Capítulo XIII

O telegrama que Harry enviara a Londres na manhã que partiram de trem especificara o horário de chegada deles, assim uma carruagem os aguardava na estação Kingcross.

O trajeto até Hogsmead Hill foi feito em silêncio.

Harry olhava distraído pela janela, parecendo apreciar a paisagem, mas na realidade pensava no que estava fazendo agora que levava Pansy para sua residência. Ele jamais tinha levado alguma mulher até alí, ele jamais partilhara tanta intimidade com uma mulher.

Pansy ia distraída como Harry, refletia sobre a mudança em sua vida, sobre a excitação que a envolvia, sobre as possíveis consequências dessa loucura que ela vivia com Harry. Rogava a Deus que Draco não se inteirasse, que tudo desse certo, que ela pudesse regressar depois para a França sem complicações.

Harry mantinha uma distância forçada de Pansy, e esta se comportava como uma nobre dama. Tinham que passar a impressao de que eram apenas conhecidos e que ela seria apenas hóspede de Harry por duas semanas.

Algum tempo de viagem depois eles chegaram a Hogsmead Hill. Diante da porta principal da mansão, a criadagem, perfilada, os esperava. Ao mordomo Snape e à governanta, sra. MacGonagal, coube a honra de dar as boas-vindas ao casal.

— Meu Deus — Pansy murmurou, pasma. — Nunca vi tantos empregados. Você deve viver num esplendor digno da realeza.

Harry fitou a longa fila de servos, era certo que o mordomo julgara que a mulher que o acompanhava merecia toda a pompa e circunstância. Não a tinham como sua amante, mas possivelmente como sua...Prometida.

— Creio que eles trouxeram algumas pessoas da aldeia para impressioná-la — o marquês falou baixinho. — Espero que esteja impressionada — Harry sorriu.

— Sem dúvida. Você é muito rico? — ela o provocou. — Daphne está sempre me dizendo que devo arrumar um amante e que esse amante seja muito rico. — Pansy disse em tom de brincadeira.

— Exatamente como ela faz. — A voz de Harry soou fria.

Tomando-a pela mão, conduziu-a pela entrada imponente de Hogsmead Hill.

— A propósito, você não vai arrumar nenhum outro amante. — Ele disse em tom possessivo.

— Não desejo isso. Prometo-lhe nunca arrumar um amante depois de você Harry. — Pansy sorriu docemente.

Por um instante Harry sentiu-se tentado a lhe fazer promessa igual, todavia, realista quanto ao seu passado e ao futuro de ambos, preferiu não mentir.

— E eu prometo controlar meu ciúme no futuro.

Por um instante Pansy pensou que ele pudesse prometer o mesmo, mas na realidade sabia que tão logo saísse da vida do marquês ele arrumaria outra mulher para substituí-lá, como fizera com Daphne. A tristeza novamente se abateu sobre ela. Teria que controlar essa sensação, teria de fazê-lo para aproveitar os dias que estivesse com ele. Não poderia sentir-se magoada, não poderia exigir nada de Harry, então por que ele lhe exigia se não dava algo em troca. Por um instante Pansy pensou em desfazer a promessa, mas logo admitiu a si mesma que depois de Harry, nenhum outro homem seria assim importante para ela, nenhum fora, nenhum seria. Ela amava Harry, por mais estranho que fosse, ela o amava.

Enquanto a conduzia pela escadaria de mármore, o marquês lhe mostrava os retratos de seus ancestrais num tom de guia turístico. Pansy, por sua vez, levando em consideração a presença dos servos, mostrava admiração pelo talento dos artistas e comentava sobre o luxo da decoração, agindo como uma convidada polida.

— Com os diabos tudo isso, preciso de você!

Segurando-a no colo, Harry a carregou até seu quarto, indiferente aos olhares dos empregados. O modo ardente como se amaram naquela primeira tarde em Hogsmead Hill marcou o início de duas semanas de felicidade sem precedentes para ambos.

Alguns dias passaram na cama, outros caminhando ou cavalgando pela propriedade por horas a fio, outros fazendo planos de viagens para lugares que eles ouviram falar serem romanticos.

Viveram como namorados, como amantes contentes com a companhia mútua. Certa noite até vestiram-se a rigor para o jantar e fingiram ser marido e mulher. Conversaram sobre crianças e sobre como algum dia teriam um casal de filhos, que nomes eles escolheriam e em que escolas os iriam matricular. Outro dia, enquanto passeavam pela casa, Harry mostrou-lhe seu quarto de infância e disse que teria de ser reformado e preparado para receber Henry, o filho que eles teriam. Também mostrou-lhe dois quartos no mesmo corredor, onde seriam os quartos de Rosalie, filha de Pansy, e Elizabeth, a filha que eles teriam. Pansy sorria imaginando tudo aquilo realidade, Harry permitiu-se fazer o mesmo.

No entanto, o último dia chegou, encerrando o precioso momento deles juntos. Quando Pansy acordou nos braços de Harry, na manhã em que partiria, foi imediatamente assaltada pela melancolia, embora soubesse ser esse o destino dos que se envolvem em amores proibidos. Contudo, para sempre guardaria a lembrança da imensa felicidade que haviam partilhado juntos.

— Ordenei um dia ensolarado para você — o marquês sussurrou.

Mergulhando nos olhos verdes, ela se perguntou como conseguiria continuar vivendo sem tê-lo ao seu lado. Rogava a Deus que estivesse grávida de Harry.

— Não vou chorar — Pansy falou, as lágrimas começando a banhar seu rosto angustiado.

— Prometo não chorar também. — Ele comentou em tom brincalhão.

— Você vai me escrever? — Ela perguntou esperançosa.

— Tão frequentemente quanto você quiser.

Porém Harry ainda não sabia se seria capaz de manter correspondência com Pansy. Ela estaria vivendo com outro homem, poderia ser arriscado, mesmo que ele não se identificasse.

— Escreva-me a cada minuto. — Ela pediu-lhe em súplica.

— É isto o que amo em você. Você não é nem um pouco exigente.

Pansy enrigeceu. Harry falara sério quando empregara a palavra "amo"?
O marquês perguntava-se a mesma coisa. Entretanto, em vez de se pensar sobre a resposta, Harry preferiu cobrí-la de beijos tão doces que Pansy se comoveu.

— Quisera tê-lo conhecido antes — ela murmurou vários minutos depois, lânguida.

— Sou melhor agora.

— Mas não tão doce, creio eu.

— Eu não sabia que você estava à procura da doçura — Harry brincou, sabendo muito bem ao que Pansy se referira.

Os olhos dela tornaram a se encher de lágrimas.

— Não chore, querida. Escreverei para você e você escreverá para mim. Creio que mandarei instalar um posto de telégrafo em minha casa, e quando tudo isso não bastar, faremos planos para nos encontrar em algum lugar.

Pansy assentiu, o pranto sufocando-a. Era hora de dizer adeus.