Não vou me prolongar. A única explicação que posso dar é que minha vida teve mais baixos do que altos nesses últimos anos. Eu ia tentar escrever uns quatro capítulos antes de postar (esse aqui já tem mais de ano que ta pronto) mas não consegui escrever muito além disso. Pretendo voltar. Até lá, que vocês saibam que BMTL está vivissima! Torçam por mim, esse ano é ano complicado (ultimo ano da faculdade e provas para residencia no final do ano), mas da última vez que estive em situação semelhante (vestibular) eu criei essa fic.

Então mandem energias positivas, que essa fic será concluída real oficial!

OBS: Muito obrigada a todas as reviews, vocês são as pessoas que me motivam a não desistir de finalizar essa história.


Bring me to life

Entrar no hospital de Magnólia foi tão difícil quanto ela esperava que seria. Apesar de todas as táticas de disfarce, a segurança criada pelos magos Fairy Tail era fortemente organizada, tornando aquele prédio silencioso em uma verdadeira fortaleza. Até mesmo o perímetro do hospital era defendido por magos fortes, que em caso de necessidade teriam espaço para causar a destruição que precisassem para proteger o que queriam.

Mas, ainda assim, ela conseguiu entrar sem chamar atenção.

Nos corredores foi outra história, pois em meio a tantas pessoas que já deviam se conhecer tanto naquela cidade relativamente pequena, ela era claramente a única pessoa diferente. A sensação de olhos a acompanhando fazia com que ela ficasse ainda mais inquieta, mesmo com todo o treinamento que havia passado antes de entrar pra Aliança dos Cinco.

Porém, um pouco antes de achar o corredor do quarto que possivelmente era de Lucy, a segurança arquitetada pela guilda se mostrou realmente efetiva.

Erza estava parada no corredor, encarando-a como se tivesse acompanhado todo o seu desenvolvimento até então e soubesse desde o início que era ela ali no hospital. A postura incisiva e ao mesmo tempo não ameaçadora criava em Pops uma sensação ruim, como se a ruiva soubesse que ela não gostaria do que estava acontecendo mas que, ainda assim, ela não teria espaço nem voz para impedir que tudo se mantivesse.

"Pops Blackhole." Erza comentou com seriedade, em um timbre de frieza que fez com que Pops sentisse um arrepio passar por todo seu corpo. Ela não tinha medo da outra maga, pois sabia que a própria magia lhe dava vantagem em um hospital e ainda mais em um corredor tão apertado - Erza, diferente dela mesma, não teria espaço para agir.

Porém, no final das contas, Pops respeitava Fairy Tail, mesmo depois de tanto tempo odiando-os assim como odiara todas as outras guildas legalizadas. Ela tinha vindo em paz.

A prioridade era Lucy.

"Erza." Respondeu, sem muitos floreios. "Onde está a Lucy? Como ela está?" Eram as principais preocupações que ocupavam sua mente.

Os olhos castanhos de Erza se estreitaram e a tensão em seu corpo aumentou visivelmente. Pops poderia estar interpretando errado a situação, mas naquele pequeno instante lhe pareceu que a maga não estava se preparando para lutar contra ela...

Mas, sim, se forçando a permanecer onde estava.

"É uma história longa e maluca." A ruiva respondeu. "É melhor você se sentar enquanto eu explico."

E foi exatamente o que Pops fez.

Uma conversa que só foi interrompida com os horripilantes gritos de dor de Natsu ao final do corredor e uma inquietante movimentação que surgiu logo em seguida.


Capítulo XII

Disclaimer: Os personagens são de autoria de Hiro Mashima. Somente aqueles que eu criar e o enredo pertencem a mim. Escrito por puro entretenimento, sem intenções lucrativas.


De início, era como se o mar de escuridão fosse o único momento de paz que ela tinha tido em anos. Porém, durante um tempo que poderia ser confundido com uma eternidade, uma dor se espalhou por todo seu corpo de uma só vez, como se uma explosão tivesse ocorrido e agora as chamas estivessem consumindo-a toda. Lucy sabia instintivamente que aquilo poderia ser resultado da quase possessão, mas em meio a todo aquele sofrimento ela não conseguia raciocinar direito. Seu corpo parecia brigar contra aquele fogo, mas era visível como ele não tinha mais forças para tal. O fogo se alastrava sem oposição, consumindo cada célula a seu alcance de forma lenta e torturante. Lucy era incapaz de colocar em palavras tudo o que sentia, pois o próprio corpo não a obedecia.

Era tarde demais.

Até que a dor excruciante foi embora de uma só vez, permanecendo levemente presente sem de fato incomodar.

Se a perguntassem sobre a hipótese de tal resolução, ela nunca poderia saber, pois a luta que ela brigava contra o fogo parecia perdida desde o início. Mesmo que ela tivesse se tornado uma pessoa tão vazia e indiferente a tudo e a todos, mesmo que ela já estivesse acostumada com a dor depois de tanto tempo convivendo com ela diariamente, aquela dor tóxica e residual do demônio do caos era a pior que já tinha sentido em toda sua vida. Era inesperado que todo o intenso sofrimento pudesse diminuir daquela maneira.

O primeiro som que percebeu era contínuo, um bip repetitivo e pulsante. A primeira coisa que sentiu foi o tubo que estava em sua garganta auxiliando em sua respiração, incômodo. A primeira sensação que teve foi a de um peso quente sobre a mão esquerda, transmitindo algum tipo de sentimento em seu toque e aperto.

E lentamente, Lucy acordou.

Os olhos castanhos começaram a se abrir com dificuldade, de forma pausada, piscando muito enquanto ela se acostumava com toda aquela claridade repentina, sentindo os reflexos de vômito e engasgo retornando junto com a noção de estar entubada. A sensação das pernas e dos braços, do corpo de forma geral foi retornando a sua consciência. O controle sobre si mesma retornou de pouco em pouco, e sem pressa Lucy passou a notar a própria situação: deitada em uma cama espaçosa de hospital, coberta até a cintura e conectada a vários aparelhos.

O quarto parecia estéril com suas cores brancas e com o cheiro de desinfetante típico de um hospital, sendo quase claustrofóbico se ela já não estivesse acostumada com coisas muito piores. A única presença ali dentro além dela mesma parecia estar muito concentrada em seus próprios pensamentos, pois pelos minutos que levaram a loira a observar onde e como estava, a ruiva ao seu lado não tinha ainda notado que Lucy estava acordada – mesmo que a maga estelar estivesse tossindo incomodada.

Então, finalmente, Lucy voltou o próprio olhar para Erza, sentada ali na poltrona com um semblante fechado em cansaço e concentrado em preocupação. Depois de tantos anos poderia ser surreal aquela cena, poderia ser surpreendente e emocionante estar frente a frente de uma antiga companheira sem as amarras de Victor sobre a loira. Mas... Não foi. Não foi nada disso. Lucy não conseguiu sentir qualquer coisa.

Quando a ruiva percebeu que não era a única acordada no cômodo, vislumbrou um olhar indiferente a encarando sob as pálpebras cansadas e um franzir de testa que parecia indicar insatisfação. Por um segundo ela não soube o que ela mesma estava sentindo. Porém, no segundo seguinte, como se tivesse de fato saído dos próprios pensamentos e estivesse de volta ao plano térreo, ela resolveu fazer algo que desejava fazer todos os dias nos últimos cinco anos: abraçar Lucy.

A maga estelar sentiu os braços firmes de Erza envolverem-na cuidadosamente por sobre todos os cabos e fios que a monitoravam, mas focou o próprio olhar na branquitude do teto do quarto. Era quase monótono todo aquele momento. Lucy sentia como se estivesse emocionalmente anestesiada, mesmo que ela soubesse que na verdade a palavra certa seria 'dizimada'. Não restava emoção alguma dentro dela, não depois de tudo o que ela tinha passado.

Ela tinha se tornado uma boneca oca.

"Ah Lucy, fico tão feliz de ver você acordada." Erza falou baixinho, logo se afastando da maga estelar e observando-a com olhos marejados. "Vou chamar as enfermeiras, esse tubo deve estar te incomodando. " Dando um pequeno aperto na mão de Lucy, como se a reconfortasse de que voltaria, a ruiva saiu rapidamente do quarto.

Lucy voltou a fechar os olhos, já cansada mesmo com tão pouco esforço, adormecendo antes que Erza voltasse com as enfermeiras.

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Quando ela acordou de novo, ainda com lentidão, notou que o tubo que a ajudava a respirar tinha sido realmente retirado, o que poderia significar que a própria situação estava melhor. Mesmo que não fizesse diferença para ela mesma entender tudo aquilo, era automático fazer a leitura da situação em que ela se encontrava. Aqueles cinco anos tinham lhe treinado para coisas que ela, antes de tudo aquilo, teria considerado um automatismo não tão imprescindível.

Quando seus olhos castanhos se arrastaram pelo quarto, ela notou a presença de mais pessoas além de Erza.

"Lucy! " Gray, Juvia e Levy sussurraram juntos em felicidade. Levy se aproximou rapidamente, pegando uma das mãos da loira entre as suas e apertando forte. "Fico tão aliviada de te ver acordada! " A pequena comentou com lágrimas contidas e com um sorriso trêmulo enquanto Juvia e Gray permaneciam calados, acenando afirmativamente com a cabeça em concordância com a fala de Levy.

Os três com olheiras profundas e um cansaço quase palpável.

Lucy continuou encarando-os sem dizer nada, sem esboçar nada, até que o silêncio se prorrogou o suficiente para que o trio transparecesse rapidamente um pouco de frustração e culpa em seus rostos.

A loira arrastrou os próprios olhos castanhos pelo resto do quarto e os parou na direção da janela, olhando para o céu azul do lado de fora. Sentia-se muito fraca, sendo difícil até para mexer a cabeça para acompanhar aquele movimento ocular, mas naquela segunda vez demorou um pouco mais para dormir novamente.

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Ao acordar de novo, Lucy se deparou novamente com Erza. Porém, nesse segundo encontro, a ruiva se demonstrava mais deteriorada do que antes.

"Oi, Lucy. " Erza comentou carinhosamente, sorrindo levemente para ela. Lucy encarou-a por alguns segundos sem responder, e então voltou a olhar para a direção da janela. O sol parecia estar no pico, era possível escutar pássaros cantando e até mesmo ver algumas pétalas rosadas de Sakura voarem do lado de fora. "Você está se recuperando bem. Suas cordas vocais ainda estão muito danificadas, mas Wendy está conseguindo contornar essa situação e logo, logo você vai conseguir falar sem problemas. " A ruiva continuou, como se o silêncio e a clara indiferença não estivessem ocorrendo. "Você está acordando em intervalos menores de sono, então acreditamos que você não vai ficar por muito mais tempo no hospital. Nós pagamos o aluguel de seu antigo apartamento esse tempo todo, e vamos continuar enquanto você estiver se recuperando. Então, assim que sair daqui, levaremos você para ele. "

Lucy continuou observando o pouco que conseguia de Magnólia sem interesse verdadeiro.

"E... " Erza hesitou, mas olhou novamente para a loira que estava ali em corpo mas parecia tão distante em espírito, e voltou a falar, "temos uma visita ilustre para você. "

Como se essas palavras fossem o sinal que faltava, a porta do quarto se abriu e logo se fechou cuidadosamente, e passos hesitantes se aproximaram da cama. Tal movimentação não conseguiu a atenção da loira, então a nova pessoa caminhou dando a volta na cama e parou na frente da janela, forçando Lucy a notar que ela se encontrava ali.

Os olhos castanhos se acostumaram com a sombra repentina e subiram pela pele escura que ela já conhecia até os olhos azul turquesa repletos de carinho e de culpa que a encaravam. Os longos cabelos castanhos encaracolados cascateavam ao redor de Pops, tornando sua aparição quase etérea.

"Oi Lucy. " Ela cumprimentou, agachando-se para se aproximar mais da altura que a loira estava deitada. Com um sorriso, ela levou uma das mãos até os cabelos loiros lisos e começou a acaricia-los, como tinha feito nos últimos anos como forma de consolo. "Eu estava muito preocupada com você, sabia? " Continuou, pegando com a outra mão a mão de Lucy e a apertando forte, "Eu demorei um pouco para chegar, mas acho que cheguei na hora certa. "

Lucy esboçou um pequeno sorriso com a boca fechada, fazendo com que o coração de Erza se apertasse dolorosamente dentro do próprio peito.

Naquela vez, com Pops ali, Lucy permaneceu acordada por uma hora.

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Nos próximos dias, Lucy retornava aos poucos ao ciclo circadiano normal de uma pessoa, com os horários de vigília e de sono correspondentes aos do restante da Guilda. Assim, tornou-se mais frequente visitas diferentes, de pessoas que ela ainda não tinha visto, pois quando as pessoas chegavam ela estava acordada. Wendy era uma das mais presentes, pois aparecia a cada três horas para continuar tratando a garganta de Lucy, suas cordas vocais destruídas e calejadas. Charlie sempre a acompanhava, mas diferente de seu comportamento habitual, evitava fazer comentários sarcásticos ou sabichões.

Pops praticamente não saía do quarto.

Ela não tinha para onde ir e tinha ido para Magnólia por causa de Lucy, decidindo que permaneceria ao lado da loira o quanto ela precisasse, até o momento que ela dissesse que não era mais necessário.

Pops receava o dia que esse momento chegasse.

"O estrago foi muito profundo, mas se eu continuar fazendo o tratamento como estou fazendo, acho que vou conseguir normalizar a situação, Lucy. Logo você vai conseguir falar sem problemas. " Wendy comentou carinhosamente, ainda com as mãos brilhando sobre o pescoço de Lucy.

Lucy, que observava a Lacrima TV, voltou seu olhar para uma Wendy cansada e cabisbaixa, encarando-a por alguns segundos antes de voltar a assistir ao programa que passava. A Dragon Slayer entendeu.

"Não tem de que. " Wendy comentou, sorrindo. Pops observava a troca entre as duas e sorriu levemente. Desde que havia chegado ela tinha notado como Lucy estava se desligando do mundo e das pessoas que cuidavam dela, em um comportamento indiferente que por vezes nem mesmo demonstrava reconhecimento de que eles estavam dentro do quarto. Ver ela mudar esse comportamento com a pequena Dragon Slayer diminuía pelo menos um pouco a preocupação e a culpa que Pops sentia, pois para ela aquele pequenino passo poderia ser só o primeiro para que toda aquela situação se resolvesse.

"Bom, daqui a pouco eu volto para continuarmos. " Wendy comentou carinhosamente, passando as costas de uma de suas mãos pela testa e limpando o suor que se encontrava ali. Lucy continuou olhando para a Lacrima TV, mas deu um pequeno sorriso fechado para indicar que tinha ouvido. Wendy sorriu cansada e saiu do quarto, acenando brevemente com a cabeça para Pops em despedida.

"Você não pode continuar desse jeito, Wendy. Nós sabemos o quanto isso é importante, mas se você adoecer as coisas só vão piorar. " Lucy e Pops foram capazes de ouvir as palavras baixas de Charle, assim que a porta se fechou.

"Eu sei. Mas eu vou ajuda-los Charle. Eu preciso. Não consigo deixar a Polyushka cuidando disso sozinha. " E depois daquela resposta, o silêncio voltou a reinar no quarto, incomodado somente pelo volume baixo da TV ligada.

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Os dias foram passando e se tornando em semanas que se tornaram em um mês. A recuperação de Lucy demorou mais do que todos tinham previsto, mas no final daquele período, ela recebeu alta com o corpo saudável, necessitando apenas de um pouco de repouso e cuidados básicos em sua alimentação.

Porém, mesmo que Wendy tivesse conseguido reverter o terrível dano nas cordas vocais de Lucy, a loira não voltou a falar.

Seus olhos castanhos continuavam nebulosos, mortos, e a mensagem era clara: ela não tinha vontade de se pronunciar.

Ninguém desistiu, entretanto, de lutar por uma reaproximação com a maga estelar. Por mais que Lucy parecesse acolher somente Pops, mesmo que sem palavras ditas e somente com uma linguagem corporal receptiva, todos da guilda continuaram a fazer visitas frequentes em seu apartamento, fazendo a limpeza por ela e levando guloseimas que se lembravam que ela gostava.

Os espíritos estelares continuavam lacrados em suas chaves. Silenciosos. Mesmo aqueles poderosos o suficiente para virem à terra sozinhos, como Loke, não conseguiam.

E nada conseguia mexer com aquela rotina anestesiada. O luto pela perda de companheiros na batalha, estava em estágio avançado, e por mais que todos estivessem superando tudo o que tinha acontecido eles se preocupavam principalmente com a irmã que tinha sido usada tão terrivelmente nos últimos 5 anos.

Era claro que as cicatrizes físicas tinham se fechado e que o corpo da loira tinha se recuperado, porém era ainda mais gritante como a sua mente e sua alma não tinham seguido essa mesma recuperação. A falta de demonstração de qualquer emoção ou característica falava mais do estado de Lucy do que qualquer outra coisa.

Sem que eles soubessem, o único momento que Lucy demonstrava o que se passava dentro dela era quando ela dormia.

Pops arranjou um colchão e o colocou ao lado da cama da loira, pois assim seria mais fácil ajudá-la a sair de todos os pesadelos que ela tinha toda noite.

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Era o primeiro dia que Lucy voltava de fato para a Guilda.

Depois de todos aqueles anos, de tudo o que tinha acontecido, depois do ataque feito para recuperar suas chaves, era praticamente alienígena estar de volta somente por estar. Por mais que não tivesse sido ideia dela, mas sim da Pops, Lucy estava ali sem coerções. Um mínimo de controle sobre si mesma que parecia bobagem, mas que no fim das contas fazia a diferença.

Porém, por mais que todos esperassem que estar naquele ambiente pudesse trazer à tona um pouco de vida para os olhos castanhos, isso não aconteceu.

Lucy caminhou para uma das mesas escondidas no fundo da guilda, direcionando no máximo o olhar para cada um que a cumprimentava, parecendo ao mesmo tempo alheia e perdida.

Todos foram até sua mesa por pequenos minutos, uns agindo como se nada tivesse mudado (Cana continuava expansiva, como sempre) e outros demonstrando uma quietude não característica (Elfman não tinha gritado uma só vez como era ser homem de verdade), e a única coisa em comum em todos esses momentos: eles não demandavam nada da loira, nenhuma resposta.

O dia passou devagar.

Os dias seguintes se repetiram da mesma forma.

As coisas não pareciam que mudariam nunca, mas Fairy Tail persistia.

Em todo aquele tempo, os únicos que não encontraram com Lucy foram Natsu e Happy.

Até que um dia esse encontro aconteceu.

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Era um dia como outro qualquer.

Lucy estava sentada na mesma mesa de sempre, com Pops ao lado conversando com Levy, fazendo-se presente em corpo mas ausente em espírito. As horas se arrastavam. O barulho na guilda estava mais contido, com o quadro de missões relativamente vazio. O automatismo continuava, fazendo com que todas as percepções do ambiente viessem sem esforço, sem que ela precisasse sair da própria bolha.

Talvez fosse um comportamento inconsciente, talvez não, mas o fato era que os olhos castanhos sempre ficavam fixos em um ponto longínquo e raramente mudavam de direção. Quando ardiam, secos, as pálpebras se fechavam por pequenos períodos de tempo; mas, assim que tornavam a reabrir, os olhos castanhos continuavam fixos no mesmo ponto de antes.

A mente de Lucy estava vazia. Ela não estava perdida em pensamentos nem em memórias, que insistiam em vir à tona somente durante seu sono, perturbando-a sem dó nem piedade. Era como se ela estivesse congelada no tempo.

"Pois é, eu fiquei muito frustrada com o final. Eu esperava no mínimo algo mais coerente com o que os outros livros tinham apresentado. " A voz de Levy soava por sobre a madeira da larga mesa, enquanto Pops concordava veementemente.

As portas da guilda se abriram lentamente.

"Eu concordo totalmente. Eu li tudo em tão poucos dias, tenho que te devolver os livros inclusive, mas eu sinto como se tivesse imersa na história de uma forma que a frustração da Amy é a minha frustração também! " Pops respondeu, calorosa. "Acredita? "

Os membros que estavam espalhados pela guilda ficaram agitados, felizes, e começaram a se reunir próximo à entrada.

"Acredito completamente. " Levy respondeu, indignada.

Comemorações começaram a soar por todo o hall. Até que um nome se sobressaiu ao barulho por ser repetido por várias pessoas ao mesmo tempo.

"E o que foi aquela indecisão com o Yuri? Meu deus, ela sofreu o primeiro livro inteiro por causa do Greg. " Pops reclamou.

O coração de Lucy começou a acelerar.

Tum-tum

As vozes das duas magas ao lado dela pareceram ficar submersas, como se a loira estivesse debaixo d'água.

Tum-tum

O suor frio na testa, nas palmas das mãos e nas dobras das pernas; a respiração trêmula que parecia rarefeita; Lucy tentava inspirar o ar com crescente velocidade, enquanto sentia a mente nublando. Ela sentia a própria pulsação em seus ouvidos, em sua cabeça, em todo o corpo. Cada pulso mais intenso que o outro.

TUM-TUM

Então, os olhos castanhos se direcionaram para o bolo de gente, e se encontraram imediatamente com olhos ônix que a encaravam de volta.

"Natsu, muito bom ver você de volta!"

O fogo que se alastrou por todo o corpo de Lucy naquele instante era incontrolável. Pela primeira vez em todo aquele tempo, ela sentiu. A maga estelar sentiu intensamente, de uma forma que ela mesma julgava ser incapaz. Ela sentiu raiva, uma raiva dilacerante que tomou controle da mente da loira e que esbravejava internamente:

A CULPA É DELE.

Seus pés começaram a funcionar sozinhos, caminhando lentamente, mas em passos firmes na direção que aqueles olhos ônix a encaravam tão...

"Lucy?" Pops a chamou, confusa.

E então a loira pegou o próprio chicote, libertando-o no chão e o infundindo com magia pura. A eletricidade criava fagulhas e barulhos de choque, começando a chamar a atenção dos mais próximos.

Com um único objetivo incrustado em seu corpo, automático, Lucy levantou o chicote em um arco longo, não se importando se outras pessoas fossem atingidas, e mirou no dono de toda a culpa de tudo que lhe tinha acontecido.

Natsu.