Após o jantar, John pediu que Elisabeth ficasse um pouco na sala para uma conversa.

"Lizzie, nenhum de nós perguntou até agora o que aconteceu naquela noite. E nenhum de nós irá te forçar a nada. Mas eu preciso te informar dos riscos que você corre, maninha. Assassinato é passível de forca."

Elisabeth fechou os olhos. Não sabia se tinha medo de morrer. Só não queria morrer deixando para trás uma vida tão vazia. Uma vida tão triste.

"Eu não queria matá-lo." Essa frase desfez um nó muito apertado que selava sua garganta desde então e começou a chorar. Não tinha medo, em si, de morrer. Tinha medo de não poder ficar perto daqueles que amava de novo. Logo agora que tinha John, Mary, Dolly, Pearl... Sherlock...

Mary também começou a chorar e se ajoelhou em frente a ela. Abraçando sua cintura.

"Eu pedi para ele parar. Pedi muito." Não falava apenas da última noite. Falava de todas as noites em que ele visitava-a em seu quarto. Yan...Jaroslav nunca tocara nela, sexualmente falando, mas ele sentia um prazer doentio em espancá-la, em ver o roxo suceder o vermelho. "Eu pedi ajuda, mas ninguém veio. Por que você não veio me salvar, John?" Watson não esperava por essa.

"Sinto muito, Lizzie. Sinto muito por nunca ter podido fazer nada por você..." Tentou tocá-la, mas Elisabeth se encolheu.

Ela levantou-se, deixando Mary atordoada, e esmurrou uma parede, até deixar-se cair no chão. Não queria que as lembranças voltassem. Levantou, tinha que ser adulta.

"Ele... ele ia me matar, entendem?" Arfou. "Eu não podia, não podia morrer. Eu não posso morrer..." Puxou os cabelos para trás. "John, o que eu faço?"

Ele a olhava, incrédulo. Sherlock e Mary tinham razão, Elisabeth lutava muito para estar sã. Lutava o tempo inteiro. Não sabia apenas se admirava ou temia a irmã por isso.

"Elisabeth, você precisa, primeiramente de um advogado. E de uma história consistente. Uma verdade consistente, entende o que quero dizer? Isso que você me contou é real e válido, mas um júri aceitará como uma confissão de insanidade, não de inocência. O que precisamos fazer agora, o que você precisa fazer agora, é organizar os fatos que aconteceram naquela noite, arrumar testemunhas e provar que você não iniciou o incêndio com dolo e sim em legítima defesa." Agora era o lado prático adquirido pelos anos de convívio com Holmes que falava mais alto. O lado de Watson que fizera Mary se apaixonar por ele. Além dos olhos azuis.

Ela concordou com a cabeça e os três concordaram que era a hora de irem dormir.

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Porém ela não dormiu a noite inteira. Sentada à sua escrivaninha, tentava obedecer ao que John lhe dissera. "Uma verdade consistente". Como se fosse simples.

Nesta noite, tocou pela primeira vez no caderno cor de creme de baunilha que o irmão lhe dera como presente de boas-vindas. Não escrevia bem e de forma concisa como o outro Watson, então, seu relato acabou virando uma sequência de palavras esparsas, borrões e tentativas de desenhos.

Definitivamente, Elisabeth e a caneta não eram almas gêmeas.

Aproximadamente às cinco horas da manhã e dez folhas do caderno (sete tornadas em bolas e dispostas com agonia pelo chão), no momento em que o céu fica mais escuro para, só então, começar a amanhecer, a jovem desistiu e levantou-se.

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Enrolada em seu roupão, Elisabeth caminhou descalça pelo diminuto quintal da casa dos Watson até que o hálito morno de julho permitiu que ela o abandonasse.

Não sabia, mas Sherlock também apreciava o exato momento que vivia, apreciando o calor agradável dos amanheceres na Normandia naquela época do ano e o fim da caçada a Marie-Louise. Ele abandonava a delegacia francesa onde a viúva estava então encarcerada para pegar o trem que o levaria ao Canal da Mancha e à sua amada e úmida Inglaterra.

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Úmidos estavam os pés dela, maculados com o orvalho que já cobria tudo. Sentou-se debaixo da pequena macieira e ao lado do balanço delicado. Fechou os lhos e, sem dormir, pôs-se a escutar os ruídos sutis da cidade que despertava.

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Sentiu fortes náuseas naquele dia, simultâneas a terríveis dores de cabeça e sucedidas por tremores. Contudo, todos estavam atribulados demais para notá-lo. Uma amiga de Mary ficara doente e ela teve de ir visitá-la. Dolly estava ocupada fazendo compotas e John, cheio de pacientes.

Apenas Pearl a acompanhava, apreensiva. Ignorando seus sintomas, Elisabeth decidiu que era o dia certo para escaparem até Paddington e a dócil criada podia somente concordar.

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No coche as tonturas vieram, intensificando a sensação de ânsia de vômito, concretizada após saltarem do carro e a moça avistar o umbral do número 221 da Baker Street.

A casa estava vazia, não havendo ninguém para socorrê-las. Por sorte, Olivia Hermann, a dona da alfaiataria da esquina, passava pelo local vinda de seu passeio habitual pelo parque e se solidarizou das duas.

"Desculpe-me, mas creio que talvez as duas possam querer ajuda." Pearl a olhou com imensa gratidão, em seus dez anos de vida ninguém mencionara nada sobre cuidar das crises de abstinência da patroinha viciada.

"Sim, ma'm, por favor." Suplicou a negrinha. Elisabeth, que apoiava-se na parede do edifício para conseguir sustentar-se minimamente, ainda tentou replicar do alto de sua autossuficiência inglesa recém-adquirida que não era necessário, mas foi acometida por um violento acesso de tosse e uma breve golfada que por pouco não atingiu os sapatos de Olivia.

"Bem, minha menina," principiou, falando com Pearl "você terá de me ajudar a carregar sua amiga até a minha casa, que é a uns cento e vinte pés daqui." O sotaque dela era suave e agradável, combinava com sua voz tranquila.

Pearl apoiou Elisabeth de um lado e Olivia de outro. A caminhada pareceu a todas mais longa do que realmente foi. Para a moça de vinte e dois anos, o trajeto até o divã no apartamento de Olivia – que se localizava em cima da loja –, foi insuportável. Grosseiramente atirou-se ao móvel, enfiou um das almofadas da gentil desconhecida no rosto e quis não levantar nunca mais. Foi Pearl quem se lembrou das civilidades pelas duas.

"Eu sou Pearl Johnson, ela é Miss Elisabeth Lauren Watson e eu sou criada de sua família, ma'm." Apresentou-as e fez uma pequena mesura em seguida.

Olivia arregalou seus dois amendoados olhos castanhos e respondeu, polidamente em seguida:

"Sou Olivia Judith Hermann, a dona da alfaiataria." Ela apenas acenou com a cabeça e retirou seu chapéu e as finas luvas de verão. "Fique à vontade, Pearl, assim como Miss Watson já fez."

"Oh, Mrs. Hermann..."

"Frau Hermann." Cortou Olivia, quase didaticamente.

"...Frau Hermann," corrigiu-se Pearl "muito obrigada por nos ajudar e perdoe Miss Watson, ela sofre de um mal incurável que suga todas as suas forças."

Olivia aquiesceu e, pela primeira vez desde que chegaram ao cômodo, aproximou-se de Elisabeth.

"Miss Watson." Chamou, parada ao lado da enferma. Elisabeth esticou seu indicador, demonstrando que ouvia. "Miss Watson, há algo mais que eu possa fazer por você?" A moça puxou-a para mais perto pela saia do vestido, de modo que a austríaca abaixou-se ao lado de sua boca descoberta para ouvi-la.

"Peça a Pearl..." parou um instante para umedecer os lábios ressequidos com a língua "para chamar Sherlock Holmes..."

"Mas, Miss, ele não está na Inglaterra..." Argumentou Olivia.

"Peça-a checar de novo em sua casa..." A dor de Elisabeth era tanta que nem mesmo conseguiu processar a informação e perguntar-se como Olivia sabia daquilo. "Se ele realmente... não estiver, Pearl deve ir para casa chamar John ou Mary." A menina não precisou que a dona da casa repetisse as instruções, pegou a bolsinha de dinheiro de Elisabeth e andou até a porta, aguardando Olivia, que a seguiu.

Após Pearl sair, Olivia voltou para junto de Elisabeth, que já havia retirado a almofada dos olhos apertados e fotossensíveis. A austríaca sentou-se em uma poltrona defronte de sua convidada e as duas passaram a se examinar mutuamente.

Elisabeth registrou mentalmente os cabelos muito loiros e crespos de sua anfitriã, que os usava, no momento, soltos. O rosto emoldurado pelos cachos não era excepcionalmente belo nem jovem – embora Frau Hermann não possuísse uma ruga sequer –, tipicamente judeu – fato confirmado pelo pingente de estrela-de-davi em seu pescoço –, com um nariz fino, comprido e ósseo, lábios igualmente estreitos e delicadamente pequenos. O que mais chamava atenção naquela mulher eram as formas largas e fartas, proporcionais e bem distribuídas. A pequena inglesa sentiu-se constrangida com seus seios diminutos e quadris estreitos ao olhar Olivia.

Permaneceram em silêncio até a chegada de Pearl, seu irmão e sua cunhada, transtornados com o ataque da jovem. De fato, ela já estava bem; não sabia por que, mas a simples presença da estrangeira acalmou-a e restituiu-lhe as forças.

"Desculpe-nos pelo inconveniente, Frau Hermann, e queremos que saiba que nossa família lhe será eternamente grata por cuidar da minha irmãzinha."

Mary não concordava tanto assim com o marido, afinal reparara no pingente da modista. Só queria ir embora daquele lar profano.

Elisabeth levantou-se com lentidão, zonza ainda, sem tirar os olhos da anfitriã. Desvencilhou-se da cunhada, que tentava colocar o chapéu em sua cabeça.

"Obrigada, Frau Hermann. Dia desses, vá a nossa casa tomar um chá. Que tal amanhã?" Olivia, Mary, John e Pearl surpreenderam-se com a reação de Elisabeth, só ela não compreendeu o porquê.

A austríaca deu um leve sorriso, segurando afetuosamente as mãos da jovem que acabara de ajudar.

"Amanhã não posso, minha cara, é o shabbath." O brilho dos olhos de Elisabeth ofuscou um pouco, mas ela manteve-se firme.

"Mas venha outro dia, então! Mande um recado, quero agradecer-lhe fazendo-a provar as compotas que Dolly faz. São maravilhosas, Frau!"

"Certo, assim não há como recusar o seu convite, Miss Watson."

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No coche, John tocou o joelho da irmã com afeto.

"Muito bom, Lizzie, muito polido da sua parte retribuir a gentileza de Frau Hermann desta forma. Fiquei orgulhoso de você, maninha." Elisabeth ruborizou-se com o elogio e arriscou um sorriso tímido.

"Eu não sei se concordo tanto com isso," resmungou Mary, crispando os lábios "não de todo. Seus modos foram louváveis, docinho, mas não com aquela mulher." E olhou para o marido como se buscasse apoio.

"discordo de você, Mary. Só porque ela é austríaca? Não tenho nada contra estrangeiros." A loira suspirou, franzindo o nariz.

"Se ao menos ela fosse apenas estrangeira, estava tudo bem. Ou quase. Mas... ela é judia, John!"

"...Mary!" Exclamou o médico, surpreso.

"Não, não me interrompa, marido. Ela é judia e uma depravada, se for verdade o que dizem por aí. Não quero alguém assim em nossa casa, John. Não. Isso eu não permito." E virou o rosto, dando por encerrada a discussão.

Elisabeth queria protestar, mas não tinha argumentos e não queria ofender a cunhada. Ensimesmou-se.

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Aspirou a fumaça de seu cachimbo com força, quase com egoísmo. Agora que Marie estava presa e a caçada acabara, evidenciava-se novamente a partida de Elisabeth para a casa de Watson.

Remexeu o fogo da lareira, nunca imaginara como ia sentir-se sozinho sem aqueles dois. Na verdade, o apartamento parecia um mausoléu sem os dois pares de olhos azuis que o perseguiam com admiração.

Evocou fantasmas de eras diferentes como um anestésico para a solidão e o cansaço atuais. Visualizava John sentado em sua escrivaninha, escrevendo e Liz (agora dera para chamá-la assim quando se descuidava em seus pensamentos) aboletada na poltrona que pertencera em outros tempos ao irmão, os olhos fechados, o rosto sereno, pensando em sabe-se-lá-o-que.

Como ela mudara rápido! Em poucas semanas, deixara de ser a franzina caveira que perambulava pela casa para botar corpo e personalidade.

A despeito da imagem que seu pequeno corpo de formas pouco vultuosas passava, Elisabeth era voluntariosa e sempre conseguia o que queria. Ao menos com ele, constatava (não sem uma ponta de desgosto) o detetive.

E era nos olhos inconstantes e nos lábios expressivos que ele notava as tão cuidadosamente dissimuladas mudanças de humor.

Quando estava feliz, alegre ou satisfeita, trazia os olhos úmidos, bem abertos, e a boca relaxada em um quase-sorriso.

Nos dias de tristeza, contraía os olhos, mantinha a boca inexpressiva e os maxilares duros, contendo o choro que, por vezes, escapava em um ganido baixinho quando ela achava que ele não a ouvia em seu quarto.

Mas era em seu momentos de fúria e contrariedade que ele a temia. Quando ficava dias sem falar com ela (por ser tão antissocial e relapso em suas relações ou por causa da cocaína), quando não tocava apenas peças que a desagradavam ao violino ou qualquer outra coisa que a magoasse, evitava-a, pois os olhos doíam nele e temia seu rancor manifestado em palavras duras a respeito de seu caráter, normalmente, observações inteligentes e incontestáveis.

E sabia que estava encrencado quando ela trazia os olhos caídos e arrogantes e a boca crispada para impedir-se de gritar com ele. Quando se demorava demais nos passeios sozinha pelo parque e quando passava dois, três dias sem sequer cumprimentá-lo até que ele se redimisse de seu pecado. Seja dando-lhe um presente como um livro, um vestido ou um perfume, seja executando sua peça favorita ao violino.

Até disso sentia falta.