Tornou-se habitual para a Aria acordar a meio da noite, tornou-se ainda mais assíduo pelas dores e pelos remédios. Mas esta noite ela acorda para contar as horas que ainda tem até ao amanhecer… as horas que ainda tinha. Ela não queria que a manhã chegasse, pois não queria se separar do Ezra. Ela queria sentir o calor da sua respiração no seu pescoço e o calor da sua mão sobre a dela. Ela nunca sentiu esse tipo de amor verdadeiro entre irmãos… era novo e estranho, mas ela gostava disso.

Ele já não era um estranho para ela. Estas noites não foram nem perto idênticas à primeira noite na Califórnia. Eles tinham se deitado como dois estranhos, mas irmãos, com um sentimento estranho entre eles. Eles tinham perguntas, queriam respostas e ela sentia-se jovem e enganada. Se a relação entre eles cresceu foi porque os dois fizeram isso acontecer nos últimos anos e se estavam assim agora é porque o Ezra fez isso por eles. Ela adora-o.

A bexiga dela começou a apertar um pouco. Tinha de ir à casa de banho, mas não queria deixar o calor do abraço do Ezra… maldita água.

Ela tentou remover a mão dele com cuidado, mas ele moveu-se e acordou. "Aria?" Ele sussurrou.

"Tenho de me levantar." Ela sussurrou. "Volta a dormir."

"Precisas de água?" Ele pergunta ainda sonolento.

"Não… preciso de ir à casa de banho."

Ela sentiu-o virar-se na cama atrás dela e a ligar a luz suave. "Vai à minha."

Ela levantou-se e andou com as muletas até à casa de banho da suite. Fechou a porta depois disso, aliviou-se e reparou na quantidade de coisas da Jackie espalhadas no lugar. A Jackie não tinha voltado para levar as coisas dela, provavelmente vai esperar a poeira assentar ou talvez esperar algum dia da semana que o Ezra trabalhe para nem o ver. Deu descarga na água, lavou as mãos e saiu. O Ezra estava deitado de olhos fechados e parecia estar a dormir novamente. Ele parecia tão fofo… a cabeça dele pendia um pouco para o lado a boca estava ligeiramente aberta, mas fazia um pouco de beicinho. Ela sorriu, podia observá-lo a noite toda.

"Aria?" Ele chamou ainda de olhos fechados. "Estás a demorar tanto." Ele diz num sussurro e bate na cama no lugar onde eu estava.

"Estou a ir." Ela diz voltando para ele e esquecendo a ideia de trocar o calor dele pela sua cama fria.

Os olhos dele abriram um pouco para ver, mas a luz parecia ser nociva para ele.

Ela voltou a deitar-se. "Podes desligar a luz."

Ele fez isso e voltou depois à sua posição original "ronronando" com prazer a sua presença ao lado dele. Este pequeno momento não é o dia mais feliz da sua vida, mas provavelmente pode estar no top 10. Ela estava segura, tinha o irmão do meu lado para cuidar dela.


Sobressaltado tomou consciência que a Aria ainda estava ao seu lado, ela também olhou assustada para o outro lado do quarto.

Ele olhou também para ver a Jackie a retirar roupa do armário para sacos e uma mala de viagem. Ela bateu as portas do armário e percorreu o quarto sem dizer nada. Entrou também na casa de banho e com vários abrires e fechares de gavetas saiu também com mais um saco de coisas dela. Ela foi depois para o lado da cama recolhendo mais coisas da mesa de cabeceira.

A Aria encolheu-se com a proximidade dela. Ele deu-lhe um pequeno aperto para assegurar que ela estava bem. Este era o furacão Jackie, melhor nem dizer nada… ela já estava irritada por ver a Aria no lugar que foi dela. Ela saiu carregando dois sacos e deixando outros. Ouviu depois a porta da frente bater. "Melhor ir para o meu quarto." A Aria diz.

"Eu vou fazer o pequeno-almoço."

O furacão Jackie entrou quando já estava na cozinha a aquecer o leite para misturar com cereais. "Agora dormem juntos?" A Jackie pergunta directamente.

Ele olha para ela. "Já não tens nada a ver com isso."

Ela deu-lhe um sorriso amargo. "São farinha do mesmo saco vocês. Merecem-se."

"Não coloques a Aria no meio dos nossos problemas. Ela não tem culpa das tuas atitudes, ela sempre teve boas intenções contigo e ajudou-me em várias ocasiões."

"Claro… que irmã tão dedicada."

Ele fechou os olhos derrotado… ela não queria ver a razão e uma dor de cabeça estava a instalar-se.

"Ela não quer ser apenas tua irmã."

Ele abriu os olhos e aproximou-me dela. Falou baixo, mas foi claro. "Leva o resto das tuas porcarias e sai desta casa. Não és bem-vinda aqui e espero não te voltar a ver."

"Como queiras." Ela percorreu o caminho para o quarto.

Ela saiu depois com mais alguns sacos e deixou a chave em cima da mesa. "Adeus Ezra."

"Adeus."

A porta bateu novamente. "Ela já foi?" Ele ouviu a Aria perguntar no corredor.

"Sim, podes vir."

"Ezra…" Ela olhou para ele preocupada.

Ele suspirou. Tudo estava de pernas para o ar, mas ele tinha de aguentar o barco. "Eu estou bem."

"Não… tu não estás e não existe nada errado em admitir isso." Ela diz aproximando-se. "Ela era importante para ti, não tens de agir como se não te importasses." Ela ofereceu-lhe um abraço que ele aceitou.

Ele chorou no ombro dela. "Eu amava-a… porque ela foi tão estúpida?"

"As vezes não pensamos bem e fazemos muitas coisas que nos magoam." Ela diz. "Tu vais ser feliz Ezra, eu sei disso." Ela sorri-lhe.

"Talvez outro dia."


O dia a dia foi uma rotina. A Aria voltou às aulas carregando as suas muletas e o Ezra acompanhou-a, antes de ir para o trabalho dele. Foi confortável, eles estavam bem. A casa parecia limpa, os vestígios da Jackie desapareceram das suas vidas e tudo pareceu voltar ao normal.

Ela estava a fazer um exercício de escrita quando ouviu passos no corredor. O Ezra passou sem olhar para o quarto ou lhe dizer um simples olá. Ela estranhou essa atitude nele. Ele parecia mais animado do que devia ser após perder um relacionamento, especialmente um noivado. Ele mostrava o lado forte, mas por vezes podia ver alguma dor.

Levantou-se da cadeira e foi até ao quarto dele. A porta estava encostada e ela espreitou. Ele estava sentado, tinha a caixa com o anel de noivado numa mão e um copo de whisky na outra.

"Ezra?" Ela perguntou suavemente para não o assustar. Ele olhou para cima antes de guardar o anel na gaveta como se para esconder. "Eu pensei que o tinhas vendido." Ela referiu-se ao anel.

"Não sabia que já cá estavas." Ele bebeu o gole do conteúdo do copo. Ele parecia desleixado e cansado. "Eu não tive tempo de o vender."

Aquilo parecia uma desculpa. "Eu não te estou a tentar acusar por não o teres feito. Para dizer a verdade eu estava preocupada por estares a levar uma separação tão bem assim."

"Eu não te quero preocupar."

"Eu sei, mas tu és meu irmão então é impossível."

Um sorriso gentil apareceu na sua face. "Eu preciso de ti esta noite."

Ela concordou. "A qualquer altura."


Muito obrigada pela leitura! Espero que estejam a gostar.

Beijos e até ao próximo capítulo!