CAPITULO DOZE

Enquanto a tempestade caía lá fora, Isabella ia recobrando a consciência do que se pas sava à sua volta. O perfume quente de sândalo. Os cabelos negros e sedosos ao encontro de seu pescoço. O som da respiração de ambos se confundindo.

Tremores ainda sacudiam seu corpo. O calor e o peso de Emmet em seus braços transmitiam força e segurança. Acariciou a pele rija e suada, tateando as pequenas cicatrizes que contavam a história do guerreiro. Gostaria também de entrar naquela pele e, como uma cicatriz, nunca mais sair. Aquele pensamento fez com que enten desse a enormidade do seu ato.

Fechou os olhos, tentando afastar aquelas idéias, mas a cada momento que passava aquilo se tornava mais difícil. Ela se entregara totalmente…

Os dedos de Isabella arranhando-lhe a pele fizeram com que Edward acordasse. Jamais se sentira tão satisfeito, tão repleto de paz. Sabia que, na realidade, não tinha paz, mas esse não era assunto para discutir com uma mulher. Especialmente aquela.

— Isabella? Tenho medo de esmagá-la.

Assim dizendo, procurou afastar-se dela, que o segurou com firmeza, temerosa de que ele visse as lágrimas que enchiam seus olhos.

— Fique comigo mais um pouco — murmurou ela, um soluço sufocado na garganta.

Com uma ternura que não lhe era familiar, assim como não fora familiar a vontade de protegê-la desde o primeiro instante, Edward levou-lhe a mão aos lábios, depositando um beijo na palma aberta. Erguendo-se e apoiando-se nos cotovelos, beijou a veia que pulsava no pescoço macio, dizendo:

— Estou muito agradecido pelo presente que você me deu com tanta doçura.

Um presente. Ele denominara sua entrega total como um presente. Isabella voltou-se para responder, mas nesse momento os lábios de Edward cobriram-lhe a boca com um beijo tão sedutoramente galante que as preocupações pareceram folhas levadas ao vento.

Para ela, a paixão não nascia aos poucos; surgia como um furacão indomável. Começou a sentir mais uma vez a pressão do desejo. Seus murmúrios pedindo para renovar o prazer compartilhado, toldaram-lhe a mente.

Junto ao desejo, veio a necessidade de pesar os resul tados desastrosos do que haviam consumado. Mas, na quele instante, Isabella esqueceu-se da dor que sentira ao perder a virgindade e recebeu-o de novo, com ansiedade. Deu as boas-vindas ao fogo e à fome insaciável de juntar seu corpo ao de Edward.

Quanto a ele, não conseguia resistir ao canto de sereia daquela mulher. Isabella tornara-se tão importante para ele quanto respirar. Sabia que sua natureza era muito sensual, e rejubilava-se por ter encontrado companheira tão perfeita. Sabia também, por instinto, que a fome desencadeada na quela noite jamais seria plenamente saciada.

Quando, novamente, fez jorrar sua semente dentro de Isabella, compreendeu que não era apenas ela que se en tregava totalmente.

No seu ato de doação, Isabella também exigia tudo, e Edward, rezando para que ela não percebesse isso, obe decia a seu pedido silencioso. Para o bem ou para o mal, suas almas estavam unidas.

O beijo que selou o novo grito de prazer foi violento, como se ela precisasse ser punida por torná-lo também tão vulnerável.

Em meio à inconsciência da paixão, Edward murmurou:

— Ah, amor, você será uma companheira perfeita para Edward, O Selvagem.

Se ele a tivesse perfurado com sua espada, a reação não teria sido mais imediata. O choque que aquelas pa lavras provocaram imobilizaram-na. Enquanto as repetia em silêncio, mais para si mesma, tremores gelados per corriam suas entranhas. Não conseguia mais olhar para Edward. O súbito desejo de fugir dali surgiu como uma fúria.

Isabella lançou-se sobre ele, os dedos como garras, de sejando que partisse, ansiando por dilacerar-lhe a pele como ele dilacerara a sua.

Edward rolou para um lado. Consciente do que dissera, nada fez para deter a saraivada de socos. Mas a fúria de Isabella logo se extinguiu. Dor e solidão a invadiram. Ficou de joelhos, segurando uma ponta da coberta de peles para esconder a própria nudez. Não conseguia res pirar direito, tamanha a pressão que sentia no peito. Movendo a cabeça de um lado para outro, os cabelos cor de ébano espalhando-se pelo rosto e pelos ombros, demons trava sua recusa.

Edward permaneceu em silêncio; nada fez para detê-la.

Um pedaço de madeira caiu ruidosamente entre as la baredas da lareira, assustando-a. Erguendo a mão cansada, ela afastou os cabelos do rosto e abriu os olhos, que tinham o tom cinza-chumbo do mar em dia de tempestade.

Diante de si não viu o corpo desejável do amante que exigira sua submissão, mas sim o do predador forte e poderoso que dominara a presa.

Edward sustentou-lhe o olhar, admirando-a em silên cio. Apenas as mãos, agarradas às bordas da cama, re velavam a raiva que sentia. Sua quietude assustou Isabella. Permanecia ali, apenas olhando para ela, esperando.

Ela mordeu os lábios intumescidos pelos muitos beijos, e sentiu o gosto de vinho, de paixão. Não conseguia sus tentar o olhar de Edward, mas, ao mesmo tempo, não conseguia parar de fitá-lo.

Sentira as pequenas cicatrizes nas costas e entre os pêlos do peito. Guerreiro. Como pudera se esquecer de que ele era um guerreiro? Como bronze polido, o corpo de Emmet fora moldado, como o de uma estátua, por um mestre. Não conseguia parar de admirar-lhe o fisico.

Tentou sentir vergonha por elogiar, mesmo que em silêncio, a beleza de um homem. Era falta de pudor. Ten tou e falhou. Sua observação, porém, ia além da mera curiosidade em relação ao corpo masculino. Nunca havia visto nenhum despido, e procurava desesperadamente en tender o motivo pelo qual o desejava tanto.

As cicatrizes não lhe inspiravam repulsa. Eram troféus de guerreiro. Procurou ver algum defeito nos quadris es treitos, nas pernas musculosas, nos pés enormes. Obser vou que a ferida voltara a sangrar, tingindo o linho da bandagem. Nada daquilo era defeito. Procurou retirar o último véu de inocência que lhe encobria os olhos, e fi xou-os no tufo de pêlos negros, em meio às coxas rijas.

A arma que a dilacerara. A prova de que fora virgem era a mancha de sangue escura sobre o leito, parecida com a mancha da ferida de Edward. Involuntariamente, Isabella sentiu os músculos enrijecerem.

— Isabella…

— Não diga nada — ordenou ela com voz rouca. — Não suporto o veneno mentiroso de sua voz.

Fechou os olhos, lutando contra o vazio interior.

Edward rangeu os dentes com raiva contida. Será que Isabella achava que se livraria dele com facilidade? Lan çara-lhe um feitiço, e agora Edward parecia não ter outro objetivo na vida além de possuí-la, de todas as maneiras possíveis.

Notou as manchas na cama, os sangues misturados. Uma marca escura surgira no ombro de pele branca e sedosa, lembrança de seu desejo louco. Olhou para os dedos que seguravam firmemente a coberta de peles con tra o corpo, e lembrou-se dela apertando-lhe as costas, incentivando-o. E a boca… como aqueles lábios tinham se aberto para receber seus beijos! Um calor familiar começou a subir-lhe novamente pelo corpo e Edward saiu da cama, sabendo que agora ela o considerava um veneno.

Isabella ouviu-o derramar vinho na taça e sentiu a gar ganta seca também. Não iria pedir que Edward lhe desse um gole da bebida. Jamais iria lhe pedir qualquer coisa. Ainda segurando a colcha de peles, esticou o braço para alcançar a anágua e o vestido.

— Se precisa ser modesta agora, vista minha camisa — observou ele.

— Prefiro vestir a pele de uma serpente.

— Grite e esperneie quanto quiser. Nada irá modificar o que aconteceu entre nós.

Isabella voltou a sentir o pouco de orgulho que lhe restava.

— Não posso fazer o tempo voltar, mas rezarei para que esta noite não tenha consequências.

— Você se sentiria amaldiçoada se, por acaso, tivesse ficado grávida?

Apenas por estar muito alerta, Isabella percebeu o travo de amargura na voz de Edward. Mas, antes que pudesse responder, ele continuou:

— Não se martirize com isso. Rezarei com o mesmo objetivo.

Fácil de dizer, certo. Mas nem o vinho tirou o travo amargo em sua boca.

Isabella viu, claramente, que o tinha desagradado. A boca de Isabella tornara-se um traço fino e os olhos re velavam a cor de um lago gelado.

Seu riso zombeteiro foi inesperado. Edward nada fez para se controlar, mesmo que lágrimas rolassem por suas faces quando disse:

— Parente ou não, o chefe dos Gunn vai exigir sua cabeça. E a minha, quando souber dessa noite que pas samos juntos.

— O que a faz ter tanta certeza de que ele a quer matar? Alguém lhe disse isso?

— Você é um tolo. Por que teria me encerrado na abadia, fora do mundo, durante todos esses anos? Para me manter pura. Talvez pratique a antiga religião e pre cise de uma virgem para sacrificar. Eis aí um motivo para que ele queira matar você: roubou sua oferenda aos deuses.

Revidando com palavras afiadas, Edward disse:

— Mas talvez, ao contrário, dê-me um prêmio por ter domado uma égua bravia.

"Não deixe que ele perceba sua dor!" ordenou Isabella a si mesma, apertando a colcha de peles com tanta força que arrancou tufos. Com voz débil, pois chegara ao limite de suas forças, de sua coragem, retrucou:

— Finalmente a verdade aparece. Você pretende me levar até ele. — Por mais que odiasse reconhecer a pró pria derrota, teve de fazê-lo. Acrescentou: — Você me enganou direitinho. Brincou muito bem de gato e rato comigo.

— Brincadeiras são para crianças, e você não tem mais o direito de fingir ser uma menina.

— Não tenho o direito de exigir mais nada. Você roubou minha honra.

— Mas já lhe disse que uma mulher não tem honra. O mundo é dos homens. Seus juramentos e suas pro messas é que devem ser cumpridas.

— Pode me deixar sozinha?

— Por quê?

Isabella estremeceu ante o tom de voz áspero.

— Porque desejo me lavar.

— Diga, "por favor,".

Isabella olhou para Edward com ódio.

— Nunca.

Sem importar-se por estar completamente despido, Edward aproximou-se do fogo. Agachou-se e jogou lenha, avivando as chamas, que se levantaram tão quentes quanto os olhos irados de Isabella. Honra? Como ousava falar com ele sobre honra? Maldito coração cruel! Ela era uma MacKay. Os MacKay nada entendiam de honra!

Bastava visualizar o rosto desfigurado de Isabella para entender aquilo. Porém, por mais que se esforçasse, ele não conseguia lembrar-se da aparência da irmã. Apenas distinguiu nas chamas os cabelos cor de ébano de Isabella, que lhe emolduravam o rosto. Fechou os olhos, mas a imagem persistiu. Isabella desafiando-o… rejeitando-o… entregando-se, tão doce, com paixão desenfreada.

Por quê? Por que ela dominava sua mente agora? Dis sera-lhe que estavam nas terras do Gunn. Usara aquilo como uma ameaça. Por que ela continuava rondando seus pensamentos daquele modo?

Por um longo tempo, Edward tentou rechaçar a res posta que se formava em seu cérebro: Isabella se rendera a fim de usá-lo, na esperança de transformá-lo em arma contra o chefe dos Gunn. Só aquilo fazia sentido. Como uma prostituta, utilizara o corpo para barganhar sua liberdade.

Ergueu-se, voltando a encará-la. Isabella continuava na mesma posição.

— Já decidiu o que pretende ganhar como recompensa por me entregar a meu noivo? — perguntou ela.

— Eu sempre soube o que queria. Para começar, ganhei você, Isabella MacKay. — Viu-a ficar muda ao ver a chama de desejo voltar a brilhar nos olhos azuis. — Jamais neguei que a desejava. Acredite ou não, é verdade. Pode ser que desconheça o modo como um homem raciocina, mas ainda a desejo com exclusividade. Você veio aos meus braços por vontade própria. Esperarei que volte. Mas lem bre-se: não sou um homem paciente.

— Sei muito bem disso.

Ao dizer essas palavras, Isabella censurou-se por ser tão tola. Como não vira a verdade diante de seu nariz? Emmet tinha uma dívida a saldar com Edward, o Selva gem. E a usara como pagamento. Ouvira falar de sua presença na abadia. Só aquilo fazia sentido. Quem sabe que planos diabólicos tecera? Talvez fosse usar sua vida como pagamento da dívida. Poderia dizer que a usara como instrumento de vingança.

O olhar feminino percorreu a cabana, em busca de uma arma.

Vendo que o medo retornara aos olhos dela, Edward tentou falar com calma:

— Prometi não obrigá-la a nada. Vá descansar. Não irei incomodá-la de novo.

Isabella observou enquanto Edward fazia uma cama jun to ao fogo, retirando peles de carneiro de uma pequena arca de madeira. Fechou os olhos quando ele se aproxi mou para pegar a calça e as botas.

— Use minha camisa até eu lhe dar outro vestido — disse ele.

Mas Isabella não se mexeu. Os minutos foram se ar rastando, infindáveis. Podia ouvi-lo respirar. Sentou-se e ficou olhando. O frio obrigou-a a vestir a roupa rasgada. Cortou um pedaço da blusa para usar como cinto. O corpo nu de Edward, iluminado pelas chamas, a perturbava muito.

Então, pouco a pouco, foi sucumbindo ao sono que a dominava. E, como sempre, sonhou muito. Alguns de seus sonhos eram tão arrepiantes que acordava banhada em suor. Outros deixavam lembranças sutis, logo esquecidas quando acordava. Mas nenhum se comparou ao que teve naquela noite…

Estava sozinha em uma charneca e, em meio à neblina, às suas costas, erguiam-se as pedras cinzentas de uma grande fortaleza. Jamais a vira. Molhada, trêmula e sem fôlego, por ter corrido muito, ficou pensando que precisava fugir. Estava fraca, mas precisava guardar as forças que ainda lhe sobravam a fim de salvar sua carga. A trouxa que carregava continha algo precioso; ela gemeu, ansiosa por olhar o conteúdo.

Ouviu o som de cascos de cavalos. Sabia quem a per seguia; nem foi preciso distinguir-lhe o rosto. Virou-se, tentando negar o que seus olhos viam. Mas não pôde. Vislumbrou Emmet. Emmet, que nunca a fitara com tanto ódio. Em seus lábios havia uma cruel determinação.

Suas mãos prendiam as rédeas de um enorme alazão. Parou a seu lado, e Seana tentava em vão entender-lhe as palavras. Apenas os lábios sensuais se moviam. Um sentimento de crescente dor a invadiu, enquanto ele fa lava sem parar.

Isabella implorou. Ajoelhou-se, implorando. Mas implo rando por quê? Tudo o que conseguia ver era a cabeça de Emmet descoberta, cabelos negros molhados pela ne blina, lançados para trás com a impetuosidade da risada rouca…

Ela acordou sobressaltada, a mão sobre a boca, impe dindo um grito. O suor frio banhava seu corpo. Relutante, virou o rosto para ver Edward dormindo na mesma posição, junto ao fogo, de costas.

Sem perda de tempo, saiu da cama e pegou o punhal que pertencia a ele e que ainda estava ao lado do pão cortado. Empunhando a arma, alcançou a porta.

Olhando por cima do ombro, para ver se não o des pertara, começou a serrar o couro que prendia a trava. Minutos mais tarde, banhada em suor, conseguiu seu intento.

Enfiou o punhal no cinto improvisado e precisou das duas mãos para erguer a trava. Estremeceu quando a madeira escorregou de suas mãos e uma ponta caiu no chão. Mas, certamente o som não fora tão alto quanto imaginara, pois Edward continuou dormindo.

Ainda agindo como um pássaro que foge do caçador viu que ele se espreguiçava. Estremeceu, com um ar repio de medo. Edward se virava inquieto, e Isabella prendeu a respiração, com receio que até aquele som pudesse entregá-la.

"Tenha piedade, Senhor, e faça com que ele não abra os olhos!"

Sua respiração saía entrecortada. Precisou forçar os músculos enrijecidos a obedecê-la.

Abrindo a porta apenas o suficiente para esgueirar-se por ela, Isabella respirou sua primeira golfada de ar em liberdade. O vento frio da Escócia, impregnado pelo aro ma de pinho e ervas selvagens, era tão inebriante quanto um bom vinho.

Realmente, o Senhor estava lhe sorrindo, pois a lua cheia e grande iluminava o caminho à frente. Ela correu para a estrebaria, nos fundos do sítio, mas encontrou-a vazia.

Não ousava assoviar para chamar Breac. Aproximou-se lentamente do animal, que estava ao ar livre. Estendendo a mão e rezando para que ele reconhecesse o odor de Emmet, ainda impregnado em seu corpo, Isabella murmurou o nome do cavalo.

Breac levantou a cabeça, alerta, as orelhas em pé. Isabella se aproximou ainda mais. O animal arqueou o longo pescoço, o hálito quente bafejando sobre a mão estendida. Relinchando, escavou a terra. Isabella tocou-lhe o nariz aveludado. Breac recuou, assim como Isabella, e, recuando, ela caiu nos braços de Edward.


Então gente o que acharam do cap?

Essa Bella não tem sorte mesmo né gente? E esse Edward, quando ele vai ver o que ele realmente sente? Bem ela já sabe mais não aceita... Sacanagem eim..

Estou com um novo projeto de adaptação BeDward. Vcs preferem que seja a próxima fic histórica ou mais atual?

Deixem suas opiniões...

Ate sábado que vem!