Aviso: Saint Seiya não me pertence, mas Wish sim :3.

Consegui terminar 6 capítulos dessa fic, então os próximos talvez não demorem tanto a aparecer. :*


CAPÍTULO XIII – Mais Lições E Uma Mulher Morta

***A

Ouvia as batidas na porta como se elas viessem de outro mundo. Sem ter como evitar deixei o nervosismo tomar conta de mim. Entre um segundo e outro de pânico até pensei em abrir a porta e deixar Saga ver Ragi ali no meu quarto e descobrir absolutamente tudo. Porém o medo da reação dele me levou a tomar outra atitude.

Puxei Ragi pelo braço até o banheiro e sussurrei em seu ouvido:

- Esconda-se aqui e não faça nenhum barulho.

Ele me olhou como se eu tivesse contado uma piada muito engraçada e disse:

- Isso não vai adiantar nada, anjinho...

- Ah é? – perguntei desaforada – Você tem alguma ideia melhor?

Ele fez que sim com a cabeça enquanto caminhava para o fundo do banheiro. Fechou seu sorriso debochado e desapareceu no meio da escuridão. Segurei um grito com a mão diante da cena. Fora a coisa mais inacreditável que já tinha visto. Alguém desaparecer no meio da escuridão daquele jeito era surreal demais, até mesmo para um anjo caído.

Naquele momento entendi a realidade por trás quando ele falou em pegar carona nas sombras. Onde será que ele tinha ido parar? Fiquei tão atordoada que não me preocupei em responder, se quer pensei a respeito da resposta dessa pergunta.

Desfiz a minha cara de susto, passei a mão nos cabelos e fui abrir a porta para Saga entrar.

- Desculpe a demora... – disse com um sorriso sem graça ao abrir a porta – Estava trocando de roupa...

- Quem estava aqui com você? Ouvi vozes... – ele me olhava de cima a baixo com um terrível olhar interrogativo.

- Ninguém, era só a televisão... – mantive meu sorriso inocente, e sim, eu tinha uma TV no quarto que raramente ligava – Bem, o que te trouxe aqui, grande mestre?

Ele se virou e congelou seu olhar no meu rosto. Deu para analisar bem sua expressão. Ele estava abatido. Suas pálpebras estavam levemente vermelhas como se estivesse chorando. Um nó se formou em minha garganta imediatamente. Como me doía vê-lo assim, sofrendo calado.

Ele baixou a cabeça e começou a falar, percebi notas de aflição em sua voz:

- Ariel, eu... Precisava falar com você sobre ontem...

Parecia bastante tenso, então segurei carinhosamente seu braço e o levei para sentar na cama.

- Sim, pode falar. Estou ouvindo.

- Não devemos continuar com... – ele suspirou – Isso... Não devemos mais nos ver... – disse ele tristemente.

- Mas, por que não? – busquei seus olhos que queriam a todo o momento fugir dos meus – O que aconteceu para você tomar essa decisão?

Ele abriu a boca para falar depois se interrompeu. Segurou minhas mãos e eu apertei as dele. Ele tinha as mãos tão quentes.

- Escute, Ariel, eu estou pensando no seu bem, na sua segurança. Não devemos mais ficar sozinhos. Eu não sou uma companhia segura para você...

- Mas por quê? – perguntei com aflição. Sentia que estava prestes a explodir – Que quer dizer com não estou segura ao seu lado?

- Ariel...

- Você salvou a minha vida, Saga! – segurei seu rosto. Ele finalmente me encarou – Você lutou pela minha vida se atirando naquele mar, depois naquela noite no teatro... Como não posso estar segura ao seu lado? Você é a pessoa que mais me faz sentir segurança nesse mundo...

Senti que ia começar a chorar. Meu coração batia em desatino. Não podia, não queria ficar longe daquele homem. Sofreria demais, não suportaria. Sem responder nada, Saga se levantou e foi para perto da janela. Disse de costas para mim:

- Confie em mim, Ariel. Eu não mereço assim tanto crédito e tanta confiança. Já fiz coisas terríveis. Você já deve ter ficado sabendo... O fato de ser o patriarca é uma grande ironia dos deuses...

- Não me importo com nada disso! – agarrei sua mão. Estava pronta para não largá-la mais – Eu confio em você, Saga. Sinto-me totalmente ligada a você... – toquei seu braço e ombros. Aproximei meu rosto das costas dele e senti seu perfume doce e amadeirado. Mas o que eu queria mesmo era sentir o cheiro da pele dele. Ansiava tocar o homem por baixo daquela capa grossa de austeridade e de sentimentos conflituosos. Eu o amava e o desejava tanto que era torturante apenas pensar ficar longe dele. Apertei os olhos para conseguir recuperar meu fio de raciocínio. – Seu temor seria por conta dos episódios no escritório e no jardim? Não quer me contar o que viu?

- Você... – virou o rosto e me olhou com seriedade – Não tem ideia do que eu fiz, se soubesse não estaria insistindo em continuar me vendo...

Saga veio até mim lentamente. Tocou os meus cabelos em cima dos ombros. Enrolou uma mecha entre os dedos em seguida. Ele agora me olhava com um misto de admiração, ternura e desejo. Não me contive e avancei sobre ele. Segurei sei rosto e o beijei. Apenas juntei os lábios na esperança que ele continuasse com o beijo, mas ele não se moveu.

Separei-me dele totalmente desapontada. Então aquilo significava realmente separação, no entanto ainda me via na obrigação de fazê-lo falar.

- Saga eu só queria que me dissesse de uma vez o que acontece com você durante os episódios. Eu sei que vê alguma coisa... Estranha. Certa vez você disse que havia uma parte sua que não gostaria que existisse... Que parte é essa?

Ele estendeu a mão para tocar meu rosto. Suas mãos agora estavam frias.

- Por favor, Ariel. Não me peça para falar sobre isso...

- Mas eu preciso saber! – voltei a me aproximar dele. Ficamos cara a cara, nossos narizes quase se tocavam. Notei que ele teve um sobressalto, então eu insisti: - Eu quero saber exatamente o que você vê. Quem sabe eu possa ajudar...

Quando terminei de falar nossos lábios estavam quase se tocando. Desta vez foi ele que avançou. Saga abriu um pouco a boca e liberou um pouco de respiração. Parecia que estava se controlando e muito. Já eu não me controlava nem um pouco. Fazia questão de mostrar meu desejo através das minhas mãos percorrendo seus braços até sua barriga.

Ergui a cabeça e esfreguei meu rosto no dele até ele se mexer, até ele corresponder ao meu carinho. Fechei os olhos quando ele segurou minha nuca e encarou maliciosamente meus lábios. Senti os pelos dos meus braços se arrepiaram de uma vez só.

Saga deu um passo à frente ainda segurando a minha nuca me empurrando consigo. Sua outra mão apertou minha cintura. Então ouvi o som das minhas costas batendo contra o espelho pregado na parede, foi ai que me dei conta que estava sendo encurralada. Estava presa entre ele e a parede. Não conseguia me mover. No entanto não sentia um pingo de medo. Apenas desejo.

Ansiava que ele parasse de me olhar daquela forma tão destruidora e me beijasse logo de uma vez. Afinal era isso o que ele queria, não era? Via desejo em seus olhos. Sem avisar puxou meus cabelos da nuca e roçou seus lábios frios nos meus algumas vezes.

Então parou com a carícia de lábio contra lábio, mas continuou segurando meu pescoço para que eu não mudasse minha cabeça do lugar. Deslizou os dedos pelo meu pescoço e disse baixinho:

- Às vezes eu me sinto como o rei Midas das histórias... – seu dedo indicador percorreu meu rosto e parou no meu queixo. – Só que as coisas que eu toco em vez de virar ouro... Morrem...

Sinceramente não consegui prestar atenção ao que ele dizia, só enxergava seus olhos brilhantes, seus lábios me chamando. Toda aquela expectativa era torturante. Se ele queria me deixar mais entregue, estava conseguindo.

Saga passou o dedo pelos meus lábios molhados e abriu só um pouco a minha boca com a ponta. Ficou me olhando com o mesmo olhar destruidor de antes. Não dava para saber o que ele queria ou ia fazer pelos seus olhos, seu rosto era uma grande incógnita. Era sim um pouco assustador. Sentia falta do Saga carinhoso de antes, mas estava morrendo de curiosidade para ver o que ele faria comigo.

Ele fitou o espelho atrás de mim por alguns segundos, então seus olhos ficaram mais sombrios e diferentes. Vi crescer uma chama violenta neles, a mesma de um predador contemplando sua presa acuada.

Voltou a olhar para mim e sussurrou:

- Você é tão frágil, Ariel... É tão delicada... – deu-me um beijo rápido, porém suficiente para eu sentir sua língua tocar a minha – É tão fácil feri-la... – passou os lábios frios pelo meu pescoço lentamente. Senti seus músculos ficaram mais enrijecidos. Deu-me outro beijo rápido então continuou sussurrando e me encarando sombriamente: - É tão fácil matá-la...

O tom de voz e os dedos frios que tocavam meu pescoço me causaram outro arrepio, desta vez de medo. Mas essa sensação não durou muito. O desejo falou mais alto. Fechei os olhos e relaxei meu corpo. Lembrei que podia senti-lo, que podia sentir seus beijos. Era só isso que importava no mundo.

Ele me beijou novamente, desta vez demorou. Possuiu com todas as letras minha boca. Não fora um beijo carinhoso como nosso primeiro e sim intenso, quente, forte, violento.

Quando liberou meus lábios eu estava totalmente sem ar. Minhas pernas até tremiam. Saga voltou a segurar minha nuca enquanto esfregava os lábios sobre o meu rosto respirando ruidosamente como um animal feroz. Meu cabelo se desarrumava colado ao espelho. Assustei-me quando abri os olhos e me deparei com os deles. Estavam como uma tonalidade diferente, avermelhada. Esse brilho só durou o tempo de um piscar de olhos, mas foi suficiente para eu gravar.

Não gostei daquele olhar. Desejei não ter visto o brilho vermelho nunca, pois ele em nada lembrava o olhar do homem que eu amava. Foi nesse momento que Saga me soltou. Afastou-se de mim olhando para o chão com um semblante muito incomodado, diria até assustado.

- Saga o que aconteceu agora? – perguntei enquanto me restabelecia do susto.

Eu não entendia por que tinha ficado tão assustada.

- Eu preciso ir... – disse ele pouco antes de partiu em direção a porta.

Aquilo me deixou totalmente sem reação.

- Mas...

- Não posso explicar. – disse ele me segurando para que não o seguisse – Por Atena, Ariel, não me procure mais. Continuarei buscando um meio de te ajudar a recuperar suas memórias. Não desistirei até conseguir. Espero que entenda meus motivos...

- Como posso entender se você não explica! – explodi.

Saga não disse mais nada, simplesmente depositou um beijo de despedida na minha testa e saiu do meu quarto. A porta se fechou na minha frente e o chão se abriu sob os meus pés...

No dia seguinte Saga não me procurou nem eu tive coragem de procurá-lo depois da nossa última conversa. Ouvi as servas comentando que ele havia saído com Aioros e outro cavaleiro para resolver assuntos do Santuário. Fiquei tão arrasada com a separação que não sai do quarto para nada. Dei uma desculpa para Kali para não conversar, nem fazer nada. Só queria ficar na cama e chorar.

Martelava os motivos que levaram Saga a tomar aquela atitude. Cheguei a cogitar que ele tinha descoberto minhas mentiras e agora me odiava, mas essa hipótese logo caiu, pois se ele tivesse descoberto não ficaria calado. Ora, um anjo caído morando no mesmo templo que ele e a deusa Atena não era um fato banal. Muito pelo contrário.

Fiquei tão abalada que perdi o sono. Passei quase a noite toda rolando na cama e quando finalmente consegui tocar num fio de sono, tive um pesadelo. Foi semelhante ao pesadelo que tive antes de ir ao teatro. Vi os mesmos terríveis demônios alados, só que em vez de sobrevoar minha cabeça dentro do templo, eles voavam pelo céu do Santuário como uma nuvem de gafanhotos gigantes.

As criaturas riam e batiam suas asas muito perto dos telhados das casas casa zodiacais e do templo de Atena. O mais estranho era que apenas eu conseguia vê-las. Tentava a todo o momento avisar Saga e a Atena que não acreditavam em mim, pois não eram capazes de ver nada. Era uma sensação terrivelmente angustiante. Acordei sobressaltada de novo e com a nítida impressão de que tudo era real e não um sonho.

Assim que acordei abri as janelas de meu quarto para olhar para o céu. Não vi nenhum demônio alado apenas estrelas e nuvens. Não me dei por convencida e abri a porta do meu quarto para olhar o corredor. Fui recebida pela escuridão. Dei alguns passos pelo corredor pisando levemente no tapete macio até uma região parcialmente iluminada por uma única janela que não estava coberta pela cortina.

Parei ao notar uma presença. Vire-me com rapidez e vi uma sombra escapar na curva do corredor. Correi perseguindo a sombra até o final do corredor e ao dobrá-lo meus pés escorregaram no chão liso, quase cai. Quando consegui aprumar meu corpo e levantar a cabeça dei de cara com o corredor vazio. Todas as cortinas das janelas estavam fechadas.

Ainda pensei em procurar mais um pouco, mas nos trajes curtos de dormir no qual estava vestida não ficaria muito bem caso cruzasse com alguém. Suspirei profundamente jogando grande quantidade de ar frio para fora do corpo e voltei para o meu quarto. Passei o resto da noite com medo e num constante estado de alerta. Horas depois escolhi acreditar que a sombra no corredor fora apenas minha imaginação assombrada pelo pesadelo de minutos antes.

No dia seguinte resolvi sair do quarto. Passaram-me várias ideias pela cabeça como fingir que estava doente ou fazer greve de fome para Saga vir me procurar. Desisti de todas. De nada adiantaria tomar medidas desesperadas. Conscientizei-me de que ele me evitava por estar em seus 'dias negros'. Eu só precisava esperar ele se abrir de novo. Esperar era o grande problema.

Porém alguma coisa dentro de mim sinalizava que não era apenas a variação de humor, e sim algo bem pior que ele não tinha coragem de confessar para ninguém.

Depois do café da manhã (tomei só um copo de leite, por que não tinha animo para engolir mais nada) fui para o jardim do templo de Atena com a Kaliope. Ela correu para os canteiros de flores com sua costumeira animação matinal. Quanto a mim, desabei sob a sombra de uma árvore situada em frente à fonte de pedra. Ouvia as risadas da Kali como se elas viessem de um país distante e ensolarado e eu estivesse sobre um bloco de gelo no mar da Antártida.

O ronronado potente de Uri se aproximando rompeu aquela cadeia de sons. Ele andou lentamente na minha direção com seu passo elegante e seguro de felino. Eu estava deitada de barriga para cima na grama e daquele ângulo, Uri me pareceu um filhote de tigre com suas patas grossas e seus grandes olhos amarelos brilhando intensamente sob o sol.

Seus bigodes estavam sujos de leite. Ele lambia o focinho o tempo todo. Parou ao meu lado e me deu uma cabeçada.

Do outro lado do jardim Kali berrou:

- Ariel! Não tem medo que esse gato te morda de novo?

Veio correndo e parou a certa distancia olhando assustada para Uri. Tive vontade de repreendê-la por fazer tanto escândalo e acabar com o meu amado silêncio, mas a Kaliope não fazia por mal.

- Não se preocupe, ele só atacou naquela vez por que foi machucado... – ela me olhava como se não entendesse o idioma que eu falava – Você e todo mundo aqui tem uma ideia muito errada do Uri. Ele é um gato muito bonzinho...

Fiz um carinho na cabeça do bichano deitado ao meu lado. Uri se espreguiçou e começou a lamber a pata e passar na cabeça.

- Você não é a primeira que ele ataca por aqui, Ariel... – disse Kaliope olhando atentamente para o gato. – Eu se fosse você não deixava ele ficar tão perto...

- Como você é medrosa, Kali... – disse fechando os olhos.

Kali deu de ombros e voltou para os canteiros de flores. Pegou vários galhos com flores e sentou na grama para fazer um arranjo. Cantava alguma música em grego que para mim pareceu tediosamente animada demais. Suspirei rolando os olhos para o alto em direção as janelas do segundo andar do templo, para as janelas do escritório de Saga.

Não tirei os olhos daquela janela na esperança que Saga a abrisse a qualquer momento. Precisava vê-lo ao menos de longe...

***S

Parei de prestar atenção na conversa de Aioros quando cheguei perto da janela. Não me atrevi a abrir a cortina. Pela luz intensa que vinha da parte de baixo, devia estar um lindo dia lá fora, mas eu não tinha a menor vontade de enfrentá-lo. Fechei os olhos e meu pensamento viajou pelas coisas que tinha que fazer naquele dia até chegar àquela que eu não queria mais pensar para não alimentar minha saudade...

Perguntei-me o que ela estaria fazendo àquela hora do dia. Devia estar com sua amiga Kaliope pelo templo, eu presumi. Fiquei contente com o fato delas terem virado amigas, apesar de serem tão diferentes. No começo achei que não se dariam bem nunca por conta do jeito expansivo da jovem Kaliope enquanto Ariel era pura seriedade. Felizmente minha previsão não se concretizou.

Olhei na direção de Aioros só para dar uma satisfação, fingir que estava participando da conversa, na verdade, depois voltei para a janela. Sem querer voltei a pensar onde ela estaria. Olhava de vez em quando para a porta da minha sala como se a qualquer momento fosse a ouvir batendo e pedindo permissão para entrar.

Apesar de uma parte querer muito vê-la, outra maior me dizia que eu tinha feito a coisa certa quando decidi me afastar dela. O melhor para ela era ficar longe de alguém como eu. Era melhor assim.

- Você acha que Atena vai concordar com essa ideia, Saga? – perguntou Aioros de sua cadeira.

- Vai... – respondi olhando mais uma vez para a porta.

- Só uma pergunta... – Aioros me olhou de forma desconfiada – Estava prestando atenção no que eu estava dizendo?

- Infelizmente não. – reconheci.

Não queria mentir para um amigo tão querido. Aioros suspirou pesadamente.

- Você sabe por que está desse jeito disperso... Ainda não acredito que fez isso, Saga!

- Não quero voltar a falar deste assunto, Aioros... – sentei em minha cadeira evitando olhar para o rosto de sagitário.

- Mas eu quero voltar a falar! Não devia ter feito isso. Não entendo o que tem nessa sua cabeça...

Aioros cruzou os braços fechando seu semblante e eu fechei os olhos. Ele estava falando do meu rompimento com a Ariel.

- Ela estava te fazendo bem, Saga. – disse ele agora parecendo cansado. Cansado de me dar conselhos que eu não seguia – Você estava diferente, estava mais animado, disposto, com um ar mais leve em volta de si. Agora voltou a ser o Saga vampiro de antes trancado aqui neste escritório com medo até da luz do sol...

- Foi melhor assim. – interrompi e continuei num só fôlego: – Ariel precisa de calma para se recuperar do acidente. Ela precisa de sossego e eu preciso dar mais atenção aos assuntos do Santuário. Temos uma disputa de armadura chegando e Atena está se preparando para fazer uma série de viagens humanitárias pelo mundo junto com sua fundação. Tenho que bolar um complicado e invisível esquema de segurança para mantê-la a salvo enquanto estiver fora do Santuário...

- Mande o Camus com ela. Ele sabe ser discreto... - Concordei com Aioros com um gesto de mão. Era como se ele tivesse lido meus pensamentos. - Mas, está querendo dizer que ela representava uma mera distração para você? Que te atrapalhava? Eu pensei que gostasse dela, Saga...

Aioros olhou dentro dos meus olhos parecendo bastante surpreendido com meus argumentos. Demorei a respondê-lo.

- Eu disse que ela era importante para mim...

- Isso não é o mesmo que gostar?

- Aioros, você não entende! Estou fazendo isso pensando mais nela do que em mim. No presente momento não estou em condições de oferecer a estabilidade que a Ariel precisa...

- A insônia e os pesadelos voltaram? É disso que está falando?

Meu silêncio e minhas olheiras devem ter respondido a pergunta de meu amigo. Ele levantou da cadeira e deu alguns passos pela sala. Parou em frente ao elmo dourado de grande mestre que eu havia deixado sobre uma poltrona.

- Você já pensou em procurar um especialista para te ajudar com esse problema, Saga?

"Um especialista", repeti dentro da minha mente com ironia. Nem mesmo Atena fora capaz de eliminar meu lado sombrio, que dirá um médico... A deusa me disse certa vez que só eu podia controlar minha outra face. Como fazer isso, eu não tinha a menor ideia. Principalmente nos últimos dias que me sentia mais estressado.

Aioros se virou e eu finalmente respondi com uma tristeza que não consegui remover da minha voz:

- Não posso sair do Santuário para visitar um psiquiatra...

- Eu não disse psiquiatra, disse especialista. Podia pedir uma indicação do Dr. Jason, você confia tanto nele...

- O especialista que fala capaz de tratar insônia crônica e traumas do passado chama-se psiquiatra. Não existe outro...

Contrariado, levantei da cadeira e fui até a janela. Não tinha coragem de olhar para o rosto de Aioros para não ver seu olhar de pena. Tinha certeza que ele me julgava um desequilibrado.

- Bem, eu realmente não pensei em um psiquiatra... – disse ele colocando a mão no meu ombro – Mas e se for o caso, talvez devesse enfrentar isso de uma vez por todas.

Olhei para Aioros esboçando uma tentativa de sorriso para demonstrar minha gratidão por se importar tanto comigo. Aioros sempre me ouvia e nunca me julgava. Talvez ele pensasse realmente que eu estava louco, mas por amizade evitava usar de sua conhecida franqueza.

- Você tem um problema para dormir. – continuou ele usando um tom de voz mais descontraído. – Não é pecado procurar alguém para resolver isso... – voltei para a minha mesa nessa altura da conversa. Aioros continuou: – Tão pouco buscar apoio na mulher que você gosta. Tenho certeza que a Ariel não recusaria te apoiar, nem ficaria assustada. Ela não me parece esse tipo de mulher frágil, apesar do que lhe aconteceu. Ela é uma sobrevivente Saga, assim como você. Então vá correndo falar com ela e esqueça essa história de grande mestre vampiro... – Aioros abriu parcialmente as cortinas da janela enquanto falava ignorando meus pedidos para não fazê-lo. Dirigiu-me um sorriso cúmplice e completou: - Antes que outro tome o seu lugar...

- Do que está falando?

- Do tal Ragi, ele acabou de chegar aos jardins do templo e está falando com o seu anjo nesse exato momento...

Abandonei o papel que segurava e fui apressado para a janela ver esta cena.

- O que será que ele veio fazer aqui? – perguntei.

- Vai saber...

- Esse cara é muito estranho...

- Pois é... Você não engoliu aquela história que ele contou, não é mesmo Saga?

- Nem uma vírgula...

- Confesso que fiquei um pouco desconfiado no começo, mas a história dele me pareceu bastante convincente...

- Convincente até demais...

- E o que você vai fazer? Oh grande mestre da desconfiança...

- Ficar de olho nele. Ariel está com amnésia, então qualquer um pode chegar com uma história muito convincente e ela acreditar, mas eu não...

Se eu havia gostado do tal Ragi? Não, com certeza não. Ele não me inspirava a menor confiança. Também não estava gostando da cena no jardim. Algo dentro de mim se encrespou quando o vi falando com a Ariel daquela maneira tão próxima, como se fossem íntimos.

- Parece que ela costuma se apegar rápido as pessoas que a salvam... – disse Aioros mudando o tom de voz para insinuação descarada.

Contudo procurei não transparecer meu incomodo.

- Seria natural tendo em vista o que ela passou... – disse secamente.

- Você acha que ele veio se vingar de você pelo que aconteceu na ilha de Andrômeda? – perguntou Aioros voltando para sua cadeira em frente a minha mesa.

- Não. Tenho quase certeza que esse cara não tem nada a ver com a ilha de Andrômeda. Infelizmente não há como confirmar minhas suspeitas... – estreitei as vistas mirando o homem de cabelos negros que conversava com a Ariel no jardim. – Mas vou ficar de olho nele...

***A

A voz de Kaliope e o ronronado de Uri foram se distanciando. Estava sendo tomada por uma doce sensação de sonolência deitada naquela sombra em decorrência da noite mal dormida que tive. Kali sumiu pelo jardim e eu fechei os olhos aproveitando o maravilhoso silêncio que só era quebrado pelos sons daquele pedaço de floresta. Vento batendo nas flores e carregando as folhas secas, algum inseto voando. Os sons da natureza eram tão aconchegantes quanto o silêncio a meu ver.

Uri parou de se lamber e começou a fitar um ponto distante do jardim. Inicialmente seu olhar parecia perdido, depois ficou extremamente atencioso. Ele não movia se quer um músculo.

- Está vendo sua próxima caça? – perguntei afagando suas orelhas.

Ele não me deu a menor atenção. De repente levantou e saiu correndo em direção ao fundo do jardim como uma bala. Devia ser um inseto grande para aquele gato ficar tão interessado.

Pouco tempo depois do maine coon ter me deixado, ouvi sons de passos se aproximando, e pelo peso, eram pés masculinos. Uma sombra cresceu sobre mim assim que abri os olhos.

- Pensei ter te advertido sobre os riscos do sol... – disse o anjo caído exibindo seu sorriso de deboche.

- Os riscos servem para você também... – olhei-o de cima a baixo. Sua áurea sombria estava pouco evidente, parecia disfarçada, mas ainda lá. Apenas detectável. – Espero que tenha vindo para continuarmos aquela nossa conversa...

- Que conversa?

- Não se faça de desentendido! – levantei para dar espaço para ele se sentar ao meu lado debaixo da sombra da árvore – Sobre os nefelins e sobre o que fez no meu quarto. Como conseguiu fazer aquilo?

- Onde está a sua amiguinha, sinto o cheiro dela por aqui... – olhou em volta e vi malícia em seus olhos.

Fiquei indignada por ele se referir a Kali daquela maneira.

- Esqueça a Kali! Estou falando sério...

- Ok! Vamos às lições do dia: eu peguei carona na escuridão, e sim, sou muito bom nisso... – como estava olhando para ele com cara de quem não estava entendendo nada ele explicou: - As sombras para nós são como portas, passagens, caminhos... Podemos mergulhar nas sombras e aparecer em outros lugares do mundo, como um teletransporte. E acredite, é uma habilidade muito útil às vezes. Eu poderia passar pelas 12 casas sem ser notado, mas hoje não quis fazer isso. Disse que precisava subir para ver como aquela que salvei a vida estava e todos me deixaram passar...

Seu sorriso debochado cresceu por alguns segundos. Parecia que lhe causava grande prazer enganar as pessoas. Fiquei perturbada.

- Como consegue fazer isso?

- Não é tão difícil, pois a escuridão praticamente chama por nós. Você deve estar se sentindo muito bem aqui embaixo dessa sombra, não é Ariel?

Enquanto terminava a pergunta, deitou de lado sobre a grama e ficou me encarando. Eu bem que queria negar, mas ele estava certo. Sempre me senti confortável nas sombras. Ele me explicou brevemente como pegar carona nas sombras. Eu esperava jamais ter que tentar. Mergulhar na escuridão e aparecer em outro lugar para mim ainda era uma ideia muito assustadora.

- ... Quando éramos anjos, podíamos fazer a mesma coisa com a luz. O principio era o mesmo... – continuou Ragi.

Fiz que compreendia com a cabeça, depois perguntei:

- E sobre os Nefilins, você ainda não me disse totalmente o que eles eram...

Ragi levantou antes de eu terminar de falar. Cravou os olhos negros no chão. Estava na cara que aquele era um assunto espinhoso. Tive que insistir mais um pouco para ele falar.

- Como eu te disse naquela vez, os Nefilins, são descendentes de anjos caídos. É só isso que precisa saber!

- Não! – disse o encarando com firmeza – Sinto que tem mais coisas, sim... – Ragi ficou de costas para mim. Percebi que fechava a mão com força. – Não pode me enganar como os humanos, Ragiel...

Ao ouvir seu nome completo o anjo caído virou o rosto na minha direção no mesmo segundo. Sua respiração estava acelerada e raivosa. O porquê daquela raiva toda, eu não conseguia visualizar.

Ainda de costas ele falou:

- São como demônios, Ariel...

- Como demônios? – perguntei cautelosamente me erguendo.

- Sim. Os demônios verdadeiros vivem nas profundezas e não podem sair e chegar a Terra ou aparecer em qualquer dimensão que aja luz, mas os Nefilins podem. Por terem sangue humano em seus corpos, eles têm livre acesso a qualquer mundo. São como parasitas, cuja única missão é levar o caos e a destruição para este planeta, como vingança por terem sido gerados a partir de uma relação pecaminosa, condenada pelos deuses e pelos anjos. Diferente de nós, eles já nasceram condenados a maldade e vivem para condenar a todos por sua origem...

- Como um castigo para os seres que os criaram? – perguntei ficando de frente para Ragi.

Apesar do medo enorme que aquela conversa me causava, estava curiosa para saber mais.

- É. Os Nefilins, não deveriam existir e os 12 arcanjos fazem questão de nos lembrar isso sempre...

- E por que esses tais arcanjos simplesmente não combatem esses seres em vez de nos punir? – perguntei indignada.

- Por que não é tão fácil, Ariel. – disse Ragi com irritação. – Os anjos são avisados dos riscos iminentes do envolvimento entre um anjo caído e um humano, então chegamos à Terra conscientes dos perigos, logo somos culpados por ignorar a regra. Os Nefilins são criaturas muito poderosas e seu surgimento está ligado a outras desgraças bem mais sérias para este mundo...

- Que desgraças?

- Já ouviu falar em apocalipse? Juízo final? Pois bem, os Nefilins marcam o início, o primeiro evento. Quando o sangue ruim dos Nefilins desperta é o sinal de que a Terra está à beira da destruição.

- Deuses... – sussurrei assombrada.

Tremia dos pés a cabeça. Precisei me sentar para me acalmar. Bem diferente de mim, Ragi permaneceu alheio, encostado à árvore de braços cruzados e olhos fechados. Sua atual postura tranqüila me intrigava. Se éramos feito da mesma "matéria", por que aquele assunto não o abalava como me abalava?

Antes que o silêncio incomodo chegasse, atalhei outra pergunta:

- Me fale mais sobre esses arcanjos. Os nomes Gabriel e Miguel, significam algo para você?

- Gabriel e Miguel fazem parte da tríade suprema dos arcanjos junto com Uriel. Eles lideram os outros 9 e todas as outras classes de anjos do céu, os querubins, os serafins, os tronos... Os três são os mais poderosos e participam ativamente da criação do universo e da manutenção do equilíbrio de forças que compõe a existência tanto divina quanto terrena.

- Por alguma razão estes nomes estão na minha cabeça... – disse pensativa. Quando Ragi mencionou, Gabriel e Uriel me veio algo bom, quase nostálgico, mas quando ele falou o nome Miguel senti medo e outra emoção que não consegui nomear, era algo parecido com estado de alerta. – Você não sabe mais nada sobre eles, Ragi?

- Não... – ele respondeu olhando nos meus olhos, mesmo assim fiquei desconfiada de que ele podia saber mais do que dizia, já que sabia mentir tão bem. – Tudo o que sei é de ouvir falar, não me lembro de estar na presença desses arcanjos. Dizem que Gabriel é bondoso e sempre intercede pelos humanos junto aos deuses, já Uriel e Miguel são terríveis. Levam as regras a sério demais, principalmente Miguel que é mais antigo e mais poderoso. Esse arcanjo não brinca em serviço quando o assunto é castigo. Ele é conhecido como "a espada de deus", ele é o líder supremo, enquanto Uriel significa "a sabedoria de deus" e Gabriel "a humanidade de deus".

Aquelas palavras finais soaram para mim como se já as tivesse ouvido.

- Você lembra do céu, ou de onde viemos, Ragi?

- Vagamente... – disse ele olhando para os galhos no alto da árvore. – Lembro de estar num lugar onde havia muita luz, campos, e de ouvir música...

- Que tipo de música? – perguntei rindo.

Era muito estranho ouvir Ragi falar sobre aquelas coisas, pois percebia certa nostalgia em seu tom de voz.

- Instrumental. – respondeu voltando ao seu jeito sério e sombrio de sempre.

- Eu gostaria de lembrar tudo logo...

- Essas lembranças mais profundas demoram a vir, tipo imagens do céu, dos outros anjos do que você fazia lá, etc...

Ele foi tão incisivo. Nitidamente queria cortar o meu barato.

- E você, lembrou de tudo?

Ele me olhou com um traço nítido de irritação cortando sua face, então sentou na grama mantendo as costas encostadas na árvore.

- Não.

- Mas você disse que tinha caído há muito tempo, então eu pensei que...

- Pensou errado.

Senti que havia atingido a uma espécie de ponto fraco dele. Gostei muito dessa nova sensação de estar no controle da situação uma vez na vida diante de Ragi. Aproximei-me lentamente, apoiei as mãos nos joelhos e perguntei olhando para seu rosto:

- Você me fez essa mesma pergunta quando me conheceu e agora te devolvo: por que você caiu, Ragi?

Ele abriu os olhos negros e me olhou com profundo desprezo antes de responder. Achei que fosse me agredir.

- Que tal continuarmos com as lições?

Soltei uma risada baixa. Era realmente um assunto delicado para ele. Como de certa forma era para mim também optei por não contrariá-lo ao ponto dele pensar novamente em deixar o Santuário. Com um sorriso matreiro no rosto resolvi engavetar aquele assunto. Por enquanto.

Sentei ao seu lado com as pernas juntas na frente do corpo e antes de falar, mostrei um sorriso inocente:

- Está bem, como quiser...

- Parece que estamos sendo observados... – disse Ragi olhando para cima – Seu namorado todo poderoso não para de olhar para nós da janela...

- Saga? – dei um pulo para levantar do chão e só não corri por que Ragi me segurou.

- Eu não faria isso se fosse você...

- Ah é e por quê? – lancei-lhe um olhar desafiador.

- O sol está muito forte para você sair por ai, e pelos seus lábios pálidos, aposto que não se alimentou direito hoje. Se sair daqui agora vai enfraquecer rapidamente...

Pelo tom de voz duro percebi que ele estava falando sério. Havia também certo perigo em sua voz, como se dissesse entre linhas "se sair debaixo dessa sombra o que vai acontecer é por sua conta e risco." Dei um muxoxo e me joguei de volta na grama. Queria saber como ele adivinhou que eu não tinha comido naquela manhã. Sempre achei que meus lábios eram naturalmente pálidos.

Ragi continuou me repreendendo:

- Parece que você não leva a sério o que eu falo, anjinho. Não devia ficar sem comer. No estado em que está, seria um alvo fácil... – então ele apertou o meu queixo – Não queira enfraquecer. Sei que é difícil se alimentar sem paladar, mas faça um esforço... – nessa altura da conversa eu pensei "ele está me aconselhando? Quer que confie nele?" – Coma sempre quando os humanos comerem, assim você não esquece as refeições. Procure comer alimentos leves, nada de comidas muito temperadas. Siga a dieta dos morcegos.

- Dieta dos morcegos?

- Frutas, vegetais e bastante líquido. Essa dieta entre nós caídos é chamada de dieta dos morcegos... É uma piada interna.

Então ele deu de ombros. Acho que não esperava que eu entendesse, mas eu estava entendendo. Não ri apenas pelo fato consumado de nunca mais voltar a sentir o gosto dos alimentos. Havia perdido completamente o prazer de comer.

- Você lembrou mais algum fato do seu passado? – perguntou ele me vendo pensativa.

- Apenas destes dois nomes. Quanto tempo você demorou a lembrar?

- Exatos 10 anos.

Suspirei desanimada. 10 anos era tempo demais para esperar.

- Por que você quer tanto lembrar, anjinho? – apesar de ele ter me chamado de anjinho de novo, não percebi deboche nessa pergunta, apenas interesse.

- Eu não sei direito. Quando acordei aqui a única pessoa que reconheci foi o Saga. Como se já tivéssemos sido íntimos, sabe? Sabia bastante coisa da vida dele e coisa alguma da minha. Como você explica isso?

Ele pensou um pouco antes de responder.

- Eu nunca ouvi falar que algum caído preservasse algum tipo de lembrança. Faz parte do castigo esquecer de tudo e eu duvido que um arcanjo deixasse escapar esse fato.

- Mesmo assim, eu me sinto ligada ao Saga... – olhei para a janela e só vi a cortina fechada, mas o vidro estava aberto. – é um tipo de ligação muito forte, entende?

- Sei...

De novo tive a sensação de que Ragi não havia me contado tudo. Isso me fez lembrar de meus poderes telepáticos. Podia ser por conta deles que lembrava especificamente de Saga. Eu poderia ter capitado sem querer seus pensamentos enquanto ele me resgatava. Essa seria uma explicação racional. Ragi não confirmou. Continuou dando respostas curtas.

O assunto telepatia continuou. Ele me explicou brevemente como ouvir os pensamentos das pessoas. Segundo ele consistia apenas em focar na mente de alguém, então as ondas cerebrais eram captadas pela mente do anjo caído como fosse um radinho de pilha super potente e as mentes das pessoas fossem estações de rádio.

- Eu posso ouvir os pensamentos de qualquer pessoa? – perguntei.

- Menos de deuses. Algumas pessoas sabem bloquear, outras são completamente suscetíveis... – Ragi olhou em direção aos canteiros de flores e um sorrisinho sorrateiro se formou em seus lábios finos – Como a sua amiguinha, a doce Kaliope... – virei o pescoço na direção do olhar de Ragi e vi Kaliope vindo na nossa direção carregando muitas flores nos braços. – Que tal praticar seus poderes telepáticos com ela?

- Consegue ouvir os pensamentos dela aqui? – perguntei horrorizada.

- Lógico – Ragi me virou para ficar de frente a serva e sussurrou no meu ouvido: - Ela está pensando nos arranjos de flores que vai fazer. Um para a cozinha, outro para o próprio quarto e outro para você e está cantarolando também...

Fiquei mais horrorizada ainda quando me dei conta de que podia ouvir os pensamentos da Kali também. Mas era um pouco estranho, era como se Ragi estivesse me guiado até a mente dela. Não me via fazendo aquilo por querer. A respiração de Ragi foi ficando mais silenciosa próxima ao meu ouvido, como se ele estivesse se concentrando.

- Por que não tenta influenciá-la, Ariel?

- Jamais faria isso com a Kali... – respondi fechando os olhos lentamente.

Sentia-me um pouco tonta. Não sei se pelo esforço mental ou se por ter comido tão pouco mais cedo. Meu estômago parecia uma geleira.

- Para influenciar alguém usa-se o mesmo método de ouvir os pensamentos. Concentre-se na mente do mortal e envie uma ordem da sua mente para a dele. Faça com que ela vire sua escrava, sua marionete. A doce Kaliope é uma preza tão fácil, a mente dela é tão fácil de entrar... Eu consigo ver os fios da marionete saindo se sua cabeça pedindo para serem manipulados. Você não?

A voz de Ragi de repente ganhou eco. Fique tonta. O mundo ao meu redor girou várias vezes. Contudo não me sentia influenciada, me sentia cansada. Os pelos do meu braço foram se arrepiando pouco a pouco e meu rosto esfriando. A sensação era de ver várias luzes se ascendendo ao mesmo tempo, como se houvesse algo me rondando que não soubesse dizer de onde vinha.

- Está tentando influenciar a sua amiga, Ariel?

Assim que percebi o tom de deboche de Ragi cai em mim. A sensação ruim foi embora do mesmo jeito que entrou, subitamente.

- Não, nem você vai tentar, entendeu bem? – disse girando nos calcanhares para ficar de frente para o anjo caído. – Se tentar alguma coisa, se fizer mal a ela ou para alguém, conto tudo ao Saga sobre você! – apontei o dedo entre os olhos de Ragi em sinal de ameaça séria.

Ele mostrou as mãos sem tirar seu maldito sorriso da minha frente.

- Está bem, anjinho. Faço tudo o que quiser.

- Temos mais alguma habilidade? – perguntei só para no caso dele estar esquecendo-se de me dizer alguma coisa.

Eu tinha plena certeza que estava, mas não por esquecimento.

- Podemos perceber alterações no estado de saúde de um mortal também.

- Como assim?

Virei na direção aonde vinha Kali e ela não estava mais lá.

- Sabemos quando alguém está doente. Por exemplo, se alguém tem algum problema cardíaco, conseguimos sentir isso. Ajuda bastante na hora de influenciar a pessoa. Se ela estiver com a saúde fraca, nosso trabalho é mais fácil...

Fomos interrompidos por um grito estridente. Reconheci imediatamente a voz da Kali. Corri para o fundo do jardim para ver o que estava acontecendo. Ragi chegou logo atrás de mim. Encontrei a Kali ajoelhada na grama coberta de flores, como se tivesse atirado todas as flores que segurava em cima da cabeça, chorando e cobrindo o rosto com as mãos diante do que parecia um corpo, um corpo de uma mulher.

Uri também estava lá. Ele cheirava o pé da moça sem parar. Aparentemente havia chegado antes. Segurei os ombros de Kali e tentei confortá-la, mas ela parecia não me ouvir, estava em choque.

Ragi passou por nós duas e tocou o pescoço da mulher deitada de costas. Era uma serva pelas roupas que usava. Não conseguia ver com total clareza por que ela estava coberta de grama e eu voltei a ver o mundo girar. Minha vista estava ficando embaçada.

- Está morta. – disse Ragi ficando de pé.

Kaliope gritou mais uma vez e saiu correndo. Vi Ragi me olhar com seriedade e se aproximar de mim. Ele disse: "você está bem, Ariel?". Foi a última coisa que me lembro antes de ver o mundo escurecer. Tive a impressão de vê-lo sorrir...

Acordei na minha cama. Senti uma mão grande segurando a minha. Reconheci imediatamente o toque. Saga. Só ele segurava minha mão daquele jeito, envolvendo e massageando lentamente os nós dos meus dedos. Quando abri os olhos, seu rosto estava próximo ao meu. Olhava-me com preocupação.

- Como se sente? – perguntou.

Fiquei algum tempo contemplando seu olhar tão atencioso, tão carinhoso. As nuvens cinza de chuva tinham voltado a cobrir o azul de seus olhos. Demorei um pouco a responder.

- Melhor agora...

Esbocei um sorriso enquanto erguia a mão para tocar seu rosto. Saga fechou os olhos e ficou por alguns segundos sentindo meus dedos percorrerem sua face, permitiu que eu o tocasse por algum tempo. Em fim tentou falar:

- Ariel, eu...

- Não diga nada... – coloquei o dedo indicador sobre seus lábios e sussurrei – Não é necessário, meu amor...

Senti que ele queria me pedir perdão por ter dito aquelas coisas na noite retrasada. Porem não queria ouvir desculpas, não precisava disso para nada. Só o fato de ele estar ali ao meu lado já me bastava, já me deixava muito satisfeita.

Aquela presença reconfortante era muito melhor do que qualquer pedido de desculpas. Saga se inclinou sobre mim e beijou minha testa. Assim que seus lábios ameaçaram se desgrudar da minha pele, levantei a cabeça e o beijei na boca. Segurei seu rosto para aprofundar o beijo. Ele correspondeu suavemente.

Ficamos alguns minutos assim. Meus olhos logo ficaram molhados por conta da grande emoção que sentia. Sentia-me imensamente feliz, como se os céus estivessem se abrindo para me receber de volta. Mesmo sabendo que já tinha sido um anjo, só entraria no paraíso se Saga estivesse me esperando na porta. Ele era bem melhor do que o paraíso.

Quando nos desgrudamos, perguntei limpando as poucas lágrimas que tinha derramado:

- O que aconteceu com a mulher do jardim?

- O legista suspeita que ela tenha tido um ataque cardíaco quando estava em uma das sacadas públicas do templo e acabou despencando lá de cima. Aparentemente foi morte morreu antes de cair. – segurou minhas mãos e usou uma delas para acariciar o próprio rosto. Ele estava barbeado. Sua pele era lisa como seda. – Não quero que se preocupe com nada disso. Apenas descanse, está bem? Eu já chamei o Dr. Jason e ele virá te examinar em algumas horas...

- Isso é realmente necessário, grande mestre? – indaguei timidamente.

- É...

Puxei-o pela camisa para beijá-lo de novo. Queria aproveitar antes que o médico chegasse. Então o telefone de Saga tocou e cortou todo o clima.

- É o Dr. Jason, deve ser para avisar que está a caminho... – levantou e colocou o celular no ouvido. Mostrou-me um sorriso largo antes de responder a chamada: - Olá Dr.! Sim, ela está aqui. Estamos esperando... Sim? – Vi seu sorriso se desfazer no meio da conversa com o Dr.. Comecei a ficar nervosa, boa coisa não era. – Pode deixar Dr., Falarei com ela sobre isso... Até mais. – friamente desligou o telefone e o recolocou no bolso.

- O que houve? – perguntei procurando parecer menos tensa possível.

- O médico quis saber se você tinha feito os exames que ele requisitou, e se você já tinha marcado a consulta com o neurologista... Por que omitiu isso de mim, Ariel?

Meus nervos vieram a baixo. Sentei na cama de cabeça baixa. Imaginava que seria terrível quando Saga descobrisse uma das minhas mentiras, mas nunca pensei que fosse tão doloroso. Simplesmente não conseguia mais encará-lo...

Continua...


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