YARMULKAH

Não confio no que me aconteceu.

Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como a chamá-la, fazia me sentir estranha, vazia e perturbada. Parecia uma desorganização.

Sentia como se tivesse perdido alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, pois era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisava procurar.

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava. Mas era a mesma coisa que eu altamente necessitava. Estou assustada porque parece que perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra perna para substituir a perdida. Também não sei que forma dar ao que me aconteceu. Quem sabe me aconteceu apenas uma lenta e grande dissolução? E que minha luta contra essa desintegração está sendo a de tentar agora dar-lhe uma forma? Uma forma que contorna o caos, uma forma que dá construção à substância amorfa que enche o vazio que sinto. Só para encontrar de novo a organização que me faz falta.

Já que tenho de me salvar, já que tenho que ter uma forma porque não sinto força de ficar desorganizada, já que fatalmente sucumbirei à necessidade de forma que vem de meu pavor de ficar delimitada - então que pelo menos cresça como capim outra terceira perna.

Mas como se faz crescer em si uma terceira perna? Tão naturalmente quanto a que se tinha até ontem? Precisarei inventar uma? Precisarei inventar o que me aconteceu?

Pois bem.

O que me aconteceu foi que me deixaram só. Hermione novamente voltara para o anexo secreto em que estava, abandonando-me, e Alvo Severo me traíra. Não na forma afetiva e amoral como se pressupõe, mas na psíquico-comportamental. Ele não gostava do que eu gostava. Ele não gostava dos meus filmes, dos meus livros ou dos meus heróis. Ele fingia gostar. E usara isso contra mim. De forma rude e suja, cortando-me em fatias. Então, depois de tanta distância, nada pude fazer senão deixar que a terceira perna se despregasse de mim.

E cá estou, entediada, confusa e desorganizada, tentando criar o meu novo tripé estável. O principal problema era que eu não tinha muitas opções para um novo tripé. E eu estava cansada.

Cansada do mundo, cansada da vida. Acho que eu, sempre racional, sem querer, de certa forma, humanizei demais a vida. E me senti cortada e separada dessa humanização. E como eu nunca fui lá uma garota compatível com os alicerces da sociedade do século XXI, eu me acho solitária e profundamente desorganizada. Terei que me recompor como garota que sou, como ser humano que sou, e como ser humano que sempre fui. Mas sem minha terceira perna, não encontro a quem sempre fui.

'Vai lá. Fale com ela.' Escutei Harry dizer a ele. A terceira perna apenas se limitou a balançar a cabeça negativamente.

Passou-se três dias desde que Al e eu havíamos discutido e não nos falamos mais. A maior parte do tempo agora eu ficava com Scorpius e Gabrielle. Conheci a Mansão Malfoy, coisa que jamais pensei que poderia conhecer em toda minha vida, e Scorpius se mostrou mais Trouxa do que eu esperava.

Eu sabia que Scorpius era realmente interessado em Tecnologia, mas não sabia que havia outras coisas Trouxas que ele gostava. Além de vídeo-games, telescópios, notebooks, Ipods, Ipads, Tv, Blu-Ray e outras coisas tecnológicas, havia bonecos de super-heróis e animes como decoração de quarto. Não tinha tanto quanto eu, mas para alguém como ele ter aquelas coisas, era como ter um Nerdvana no seu próprio quarto.

Scorpius, Gabrielle e eu agora estávamos mais juntos do que jamais fomos. Até porque agora só tinha eles. Quando lembrei de que o aniversário de Ginny estava perto, chamei-os para me fazer companhia já que passaria a tarde toda sozinha sendo alvo de críticas e das fofocas da família, principalmente por parte da vovó Molly.

Era 11 de agosto. Aniversário de Ginny. Yay! De novo, novamente, mais uma vez, estou rodeada de meus parentes na Toca, celebrando o 41º aniversário de Ginny.

Estava esperando por Gabrielle e Scorpius no jardim, afastada dos outros, enquanto meus ouvidos, meus olhos e meu corpo parecia procurar a parte bruta da terceira perna. Muitas vezes, encontrava-o olhando para mim, mas logo desviava o olhar.

Hugo estava ao lado dele, bem próximo á Jabba, e parecia esperar por alguém. Talvez Hermione. Bom, aquilo era meio estranho mesmo. Era aniversário de Ginny, minha madrinha, irmã do meu pai, e minha mãe não havia aparecido ainda.

Eu sabia no entanto que ela apareceria. Ela só estava se recompondo. Estava reunindo a compostura e para dar a cara no aniversário que ela sabia que não poderia fugir. Teria que de uma vez só, com apenas duas pernas, enfrentar Ron, Harry, Ginny, Hugo, eu, e mais duas dúzias de pessoas que não tinham nada a ver com aquilo. Eu sei disso, porque se eu fosse ela, estaria na mesma situação.

Na verdade, eu estou.

A diferença é que Hermione não era uma adolescente com pudores. Era uma mulher madura, mãe de filhos e que não temia nada. Eu temia muita coisa. E muitas delas destemidas para outros.

'Você está bem, Rosinha?' Perguntou-me Ron próximo a mim. Confirmei com a cabeça e ele deu um sorriso falso. Bebeu um gole de whiskey e amassou um pouco de grama com os sapatos. 'Acho que sua mãe não vem.'

'Ela não perderia o aniversário de Ginny.' Tentei confortá-lo. Mesmo que mamãe não gostasse de Ginny, ela não faria isso com papai e tio Harry. Era importante para eles.

'Espero que sim. Ginny considera muito Hermione. E seria bastante desagradável se ela faltasse o almoço'.

'Ela deve tá chegando, pai, não se preocupe, ela vai vir. ' Papai decidiu acreditar em mim e afastou-se com uma aparência de que realmente acreditava que ela estaria por vir. Eu também gostaria que ela viesse. Faz quase duas semanas que eu não a vejo. A última vez foi quando estava indo ao pub Spaced e a vi conversar num café com Malfoy. Gostaria de saber como ela estava. Ouvi um pequeno 'pop' por ali e levantei o rosto de uma vez com meus olhos procurando por Hermione. Mas sorri ao reconhecer Scorpius, Gabrielle e Draco Malfoy.

Novamente, ele estava ali. E novamente estava ali como uma desculpa para o filho. Eu percebi ele procurar rapidamente por Hermione com os olhos. E uma discreta careta se fez no rosto pálido dele ao encontrar com o de papai.

'Está com uma cara péssima!'

Levantei o rosto e vi Gabrielle á minha frente. Pisquei os olhos e sorri aliviada deles realmente estarem ali. 'É, mas é a única que tenho por agora.' Respondi azeda.

'Mas hoje existe operação plástica!' Respondeu Gabrielle rindo. Sorri com o comentário e olhei para Draco novamente. Ele estava com a mão esquerda sobre o ombro direito do filho, Scorpius, enquanto falava algo com ele afastado dos integrantes da família Potter-Weasley.

Draco Malfoy estava vestindo uma veste preta longa, com uma camisa branca de mangas longas por baixo, mesmo no meio do verão. Algo na mão esquerda de Malfoy me chamou a atenção. Algo preto, parecendo de couro, não claramente visível, estava sob a manga longa da camisa branca que ele estava usando por baixo da veste. Parecia estar amarrado ao braço dele, mas com a ponta do objeto de couro aparecendo por acidente no pulso antes de se esconder com as luvas brancas.

'Como se sente?' Perguntou Gabrielle curiosa.

'Melhor.' Respondi franzindo a testa para o objeto desconhecido envolto do braço de Malfoy.

'Somos anjos, não somos?' Indagou Gabrielle sorrindo de orelha a orelha.

'O que é aquilo?' Perguntei quase num murmúrio ignorando o que ela tinha dito. Gabrielle virou-se e procurou a suposta coisa que me intrigara.

'O quê?'

'O que Malfoy tem no braço?'

'Tá falando da Marca?' Ela perguntou olhando para mim franzindo a testa. 'Achei que você soubesse. Draco já foi partidário de Voldemort.'

'Não, não é isso. Sei que ele foi um Comensal da Morte, meu pai me disse, e aliás isso é um dos motivos que o faz odiá-lo. Ele tem algo na mão esquerda.' Disse piscando os olhos observando a pequena parte objeto de couro no braço de Malfoy. Parecia ser uma tira de couro... 'Parecendo de couro.' Estranho. 'Você acha que se eu perguntar para Scorpius, ele se aborrecerá?'

'Nem, Scorpius não esquenta em nada com você...' Meu coração se debateu entre meus pulmões e senti que meu rosto estava de cor de pepperoni. Ou bem perto daquilo.

'Não sei. Ele é aristocrático, pode não gostar quando as pessoas se mostram totalmente interessados em coisas que não são de seu interesse.'

'Ele não liga. Scorpius te acha a segunda coisa mais legal do mundo, Rose. ' Voltei os olhos aos dois Malfoys sem jeito. Draco terminou de falar com Scorpius, afastou-se e dando uma última olhada em todo o jardim, aparatou para a Mansão Malfoy.

É. Mamãe não estava aqui e por isso não havia motivos para ele ficar também. Ele não conseguiria ficar bem aturando a ridícula família Weasley.

'Ele é ridículo, não é?' Gabrielle perguntou e eu franzi a testa sem entender porque ela estava falando aquilo do namorado que se aproximava de nós.

'Por quê?'

'Se faz de coitadinho e de vítima mesmo sendo o assassino.' Algo me disse que não era sobre Scorpius que ela estava falando. Então percebi os olhos verdes de Al sobre nós. Desviou-os rapidamente. 'Idiota'.

'Quem é idiota?' Perguntou Scorpius curioso se pondo ao lado da namorada. 'Severo?'

'Quem mais poderia ser?' Indagou Gabrielle.

'Todos os Weasleys.' Olhei para Scorpius com as sobrancelhas levantadas. Ele revirou os olhos azuis. 'Vamos, Rose, você sabe que estou lhe tirando dessa. Considero-te mais Granger do que Weasley.'

'Isso não era para ser pior?' Perguntei com as sobrancelhas unidas.

'Supostamente. Mas me irrita muito mais os Weasleys do que os Grangers. Não tenho nada contra sua mãe.'

'Em falar nisso, onde está sua mãe, Rose?'

'Deve estar se recompondo. ' Respondi dando de ombros.

'Se recompondo?' Indagou Gabrielle sem entender.

'Mamãe não sentia mais forças para ser feliz. Não com papai. Cansara-se. Está em um anexo secreto faz duas semanas sem ao menos se comunicar com tio Harry. Ela provavelmente não quer vir á Toca, pois trezentas pessoas iriam olhar para ela, falar dela e reclamar dela, principalmente vovó Molly e Ginny, mas ao mesmo tempo ela não poderia deixar de vir ao aniversário da irmã do seu esposo, e a mulher de seu melhor amigo, então precisa recuperar uma força suficiente para confrontar a família. Ela sabe que um dia terá que lidar com isso. Ela só não sabe como lidará com Rony e Hugo quando os vir pela primeira vez depois desse tempo.'

'É como minha mãe costuma dizer...' Começou Gabrielle. 'Minha querida, cuide-se como se você fosse de ouro,ponha-se você mesma de vez em quando numa redoma e poupe-se.'

'E você?' Perguntou Scorpius curioso.

'Eu o quê?'

'Ela não terá que lidar com você?'

Pisquei os olhos e engoli saliva discretamente. Meu estômago se contorceu um pouco quando uma imagem de Hermione ali na Toca apareceu na minha mente. 'Não precisa. A gente se entende do nosso jeito.' Respondi sem jeito. Eu realmente não fazia idéia de como Hermione e eu iríamos lidar com aquilo.

'O que seu pai disse?' Perguntou Gabrielle virando-se para Scorpius. Olhei para ele parcialmente interessada na resposta.

'Ah, nada demais. Só que ele viria mais tarde para buscar-nos e que provavelmente iríamos assistir Hamlet no West End hoje á noite. Enquanto isso, ele pediu para que não me misturasse com a gentalha...'

'Ah, Hamlet?' Indagou Gabrielle um pouco desconcertada. 'Sério? Não podemos ver The Wiz?'

'É a peça preferida de minha mãe, Gabrielle, sabe disso... Você quer vir conosco, Rose?' Levantei o rosto para ele e pisquei os olhos.

'Assistir Hamlet?' Repeti não acreditando no que ele dissera.

'É.'

Meu coração bateu entre meus pulmões com a imagem da família Malfoy comigo enquanto assistíamos Hamlet. No entanto, sabia que Malfoy não iria gostar se eu realmente fosse. Além de ter Astoria, a mãe dele, que não era bem a minha maior fã. Não seria legal sair com a família de Scorpius.

'Não, não realmente. Está muito para uma atividade familiar e tenho certeza que seus pais não gostariam que eu fosse.' Respondi sincera.

'É que você deixa tudo mais divertido.' Reclamou ele levantando os ombros. Senti algo desconfortável em algum lugar que nem sabia que existia.

'Pare de bancar o garanhão, Scorpius!' Fico feliz muitas vezes em ver que Gabrielle leva na esportiva tais coisas ditas por Scorpius. Ela sabe que tenho certa inclinação, mas ao mesmo tempo, ela sabe contorná-la e de um modo faz desaparecê-la, o que acho ótimo, pois me recomponho e não dou uma forma indefinida e insegura á substância que sinto. Minha consciência é inconsciente de si mesma, por isso eu me obedeço cegamente.

'Não estou bancando o garanhão!'

'Ai é que você deixa as coisas mais divertidas, ai é que é mais legal fazer as coisas com você, ai é que você é mais Granger do que Weasley...' Reclamou Gabrielle levantando as sobrancelhas finas.

'Mas é!'

Olhei para Scorpius, que olhou para mim, e rimos juntos. Gabrielle negou com a cabeça de forma descontraída. 'Então, o que tem no braço de seu pai?' Ela perguntou para Scorpius repentinamente. Olhei para ele completamente interessada na resposta.

'No braço?' Ele indagou confuso.

'Ele parece ter algo em volta do braço dele...'

Acho que Gabrielle só perguntou para que talvez Scorpius não se irritasse comigo. Mesmo que ele possa não gostar de pessoas se interessando pelas coisas de seu pai, Gabrielle saberia lidar com a raiva dele e o impediria de ficar revoltado comigo. 'De couro...' Completei Gabrielle com o tom de voz fino.

Ele piscou os olhos azuis e entortou a boca um pouco para o lado esquerdo. 'Yarmulkah.' Respondeu por fim com a voz baixa. Franzi a testa sem entender e olhei para Gabrielle que diferente de mim pareceu compreender aquilo.

'Seu pai se utiliza de um Yarmulkah?' Ela perguntou incrédula.

'Sempre usou.' Ele disse meio triste.

'Huh, o que é um Yarmulkah?' Perguntei curiosa.

'Yarmulkah é uma corrente de tiras de couro que bruxos puros usam como forma de se livrar de arrependimentos causados por ações consideradas indignas. ' Respondeu Scorpius.

'Mas o ministério considera uma prática anti-humanista e por isso eles foram excluídos há muito tempo de várias famílias bruxas, já que hoje é raríssimo encontrar uma família inteiramente pura, pois os Trouxas estão cada vez mais implantados no nosso mundo.' Complementou Gabrielle no mesmo tom de voz do namorado.

Um silêncio caiu sobre nós. Não sabíamos o que dizer ou até o que pensar. Bom, eu tinha o que pensar, mas ao mesmo tempo não era algo agradável. Draco Malfoy supostamente se utilizava de um Yarmulkah á cada vez que vinha á Toca ou a outro lugar redondamente cheio de Trouxas ou Traidores do Sangue. Senti algo realmente desconfortável sobre meus ombros.

Culpa.

Afinal, se eu não fosse amiga de Scorpius e Gabrielle, eles não estariam aqui, sem estarem aqui, Draco Malfoy não precisa vir deixá-los aqui, o que eliminaria a chance dele ter que se encontrar com Trouxas e Traidores do Sangue e conseqüentemente usar um Yarmulkah.

'Scorpius não liga, Rose.' Disse Gabrielle entendendo meu pensamento. Apenas confirmei com a cabeça dando a impressão que já sabia daquilo, mas era apenas enganação. Sabia que Scorpius ligava um pouco.

Nossos pais querem que nós sejamos aquilo que são. Querem que sejamos sua própria extensão, querem que fazemos o que queriam fazer, que pensemos o que eles pensam, que agimos como eles agem. E quando mostramos que talvez somos completamente diferente deles, eles se sentem traídos e desapontados. Alguns superam e aceitam. Outros não. Draco Malfoy é um desses que não superam e aceitam. Ele é provavelmente a honra própria dos Malfoy e ele jamais poderia aceitar o fato de que seu único filho gostasse das coisas que ele mais odiava. Isso não era relacionado a uma casa de Hogwarts, como papai, mas sim relacionado com sua própria honra, natureza, educação e princípios morais.

Assim, Scorpius e Draco eram um pouco separados como pai e filho. E logicamente, os dois, principalmente Scorpius, queria ser mais unido ao pai. Mas como se negligencia á sua educação e princípios morais? Eu não sei. Draco também não sabia. Por isso era afastado de Scorpius. O sentimento que Draco possui ao ver o filho comigo é o mesmo de Harry Potter ver Alvo Severo como um Comensal da Morte. Mas o sentimento de Harry é apenas suposição, o de Draco é realidade.

Então não se pode negar que Scorpius ligue, pelo menos um pouco, para aquilo. Claramente, Scorpius queria que o pai se livrasse daquele Yarmulkah e o aceitasse gostar de Tecnologia trouxa assim como ele gostava de Transfiguração. Assim como queria que papai se livrasse do pensamento ruim e me aceitasse ser Sonserina assim como ele me aceita a melhor aluna de Hogwarts. Hugo me aceita como Sonserina. Mamãe me aceita como Sonserina. Por que papai não me aceita?

Talvez a resposta dele seja a mesma de Draco Malfoy.

Levantei o rosto quando ouvi alguns gritos e comentários e vi Hermione no jardim, próxima á porta da cozinha com os braços cruzados. Vi os olhares de todos caírem sobre Hermione, principalmente o de Ron, que parecia espantando por ela estar ali.

Hugo pareceu querer se levantar e abraçá-la, mas se conteve, percebendo que aquela cena seria ridícula. Hermione fez um sorriso hipócrita e abraçou Ginny, dando os parabéns. Havia um pacote na sua mão direita, pequeno, mas que claramente significava o presente de Ginny. Ela o entregou e logo depois, abraçou tio Harry. Parecia estar com saudades dele, pois o abraço durou quase três minutos. Muitos da família, principalmente Ginny, Ron e vovó Molly pareceram se incomodar com o longo abraço de Harry e Hermione. Eu olhei para Al e imediatamente desviei os olhos quando os verdes dele me encontraram. Acho que se nós abraçássemos, faríamos como Harry e Hermione.

Ao soltar-se de Harry, Hermione sorriu para Al, James, Lily Luna e Hugo, que retribuíram o cumprimento. Ela respirou fundo e virou o rosto para encarar papai. Ron parecia não saber o que fazer ou dizer e certo desespero pareceu atingi-lo. Os olhos azuis de Ron me encontraram e nunca os vi tão tristes.

'É, ela veio mesmo.' Recompôs Scorpius.

'Eu disse.' Rebati pseudo-orgulhosa de minha estatação.

'Ela deve estar se sentindo terrível.' Comentou Gabrielle com uma pequena careta. 'Deve ser difícil agir normalmente quando se sabe que todos ali estão pensando mal de você.'

'É.' Era bem o que estava acontecendo comigo naquela hora. Supostamente, deveria agir normalmente enquanto todos os outros estariam pensando mal de mim pelo que disse a Al. Mas claro que eles olhavam o que eu tinha dito a ele, não o que ele tinha dito a mim. As pessoas sempre escolhem um lado pra qual torcer e quase nunca tentam saber as duas versões da história. O que basicamente também diz sobre Hermione.

Agora Hermione era vista como traidora, sem coração ou coisa do tipo per ter deixado Ron. "Ow, Rony, por que alguém o deixaria? Ele é tão engraçado, não há motivos razoáveis suficientes para deixá-lo!" Hermione então é vista como a idiota e a ridícula, mesmo que o idiota e o ridículo fosse o outro.

Pelo silêncio feito entre eles, Hermione decidiu falar com os outros da família deixando Rony um pouco desconcertado. Papai engoliu em seco e olhou para a grama mal feita sem jeito, quase com um pouco de culpa talvez. Harry foi tentar animá-lo.

Por eu estar distante não era capaz de ouvir a conversa entre Harry e Rony nem de Hermione com os outros e por isso passei a voltar a conversar com Scorpius e Gabrielle. Os dois pegaram cadeiras e se sentaram ao meu lado, percebendo que aquele lugar era o melhor para se observar.

'Todos parecem felizes.' Comentou Scorpius com um tom de voz diferente. Virei o rosto pra ele e o encarei. 'Sabe, contentes com suas vidas.' Ele terminou bebendo um gole de vinho.

'Mamãe não é feliz.' Respondi voltando o rosto para o ponto em que olhava antes.

'Como sabe?'

Lembrei da carta que li onde ela havia escrito para Viktor Krum sobre o relacionamento dela com papai. Levantei os ombros pesados. 'Eu sei. Ela foi feliz com Ron até onde deu, e eu sei que no fundo ela o agradece por isso, mas agora ela não é mais. Ela tem lá algumas felicidades com Ron, mas não plenas como eles costumavam ter.'

'Ela já não se vê como pode continuar a ter uma vida com ele...' Falou Gabrielle e eu acenei novamente com a cabeça.

'No fim, o relacionamento deles era como uma sanduicheira. Você esquece que tem uma, entendem? E fica guardada lá em cima juntando o pó e a gordura sem que você tenha a vontade de limpar. E mesmo que você não veja, você assume que está quebrada e não funciona mais, pensa que se tivesse funcionando faria sanduíche, mas não, você só fica lá pensando que está quebrada. Aí um dia, você acorda e tem um desejo de comer sanduíche e aí você pega a sanduicheira e fica maravilhado por estar funcionando, entende? E ai você pode ter o tipo de sanduíche que quiser. Você faz um misto quente, um só de queijo...'

'Presunto.' Completou Scorpius.

'Ricota e frango.' Complementou Gabrielle.

'Atum e milho'.

'Nutella! Adoro Nutella!'

'Nutella. E aí, o quão rápido veio o desejo de sanduíche, ele se vai. E aí mais uma vez você coloca a sanduicheira de lado para pegar poeira e gordura, e sabem o quê?'

'O quê?' Eles perguntaram em uníssono.

'Você não sente falta.' Respondi por fim.

'Então, está dizendo 'Não esconda a sanduicheira, use-a regularmente e terá sanduiche quanto quiser'? Indagou Gabrielle virando o rosto pra mim.

'Não, Gabrielle! Rose está dizendo 'Foda-se seu marido, faça um sanduíche.' Respondeu Scorpius bebendo mais um gole de vinho.

'Não. Estou dizendo que você enjoa de fazer sanduiche e por mais que varie o sabor é sempre sanduiche. A sanduicheira não faz Pretzels, waffles, panquecas ou crepes, só sanduiche. E você depois de tanto tempo não agüenta mais e guarda a sanduicheira assumindo que está quebrada, pois ela já não faz sanduiches tão bons quanto fazia antes.'

'Então é 'Foda-se seu marido e tente um Pretzel?'

'Não, Scorpius, é 'Faça seu marido fazer-lhe um Pretzel.' Rebateu Gabrielle e eu ri entre eles. 'Né, Rosie?' Levantei as sobrancelhas e Gabrielle pareceu feliz por ter dito algo consistente. Scorpius fez uma expressão que havia entendido a mensagem.

Parei de rir quando vi Hermione em pé á minha frente. Ela parecia estar mordendo o lado interno das bochechas, o que representava um pouco de apreensão da parte dela. Pisquei os olhos e a encarei tentando não transparecer meu perturbado interior.

'Você está bem, Rose?' Ela perguntou preocupada. Confirmei com um aceno positivo. 'Que bom, pensei que estava mal por ter discutido com Al. Fiquei preocupada quando soube...'

'Tá tudo bem, mãe. Não ligo.' Disse levantando os ombros firme. Ela respirou fundo e soltou um 'hm' como murmúrio.

'Vocês já estão se falando novamente?' Ela perguntou curiosa.

'Não. Mas não ligo.' Respondi com certo azedume. Vi Hermione olhar para Gabrielle, que como Scorpius, sempre se mantinha calada perante mamãe. Não sei se era por respeito, mas os dois eram as pessoas mais educadas á frente de Hermione.

'Entendo... Bom, o que está achando da festa?' Ela perguntou olhando para o resto do jardim.

'Entediante. Nunca fazem nada de divertido, só conversam.' Reclamei fazendo uma pequena careta. Hermione acenou positivamente com a cabeça. 'Odeio esse lugar.' Complementei com raiva.

'Como está seu pai?' Ela perguntou voltando o rosto para mim.

'Por que não pergunta pra ele? Ele lhe dirá melhor do que eu por certeza.' Hermione respirou fundo mais uma vez.

'É. Tenho que falar com ele... Bom, aproveite a festa.' Ela disse normal. Saudou Gabrielle e Scorpius, que retribuíram com um sorriso, e ela voltou ao lugar onde os outros estavam. Gabrielle e Scorpius olharam pra mim meio inexpressivos. 'Quê?'

'Hm... nada.' Disse Gabrielle dando de ombros.

Scorpius apenas ficou calado. Olhei pra ele e ele começou a amassar a grama malfeita da Toca. 'Algum problema, Scorpius?' Perguntei a ele curiosa.

'Não'. Ele respondeu negando. Ficou um silêncio meio perturbador entre nós. Estranho. Nós não tínhamos esses silêncios constrangidos. Instintivamente, procurei Alvo com os olhos e o vi triste, comendo um croissant e não aparentando dar atenção ao que Hugo lhe dizia.

'Não acha que foi muito rude com sua mãe?' Indagou Gabrielle quebrando o silêncio constrangedor entre nós.

'Acho. Esse é o propósito.' Falei com amargura.

'Ah, Rose, sua mãe é legal. Não deveria ser assim com ela.' Disse Scorpius e olhei pra ele de certa forma espantado.

'O quê? Como diz isso da minha mãe? O que sabe sobre ela?' Perguntei num tom de voz agudo e fino com uma leve irritação.

'Ela é legal. Foi ela que nos avisou sobre sua discussão com Severino.' Ele respondeu levantando os ombros. Franzi a testa lembrando que eles disseram que foi ela quem pediu para me visitar no dia em que quase decidi aniquilar-me das minhas coisas.

'É. Ela nos pediu para animá-la e não deixar fazer coisas das quais se arrependeria.'

'Eu não me arrependo das coisas que faço!' Falei com raiva. Eles olharam pra mim com as sobrancelhas levantadas. Fechei os olhos. 'Tá, talvez me arrependa de algumas coisas...'

'E bom, de alguma forma, todos nós sabíamos que você seria afetada pelo Severino.'

'Wow, o quê?' Eu perguntei virando-me para Gabrielle com o que ela tinha acabado de dizer. 'Está dizendo que sou dependente de Alvo?'

'Bom, não dependente, mas você se importa com ele e de alguma forma não ficaria bem sem ele...'

'EU NÃO PRECISO DE ALVO! PAREM DE AGIR COMO SE PRECISASSE DELE PARA MINHA VIDA!' ' Falei alto de forma revoltada levantando-me da minha cadeira. 'Não sou uma boçal doente por ele! Posso viver minha vida muito bem sem Alvo Severo!'

Percebi em segundos que não só Gabrielle e Scorpius haviam escutado o que disse, mas todos que estavam naquele almoço no aniversário da Gina. Olhei para meus dois amigos sentados naquelas cadeiras e fechei os olhos recuperando o ar dos meus pulmões. Ótimo, agora não só Hermione, mas eu também estava sendo vista como a traidora, sem coração que machucou os sentimentos de Alvo. E quer saber, estava cansada daquilo. Minha sanduicheira ficara velha e gordurosa.

Com raiva, saí daquele jardim sem me preocupar com os olhares que me davam, inclusive o dele, e fui para á Toca ficar em algum quarto, sala ou aposento que me deixassem longe de tudo aquilo. Acabei subindo as escadas e indo para o quarto que era de Gui Weasley. Chutei com força o pé da cama que a fez cair, talvez pelo tempo em que estivera ali.

Apoiei a cabeça na parede laranja próxima aporta e fiquei a respirar fundo, tentando resgatar algo do fundo do meu âmago. Quem sabe coragem, quem sabe força, quem sabe competência. Algo que me desse força interior e parasse de me sufocar como se estivesse sendo soterrada por alguém.

Senti um pouco mal por ter gritado com os dois. Eles eram meus melhores amigos e eram as únicas pessoas que tinha no momento. De uma forma até ridícula havia chamando atenção. Quis me desculpar com eles por aquilo.

'Rosie?' Chamou Gabrielle por mim no andar de baixo.

Respirei fundo e abri a porta do quarto de Gui e fui até o corredor, olhando pra baixo. Scorpius também estava com ela. 'Quê?' Eles olharam pra cima para me ver.

'O que está fazendo ai em cima?' Comentou Scorpius piscando os olhos azuis. Encarei-os e meu coração bateu forte dentro do meu peito. 'Vamos, desce daí.'

'É, pára de pirraça e vem logo. Se for pra ficar no quarto, a gente vai embora...'

'Isso é chantagem?'

'Não, é um argumento. Só estamos aqui por você, se vais ficar num quarto entediada vamos embora.' Olhei para os dois e os vi levantarem as sobrancelhas.

'Além disso, sabe que não dissemos que você é uma boçal dependente de Severino pra viver.'

É, de certa forma, ela estava certa. Eu só falara aquilo como uma forma de expulsão e contorno para uma nova terceira perna. Meu estômago se revirou mais uma vez e desci ás escadas para me encontrar com eles.

'Desculpe ter gritado com vocês.' Falei sentindo-me meio mal por ter chamado tanta atenção.

'Você não gritou conosco, Rose. Gritou com todos os Weasleys.' Falou Scorpius abraçando-me pelos ombros. Gabrielle apenas confirmou com a cabeça e agradeci o fato dos Sonserinos terem noções que Grifinórios usualmente não possuem.

Quando voltamos para o jardim, percebi os olhares novamente á minha direção. Como Gabrielle e Scorpius conseguiam ignorar de bom feito os olhares tortos, eu acabei aderindo a eles e tentar não me incomodar com os Weasleys. Todos já me viam como a sem coração e nada que eu fizesse tiraria essa minha nova imagem. Então, que se dane. Se a vida é rude com você, seja rude com a vida. Uma hora você ganha dela.

O almoço não demorou muito a ser servido. Gabrielle, Scorpius e eu decidimos comer no lugar oposto em que estávamos sentados. Ainda era afastado dos outros, mas era perto da cozinha, onde se dava para ver todo o aposento da Toca através das janelas. Levamos uma mesa para onde estávamos, e nós três passamos a conversar naturalmente como sempre. Sentia ainda que algumas persistiam em dar-me olhadas com algo de preocupação, raiva e até inveja. Mas de quem não sabia bem.

Procurei Hermione instintivamente e franzi a testa quando não a encontrei. Meus olhos passaram pelo jardim para perceber que papai e Harry também não estavam no almoço. Devem estar conversando.

'Então, seus pais sempre vão para West End?' Perguntei a Scorpius curiosa. Ele engoliu a porção de comida e se pôs a responder.

'Uma vez por mês. Última vez foram ver Romeu e Julieta.'

'Eles só assistem Shakespeare. É um saco.' Comentou Gabrielle e eu ri.

'Por quê?' Perguntei a ele. Ele levantou os ombros.

'Acho que papai prefere as peças que não possuem finais felizes. Shakespeare é mestre nisso.'

'E um saco.' Argumentou Gabrielle. 'A maioria de suas peças são sátiras e até piadas e muita gente aplaude como sendo uma história fantástica ou coisa do tipo. Vide Romeu e Julieta, são dois adolescentes idiotas que se apaixonam e se matam porque acham que não vão encontrar outro amor na sua vida. Isso é patético e as pessoas acham isso lindo.' Ela reclamou com uma careta de profunda raiva.

'Ah, mas é algo meio cultural. As pessoas acham lindo quem sofre por amor.' Falei bebendo um gole de suco de uva.

'Principalmente mulheres.' Completou Scorpius.

'Eu acho patético. Você já pensou se todas as mulheres se matassem porque seus namorados terminassem com elas? Eu não me enfiaria uma espada entre minha pleura se Scorpius morresse. Nem fudendo que acabo minha vida por um garoto estúpido.' Levantei as sobrancelhas e Scorpius e fez uma careta realmente engraçada. 'Você se mataria por causa de mim, Scorpius?'

Scorpius entortou a boca para o lado esquerdo. 'Nem! Tenho mais o que fazer.' Gabrielle pareceu satisfeita com a resposta e nós três rimos. Mas até que ela tinha razão. Se todos fossem que nem Romeu e Julieta, Hermione teria se matado ao abandonar papai. E eu não imagino Hermione morrendo por isso. Ela morreria para protegê-los, para nos proteger, mas não tiraria a própria vida porque agora ela estava cansada de Ron.

'Você morreria, Rose?' Perguntou Scorpius parecendo curioso.

Eu não me imaginava morrendo por causa de Alvo ou Scorpius. Não sei. Assim como mamãe, eu poderia morrer por eles, mas por causa deles, não acho que aconteceria. 'Não.'

'Mas é claro que não, só idiotas se matam por causa de amor.' Rimos com o comentário de Gabrielle fazendo o clima ficar ainda mais leve.

Percebi que o céu começava a ficar alaranjado, declarando o que pôr do sol estava bem próximo. Eram quatro horas da tarde, mas no verão, na Inglaterra, o céu começava a se pôr entre ás quatro e meia e ás cinco horas da tarde.

Ron saiu da cozinha da Toca para o jardim e a expressão em seu rosto mostrava um homem quase que derrotado. Não havia um sorriso sequer, seu coração parecia murcho, já perdido num corpo vazio e silencioso. Parecia ter inexplicavelmente até então sonhado e somente agora abria os olhos. Somente agora Ron reunira energia o suficiente para virar casulo.

Meu estômago se revirou com vários sentimentos juntos que não fui capaz de nomeá-los, nem ao menos renomeá-los como queira. Viscoso, rabugento, latente, fino e estreito. Essas pareciam as medidas dos sentimentos que me tomou ao ver o rosto de Ron e através da janela da Toca, vi Hermione, que se abraçava com Harry, e parecia chorar em seu ombro. Antes que pudesse compreender, o chão descera até onde não se poderia enxergar, caindo no fundo do abismo, longe, tão longe, que não haveria como voltar. Ao contrário do casulo Ronald, Hermione não passava de uma inconstante borboleta.

A fome que até então me atingia fora embora e deixei meu almoço de lado, sentindo apenas meu coração bater fraco no peito e suposto ardor em minha garganta. É. Não tinha pra onde ir. Não tinha nem lugar para qual querer ir. Ás vezes, nem á nossa cabeça podemos ir.

Harry então beijou o rosto de Hermione e afastou-se, deixando-a na cozinha, e vindo para o jardim. Supostamente não poderia deixar a mulher, a aniversariante, sozinha. Hermione limpou ou tentou limpar as lágrimas que caía dos olhos com tanta naturalidade tanto quanto respirava.

Engoli em seco e um nó pareceu engatar-me. Um gosto amargo de fel descia pela garganta. Gabrielle e Scorpius pareceram notar, mas decidiram ficar quietos e não tocarem no assunto. Por isso, novamente, um silêncio nos envoltou.

Um 'pop' se fez presente no jardim quebrando nosso silêncio e levantei o rosto para ver quem poderia ser. Pisquei os olhos quando reconheci Draco Malfoy. Ele fez uma nítida careta ao olhar para os Weasleys ali presente e quando nos achou numa mesa distante, ele ignorou os olhares e comentários dos outros e caminhou para onde estávamos. Com a mão esquerda chamou Scorpius e percebi que ele ainda estava com o Yarmulkah.

'Vamos embora, Scorpius.' Olhei para os meus amigos e eles pareceram pedir desculpas por terem que ir naquela hora.

'Oiy, Malfoy.' Chamou tio Harry atrás dele com a voz irritada. Draco respirou fundo e virou-se para encarar Harry. 'O que está fazendo aqui?'

'Vim buscar meu filho, Potty!' Reclamou com uma careta. Scorpius piscou os olhos azuis para a mesa em que estávamos. Notava-se certa decepção na voz de Malfoy. 'Diferente de vocês, fazemos coisas mais interessantes que almoços no meio do mato.'

Harry fechou a cara e olhou para mim parecendo pedir ajuda para enfrentá-lo. Eu que não ia enfrentar Draco Malfoy.

'Rosie, você realmente não quer ir conosco?' Perguntou Scorpius se levantando da cadeira. Percebi Draco desviar os olhos para o lado direito inseguro e nervoso.

Balancei a cabeça negando. 'Não.'

'Bom, então, nos vemos depois.'

'Podemos combinar para assistir The Wiz.' Tentou Gabrielle animada. Eu sorri pra ela de forma cínica.

'Vamos, pai.' Chamou Scorpius já se afastando da mesa. Ele parou e chamou Malfoy novamente. 'Pai?'

Draco tinha os olhos azuis focados nas janelas da Toca. Acompanhei o olhar dele e encontrei novamente Hermione na cozinha, ainda chorando pela conversa entre Ron, Harry e ela. Os olhos azuis de Malfoy estavam um pouco abertos e seu rosto era de alguém perplexo, como se tivesse surpreso por ter visto Hermione chorando. Ele engoliu em seco discretamente e sua mão esquerda se fechou, aparentemente apertando o Yarmulkah que envolvia seu braço.

'Algum problema, Malfoy?' perguntou Harry se pondo ao lado de Draco e percebendo seu olhar em direção a Hermione.

'Por que Granger está chorando?' Ele indagou curioso.

'Por que te interessa?' Percebi Scorpius levantar os olhos azuis para observar o pai. Draco olhou para Harry e entortou a boca para o lado esquerdo. Logo, ele pareceu olhar para Ron sentado á mesa ao lado de Jorge e Angelina.

'Weasley huh?'

'Por que te interessa?' Tio Harry repetiu a pergunta fitando os mesmos olhos verdes de Al nos azuis de Malfoy.

'Porque fico feliz quando todos notam o quão patéticos vocês são.'

'Você, Malfoy, é de longe a pessoa mais patética daqui.'

'Melhor ser patético do que sujo, Potter.' Ele respondeu com uma careta. Tio Harry pareceu ficar ainda mais com raiva.

Ron logo levantou-se de onde estava veio até nós preocupado e curioso com o que estava acontecendo. Ou poderia acontecer. 'O que está acontecendo aqui, Harry? O que ele está fazendo aqui?'

'Só vim buscar meu filho, Weasel.'

'Pois já achou, agora vá embora, patife!' Olhei para o chão um pouco envergonhada com papai. Aquilo era realmente necessário?

'Patife? De patife nada tenho, Weasley, afinal, não faço minha mulher chorar.'

Papai se enfureceu de vez e um soco feriu no rosto de Malfoy. Olhei para Gabrielle e Scorpius e eles estavam completamente atônitos. Os outros Weasleys vieram para onde estávamos. Alguns para separá-los, outros para incentivá-los (caso de Tio Jorge, James Sirius e Roxanne). No chão, os dois brigavam e feriam socos e chutes contra o outro. Tios Percy, Harry e Gui tentavam separá-los, e alguns outros, como eu, Scorpius e Gabrielle, ficavam só assistindo esperando alguém deles parar.

'Você não ouse a falar de mim e Hermione, Malfoy!' Ron parecia completamente fora de si, xingando e gritando Malfoy num desespero que xingava e gritava com ele próprio.

Tio Harry e Tio Percy seguraram Rony que nervoso dizia palavrões e xingamentos para Malfoy. Draco entortou o nariz em uma careta de asco e bateu as mãos sobre as vestes que antes limpas estavam sujas agora.

'Vá embora, Malfoy. Ninguém o quer por aqui.' Mandou Gina como se fosse a dona do lugar por ser seu aniversário.

Draco virou os olhos azuis para os castanhos de Gina. 'Você, Weasley, não manda em mim.'

'Está na minha casa!'

'Sua casa? Chama isso de casa? Imagino o que seria sua mansão, talvez uma despensa de cozinha!'

Desta vez fora Harry quem dera um soco em Malfoy. É incrível mesmo que bruxos se esqueçam que possuem varinhas e batem uns nos outros como grandes Trouxas bárbaros. 'Não permitirei que fale assim com Ginny, Malfoy!'

'O que está havendo aqui?' Quem dissera isso fora Hermione. Todos nós viramos o rosto em sua direção. Mamãe ainda tinha marcas de choro pela conversa que tivera outrora com Harry e Ron.

Draco apertou ainda mais o Yarmulkah. Ele deu um sorriso esnobe e guardou as mãos nos bolsos da calça escura. Assim como Scorpius, seus ombros ficaram mais largos e ele inclinou a cabeça para o lado, desdenhando Hermione. Havia alguns ferimentos no rosto, principalmente na boca, pelos socos desferidos por Ron e tio Harry.

'Como sempre se metendo nas coisas dos outros, não é, Granger?' Ele perguntou com raiva.

'É Weasley, Malfoy... Weasley!' Gritou papai revoltado. Malfoy fechou os olhos com força enquanto apertava forte o Yarmulkah. Mamãe abaixou o rosto para o chão. 'Não vê? Hermione é minha mulher e ela não é mais Granger! Acostume-se!'

'Acostumar? Eu jamais vou me acostumar, Weasley. Jamais verei Granger como uma pertencente ao mundo bruxo. Diga Granger, você não poderia ter usado a Poção Amortentia em outra pessoa?'

Poção Amortentia era a poção do amor. Divide-se em nove níveis e é talvez a poção mais proibida do mundo bruxo. Em seu nível mais alto, nove, ela causa obsessão pelo amor de outro e é capaz de até mesmo matar pessoas para ter a imagem de que ficaria com a pessoa que se ama. Integralmente, Malfoy não imagina que um bruxo puro possa se casar com uma Trouxa, então lhe resta o pensamento de que mamãe se utilizara de uma poção do amor. Ao mesmo tempo, Malfoy pensa que Hermione jamais poderia ter se casado com Ron, porque para ele, internamente, bem internamente, ele sabia que ela merecia coisa melhor.

Então percebi. Draco Malfoy odiava mamãe, mas não por ela ser Trouxa, mas por ela ter se casado com papai.

'Talvez como fez Weasley Fêmea, poderia ter usado em Potter. Faria mais sentido!' Draco sorriu esnobe para mamãe, o que fez papai desferi-lo um soco com força no rosto sem que Malfoy pudesse se defender.

'Você não fale isso da minha irmã!' Rebateu Ron completamente fora de si. Gina também parecia ter vontade de batê-lo, mas se controlou. Mais uma vez, tio Percy segurou papai. Harry apenas encarava Malfoy com profunda raiva.

'Você é um salafrário, Malfoy!' Disse Hermione com o tom de voz firme e aguda. Ela não entendia como alguém poderia ser como Malfoy.

'Salafrário? Salafrário?' Ele indagou rindo em desdém. 'É... Falta um salafrário, na sua vida, não é?'

Meu coração bateu oco entre meus intestinos. Um silêncio sepulcral se fez no jardim dando a impressão que o aniversário de Ginny havia se transformado num enterro. Os olhos castanhos de Hermione se arregalaram e ela engoliu em seco enquanto Malfoy tinha uma expressão de completo desdém.

'O quê? Não, não. O que falta na minha vida é um cara gentil.' Mamãe respondeu olhando para baixo, já sabendo que sua resposta era um ponto a mais no quesito traidora e sem coração. Papai arregalou os olhos azuis e não pareceu demorar a chorar.

'Eu sou gentil...' Todos olharam para Draco como se ele tivesse se redimido e beijado Hermione ali mesmo. Olhei para Scorpius e ele estava completamente perplexo. Gabrielle estava com um sorriso no rosto. "Eu disse que esses dois tinham algo..." Ele comentou no meu ouvido, olhei pra ela com o cenho franzido e ela parou de rir.

E eis que de repente Hermione e Malfoy param e mudos, graves, espantados se olham nos olhos, atentando a todos os pontos indevassáveis de seus corpos, pensando-se todos em palavras, recopiando o próprio existir.

Estavam previamente a amarem aqueles que um dia amariam. Quem sabe lá, isso às vezes acontecia, e sem culpas nem danos para nenhum dos dois.

E sem nem precisar se utilizar de um Yarmulkah...