera se animar, mas também se entristecer por ela. Um misto de sentimentos conflitantes que fez com que se mantivesse afastado dela o tempo todo. Chamou Legolas num canto. Sabia que ela o mais próximo de Arwen por namorar com a prima dela. Legolas, por sua vez, o olhava curioso, esperando que ele começasse a dizer alguma coisa.

"É verdade que ela e o Haldir..." – Não sabia como terminar a pergunta. Por que tinha tanto receio disso? Não era como se Legolas, logo ele, fosse julgar as atitudes de outra pessoa.

"É." – Resposta seca e direta.

"E como ela está?"

"Chorou, ficou com raiva... o esperado de quem se ilude e leva um balde d'água. Até me senti mal por ela. Mas e você? Vai falar com ela ou vai se esconder aqui?" – Legolas não conseguia esconder sua atitude super protetora para com aquela garota.

"Não sei, Legolas." – Respondeu Aragorn, olhando para os lados, como se receasse que alguém os ouvisse.

"Sei..."

"O que é que eu faço?"

"Sei lá! Também queria saber. Mas depende do quanto você gosta dela. O suficiente para ir com ela para o Japão, ou esperar 20 anos até que ela te procure e ficar pensando no 'e se' durante todo o tempo." – Aragorn odiava quando Legolas dava essas evasivas. Mas afinal de contas ele não era o guru pessoal de ninguém. Como poderiam ficar exigindo respostas dele?

"Acha que ela gosta de mim."

"Por que você tem que perguntar pra mim?" – Legolas estava impaciente. As pessoas o irritavam. Boromir não havia largado de seu pé por um segundo que fosse naquele dia. Não teve chance de se dopar para ter um humor mais tolerante ou agradável. Queria ir embora dali. Queria sumir. Queria seus comprimidos. Era mais importante para ele do que ficar na companhia de tanta gente. Começava a sentir o desespero tomar conta de si. Ali não era o melhor dos lugares para se ter uma crise de abstinência. Sentia a palma das mãos úmida, tremores, impaciência, agitação. Afastou-se de Aragorn. Precisava ficar sozinho por um tempo, até que conseguisse ao menor ser capaz de disfarçar o desconforto. Isso só deixava aquele jogo mais emocionante. Sabia o que aconteceria se Boromir desconfiasse de algo. Talvez fosse até posto em uma camisa de força dessa vez.

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Do outro lado da cidade duas outras pessoas conversavam. Dois velhos amigos: Gandalf e Thranduil discutiam o destino de Legolas. Muito embora parecesse frio e distante Thranduil era um pai atencioso e algo dentro dele o alertava sobre o comportamento do filho. Um sentimento inquietante de que ele poderia se machucar a qualquer momento. Gandalf ouvia pacientemente o desabafo do amigo e suas conclusões, muito embora a psique de Legolas não fosse nenhum segredo ao psiquiatra aposentado. Já havia tratado dele da vez anterior. Uma pena achar que alguém ainda tão jovem quanto Legolas estivesse trilhando aquele caminho pela segunda vez. Mas se realmente estivesse era melhor que se tratasse logo, antes que atingisse as conseqüências desastrosas que os dois presenciaram.

Thranduil contava que conversou com o filho e que este havia revelado que havia tomado comprimidos sem receita. Temia que o rapaz desaparecesse como da outra vez e que só o procurasse quando estivesse no fundo do poço, ou pior, só soubesse dele quando estivesse morto.

Apesar de estar aposentado e recusando clientes Gandalf aceitou tratar do filho do amigo, em nome de uma longa e forte amizade que mantinham, e por ser quem melhor conhecia os segredos mais obscuros do jovem. Segredos que nem mesmo ao pai ele conseguiu revelar e o fez para ele sob a condição de jamais mencionar nada a ninguém. Pobre Thranduil, mal sabia dos tormentos por que o filho passava. Naquele instante um pensamento terrível lhe veio à mente, associado à uma notícia de jornal de meses atrás. Impossível. Legolas jamais faria uma coisa dessas. Gandalf ouvia a voz de Thranduil soando como pano de fundo de seus próprios pensamentos agora. Deveria ou não revelar o que sabia sobre Legolas? Talvez houvesse uma ligação entre todas as coisas e por isso Legolas estava perdido como estava.

Thranduil pensava se ia ter de conseguir uma ordem judicial para que Legolas fosse internado dessa vez. Sabia que por sua vontade não o seria novamente. Não queria chegar a esse ponto, pois como Gandalf sempre afirmou, a vontade do paciente em se recuperar é o que mais influi no sucesso do tratamento.

Foi um período muito doloroso, Legolas tinha crises de abstinência fortíssimas, se deprimia com facilidade, não permitia que ninguém se aproximasse, por várias vezes se feriu propositalmente com cacos de espelhos ou vidro, ou qualquer outra coisa para que pudesse conseguir qualquer tipo de anestésico ou sedativo. Gritava, chorava e ia da reclusão para a agressividade em questão de segundos. Foram semanas e mais semanas de conversas até que finalmente estivesse apto a prosseguir o tratamento fora da ala psiquiátrica da clínica, podendo conviver com outras pessoas.

Thranduil esteve presente em cada um desses momentos, e era o único a se atrever a uma aproximação quando Legolas estava em crise, ignorando as recomendações dos médicos, pois era imprudente. E como era difícil vê-lo chorar e implorar para que o deixassem sair dali, ou que o sedassem. As reclamações constantes sobre dores. Além de tudo Legolas teve que fazer acompanhamento nutricional por ter perdido muito peso e estar anêmico. Podia até compreender que Thranduil, por si mesmo, não quisesse passar por tudo isso novamente. Não era só o paciente que sofria, mas todas as pessoas próximas dele.

Legolas é um bom rapaz, apenas sente tudo com muita intensidade e não consegue controlar seus sentimentos, e busca uma fuga de tudo da pior maneira. De alguma forma para ele tudo era mais intenso do que para as outras pessoas, e o inferno pessoal em que viveu enquanto andava pelas sombras, mesmo conhecendo o pior lado do ser humano não o tornaram uma pessoa amarga, mas sim, fizeram com que tivesse uma capacidade extrema de compreensão com os problemas alheios.

Thranduil olhava para fora. Cada qual dos dois amigos perdidos em seus próprios pensamentos. Olhava o horizonte, primeiro lembrando-se de como era quando Legolas era pequeno, depois, o começo de sua adolescência. Já na idade adulta seus problemas começaram, até que um dia ele sumiu. Passou anos sem dar notícias. Thranduil perdeu noites de sono, buscando pelo filho nas ruas da cidade, contratou detetives, mas sempre que encontravam alguma notícia sobre Legolas ele desaparecia novamente, e outros meses desenrolavam até que descobrissem 'velhas novidades' sobre o jovem filho desaparecido do empresário. Até que dia as notícias pararam de chegar. Era como a morte em vida para o político Thranduil. Legolas era tudo para que ele mais dava valor em sua vida, e estava começando a aceitar a possibilidade de sua morte quando...

Thranduil dormia um sono agitado tendo mais um dos pesadelos em que via o filho sem poder tocá-lo, sempre se afastando, sempre apavorado com alguma coisa. Era meio da madrugada quando o telefone tocou, trazendo-o para a realidade. Naquela hora da manhã não poderia ser algo de bom. Atendeu num reflexo. Tinha acabado de acordar, ainda sentia o coração acelerado. Do outro lado... .silêncio.

Tentou mais uma vez, um 'alô' um tanto sonolento. Não reconhecia aquele número, mas apenas pessoas muito próximas dele o possuíam, com certeza era importante.

"Pai...". – Ouviu a voz estrangulada do outro dizer, seguida de um longo expiro, como se dizer uma palavra tão pequena exaurisse seu locutor.

"Legolas! Onde você está?" – Disse sentando-se na cama imediatamente e acendendo a luz na cabeceira. Tentou falar calmamente apesar da surpresa, não queria assustar o filho de quem há tanto tempo não tinha notícias. Ele poderia desaparecer outra vez.

"Pai... eu... me ajude!" – A voz dele soava como uma súplica, Thranduil podia ouvir os suspiros e o choro abafado, ficando com o coração apertado.

"Legolas... é claro que eu te ajudo, filho. Só me diz onde você está. Eu vou te buscar se você quiser." – Thranduil ficava agoniado com os longos períodos de silêncio que se seguiam, até que Legolas resolvesse falar com ele novamente. Algo estava muito errado.

"Posso... posso voltar pra casa?"

"Claro que pode, meu amor!" Me diz onde você esta, só isso... por favor filho." – Thranduil chorava. Queria seu filho de volta e seguro em casa. Legolas gaguejava o endereço de onde estava naquele momento, e logo em seguida Thranduil deixava a casa em seu carro, seguido pelos seguranças que sempre o acompanhavam. Parou algumas quadras antes do local, pedindo aos seguranças que se mantivessem afastados. Não queria que Legolas tivesse alguma razão para fugir. 'Se é que ainda estava lá.' – pensou com o coração apertado.

Escaneou o local com o olhar até que avistou a figura que procurava, quieto e encolhido num canto, com o rosto escondido pelos cabelos, agora, muito compridos. Reconheceu-o imediatamente, apesar de estar muito mais magro. Observou as machas de sangue e as escoriações que ele tinha, mas seu estado físico não parecia ser o pior. Numa rápida troca de olhares Thranduil percebeu o quanto os olhos verdes do filho estavam sem brilho, sem reação, como se sofresse mais do que poderia agüentar.

"Legolas!" – disse ele se aproximando devagar, agachando ao lado do rapaz que arfava como se o ar do mundo não fosse suficiente para suprir sua necessidade, afastando a longa franja que lhe cobria os olhos agora que baixara novamente a cabeça, percebeu que ele estava febril. Legolas tremia com soluços fortes que o balançavam. Parecia tão fraco que Thranduil pensou que poderia desmaiar a qualquer momento. – "O que ouve com você, filho?"- perguntou com a voz embargada pela emoção e tristeza de vê-lo tão deprimido, maltratado, abatido, amedrontado.

"Pai..." – disse ele, levantando o rosto, escoriado, mas evitando olhá-lo nos olhos. – "Socorro." – foi tudo o que conseguiu dizer com o último fio de voz que possuía antes que rompesse em lágrimas e tremores descontrolados. – "Quero ir pra casa."

Thranduil o guiava até o carro, fazendo sinal para que os dois seguranças permanecessem onde estavam.Durante o trajeto de volta Legolas estava sonolento, recostado contra o banco do carro, mas evitava dormir, ou simplesmente não conseguia. Thranduil o olhava apreensivo. Já havia percebido que o sangue nas roupas não era dele, pois se fosse teria socorrido no mesmo hospital onde o encontrou – que se danasse sua imagem política. Sabe Deus por onde Legolas havia andado, mas fosse onde fosse, o mundo havia sido cruel com ele. Mesmo no estado em que o filho estava Thranduil estava feliz em tê-lo de volta.

Thranduil lembrava-se de tê-lo observado dormir um sono agitado. Sua vigília estendendo-se por toda a madrugada. Vez ou outra retirava uma ou outra mecha de cabelo que insistia em cair pelo rosto do jovem, ao que este respondia encolhendo-se rapidamente a fim de evitar o toque. Ouviu murmúrios baixos durante os delírios do jovem. Podia olhá-lo o tempo que fosse necessário. Para sempre, se o caso. Via angustiado as lágrimas escorrerem por entre os olhos cerrados do filho, imaginando o que de ruim teria lhe acontecido nestes anos, e ainda assim sabia que não seria nada perto do que ele ouviria. Entretanto agradecia em silêncio por ter a chance de ter o filho nos braços novamente.

O dia amanhecia e os empregados começavam seus afazeres estranhando que Thranduil não estava em casa já naquela hora. Para susto geral, o criado de confiança de Thranduil, Galion, informou que o filho desaparecido do político havia retornado pra casa, e que não gostaria de ser incomodado. Apenas Galion conheceu Legolas, era criado de confiança de Thranduil há muitos anos, e ajudou a educar o garoto. Era desconcertante vê-lo daquela forma.

Legolas tomara um banho rápido,vestindo um de seus antigos pijamas, deitando-se novamente e adormecendo. O médico particular fora chamado e ficou quase uma hora examinando o rapaz que, embora extenuado, recusava-se a cooperar, relutando em ser tocado pelo estranho, apesar das afirmações reconfortantes de seu pai.Escoriações, desidratação, febre e anemia iniciaram o prognóstico, além do reconhecimento por Legolas de que era usuário de drogas há tempos, e isso explicava a rinorragia insistente... anos no consumo de cocaína.Mal terminados os exames Legolas praticamente desmaiou de cansaço.

Thranduil permaneceu ao seu lado durante todo o tempo, embora ele próprio estivesse física e mentalmente cansado.Legolas sempre chamava por um nome: Elrohir.

Intercalando entre a agitação e calmaria Legolas somente veio a acordar na manhã seguinte, não conseguia ingerir nada além de água sem que seu estômago procedesse uma verdadeira revolução. Thranduil o ajudava a se acomodar na cama, cobrindo-o. A febre cedera um pouco, e então ele finalmente ouvia a voz do filho novamente, depois de tantas horas de um silêncio amargurado.

"Pai... desculpe por sumir."

Thranduil sentia às lágrimas encherem-lhe os olhos. "Depois falamos disso. Mas... eu nuca te culpei. Você voltou. Agora descanse."– Era verdade. Thranduil sempre havia culpado a si mesmo por tudo. Não havia prestado atenção suficiente em Legolas, não soube ver os pedidos de socorro durante tempos.

"Me ajuda, pai?" - Legolas soava como se implorasse.

"Claro. Em tudo o que você precisar." – Disse ele dando um beijo na testa do filho

"Eu... eu tentei pai. Mas eu não segui. É tão difícil. É impossível!" – dizia Legolas em meio à lágrimas, lembranças de sofrimento e esforços vãos. – "Eu... eu quero parar, mas... mas não sei como! Socorro!" – Quase não tinha mais voz para dizer nada, tão prostrado que estava.

"Tem alguma coisa a ver com esse garoto chamado Elrohir?" – Perguntou Thranduil, arrependendo-se ao ver o pavor estampar-se nos olhos do rapaz.

Tinha dito esse nome? Era parte de uma dolorosa lembrança de alguém com quem ele conviveu, aprendeu a amar, e perdeu para o vício que a ambos consumia na cobrança do tributo final, que levou a vida de seu amado antes da sua.Limitou-se a concordar com a cabeça.

Legolas havia concordado em se internar e a aceitar Gandalf como seu médico. Embora fosse homem feito estava se sentindo tão frágil quanto uma criança, e estava apavorado com a possibilidade de morrer cedo.

Thranduil sentia os olhos úmidos ao pensar naquela manhãs, e nos dias que se seguiriam, com Legolas gritando tempo todo, se ferindo propositalmente para conseguir qualquer tipo de medicação. Sentia seu coração se partir ao ver o sofrimento dele cada vez que lhe implorava em meio a tremores e gemidos por um pouco da droga da qual seu organismo sentia tanta falta. A agressividade e violência de que era capaz para conseguir, e o pior de tudo, quando oferecia seu corpo em troca de qualquer medicação. O comportamento que via o filho assumir o deixava espantado. Legolas assumia modos de um vadio de rua, felino, sedutor. Quando recebia uma resposta negativa tornava-se agressivo, cuspia nas pessoas e praguejava. Babava, literalmente, de ódio, arrastando-se pelo chão. Ofendia as pessoas, inclusive ao próprio Thranduil, utilizando a falta que ele sentia da esposa para magoá-lo. Desrespeitava a memória da própria mãe para ferir as pessoas na mesma intensidade que se sentia ferido por elas.

Essas terríveis lembranças ameaçavam ressurgir das cinzas e fazer parte de sua vida novamente. Pensava que jamais soube ao certo quem era Elrohir e a real dimensão de sua importância na vida de seu filho, apenas o agradecia, pois, não fosse sua morte, Legolas não retornaria para casa. Gandalf sabia mas não era capaz de revelar.

O velho psiquiatra sabia dos desejos mais sórdidos do coração de Legolas, e isso o preocupava. Legolas não era agressivo, mas Gandalf sabia que ele nutria um desejo de vingança que cedo ou tarde explodiria, de uma forma ou de outra... se é que já não teria acontecido. Legolas havia desenvolvido uma habilidade sem limites em mentir, tanto que quando da análise psicológica relativa à sua ressocialização, Legolas habilmente se fez crer recuperado pelo médico que o examinou.

Aquele rapaz era uma ameaça. Fosse por sua vontade, como médico, Legolas jamais teria deixado a clínica.

CONTINUA... (se a autora sobreviver para postar o próximo capítulo, né...).

Meu, que saco! Esse cara é a cruz que o pai carrega!

Até parece trama de novela... quando vai chegando no final as coisas estouram uma atrás da outra.

Beijos da Kika-sama.