Capítulo 13
VIDA DE VERDADE
Uma coruja chegou cedo no Dia das Bruxas.
- Pacote de Sirius – falou Lily jogando um embrulho nas mãos do filho, que parecia distraído lendo uma revista no sofá da sala.
Harry pegou o embrulho e leu o pequeno bilhete pregado nele:
Aqui está o que me pediu. Ainda bem que é só um empréstimo.
Com um movimento rápido, Harry colocou o embrulho no canto do sofá. Não queria ver aquilo de novo nem pensar mais em coisas que lembrassem aquela outra possibilidade de vida. Decidira viver ali, com sua mãe, para sempre. Se lhe fora dada a oportunidade de mudar, por que não? Não era tão ruim. Era bom. Era maravilhoso! Achava que com o tempo, as memórias iriam vir e aquelas lembranças da vida difícil de antes seriam completamente apagadas. Não precisava mais de espelho nenhum.
- O que Sirius lhe mandou? – perguntou Lily, interessada.
- Um revista – mentiu Harry se ajeitando novamente no sofá.
- Revista de quê?
- Daquele tipo que você não gosta – disse Harry rindo da cara da mãe que agora ia em direção à cozinha resmungando algo que lembrava "Sirius indecente...".
Tentou se concentrar na leitura de uma revista em quadrinhos de capa bem interessante que encontrara em seu quarto. Parecia ser melhor que os super-heróis das revistinhas velhas de Duda. Harry continuou lendo. O herói dos quadrinhos, um bruxo adolescente, acabara de descobrir que seus pais tinham sido assassinados por um bruxo terrível das trevas e agora ele pensava em como contaria isso a seus dois melhores amigos; além do, é claro, dilema para conseguir ou não a garota, que ele tinha medo de tentar conquistar já que ela era a irmã de seu melhor amigo...
Harry atirou a revista na parede oposta. Que droga de história era aquela?
Resolveu tentar encontrar algo de melhor para fazer. Subiu até seu quarto, se sentindo cada vez mais familiarizado com o ambiente e começou a mexer nas gavetas da escrivaninha. Nela, encontrou um grosso álbum de fotos. Através dele, vagas lembranças de anos anteriores em Hogwarts lhe vinham à mente... Ele e Frank embarcando juntos no Expresso Hogwarts no primeiro ano... ele e Frank atirando bolas de neves nos passantes incautos das ruas de Hogsmead...
"Não é uma vida tão ruim – ele insistia consigo mesmo – a guerra vai acabar... Tenho amigos, família... além do mais, Cedrico está vivo também. Dumbledore... gente inocente que não deveria ter morrido está viva aqui. Não é justo tentar voltar, seria como matá-los novamente...".
"É, mas outras pessoas também morreram com essas mudanças. Gente igualmente inocente. Ou você acha que a família Weasley era culpada de alguma coisa? Você acha que Gina era culpada de alguma coisa para morrer daquele jeito? E Rony tendo aquela vida horrível... sem família".
- Essa é minha vida agora! – falou Harry, como que para mandar a voz se calar – é minha vida agora. E ela está muito bem, obrigado.
"Você prometeu a Francesca que consertaria as coisas... Prometeu a Neville...".
Percebendo que as vozes não iriam parar de discutir dentro de sua cabeça, Harry colocou um disco das Esquisitonas para tocar. Ao menos era barulhento o bastante.
Família trouxa morre em atentado bruxo
A Marca Negra foi vista pairando sob a casa de trouxas escoceses
Harry afastou o jornal e tentou migrar suas atenções para o almoço. Batata recheada e bife.
- Mas olhe que coisa mais horrível, Harry! – exclamou Lily ao ler a reportagem – na Escócia! Como é que eles podem?
Fingindo engolir um pedaço grande de batata, Harry não respondeu.
- É nesses momentos que penso em como a Ordem é pequena para combater um mal tão grande – falou Lily em voz triste – e aquele garoto, Neville, tão sozinho... Às vezes penso que ele poderia ser você e...
- Me passa o molho? – interrompeu Harry propositalmente. Na verdade, detestava molho.
Lily olhou espantada para o filho, mas passou o molho. Num instante fugaz, viu James sentado naquela mesma mesa... no Halloween de dezesseis anos atrás... o olhar era o mesmo, aquele olhar de quem esconde algo. Lily nunca descobrira o que aconteceu ao marido na época.
- A comida está ótima – comentou Harry numa voz sem expressão.
"Haveria uma conexão?". Lily tentou afastar o pensamento. Era ridículo! Como é que a confusão de Harry poderia se conectar com a de James? Havia mais de uma década e meia entre uma e outra! Mas no entanto... "O olhar é o mesmo".
Piscou uma ou duas vezes para tentar esquecer aquilo e deu mais uma garfada no bife.
Wanda Burnett era uma mulher corpulenta que não parecia em nada com os filhos que tinha. Vestia-se com um certo exagero e tinha uma voz macia de soprano.
- Recebi uma carta da Profa. McGonagall dizendo que Francesca ultrapassou os limites do colégio novamente – falou Wanda para Lily durante a recepção do jantar – não sei o que faço com os gêmeos... Fernand provavelmente terá um ataque cardíaco se voltar da França e descobrir que um dos filhos está encrencado novamente...
- Harry também não anda bem... soube que ele está aqui? – começou Lily sob o olhar intrigado da amiga.
Harry observava a conversa das duas no canto da sala. A Sra. Burnett saberia que Francesca se encrencara ao ajudá-lo? E se soubesse, qual seria a reação dela? A memória do "outro" Harry lhe dizia que Fernand Burnett não era flor que se cheirasse...
"Mas não é a primeira vez que eu, Francesca e Frank nos metemos em encrenca..." – tentou um consolo que sabia não adiantar de nada.
Sirius chegou acompanhado de Lupin e Tonks, que estranhamente, estavam de mãos dadas. Como ninguém se surpreendeu com o fato, Harry achou que eles estivessem juntos há bastante tempo. Uma pontinha de esperança nasceu nele... talvez os sentimentos das pessoas não mudassem... "Rony e Hermione ainda podem ficar juntos?".
Assim que o pensamento brotou, Harry tentou apagá-lo da cabeça. Não queria mais pensar em Rony e Hermione. Era passado.
Quanto mais a hora do jantar de fato se aproximava, mais perguntas eram dirigidas para Harry. Como, quando e por quê ele havia fugido de Hogwarts... E quanto mais elas vinham, mais respostas vazias Harry dava, aumentando ainda mais sua confusão interior... "Nessa mesma noite, há dezesseis anos atrás, meus pais escapavam da morte enquanto Voldemort atacava Neville".
O jantar foi servido e Harry descobriu que não conseguia comer. Olhava o vazio, tentando deixar a cabeça vazia, tentando evitar que aquelas vozes aparecessem de novo. Lily era a única a perceber a confusão de Harry, mas sempre que fazia menção de falar com o rapaz, alguém a chamava para resolver alguma coisa. Talvez o filho estivesse mesmo doente... gravemente doente.
No fundo, Harry começava a achar que estava doente também. Aquela confusão dentro de sua própria mente, aquelas duas vidas se conflitando, colocando a simples existência das pessoas numa balança, aquilo estava deixando-o louco. Harry queria desesperadamente se agarrar em alguma coisa, encontrar algo que pudesse ser chamado de verdade e a partir dela tomar uma decisão importante para encontrar sua vida. A verdadeira vida. Aquela que estava destinado a ter.
"Eu sou Harry Potter... eu moro com minha mãe em Grodic´s Hollow e tenho como melhores amigos os gêmeos Burnett."
"Eu sou Harry Potter... eu moro com meus tios em Surrey e tenho como melhores amigos Rony Wesley e Hermione Granger."
"Eu sou Grodic´s Surrey... eu moro com os amigos em Rony Granger e tenho como melhores gêmeos meus tios".
O fato de Dumbledore entrar abruptamente na sala não melhorou em nada a ordem das coisas.
