Capitulo XII

Shaka andava apressadamente atrás do vulto de longos cabelos lavanda. Não entendia mais nada da situação… primeiro, nos últimos tempos reparara que o mordomo andava meio distante… a ver, triste. Depois, parecia conhecer Lord Shion, e sobretudo, parecia ter algumas desventuras com o mesmo.

Os passos apressados ecoavam pelos corredores agora vazios da Opera.

- Mu! – chamou alto o suficiente para que o mordomo conseguisse ouvir. Mu não parou, nem ao menos deu sinal de abrandar. Continuava com o andar apressado, apesar do esforço, algumas lágrimas teimavam em cair pelas faces mais claras que nunca.

- Mu! – voltou a chamar, antes de começar a correr.

Ao chegar perto do mordomo, Shaka agarrou-o pelo braço. Mu mantinha a cabeça cabisbaixa, esperando pelas perguntas que viriam. A sua cabeça trabalhava a mil enquanto a sua mente era bombardeada por imagens do passado. Sangue… um tapete vermelho… um corpo… o seu próprio corpo começou a tremer.

- Recomponha-se! – ouviu a voz do loiro firme enquanto sentia leves carinhos no seu braço. Sabia que Shaka estava a tentar conter-se, apesar de não estar a passar por ali ninguém era um enorme risco qualquer demonstração mais explicita de carinho. Mu aceitou o único gesto que lhe foi oferecido, respirando fundo, pesadamente.

- Venha. – pediu Shaka depois de um tempo na mesma posição. – Siga-me.

- E lord Kamus? – perguntou ainda inseguro.

- Não se preocupe. Ele regressará mais tarde.

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- Shion! Shion diga-me o que se passa!

Shion continuava a avançar pelos longos corredores apressadamente com Dohko em seu alcance. Era Mu quem tinha visto! Finalmente voltava a encontrá-lo, não o podia deixar escapar de novo! Olhava para todos os lados buscando por uma longa cabeleira lavanda. Sim, ela era longa… Mu deixara crescer o cabelo pelo que pode ver.

- Mu! Era Mu! – o olhar desnorteado era pousado em todos os recantos numa busca desesperada.

- Mas quem é Mu, Shion! – a voz do médico soou preocupada.

- Tenho de o encontrar!

- Shion! – num gesto brusco, Dohko pegou em ambos os braços do amante e obrigou-o a encará-lo. – Responda à minha pergunta. Quem é Mu, e porque ele o mete nesse estado?

Shion encarou o olhar um tanto quanto severo do amante sobre si. Nunca lhe desvendara os verdadeiros motivos que o levaram a enclausurar-se em casa. Nunca lhe falara de Mu. Talvez porque via no amante uma fuga ao mal que o roía por dentro. Estava na altura de desvendar tudo. Era o momento das confidencias… não podia mais esconder o seu passado de Dohko. Sabia que ele era ponderado… não o iria julgar.

- Dohko… temos de falar… - disse com o olhar carregado de mágoa.

O médico suspirou longamente, largando o amante.

- Vou avisar o Afrodite que vamos para casa. Espere aqui por mim.

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Afrodite assistia ao desenrolar da peça admirado com as vozes melodiosas dos cantores. No palco, a mistura de cores entre os cenários e as vestimentas dos protagonistas era vertiginosa. Apesar da repentina saída do médico e do amante, ele permanecera no camarote. Provavelmente necessitariam de privacidade. O caso parecia complicado.

Surpreendeu-se quando Dohko apareceu atrás dele, por entre as cortinas vermelhas.

- Dite, aconteceu algo que não estava nos meus planos. Vou voltar para casa com o Shion. Se quiser, pode ficar e aproveitar o espectáculo. Mandarei um coche para o levar a casa quando o espectáculo acabar.

Dohko parecia preocupado. Ia acompanhar o amante, mas estava preocupado em deixar o Barão sozinho. Receava que lhe desse um ataque e que não estaria ninguém competente para o acudir.

- Não se preocupe Dohko. Ficarei bem. Alexis ficará à minha espera em casa, e qualquer coisa errado ele avisa. – Afordite tentava acalmar os receios do médico falando calmamente.

Dohko assentiu pousando uma mão no ombro do doente, afastando-se logo em seguida.

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- Fale…

O fogo queimava na lareira, mantendo um ambiente agradável no local. Mu permanecia deitado no sofá. Tinha tirado o casaco momentos antes, arregaçando as mangas e abrindo os dois primeiros botões da camisa. Suspirou. A cabeça deitada sobre o colo de Shaka, a mão direita permanecendo sobre os olhos.

O loiro apoiava uma mão espalmada sobre o peito do mordomo, enquanto a outra estava ocupada em acariciar os longos cabelos lavanda. Os gestos eram feitos com extrema calma e doçura, tentando acalmar o coração abalado do amante. Mu parecia uma criança aterrorizada. Fazia de tudo para que o mordomo se sentisse suficientemente acarinhado para começar a desabafar.

- Fale… - disse suavemente, subindo as carícias até aos dois pontinhos na sua testa; sabendo ser aí um dos seus locais sensíveis.

Mu voltou a suspirar, agarrando a mão do loiro com força. A voz soou fraca e ligeiramente rouca.

- Shion é… meu irmão…

Shaka parou de repente os movimentos e olhou fixamente o subordinado. Irmão? Como assim irmão? Segundo o que sabia de Mu, ele não tinha mais família! Pelo menos, fora o que ele lhe dissera quando se apresentara. Mu Ashley não podia ter irmãos… ou podia?

- Ir…irmão? – balbuciou com dificuldade.

Mu permaneceu quieto, ainda com a mão sobre os olhos. Desse modo, evitava a encarar o loiro e conseguiria contar o que devia.

- Mu? – perguntou já mais firme.

Percebeu a mudança de tom de voz do amo. Seus lábios tremeram ligeiramente antes de responder.

- Sim… irmão… Shion Theodore Colin Lawrence é meu irmão mais velho… o meu verdadeiro nome não é Mu Ashley, mas sim Mu Raphael Colin Lawrence. Sou o filho mais novo da família Lawrence.

Apertou mais a mão de Shaka e cerrou os olhos com força como se as próprias palavras lhe causassem dor. TINHA de lhe contar tudo. Mas tinha medo… medo de que a única pessoa em quem voltara a ter confiança e em quem acreditava o deixasse…

Mas sentiu o polegar do loiro mover-me sobre a sua mão, as carícias nos cabelos recomeçando. Ainda pouco confiante, começou a abrir os olhos lentamente. O sorriso doce nos lábios do loiro surpreendeu-o.

Virou o corpo em direcção a Shaka, passando cada um dos braços pela sua cintura, aninhando a cara em seu colo. Deixou escapar algumas poucas lágrimas antes de recomeçar a falar. Shaka tinha voltado a concentrar-se na tarefa de acalmar o amante.

Via o quanto era complicado para Mu estar a contar aquilo… ele era a primeira pessoa com quem o mordomo estava a desabafar… e isso demonstrava a confiança que o subordinado ganhara em si. Certamente havia uma razão muito forte para que um membro da família Lawrence, extremamente conceituada na aristocracia inglesa, estivesse a trabalhar como servo. Apesar da mentira, Shaka sentia-se feliz por ser alvo de tamanha confiança de Mu.

- Mu… - falou docemente - tudo o que me possa contar, não vai alterar em nada o que sinto por você… saiba que estarei do seu lado, diga o que disser.

Mu pareceu acalmar. As palavras de Shaka eram justamente aquelas que ele precisava ouvir. As palavras certas, no momento oportuno.

A sua voz saiu ligeiramente rouca devido ao choro de momentos antes.

- Certamente ouviu falar da desgraça que afectou a família Lawrence à sete anos atrás… - fez uma pausa esperando a reacção do loiro.

Shaka pareceu pensar durante uns minutos antes de falar calmamente.

- Lembro-me do caso de um assassinato… fez escândalo na imprensa e foi alvo de diversos rumores na alta burguesia… - certamente era daquele acontecimento que Mu estava a falar.

- Sim… exactamente isso… - suspirou – os verdadeiros acontecimentos acabaram por ser desvendados algum tempo depois… demasiado tarde… - disse as ultimas palavras com enorme pesar.

Shaka percebia agora o quanto era difícil desenterrar memorias passadas… e começava a entender o porquê dessa dificuldade. As peças do puzzle começavam a juntar-se. Decidiu ajudar na confissão.

- Segundo a historia que chegou a mim, o assassinato do Duque Lawrence foi alvo de muitos rumores. Ao que contaram, foi encontrado o mais novo dos Lawrence perto do corpo do pai. Foi o primeiro suspeito do crime.

Mu esperou alguns segundos antes de falar.

- Era uma criança boba. Acreditava na boa vontade e na sinceridade de todos. Naquele dia, saí para cavalgar. O dia estava lindo, e como são raros os dias de sol nestas terras, era de aproveitar. Shion, como herdeiro da fortuna dos Lawrence, passava muito tempo de um lado para o outro tomando consciência das suas futuras responsabilidades. Nesse dia, ele estava fora. Voltei para casa depois de duas horas a aproveitar o ar fresco. Entrei na mansão e como sempre corri para ver o meu pai… mas quando entrei no escritório, o que vi foi apenas sangue… muito sangue…

Shaka sentiu o subordinado estremecer. Esperou pacientemente até que Mu decidisse continuar.

- O corpo do meu pai jazia no chão, ensanguentado, lívido… recusava-me a assimilar o que os meus olhos viam… aproximei-me lentamente, pensando que a qualquer momento iria acordar daquele pesadelo. A arma que servira para o balear estava largado do seu lado… Na minha inocência, ajoelhei-me a seu lado abanando-o tentando reanimá-lo. Mas o meu maior erro, foi ter pego na arma que estava no chão…

- Você pegou na arma…- repetiu o loiro calmamente.

Mu assentiu dolorosamente.

-Peguei… e nessa altura, a minha madrasta apareceu na soleira da porta com duas servas…

Shaka suspendeu a respiração. Imaginava o amante sozinho, diante do cadáver do pai, a arma na mão, a chegada da madrasta…

- Fui acusado de homicídio… o meu próprio pai… - agarrou-se mais à cintura do loiro, que continuava com as carícias nos longos cabelos lavanda.

- Calma… esta tudo bem… - baixou-se beijando a cabeça de Mu.

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- Shion, acalme-se…

Apesar da calma aparente, Dohko estava extremamente preocupado com o amante. O relato da história estava pela metade… mas a angustia era visível nas feições do amante.

Shion sentado numa poltrona, tinha a cabeça baixa tapada pelas mãos.

- Eu não queria acreditar quando me disseram que Mu tinha sido encontrado daquela forma… corri para casa mal soube da tragédia…

Um longo suspiro pesou no local. O ambiente tenso era de cortar à faca.

- Quando cheguei, a policia já estava presente. Estavam a fazer os depoimentos. A minha madrasta simulava um ataque de choro compulsivo, amparada pelo homem com quem traía o meu pai. Servas corriam de um lado para o outro. Pedi para ver o meu irmão… foi quando me levaram à biblioteca onde o mantinham enclausurado… Vi Mu encolhido a um canto, a cabeça aninhada sobre as pernas… tremia incontroladamente.

O silencio reinou antes que o relato continuasse.

- Uma criança assustada… estava diante do meu próprio irmão, a criatura mais doce e inocente que alguma vez conheci, num estado de desespero terrível… as vestes, as mãos, e ate mesmo os cabelos manchados de sangue… havia de ter visto Dohko… quando me viu, levantou-se de repente e correu na minha direcção. Senti-me ser abraçado com força… ainda hoje consigo ouvir o seu choro compulsivo… as tentativas de explicar o que aconteceu… até mesmo pedidos de desculpa… - Shion levantou-se do assento, as lágrimas nos olhos – e você sabe o que eu fiz Dohko? Sabe? – quase gritou as ultimas frases.

Dohko levantou-se, dirigindo-se até ao amante. Abraçou-o tentando acalmá-lo.

- Nada… - ouviu o amante balbuciar – eu simplesmente não fiz nada… não sabia o que fazer… não o abracei de volta… não o reconfortei… não lhe dirigi uma palavra de conforto… eu simplesmente fiquei parado, olhando um ponto fixo na parede… eu falhei onde não devia ter falhado… eu deixei o meu próprio irmão ser sujeito a uma tremenda injustiça…

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- Shion não fez nada… ele ficou parado… a única pessoa que eu tinha certeza que acreditaria em mim tinha acabado de me abandonar quando eu mais precisava. O meu mundo acabava de ruir…

- Segundo o que me lembro do caso, o verdadeiro culpado foi descoberto… Diane Lawrence, a segunda mulher do seu pai armou a cilada para se apoderar da herança.

Mu assentiu. Sim… tinha sido exactamente isso que acontecera…

- A minha madrasta tinha um amante. Juntos, criaram esta armação toda para tomar posse da fortuna do meu pai… o único problema eram os herdeiros legítimos… ou seja, eu e o meu irmão. Mas essa verdade, eu só vim a descobri alguns anos depois…

Duas batidas na porta cortaram a conversa.

- Entre!

A serva obedeceu, entrando com uma bandeja na mão. Chá. Pousou-a sobre uma mesa diante dos dois. Intuitivamente, Mu levantara-se para servir, mas Shaka parou-o. Fez um sinal com a mão, ordenando à serva que se retirasse.

Mu observou o loiro levantar-se e servir-lhe a beveragem.

- Camomila… - disse esticando uma chávena para o amante. – óptimo para acalmar os nervos.

Mu pegou nela suspirando. Shaka pedira o chá sem ele saber.

- Obrigada…

O loiro sorriu docemente antes de falar.

- Mu… se estiver disposto a isso, gostava de lhe fazer umas perguntas.

O servo cerrou os olhos deixando escapar o ar dos pulmões. Acenou fracamente antes de soprar sobre a chávena fumegante.

Shaka voltou a sentar-se ao seu lado.

- Disse que tinha sido acusado de homicídio. Mas que só soube do verdadeiro culpado alguns anos depois. Sabendo que trabalha para mim à um ano sensivelmente, o que aconteceu desde a sua acusação até ao momento em que chegou aqui?

Mu demorou um pouco antes de responder à pergunta.

- Fui acusado, levado pela policia. Estava assustado, derrotado; não posso dizer que me lembro bem do que aconteceu durante o interrogatório. Estava em estado de choque. O meu próprio irmão tinha acabado de me trair. Lembro-me de me terem deixado sozinho numa sala. Era um rés-do-chão. Abri a janela, saltei. Corri… corri até as minhas pernas não aguentarem mais. Fugi de tudo.

Levou a chávena aos lábios mais uma vez, soprando antes de beber.

- Para onde fugiu? – perguntou mais uma vez Shaka, levado pela curiosidade.

- Escondi-me num beco perto de Westminster. Não tinha para onde ir, com medo que me denunciassem. Durante dois dias fiquei encolhido no mesmo lugar… talvez no fundo ainda tivesse a esperança que tudo não passasse de um sonho e que Shion ia aparecer para me recuperar. Ao fim de dois dias, alguém veio buscar-me. Aparentemente os passantes aperceberam-se da minha permanência ali e avisaram o orfanato da minha existência. Fui levado para a instituição onde trabalhei como ajudante em troca dos gastos que tinham comigo. Aprendi às minhas custas que a vida não era um mar de rosas, a jaula dourada na qual tinha sido criado era só fachada.

Suspirou. Apesar de estar a reviver aqueles momentos, sentia-se mais leve por se estar a confessar… sobretudo a Shaka. Olhou de relance para o loiro. A sua expressão era serena, calma. Sentiu a chávena ser retirada das suas mãos, e estas serem tomadas pelas do loiro. Os lábios de Shaka roçaram nos seus pulsos.

- Foi quando saiu do orfanato que veio trabalhar para mim… - acrescentou docemente.

Mu assentiu.

- Quando atingi a maioridade, era-me impossível permanecer mais tempo no orfanato. Procurei emprego em diversos lugares. Soube que procurava uma pessoa de confiança para mordomo. Arrisquei a minha presença aqui. Acho que sem me aperceber, queria continuar ligado à alta sociedade.

Shaka sorriu.

- Foi quando o escolhi… a sua aparência não era das melhores, mas algo em você me chamou a atenção. No meio de tantos candidatos, soube que era você que eu tinha de escolher.

Mu deu um sorriso fraco. Era a única coisa que conseguia naquele momento.

- Sim… foi quando comecei a trabalhar aqui que soube da verdadeira historia em volta da morte do meu pai. Foi quando soube que tinha sido declarado inocente. Mas era tarde de mais para voltar… até porque… aconteceu algo que eu não tinha planeado…

Corou ligeiramente ao dizer a ultima frase. Era claro que estava a falar do facto de se ter apaixonado por Shaka. Seus lábios foram tomados para um beijo terno.

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- Um descuido da minha madrasta levou a que a verdade fosse descoberta. O assassinato do meu pai levaria a que ela herdasse da totalidade da fortuna familiar, e juntamente com o amante, usufruiriam de uma vida de luxo. Foi então que Mu foi ilibado de qualquer culpa… mas era demasiado tarde.

Dohko permanecia do lado do amante, ouvindo tudo atentamente.

- Ele tinha desaparecido, tinha fugido. Foi então que me enclausurei em casa, roído pela culpa de não ter acreditado na única pessoa inocente nesta historia toda. De não ter ajudado a única pessoa importante para mim. Ainda tentei encontrá-lo, mas todas as tentativas demonstraram-se frustradas. Não sabia se estava vivo ou morto, sobretudo, não sabia se algum dia viria a perdoar-me.

- Voltou a encontrá-lo esta noite…

Shion assentiu. Quando menos esperava. O destino era cruel por vezes. Dohko suspirou, abraçando o amante.

Era uma historia complicada…

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Sentia-se cansado. A noite tinha sido atribulada. Perguntava-se o que teria acontecido com Shion.

Bom, o que interessava era que se tinha divertido com a peça. Os cantores eram uma delícia de se ouvir. No final da peça, ainda encontrara Kamus, o qual tivera a delicadeza de permanecer consigo, à espera que o coche o viesse buscar. A conversa estava animada, discutiam sobre a peça, quando o avisaram que a viatura o esperava no exterior.

Ia agora de regresso a casa. Deliciava-se com a ideia da sua cama macia e de uma boa noite de sono. Certamente Alexis já tinha preparado tudo. Estava extremamente frio.

Olhava para o exterior do coche distraído.

Subitamente, o veículo parou. Sentiu-se cair para a frente com a travagem brusca. Ouviu os cavalos a guincharem e alguns barulhos estranhos.

Gritos.

Levantou-se, abrindo a porta do coche, preparado para gritar com o condutor.

- TUDO O QUE TEM! – ouviu gritarem, uma arma apontada para si.

Estagnou. Não se apercebia o que estava a acontecer. A respiração acelerou rapidamente. Olhou para os assaltantes. Eram quatro. Ao desviar o olhar para o lado, viu o corpo do cocheiro estatelado sobre a neve, inconsciente.

- DÊ-NOS TUDO O QUE TEM! AGORA! – gritaram de novo, obrigando-o a sair do coche.

- M…mas… o que…

Sentiu uma dor aguda na cabeça. Tudo virou escuro. Apagou.

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- Que friooo… - a rapariga dizia enquanto avançava pela rua. Um manto de neve cobria cada canto, cada casa, cada pedra da calçada.

Sentiu-se abraçada por dois braços fortes. Sorriu.

- Sempre a refilar… quando está calor, é porque está calor; quando está frio, é porque está frio. Nunca está contente não é mesmo? – retrucou o jovem sorrindo.

- Não. Sei perfeitamente o que dizer, e em que momento dizer…

Aldebaran riu abertamente com a resposta da namorada. Essa era uma das qualidades que ele mais apreciava nela: tinha sempre resposta para tudo.

- Não vale a pena argumentar contra uma mulher… nunca vai ganhar! – Lina zoava com o namorado. As pegadas de ambos ficavam marcadas na neve.

Aldebaran abriu um enorme sorriso: - claro que nunca ganho… a grande desvantagem dos homens nesse domínio, é que os nossos argumentos têm que fazer sentido… - mais uma gargalhada ecoou na noite fria.

Lina fechou a cara, avançando mais depressa e afastando-se de Aldebaran. Após alguns minutos no caminho, o jovem tentando desculpar-se pela "frase infeliz mas verdadeira", a atenção de ambos foi desviada para algo no chão mais à frente.

Ao se aproximarem, surpreenderam-se quando o "algo" tomou a forma de um corpo.

- AFASTE-SE! – gritou o moreno à namorada, obrigando-a a afastar-se.

Lina obedeceu, afastando-se lentamente, murmurando para que o namorado tivesse cuidado.

Ao se aproximar mais, Aldebaran distinguiu uma longa cabeleira azul clara, completamente coberta de neve. Ajoelhou-se ao lado do vulto desacordado. Podia estar morto… se esse fosse o caso, era melhor não lhe tocar e sim avisar a polícia. Aproximou os dedos do nariz da vítima, mesmo que fraca, sentiu o ar quente da respiração. Estava vivo.

Passou a mão pela face desacordada. Estava vivo, mas mais gelado que um cadáver se isso fosse possível! Uma pequena poça de sangue vermelho vivo manchava a neve junto à sua cabeça. Despiu o longo sobretudo que o abrigava do frio, pegando no rapaz desacordado em seus braços.

- ESTA VIVO! – gritou a Lina – DEPRESSA! TEMOS DE O AQUECER!

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Noëlla tinha adormecido mais uma vez, a cabeça pousada nas pernas de Shura. A espera pela irmã, quando era demasiado grande, acabava sempre no sono profundo da criança. Apesar do corpo do espanhol estar frio pela recente chegada da rua, Noëlla não parecia se incomodar. Carlo do seu lado, estava deitado em outro sofá, lendo pela milésima vez a própria reportagem.

Ouviram movimentos estranhos atrás da porta de casa. Assustaram-se com as batidas na porta com demasiada força.

Shura levantou-se, chingando algo em sua língua natal, indo abrir a porta. Aldebaran e Lina entraram apressados, com um vulto nos braços.

- Mas o que… - começou Shura antes de ser cortado.

- Encontramo-lo na rua. Aparentemente foi atacado! Está gelado!

Carlo levantou-se por sua vez devido à movimentação toda no local.

-Ma que cosa…- logo parou o que ia dizer, vislumbrando a pessoa inconsciente. O coração acelerado, aproximou-se de Aldebaran… reconheceu de imediato a bela do coche…mas… algo estava errado. A sua mente recusava-se a acreditar no que via. Era… um homem?

Continua…


Curiosidades:

o Mu e Shion apresentam:

o A leitura na Inglaterra vitoriana: sua função social e artística o

Shion sentado numa poltrona, esperando o pupilo chegar.

Mu (chegando afogueado) : Aqui tem mestre… - estendendo os óculos a Shion.

Shion: Obrigada Mu.

M: Podia perfeitamente te-los teleportado, evitando que eu me cansasse…

Sh: Regra numero um… nunca contradizer o seu mestre! XD

M: ¬¬'

Sh: Regra numero dois… o mestre faz sempre tudo pelo bem do pupilo!

M: Não comento… duvido que revirar a casa toda em busca disso seja para o meu bem… tirando o facto de eu já ser um cavaleiro formado e mestre…

Sh: Regra numero três: um mestre é sempre um mestre. E como seu mestre, ordeno-lhe que comece a falar do tema de hoje.

M: ¬¬

Sh: vamos lá!

M: (suspirando) As virtudes vitorianas referentes aos homens, eram especificamente vinculadas à postura moral, entendendo-se moral vitoriana como o conjunto de respostas, tanto emocionais como intelectuais, a um processo histórico permeado por crises, revoluções e avanços científicos. Eram consideradas virtudes, no século XIX inglês, a disciplina, a retidão (seriedade), a limpeza, o trabalho árduo, a autoconfiança, o patriotismo, entre outros.

Sh: As virtudes eram também entendidas em suas conotações sexuais de castidade e fidelidade conjugal, o que gerou a concepção popular do Vitorianismo como obsessivamente puritano em suas caracterizações. Os escritores eram tidos como profetas, guias de uma sociedade que se via diante do medo das novas tendências que surgiam nos diversos campos do viver. Tendências que se iam impondo, a despeito das resistências.

M: O estilo literário mais apreciado foi o romance – as novels – que era geralmente publicado em fascículos semanais. Tais textos serviam, em princípio, ao entretenimento das famílias que cultivavam o hábito dos serões de leitura; mas deveriam prestar-se à exaltação dos valores morais.

Sh: Os lares vitorianos (excetuando a realidade miserável do proletariado) realizaram seus serões de leitura e foram tecendo uma sociedade que, apesar de todos os conflitos internos viu na arte literária a função não só de inculcadora de hábitos aceitáveis, mas de atribuidora de significado, de sensibilizadora de um mundo que se viu invadido por uma aluvião de correntes de pensamento materialistas, de dúvidas religiosas e repressões do que há de verdadeiramente humano numa sociedade.

M: Para o contexto vitoriano, a arte tinha função educacional e civilizatória; assim, apesar das restrições moralistas ao teatro, a produção ficcional e a arte de interpretação oral (leituras) foram criações do maior significado que, aliás, prosseguem empolgando editores e cineastas através do tecnificado mundo contemporâneo.

Sh: Óptimo Mu…vejo que aprendeu bem a lição. Leio mal sem os óculos…

M (susurrando) : Está a ficar velho…

Sh: Disse alguma coisa?

M: Eu? Nada não! pensando: alem de cego, está a ficar surdo

Shi: regra numero quatro: nunca subestimar os poderes do mestre. São sempre dez vezes mais potentes que os nossos… gostei de ler a sua mente e de saber que pensa sobre mim… XD

M: ¬¬' ups


Cantinho ariano:

Finallllmenteeee… o capitulo da revelação do passado dos dois arianos… eu sei… devia ter saído mais cedo… mas saíram outras duas fics…e alem disso, alguns contratempos aconteciam sempre na altura de escrever…

Mu: desculpas… não esteve com paciência para escrever, isso sim…

…Áries: não sejas mal agradecido. Fiz uma fic só Mu/Shaka e postei-a entretanto!

Mu: Sem lemon…

…Áries: o lemon está por sair… quando tiver inspirada…

Mu: ¬¬'

…Áries: uma boa fonte de inspiração era um showzinho particular entre vocês… -ideia – obaaa, não quer me contar o que acontece nos momentos mais… hot entre ti e o Shaka?

Mu: ESTÁ MALUCA?

Mu saindo da sala resmungando. Áries feliz.

Shaka: Ele cai sempre nessa…

…Áries: nada melhor que a minha capacidade de dissuasão. -sorrindo-

Shaka (suspiro): bom… estou aqui para mandar um beijo especial às reviews do capitulo anterior: MargaridaThatideLeo, Musha, Shakinha e Kamui.

Beijo enorme para todos e até ao próximo capitulo… que vai demorar um pouco a ser actualizado XP