n/t: mais um! :D


Capitulo 13

Do lugar que ocupava no fundo do salão, no setor dedicado à cozinha, através das portas abertas Isabella podia ver as quatro carroças grandes que saíam do pátio. Duas das carroças levavam os prisioneiros, outra os guardas, e a última estava vazia. As quatro carroças trariam cargas de grandes pedras, extraídas das velhas ruínas próximas. Se o destino não tivesse levado o senhor saxão a crer que ela era a líder, Isabella estaria ainda com seus homens.

E esse podia ser o dia eleito para a fuga. Havia só nove guardas para dezesseis homens. Podia suceder algo, talvez o golpe de sorte que precisavam, e assim conseguiriam afastar-se dali. E ela ficaria para trás, para sofrer as conseqüências.

Ela os tinha dito que não se preocupassem, que o senhor saxão não a mataria. Tinha dito que ele estava irritado porque tinha flagelado uma mulher. Mas, talvez pudesse utilizar outros argumentos para induzi-los a pensar, antes de mais nada, neles mesmos? Explicar que era igualmente provável que ele estivesse enraivecido porque tinha feito o papel de tonto ao crer que ela era o chefe, levaria a vários dos guerreiros vikings a vacilar ante a perspectiva de deixá-la para trás. E agora que estava separada deles, não teriam oportunidade de fugir se tentassem liberá-la com o fim de que os acompanhasse. Tinham que partir sem ela.

Isabella se compadecia um pouco de si mesma enquanto observava as portas que se fechavam depois da passagem das carroças. Tinha passado uma má noite num quartinho sórdido sobre uma enxerga dura. Deveria ter se sentido alegre, porque a situação tinha melhorado muito, se comparava com o solo duro das noites anteriores; no lugar, sentia-se miserável e solitária. Era bem mais fácil suportar as privações quando as compartilhava.

Não que tivesse que trabalhar muito. Nunca tinha desagradado ajudar nas tarefas da casa em sua própria terra. De fato, quando no inverno desabavam as piores tormentas, ninguém exigia que os criados saíssem de suas habitações mornas junto aos estábulos. Isabella e sua mãe cozinhavam e limpavam para toda a família. Na realidade, mais Isabella do que sua mãe, porque esta nunca tinha olhado com simpatia o que denominava "trabalho de mulheres". Esme ria e piscava o olho, e jurava que estava acostumada a pensar que ela mesma era homem. Mas a Isabella não incomodava o "trabalho de mulheres". O que a irritava em Cullen era receber ordens bruscas e secas, dadas por criados que a olhavam com altivez.

— Te dói muito?

Isabella desviou o olhar e viu uma menina sentada no extremo da mesa longa que ela tinha ajudado a preparar para a refeição da manhã. A menina estava a uns dois metros de distância da mesa onde Isabella preparava crostas de massa para as tortas de morangos que serviriam mais tarde. Tinha rosto bonito, limpo e rosado, e duas tranças de cabelos pretos que caíam sobre os ombros miúdos. Os olhos verdes muito grandes encontraram os de Isabella, e, portanto ela supôs que a pergunta a estava destinada.

— Se dói o que?

— Teu tornozelo. Está sangrando.

Isabella olhou os tornozelos. Efetivamente, o sangue manava para o interior do sapato no pé esquerdo. Sentiu-se irritada consigo mesma, porque sua atitude era completamente estúpida; tinha recusado obstinadamente deslizar um bocado de lenço sob os anéis de ferro. Uma atitude infantil, adotada com a esperança consciente de que certo senhor saxão se sentisse um pouco culpado quando visse que a pele de Isabella estava ferida por causa desses condenados ferros. Mas, a quem estava magoando, salvo a si mesma? A ele sem dúvida não importaria, porque depois de tudo eram os ferros que ele a tinha ordenado levar.

Ela olhou à menina que a contemplava com profunda atenção.

— Não, não dói – assegurou Isabella com um sorriso.

— Deveras? Não sentes nenhuma dor?

— Sim, dói-me um pouco. Mas para dizer a verdade tenho muitas outras preocupações, de maneira que não prestei atenção a uma dorzinha ali embaixo – e assinalou seus próprios pés.

A menina emitiu um risinho ante a referência de Isabella a sua própria estatura.

— Não estranhas ser tão alta?

— Não.

— Mas és mais alta do que um homem...

O sorriso de Isabella a interrompeu.

— Na Noruega é muito raro que isso suceda.

— Oh, sim, os vikings são todos homens muito grandes. — Isabella sorriu ante a maravilha que se manifestava na voz da menina ao mencionar o fato.

— Pequena, como te chamas?

— Alice.

— É um dia formoso. Por que não sais a caçar borboletas, ou a fabricar grinaldas de flores, ou a encontrar ninhos de pássaros? É o que eu fazia na tua idade. Não é mais divertido que ficar em casa?

— Nunca saio de Cullen.

— Não é seguro?

A menina olhou suas próprias mãos, que descansavam sobre a mesa.

— É seguro, mas não me agrada sair só.

— Mas aqui há outros meninos.

— Não querem jogar comigo.

Isabella se sentiu comovida pelo acento de tristeza na voz da menina. Mas Eda, que se aproximou dela, explicou a razão.

— Os meninos temem jogar com a irmã do senhor, e tu também não deves falar com ela. – zumbiu Eda ao ouvido de Isabella.

Isabella dirigiu um olhar gelado à mulher maior.

— Enquanto não o proíbam, falarei com quem me agrade.

— Deveras, mulher? – replicou Eda — Então, não te surpreendas se te proíbem imediatamente, pois ele não parece muito contente.

Isabella não teve tempo para perguntar o significado das palavras de Eda, pois sentiu que uma mão cruel segurava o seu ombro e a obrigava a voltar-se para enfrentar um saxão muito irritado.

Edward não estava pensando em sua irmã, pois nem sequer tinha visto que ela se encontrava na sala. Quando ingressou na espaçosa habitação seus olhos focaram diretamente a cabeça de cabelos castanhos que estava no setor da cozinha. Não a tinha visto desde o momento em que ela saíra de sua câmara na véspera, pois tinha jantado com seus primos no quarto de Emmett, e tinha se mantido intencionalmente longe do salão, onde se encontrava a mulherzinha.

Enquanto ela estava de pé no extremo da mesa, de costas a ele, os olhos de Edward tinham percorrido lentamente a extensão do corpo grande, da cabeça aos pés. Mas quando se detiveram no anel de ferro que prendia os tornozelos, claramente visível por causa do escasso comprimento da túnica, acordou-se sua ira. Pois desde o outro extremo da habitação podia ver o sangue que empapava o lado do sapato.

Sua expressão era tempestuosa.

— Se crês que as feridas de teus pés nos induzirão a tirar-te esses grilhões, estás equivocada!

Isabella relaxou, pois sabia o que tinha provocado à reação do saxão.

— Nunca acreditei.

— Então, explica-te! Disseram-te que acolchoasses com lenço esse ferro.

— Esqueci de pedir o lenço – disse Isabella. E depois acrescentou audazmente: — Trouxeram-me aqui antes que saísse o sol e me puseram imediatamente a trabalhar. Confesso que estava mais dormida do que desperta e não pensei em algo que chegou a ser quase uma parte de mim mesma.

A irritação desapareceu do rosto de Edward e ficou só um gesto de sombria inquietude. Isabella viu que ele não sabia se acreditava ou não no que ela tinha dito. E a situação pareceu tão divertida que se largou a rir,e isso o confundiu ainda mais.

— Ah, milord, vejo que acreditaste que eu abrigava a esperança de excitar tua simpatia. Podes estar seguro de que não sou tão tonta como para crer que é capaz de tão ternos sentimentos.

A cólera voltou a tingir de vermelho o rosto de Edward, e ela temeu que o homem a golpeasse. Tinha-o ofendido audazmente, mas com humor, de maneira que até certo ponto suas palavras pareciam um elogio mais ou menos equivocado. Ao que parece, ele não era capaz de lidar com essas táticas femininas tão sinuosas.

Edward se voltou para Eda, e aterrorizou com sua expressão à pobre mulher.

— Atende agora os pés desta mulher, e cuida para que não esqueça de forrar os ferros!

Depois de dirigir um ultimo olhar furioso a Isabella saiu bruscamente. Eda foi procurar o lenço, e no caminho ia rosnando que já tinha bastante que fazer sem necessidade de mimar uma pagã, uma mulher que não tinha critério suficiente para evitar as explosões de cólera do senhor. Isabella sorriu, sem fazer caso da anciã, e seus olhos seguiram Edward até que ele desapareceu. O saxão não era muito diferente dos homens que ela conhecia.

— Como te atreves a rir dele quando está tão bravo?

Isabella tinha se esquecido de Alice. Olhou-a e dirigiu um sorriso; viu então que os grandes olhos verdes extravasavam assombro e reverência.

— Seu mau humor não era tão terrível.

— Não o temeste nem sequer um pouco?

— Devia temer-lo?

— Eu senti medo, e nem sequer era a causa de seus gritos.

Isabella franziu o cenho.

— Eda diz que é teu irmão. Não me dirás que o temes...

— Não... Bom, às vezes.

— Às vezes? Castiga-te?

Alice pareceu surpreendida pela pergunta.

— Não, jamais fez isso.

— Então por que o temes?

— Poderia castigar-me. É tão grande e parece tão mau quando se enraivece.

Isabella riu com simpatia.

— Pequena, os homens têm essa expressão de maldade quando estão bravos, mas isso não indica que o sejam realmente. E teu irmão é grande sim, mas meu pai é ainda maior, um pouco mais, e também tem um temperamento terrível. No entanto, não há homem mais bondoso do que meu pai, nem mais afetuoso com sua família. Meus irmãos também têm muito caráter, e sabes o que faço quando gritam comigo?

— O que?

— Também grito com eles.

— São maiores que tu?

— Sim, inclusive o mais jovem, que têm só quatorze invernos, é mais alto do que eu, ainda que não muito. Ainda crescerá um pouco. Não tens mais família do que teu irmão?

— Tive outro irmão, mas não o recordo. Morreu com meu pai quando outros vikings nos atacaram. Faz cinco anos.

Isabella esboçou uma careta. Pelos dentes de Deus! O saxão tinha motivos para odiá-la e odiar a seu povo. Não estranhava que tivesse desejado matá-los a todos a primeira noite. Surpreendeu-a que ele tivesse mudado de idéia.

— Sinto-o, Alice – disse baixinho —. Teu povo sofreu muito por causa do meu.

— Esses eram dinamarqueses.

— Não vejo que tenha muita diferença. Também nós viemos aqui para atacar, ainda que não vínhamos em procura deste povo, se isso te serve de consolo.

Alice franziu o cenho.

— Queres dizer que teus amigos não teriam atacado a Cullen?

— Não, o que procuravam era um mosteiro que está mais longe, e só para pilhagem.

— Jura.

— Sim.

— Mas foi destruído pelos dinamarqueses faz cinco anos, e nunca o reconstruíram.

— Oh, Deus meu! – gemeu Isabella — Jasper morreu, tantos outros homens também, e tudo por nada!

— Jasper era teu amigo? – perguntou Alice com voz vacilante.

— Amigo? Sim, amigo... E irmão – contestou Isabella com voz quebrada.

— Perdeste um irmão no combate do bosque?

— Sim...sim...sim!

O punho de Isabella achatou uma crosta de massa com cada afirmação, e como isso não acalmou a angústia, socou a mesa. Tinha percorrido a metade da distância que a separava da porta quando Eda correu depois dela, e tratou de segurar-la pelo braço e detê-la.

— Não o faças, mulher – advertiu a velha —. Castigam-te.

— Não me importa!

— Te importará. Ouvi o que disseste à menina. Oxalá não me tivesse detido a escutar, mas o escutei. Compadeço de ti pela perda, e nunca acreditei que diria uma coisa assim a uma pessoa como tu, mas é verdade. Magoar-te tu mesma agora, a ninguém ajudará. Regressa e limpa o que fizeste, e ninguém saberá que o fizeste de propósito.

Isabella se deteve, olhou fixamente Eda, e por fim assentiu. Voltou-se para o lugar destinado a cozinha. Quando viu o que tinha feito suspirou. Alice tinha desaparecido. Felizmente não tinha outras pessoas por perto.

— E a menina?

Eda respondeu com um muxoxo.

— Assustou-se quando te mostraste violenta. Ela pensará duas vezes antes de falar novamente contigo.

Isabella deixou escapar outro suspiro.