Cap. 13 - Esclarecendo a relação

Cathy adorava as manhãs de domingo em Hogwarts. Neblina e grama molhada. Ela era sempre a única que além de acordar cedo, tinha a ideia de ir passear nos jardins, portanto, tinha todo aquele gramado para ela. Graças a ausência de pessoas, ela podia fazer algo que geralmente ela evitava porque chamava muita atenção, um feitiço que a fazia flutuar na água, ela não se molhava nem nada, mas tinha a estranha sensação de estar deitada em um colchão macio e amplo. Espalhou seus pergaminhos com as lições e seus livros, e começou a fazer as tarefas.
Todo domingo Cathy fazia isso, e todo domingo ela parava exatamente as 9h, porque as pessoas começavam a chegar umas 10h e ela preferia não se arriscar a encontrar alguém. Mas por alguma razão naquele dia Cathy se estendeu um pouco mais. Por volta das 9h15 Cathy se tocou que passara do horário e estava recolhendo suas coisas, quando ao longe viu por dentro de uma das janelas do castelo Severus andando para o salão principal, provavelmente para tomar o café da manha. Ele a viu, mas não parou de andar.
O primeiro pensamento de Cathy foi estranhar. Mas logo se reprimiu pelo pensamento idiota, afinal, ele morava naquele castelo, fazia todo o sentido ele estar indo tomar café da manhã, e era obvio que eles sempre iriam se encontrar pelos corredores e coisas assim, por que ela estava achando tão estranho?
Enquanto arrumava suas coisas e andava até a torre da Grifinória ficou pensando em Snape. A bem da verdade era que agora ele se transformara em duas pessoas completamente separadas, com o azar de terem a mesma aparência.
Quem ela acabara de ver era o Professor Snape, o de sempre, mal humorado, soturno, irritante e soncerino. Era esse o homem que dava as aulas de poções, que brigava com Sirius, que tirava pontos da Grifinória e que falava mal de seu pai.
Mas quando eles estavam sozinhos, parecia que ela simplesmente estava com outra pessoa, uma pessoa distante, inteligente, interessante. Essa segunda pessoa não era a mesma que ofendia seu pai e brigava com Sirius. Ela não tinha nem a mais remota vontade de repreender ele por essas coisas, porque o cérebro dela não interpretava que eram a mesma pessoa.
Quando Cathy percebeu que estava fazendo essa separação, ela não pode deixar de se perguntar, seria aquilo certo? Sua razão ditava que ele era sim culpado e que ela querendo ou não eles eram a mesma pessoa. Mas algo dentro de si dizia que ela deveria aprender mais sobre ele antes de sair acusando alguém que talvez seja inocente.

Andando para o Grande Salão para tomar seu café antes que os alunos infernais chegassem, Severus Snape viu um borrão ruivo flutuando no lago negro, já estava meio atrasado e não parou para olhar direito, mas o borrão o lembrou a Cathy.
Ela iria cozinhar o almoço hoje, como fez tão maravilhosamente nas outras semanas, ele estava até curioso para hoje, a primeira vez que iriam conversar depois de terem admitido a atração que ambos sentiam em relação ao outro.
Claro, ele não havia dito nada, ela dissera tudo, mas ele concordou por dentro e ele sabia que ela tinha ouvido.
A verdade é que ele já tivera algumas mulheres nessa vida, nenhuma especial, nenhuma que despertasse nele o que ela despertava.
A mãe dela era um grande amiga sua, irmã de alma, e ele retornou para o lado da luz por ela, e protegeu cuidar da garota para sempre, mas nunca imaginara que pudesse ter alguma empatia com a garota, que ele por auto proteção simplesmente supôs que fosse igual ao pai.
Hoje ele sabia, ela não era nada como seu pai, e também não era nada como Lily. Ela tinha algo próprio.
Algo que o atraia muito.

-"„-

- Cathy! - disse Ron feliz- Carta de Sirius para você! - continuou ele
- Da onde veio isso? - perguntou Cathy confusa
- Veio junto com uma carta de casa, acho que Sirius deve ter dado para a minha mãe entregar e ela mandou junto pelo Errol

Cathy recebeu a carta feliz por ouvir do padrinho, mas a felicidade virou aborrecimento quando viu o objetivo da carta.
Ele não contava nada sobre ele, não eram informações da Ordem, não dizia como estava Lupin, nada do que ele normalmente escrevia, nem sequer reclamou do tédio de ficar preso na casa dos pais, só estava interessado em uma coisa: Severus Snape.
Como ele a estava tratando?
Snape é um bastardo.
Ele disse algo ruim para você?
Seboso é um cretino mal amado
O que ele anda fazendo?
Aquele filho da puta
O que ele anda te dizendo sobre James? Seja o que for, é mentira.
Não acredite naquele seboso nojento

Só isso, a carta era um mistura de perguntas sobre como ele estava se comportando e insultos. Nada mais.

A carta deixou Cathy inegavelmente triste, terminou seu café da manhã e acompanhada de Ron e Mione foram para a biblioteca. Ela deu a carta para eles lerem, e quando eles terminaram os comentários deixaram Cathy ainda mais triste e cansada.
- Hmm... É, ele foi meio direto mesmo, mas enfim, ahn... - começou Hermione sem jeito
- Como é que ele anda te tratando? - Ron terminou o que Hermione queria falar
Cathy respirou fundo e deixou o corpo cair na cadeira da mesa mais isolada possível
- Por que é que vocês insistem em pensar que ele é uma pessoa ruim?! - perguntou ela meio brava meio triste

Ron e Mione se entre olharam, e foi Hermione quem respondeu:
- Porque ele sempre foi Cathy, sempre foi injusto e tratou a gente mal, porque ele era um comensal da morte, porque ele odeia seu pai e Sirius, você costumava concordar com tudo isso!
- Bom, eu não concordo mais. - respondeu Cathy agora mais brava do que triste
- Mas ele não mudou! Quer dizer, você tem passado mais tempo com ele mas isso não faz dele um cavaleiro branco não é? - disse Ron
- Eu não sei explicar! Merda! Mas alguma coisa me diz que ele não é quem vocês pensam. - tentou Cathy
- Alguma coisa te diz? Alguma coisa? O que ele tem de dado para tomar? - Ron ficou estressado com a falta de explicação, há tempos que ele e Hermione estava estranhando a amiga, ela nunca falava do que acontecia nas masmorras e tampouco falava mal de Snape como antes.
- Eu não estou sob nenhum feitiço Ronald. Pessoas mudam.
- Cathy, você está atrasada para o almoço com ele. - disse Hermione olhando para o relógio, realmente ela estava certa, deveria estar nas masmorras uns 5min atrás.
- Obrigada Mione - respondeu Cathy ainda frustrada por não conseguir explicar o porque de sua repentina mudança

Chegou nas masmorras em uns 3min, e após ter certeza de que ninguém a estava vendo, entrou no escritório dele, lá removeu os feitiços de desilusão e passou para os aposentos privados. Severus estava sentado no sofá lendo o Profeta Diário.
- Você está atrasada. - ele disse assim que ela abriu a porta
Cathy fechou a porta e tirou o casaco antes de responder
- Não é muito seu estilo constatar o óbvio - ela respondeu
- Foi a minha forma sutil de perguntar o que te atrasou, você deveria aprender a identificar sutileza já que vamos passar mais tempo juntos
- Eu normalmente sou bem boa nisso, mas essa leitura implicaria você estando interessado na minha vida, jamais poderia ter previsto isso não é mesmo? - ela respondeu ferina
Quando ele não respondeu imediatamente ela sabia que tinha ganhado aquele round. Era divertido ver como ela estava melhorando nisso, no começo ele atacava e ela não respondia, até ficava ofendida, depois quando ela começou a responder, percebeu que tinha algo de interessante nessa briguinha, e quando começou a ganhar adorou a sensação, era na verdade inofensivo e divertido, exercitar o cérebro para respostas rápidas e sarcásticas e pensar em respostas boas para destruir o oponente. Cathy poderia facilmente ver essas briguinhas substituindo xadrez pela atividade preferida dela.

- Vamos comer? - ele perguntou
- Você me viu chegando 1min atrás certo? - ela respondeu
- Eu sei que você ainda não preparou nada, vamos para cozinha e eu vou te assistindo
- Como queira querido - ela disse dando uma ênfase tão sarcástica e fazendo uma reverencia exagerada, que Severus não se conteve e riu.

Era a quinta ou a sexta vez que isso acontecia, estava ficando cada vez mais frequente. Fosse ele ou fosse ela, sempre alguém acabava rindo. Era um pouco estranho, mas estavam se acostumando.
Foram para a cozinha e ela começou a preparar um macarrão, que era rápido e fácil de fazer, ela costumava fazer para os Dursleys quando estava atrasada com as tarefas de casa, justamente por sua rapidez de preparo. E era na verdade bem gostoso.
Ela começou a ralar o queijo para o molho quando ele se levantou, todo o tempo ele estivera observando ela sentado em uma cadeira
- Deixe que eu faço - ele disse
- Isso não quebraria o acordo? - ela pergunta
- Acho que não, naquela época era normal o homem matar a carne e prepara-la, não deve fazer mal eu ralar um pouco de queijo.
Ela estranhou um pouco, mas deu de ombros e concordou.
Ele começou a ralar o queijo como ela estava fazendo.
- Por que você cozinha sem magia?- ele perguntou casualmente
Ela estranhou de novo, mas respondeu mesmo assim
- Sei la, eu só estou acostumada acho
- Você faz tudo com magia, seja pegar um livro de uma estante até organizar uma mala, você faz tudo com magia, por que com comida é diferente? - ele perguntou novamente
Agora ela estranhou muito, e não conseguiu se segurar
- Você está agindo estranho.
Ele olhou para ela, mas continuou a ralar o queijo
- Como estranho?
- Se ofereceu para me ajudar com o queijo, está interessado no meu passado e nos meus hábitos, e de repente aparece com uma serie de observações sobre o meu jeito de fazer as coisas, quer dizer, desde quando você percebe essas coisas? Desde quando você liga? - ela não conseguiu conter um sorrisinho de felicidade, e esperava que ele não percebesse.

A expressão descontraída dele se fechou para a poker face de espião que ele sempre fazia quando queria ocultar algo, parou se ralar o queijo e respondeu sem nenhuma intonação:
- Você está estranha hoje. Foi só uma pergunta, você está analisando demais as coisas.
Ela levantou uma sobrancelha como ele costuma fazer e deu de ombros
- Okay, não quer falar não fala, pode por favor mandar o persona embora e voltar ao normal?
Ele bufou cínico e voltou a ralar o queijo, mas foi bem aos poucos que sua mascara de espião foi diminuindo e ela pode ver sua expressão relaxar novamente.

Estavam almoçando o macarrão com molho quatro queijos e bacon quando ela decidiu dar voz ao que a preocupava:
- Severus?
- Sim?
- Você contou para sua família sobre o casamento?
Ele subiu os olhos assustado para ela, estranhando o assunto tão diferente do que eles costumavam conversar, isto é, poções, feitiços, guerra...
- Eu não tenho família para contar, e mesmo se tivesse, esse não é o tipo de coisa que se sai gritando por ai, se o Lorde das Trevas sequer imaginar isso, estou em apuros. Por que você quer saber?
- Porque estou tendo alguma dificuldade lidando com a minha. - admitiu ela mal humorada
- Se você está falando daquele cachorro pulguento... - foi possível ver ele ficando mais parecido com o professor Snape e não como Severus
- PARE. Nem termine a frase - ela gritou para impedi-lo de se transformar no outro Snape
- Não prefere saber a verdade? - perguntou ele pretensioso
- Você quer dizer a sua versão da verdade.
- Você ouve a versão dele, não parece mais justo você ouvir as duas? - ele insistiu
- Não Severus. Eu fracamente prefiro não ouvir nenhuma. - ela foi direta e grossa
- Mas..
- NÃO SEVERUS. Eu também não ouço o que ele fala. Nem li a carta que ele me mandou, eu simplesmente não vou me meter nessa merda de vocês. Eu não tenho 3 anos de idade!
- Você não tem ideia. - ele disse seco
- Se você achou que eu ia perguntar pode esquecer, eu estou melhor sem saber mesmo.
- Se você diz isso é porque sabe que a verdade é cruel...
- Eu digo isso porque sei que no final, vou ser obrigada a pensar mal de um dos dois, e eu realmente não quero que isso aconteça.

Depois disso Severus se rendeu, ficaram quietos pelo resto do almoço ele pensando no que ela havia dito sobre ser forçada a pensar mal de um deles, isso queria dizer que ela no momento pensava bem dos dois, pensava bem dele? Desde quando alguém pensa bem dele?
Ela ficou pensando se tinha feito a decisão certa.

Terminaram o almoço e quando se levantaram, ela disse:
- Não posso ficar aqui muito tempo, as pessoas vão começar a fazer perguntas...
- Na verdade, eu estava pensando nisso, suponhamos que você saia daqui agora, qual a sua desculpa para não estar no almoço? Por que veja, nas outras vezes que você teve que cozinhar para nós era de noite, então é mais fácil, estava com sono, ou fiquei estudando, mas achar uma boa explicação do porque você tomou café da manha, sumiu no almoço, sem que ninguém soubesse informar aonde você estava, e depois misteriosamente surgir como se nada, pode ser complicado de explicar
- Tem razão, não sei, ninguém nunca me pergunta essas coisas, porque eu na verdade sempre meio que sumi, ia para alguma parte isolada do jardim ou me escondia em algum banheiro interditado para ler um pouco, mas você tem razão é claro, tenho que ser mais cuidadosa. Vou por o feitiço de invisibilidade e ficar sumida em algum lugar por um tempo, se eu chegar no fim da tarde é mais fácil de explicar, no pior dos casos eu digo que arrumei um passe para Hogsmeadle. - concluiu ela
- Pode ficar aqui, eu não me importo, é melhor do que ficar escondida em algum lugar
- Infinitamente melhor, tem razão.
Ele percebeu que fora um elogio aberto, e ela também notou, ambos acharam meio estranho, porque eles nunca deixavam nada assim explicito, ele porque era um slytherin e ela porque ja tinha aprendido que com ele, ser direta e obvia nunca era a melhor opção.

- Sim... De qualquer forma, eu vou sentar para corrigir algumas provas, pegue o livro que quiser, as estantes estão na ordem, preste atenção: poções, artes das trevas, feitiços, história e a última é de romances. Estão misturados bruxos e trouxas, mas se mantêm em todas as fileiras por ordem alfabética, de cima para baixo.
- Brilhante. - comentou ela feliz com a organização dele

Ela passou pelo menos 1h de pé analisando os títulos sem pegar nenhum, nesse meio tempo ele corrigia provas e as vezes levantava a cabeça para ver onde ela estava. Finalmente ela chegou a prateleira dos romances, e pegou um clássico favorito seu: Orgulho e Preconceito, o livro mais famoso de sua autora inglesa de época preferida, Jane Austen.
Ela se sentou em uma ponta do confortável sofá e se encolheu um pouco por causa do frio das masmorras, abriu na primeira página e começou a ler. Quando ela estava lá pela página 30 ela sentiu uma manta macia em seus ombros, olhou para a mesa do escritório e viu que ele com a varinha havia conjurado uma.
- Você parecia com frio. - disse ele simplesmente
- Obrigada. - disse ela um pouco desconcentrada
Ele sacudiu a cabeça e pousou a varinha na mesa, algo na expressão dele mostrava confusão, mas ela não saberia dizer o que.
Ele pensava em como fora natural o ato de conjurar a manta. "Cathy está com frio, há uma manta no quarto, accio." Mas logo que encontrou os olhos dela após ter feito, ficou meio embaraçado, desconfortável, esquisito.
Enfim, foda-se, pensou ele, e voltou a sua correção.

Quando ela estava terminando o décimo capítulo ela sentiu um corpo afundar o sofá, ele terminara as correções e havia pego um livro, estava sentado ao seu lado com os pés apoiados na mesa de centro.
Ela se inclinou para ler o título: "Drácula"

- Jamais pensei em você como um fã de literatura romântica trouxa. - ela comentou
- Realmente, não é algo que eu deixo transparecer. - ele se inclinou para ver o título do livro dela - Jane Austen. Definitivamente uma das melhores autoras de toda a minha biblioteca.
- E de qualquer biblioteca - ela continuou
- O que você já leu dela? - ele perguntou interessado
- Tudo.
- Tudo?
- Sim, porque?
- Os trabalhos publicados com outros nomes? As peças de teatro?
- Claro que sim. Eu disse tudo não disse?
- Fantástico! - ele deixou escapar baixinho
- Perdão? O que tem de tão espantoso nisso? Ela é uma das grandes! Das melhores! É claro que eu li tudo o que ela escreveu!
- Sim sim, eu penso assim também, mas é muito raro achar quem concorde. É fantástico que de todas as pessoas, você seja uma das que concorda.
- Na verdade Severus, eu sou a típica fã dela, você é o leitor inusitado aqui. Não te vejo de forma alguma apaixonado pelo Mr. Darcy.
- Não querida, não pelo Mr. Darcy. Mas pela Srta. Elizabeth Bennet.
- Hahahhaha tem razão mesmo, ela é uma das melhores personagens já escritas. Os dois são na verdade.
Ele concordou com a cabeça, ambos voltaram para seus próprios livros.

Ficaram perdidos em suas leituras por horas, sem falar nada. Mas estavam bem cientes da presença do outro, não de uma forma ruim, muito pelo contrario. Em algum ponto da tarde ela desistiu de tentar ficar sentada direito, pegou uma almofada e colocou na braçadeira do sofá, apoiou as costas ali e dobrou os joelhos para que não incomodasse ele, que estava ao seu lado.
Nesse movimento, Severus nem levantou os olhos de sua leitura, mas quando ela estava novamente confortável ele, ainda sem tirar os olhos do livro, pegou as pernas dela com uma mão e esticou-as, de forma que ficassem em seu colo.
Foi instintivo, assim como a manta.
Ela sorriu leve olhando para ele e voltou a ler.

A verdade era que eles estavam ficando cada vez mais íntimos e acostumados um com o outro, eles eram inteligentes demais para não perceber, mas era sábios o bastante para não ficar analisando, e toda vez que suas consciências apontavam algum sinal "ele te cobriu com a manta" ou "ela entende seu humor esquisito", eles simplesmente ignoravam.

A dinâmica deles em relação a atração sexual entre eles era a mesma para qualquer aspecto da relação entre eles: Deixe fluir e tente não refletir muito.