Quem reclamar que demorou muito vai levar tapa... BRINKS! Eu sei que você sofrem esperando pra saber o que irá acontecer nos próximos capítulos, mas com o decorrer da história fica mais complicado escrever qualquer coisa sem pensar muito em cada passo que darei. Quem preza por qualidade ao invés de quantidade de capítulos vai entender.
Mas vamos parar de enrolar e ir ler logo. Bellinha está oficialmente em Chicago, mas sem Dr. Dado nesse capítulo. BUUUUT, no próximo vai ter overdose dele \o/
Show me the love!
13.
Minha mesa do escritório agora se resumia a duas caixas cheias de objetos variados, totalmente bagunçados. Apesar de ter tido bastante tempo para organizar tudo até o último dia, protelei o máximo que pude o empacotamento de meus pertences e me encontrei fazendo apenas aquilo no meu último expediente na agência de Nova York. No dia seguinte, eu não iria mais encontrar Mike me esperando na entrada do meu prédio para irmos até o lado Norte da cidade, muito menos olharia através da janela do 22º andar para os carros pequenininhos na avenida. Minha vida estava de mudança para a Cidade do Vento e ia resumida dentro de duas caixas cheias.
Entre papéis, livros, portifólios e documentos importantes, estava retirando de vez a minha vida profissional daquele escritório e durante todo o mês após o anúncio oficial sobre as filiais e seus respectivos CEO, as pessoas se dirigiam a mim com aquele tom de despedida. Desde o porteiro do prédio que me cumprimentava todos os dias como se fosse o último, até meus colegas de trabalho, todos tinham uma atmosfera de luto meio bizarra. Era como se logo eu fosse morrer e ninguém mais me veria, sendo que eu retornaria a Nova York caso fosse preciso para alguma reunião presencial ou nos falaríamos por e-mails. Poderia muito bem mandar todos à merda e exigir que eles mudassem de atitude antes que eu me irritasse ainda mais, porém, respeitei aquela forma esquisita de cada um para lidar com as mudanças em 2012.
Permiti-me até mesmo frequentar os eventos sociais de despedida que meus colegas organizaram durante meus últimos dois meses em Nova York. No dia que Brad fez a reunião com todo mundo para informar que eu iria ser a CEO da filial em Chicago - e Matthew seria o CEO da filial em Los Angeles - pensei em recusar o convite de última hora para alguns drinks em comemoração, mas não queria ir para casa e encarar o teto do meu quarto esperando que a ansiedade que veio com a decisão desaparecesse. Por dois meses, conseguiria ser sociável e compensar os 4 anos em que eu fui a Senhorita Trabalho, e quem sabe conheceria melhor as pessoas com quem eu convivi tanto tempo se saber de verdade quem eram. E com o primeiro happy hour com os colegas, os convites não pararam de chegar e os "sim" se tornaram mais frequentes. Pela primeira vez em anos eu estava vivendo fora da minha bolha profissional.
Eu ainda não podia beber por conta da restrição médica e os quase cinco meses sem cigarro já estavam me deixando menos necessitada de nicotina, porém não foi um sacrifício tão grande assim passar algumas horas em um bar com música alta e pessoas bebendo. Sempre tinha alguém que me acompanhava na água mineral ou no suco, e nem sempre a maioria do grupo deixava o local bêbados demais para lembrar qualquer coisa. Muitos eram casados e seus companheiros não iriam ficar nem um pouco contentes caso eles extrapolassem na bebida, e esse era um dos fatos que acabei descobrindo. Até mesmo o noivo de Alice eu conheci naquele meio tempo, ficando feliz por minha assistente ter alguém que era nitidamente louco por ela como Jasper mostrou em nosso encontro.
Mas, mostrei muito pouco sobre mim mesma para essas pessoas que estava conhecendo como se fosse a primeira vez. Tentaram tirar alguns tijolinhos para abalar a estrutura do muro que insisti em erguer entre o mundo e eu durante esse anos, mas não queria deixar que as impressões que eu deixaria quando fosse embora tivessem qualquer relação com a imagem que eles construiriam, caso eu revelasse aspectos que ninguém imaginava. Desviei de perguntas cheias de curiosidades, menti alguma vezes, e no final eu ainda era a Bella super profissional que trabalhou demais até chegar a aquela promoção. Na agência de Nova York, eles só iriam me conhecer daquela forma e era melhor do que revelar o lado solitários e frustrado que estavam aflorando aos poucos.
Não vou negar que sentiria falta do cotidiano no escritório de Nova York, a dinâmica criada com aquela equipe que já trabalhava em conjuto muito antes de eu começar lá e me agregou ao grupo. Tal sintonia nos levou a vitória inúmeras vezes, ao patamar das agências de publicidade referência no país, e consequentemente consegui uma promoção invejável, só que não houve inveja ou qualquer tipo de tensão. Dava para perceber que ele estavam verdadeiramente felizes por mim, o que me deixava me odiando por pensar; e se não fosse eu? E se outra pessoa tivesse recebido a promoção em meu lugar? Eu estaria feliz por ele? As chances de eu ser a amargurada invejosa da história eram bastantes grandes, devo admitir.
A única foto que havia no escritório era do prêmio que a agência levou há dois anos por uma campanha que eu dirigi e foi eleita a melhor do ano. Lá estava a minha imagem, toda sorridente em um vestido caro, ao lado do Brad e do presidente da associação americana de propagandas. Pensei que aquele havia sido o grande momento de minha carreira, no entanto agora eu estava pronta para dirigir uma filial em outra cidade, com pessoas desconhecidas e muito mais pressão para aguentar. De agora em diante, minha carreira estava começando de verdade e aquela foto representaria todo o caminho que tive que percorrer até chegar ao topo.
Alice me encontrou analisando esse porta-retrato quando bateu duas vezes em minha porta entreaberta para chamar minha atenção. O expediente acabaria em menos de 1 hora e muito pouco fiz naquele último dia, mesmo que insistisse em procurar qualquer coisa, até mesmo algo que não fosse meu trabalho. Mas todo mundo estava disposto a me deixar livre para me despedir corretamente.
- Tudo organizado? - ela perguntou se aproximando de minha mesa.
- Acho que sim... - respondi deixando a foto dentro da caixa. - Só falta eu entregar os cartões da empresa e eu estarei oficialmente transferida.
- Tem planos para mais tarde?
- Como assim?
- Depois daqui... Vai sair para algum lugar?
- Provavelmente, não. Preciso terminar os últimos detalhes de minhas malas e a equipe de mudança vai chegar cedo, então... Sem planos.
- Você pode vir comigo um minutinho?
- Para onde? - perguntei desconfiada, mas ainda assim levantei e a segui para fora da sala.
- Confie em mim só pra variar, pode ser?
Eu não conhecia Alice tão bem assim para conseguir desvendar suas intenções por trás daquele sorriso, só que sabia que ela estava aprontando alguma coisa antes de eu ir embora. Talvez uma visita a sala de conferência para uma apresentação de PowerPoint mostrando todas as campanhas que eu já fiz na empresa, ou algo do tipo. Mas ao invés de seguirmos pela direita no corredor, ela virou a esquerda e entrou na copa da agência onde, geralmente, não havia nada além do micro-ondas, geladeira e mesa com algumas cadeiras. Porém, naquele começo de noite, todas as pessoas que trabalhavam na agência estavam espremidas na pequena salinha e gritaram "Surpresa!" quando eu entrei.
- O que é isso? - perguntei, realmente surpreendida.
- Uma festinha de despedida pra você. - Alice explicou me puxando para entrar de vez na no pequeno ambiente. - Ou você pensou que não iríamos fazer nada em sua homenagem?
- Eu não pensei em nada, para falar a verdade. Estou realmente... surpresa.
- Então o plano deu certo. - Brad comentou se aproximando de mim com uma garrafa de champagne. - Pronta para um brinde?
- Só uma taça, por favor. Ainda não posso beber tanto assim.
Na verdade, eram duas garrafas de champagne prontas para encher todas as taças das 20 pessoas reunidas naquele cubículo. Entre funcionários da limpeza, publicitários, assistentes e secretárias, todos estavam ali para se despedir de mim e desejar boa sorte nessa nova etapa, pelo o que eu pude perceber com a faixa presa na parede. Era totalmente estranho porque muitos eu mal dava bom dia quando cruzava no corredor, e alguns até mesmo fiz chorar durante alguma situação de extremo estresse em meio a uma campanha. O que eles queriam ali, então? Comemorar que a megera estava indo embora e logo eles poderiam trabalhar em paz? Só que os sorrisos sinceros que eu recebia me dizia o contrário então, eu estava mais confusa do que nunca.
- Claro que eu vou dizer algumas palavras antes de vocês começarem a encher a cara. - Brad disse fazendo todo mundo rir. - Eu fui responsável pela contratação de Bella quando ela veio com um currículo exemplar e uma segurança que eu não esperava em uma recém-formada. Você lembra o que me disse quando perguntei por que você queria trabalhar aqui na agência?
- "Eu quero ser a melhor e aqui eu sei que irei conseguir". - murmurei, revivendo aquela cena de quatro anos atrás.
- Eu soube desde aquele momento que você seria a melhor, Bella. E hoje foi seu último dia aqui em Nova York. Amanhã será seu primeiro dia em Chicago, como CEO da filial, e quando uma garota de 22 anos bater em sua porta dizendo que será a melhor se você der a oportunidade que ela espera, acredite. Pois eu tive fé em você e não me arrependo nem um pouco. À Bella.
- À Bella. - as outra vozes repetiram erguendo suas taças e brindando.
Tentei ao máximo controlar minhas lágrimas e estava conseguindo até o momento que Brad me fez relembrar quem eu era aos 22 anos. Cheia de sonhos, exalando força de vontade por todos os poros, louca para colocar em prática tudo que eu aprendi na faculdade e nos estágios. Eu já havia traçado todo o caminho que eu iria percorrer nos próximos anos como publicitária em Nova York, alcançando algumas metas que me propus a atingir, outras sendo deixada de lado. Como minha vida pessoal, por exemplo. A Bella de 22 anos ainda acreditava que era possível assimilar carreira com relacionamentos, amigos, o que na prática era bem diferente. Contudo, minhas lágrimas não eram de arrependimento, muito menos de saudade. Era pelo simples fatos de saber que alguém tinha fé em mim em pelo menos uma área em minha vida.
- Obrigada, Brad. - disse o abraçando forte após o brinde. - Por tudo.
- Continue sendo a melhor que eu já me sentirei gratificado. Daqui a pouco Chicago ficará pequena demais pra você.
- Mas eu vou ficar lá por um bom tempo.
- Vamos sentir sua falta por aqui.
- Eu não vou desaparecer do mapa. Vocês ainda vão ouvir falar muito de mim nas vídeo-conferências e e-mails diários que mandarei. Vai ser pior do que se eu estivesse por aqui.
- Espero realmente que você não suma.
Ele brindou novamente em minha taça ainda cheia e nós tomamos um gole ao mesmo tempo. Já fazia alguns dias que havia sido liberada pelo endocrinologista para beber, mas até então minha única experiência com bebida depois da cirurgia foi um tanto trágica para eu não querer beber tão cedo. Porém, era uma ocasião que me permitia tomar um gole de champagne sem passar mal ou sentir que estava morrendo lentamente, e logo eu voltei a beber água enquanto conversava com as outras pessoas, cheias de abraços e desejos de sucesso.
A festinha de despedida parecia não ter hora para acabar e nem os seguranças do prédio se importaram quando o horário de acionar o alarme chegou e ainda estávamos conversando, bebendo e comendo os petit fours que alguém tinha encomendado para a ocasião. Conversei com cada pessoa por vários minutos, escutando todos me desejarem o melhor nessa nova jornada e pedindo que eu desse notícias sempre que possível. Sabia que era um pouco difícil manter contato com todo mundo quando me mudasse. Era complicado uma vez que cada um deles seguiria seu caminho e continuariam com suas vidinhas em Nova York. Embora, tenha que admitir que pela primeira vez gostaria de ter na vida alguém para ligar e dizer como andava tudo, contar as novidades. Queria pelo menos uma pessoa dentro daquela sala na minha lista de contatos, alguém para ligar e passar algumas horas conversando sem que o assunto fosse trabalho.
Eu tinha uma breve idéia de quem seria essa pessoa quando arrastei o máximo até ter minha conversa de despedida com Alice. Enquanto conversava com as outras pessoas, ela se ocupava providenciando o necessário para a festa continuar acontecendo, me fazendo perceber que foi ela a responsável por organizar aquilo tudo pra mim. Mesmo depois de todos os gritos e de todos os finais de semana que eu a fiz trabalhar, ela ainda fazia uma demonstração de carinho como aquela. Alice era sem dúvida o mais próximo de uma amiga que eu tive naquele escritório, certa vez até mesmo ficando no hospital comigo quando eu tive uma crise de estafa, portanto, ela merecia alguns minutos a mais que os outros naquele momento de adeus.
Encontrei-a recolhendo alguns copos sujos para jogar no lixo e ri com seu jeito sempre organizado demais, muitas vezes chegando até a ser irritante quando se preocupava mais em ordenar os documentos por datas do que prestar a atenção no que eu falava.
- Eu sabia que você iria passar a festa toda arrumando a bagunça. - comentei parando encostada no balcão da pia e a observando amarrar o saco de lixo.
- Prometi ao Brad que a copa ficaria tão limpa quanto antes da festa. - ela retrucou começando a empilhar os pratinhos sujos para lavar depois.
- Então, você que organizou isso tudo?
- Achei que você merecia saber que todo mundo está torcendo por você lá em Chicago. E que iremos sentir sua falta aqui.
- Algumas pessoas estão adorando o fato de que eu estou me mudando. - comentei dando uma risada sem vontade. - A estressada está indo embora...
- Quem não está feliz por você não está aqui nessa despedida. Ou seja; todo mundo nesse escritório vai sentir sua falta.
- Obrigada...
- Afinal, quem irá forçar esses preguiçosos a trabalhar até chegar ao resultado final? - Alice disse com seu espírito animado, me fazendo rir de verdade dessa vez.
- Tem certeza de que você não que ir comigo para Chicago? Vou mais do que nunca precisar de alguém me ajudando a manter a sanidade durante o trabalho.
- É uma oportunidade incrível, mas minha vida é aqui em Nova York com Jasper. Não são mais "meus" planos para o futuro, são os "nossos" planos, entende?
- Entendo.
Na minha antiga cabeça, aquilo não seria facilmente iria achar um absurdo alguém preferir priorizar a vida amorosa diante de uma oportunidade profissional daquelas. Agora, compreendia o que levou Alice a preferir ficar em Nova York para ter sua vida com seu noivo ao invés de largar tudo e me seguir para Chicago. Ela tinha tudo que uma garota de pouco mais de vinte e quatro anos poderia desejar; um emprego fixo, a família por perto, alguém que a amava. Eu não tinha quase nada disso, por isso mudar de cidade e de pessoas era a minha escolha perfeita.
- Mas eu vou sempre te manter atualizada sobre o que acontece por aqui. - ela me garantiu.
- E provavelmente René ainda te ligará muito para saber como eu estou.
- Eu adoro sua mãe.
- Ela também te adora. Às vezes eu acho que ela quer te adotar...
- Não seja boba, Bella. Ela já tem uma filha incrível.
- Eu não sou mais sua chefe, Alice. Não precisa continuar me enchendo de elogios.
- Eu não falo isso para puxar seu saco, nunca fiz isso. Você é realmente um exemplo de profissional, alguém que um dia eu quero ser nem que seja 50% do que você é aos 26 anos.
- Eu te odeio, Alice... - murmurei sentindo minha garganta completamente retorcida com as lágrimas que já encharcavam meus olhos e sua expressão de confusão me fez rir. - Por estar me fazendo chorar nesse momento.
- Oh Bella, desculpa... - Alice retrucou deixando os pratos de lado e me abraçando forte.
Em quatro anos, poucos abraços foram trocados entre nós duas. Em ocasiões especiais, como aniversários, notícias importantes ou campanhas vencedoras, nós permitíamos um pouco de carinho entre chefe e assistente, porém, nunca foi tão sincero como em minha festa de despedida em que esquecemos os outros ao nosso redor e ficamos abraçadas e com lágrimas caindo nas faces. Eu queria arrastar Alice para Chicago e continuar a tendo em minha vida, me puxando de volta a realidade quando eu estava surtada demais com o trabalho, mas infelizmente nem todo mundo dava mais valor a carreira do que ao amor, como eu costumava fazer.
Só me restou terminar a noite com olhos inchados de tanto chorar depois de abraçar Alice e receber mais abraços de despedida. A festa foi estendida até não ser mais possível e eu fui uma das últimas a deixar o prédio, carregando minhas duas caixas com a ajuda de Brad. Mike já me esperava na entrada e colocou as caixas no porta-malas enquanto eu dava o último abraço em meu ex-chefe, escutando outra vez que iria "segurar Chicago pelas bolas", como ele já havia me dito durante minha última semana.
- Eu realmente espero que você apareça na festa de inauguração do escritório. - fiz questão de lembrá-lo sobre aquela promessa.
- Tentarei ao máximo, mas sem você aqui vai ser difícil ter tudo sobre controle para que eu faça essa viagem.
- Pára de me enrolar puxando meu saco, Brad! E eu venho te arrastar até Chicago, mas você vai para a inauguração.
- Ok, ok... Eu vou antes que você me bata ou sei lá o quê.
- Vou sentir falta de ter essas discussões com você. - murmurei o dando um último abraço forte e sentindo sua mão acariciando o topo de minha cabeça.
- Vamos brigar por e-mail, então. - ele retrucou rindo e me dando um beijo na bochecha. - Vá ser feliz e bem sucedida em Chicago que estamos torcendo por você aqui.
Com esse desejo sincero de sucesso, eu finalmente deixei o prédio que por tantos anos serviu como minha casa mais do que meu próprio apartamento e fiz aquele caminho pela última vez. Malas ainda precisavam ser finalizadas e às 8 da manhã eu precisava estar de pé para a equipe de mudança levar as caixas até Chicago, até meu novo apartamento alugada pela agência até que eu me estabelecesse. O mínimo de ocupação naquela noite já era mais que suficiente para manter minha mente longe dos pensamentos relacionados a minha mudança. Pensamentos que tinham nome e sobrenome e se materializavam em forma de uma garotinha adorável com meus traços.
Em uma de minhas malas, havia uma camisa infantil com a famosa estampa "I Love NY" que eu, em um surto de loucura nesses últimos dias, comprei para presentear Bree quando chegasse em Chicago. Mas isso não significava que eu iria ligar para Carlisle assim que estivesse na cidade e o informasse que agora eu era uma cidadã do Illinois, e consequentemente estaria mais por perto do que nunca. Eu ainda não havia tomado essa decisão importante - se iria querer fazer parte da vida de minha filha ativamente - mas isso não me impedia de ficar imaginando como seria minha vida com um novo cargo na agência e a possibilidade de ver Bree quando quisesse. Nós poderíamos até mesmo ter um dia na semana reservado para nossos encontros, como no caso de guarda compartilhada ou algo do gênero, em que eu a levaria para passear e escutaria suas histórias engraçadas sobre os artista que ela tanto adorava. Ela poderia me mostrar Chicago do seu jeito, seus lugares favoritos, e eu estaria presente em datas importantes como seu aniversário, peça na escola e feira de ciências.
Porém, eu sabia que não era simplesmente chegar e exigir que Bree fizesse parte da minha rotina da maneira que desejava. Ela não era oficialmente minha, apesar dos papéis de adoção deixarem bem claro que ela saiu de meu útero, contudo, seus verdadeiros pais eram Carlisle e Esme como eu quis que fossem e eles eram os responsáveis por decidir se eu teria esse privilégio ou não. Não seria um problema dizer a Carlisle que minha intenção era fazer parte de verdade da vida de Bree, mas a questão seria convencer a "mãe leoa" chamada Esme de que eu não estava brincando. Dessa vez, faria a coisa certa em relação a Bree. Assim que eu pisasse em Chicago iria resolver essa pendência.
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Mesmo vários quilômetros longe, René fez questão de acompanhar todo o processo de minha mudança para Chicago e me ligava a cada hora para saber se eu tinha resolvido tudo, como se eu não fosse capaz de fazer isto sozinha. Parecia que eu nunca tinha me mudado para o dormitório da faculdade, ou para Londres durante o estágio, ou até mesmo para Nova York quando comecei a trabalhar. Ela sempre me trataria como uma garotinha que precisava da mãe para lembrar de todos os detalhes importantes e para evitar mais conflitos, aceitei todas as suas ligações loucas. Tanto que, a primeira coisa que fiz ao descer do avião foi ligar para informá-la que já estava em Chicago. Era uma manhã de sábado, pouco mais de 10 horas, e eu teria o final de semana livre para organizar o apartamento e me preparar para o primeiro dia na agência na segunda-feira.
- Já chegou? - foi a primeira coisa que René perguntou ao atender a ligação.
- Ainda nem peguei minhas malas. - a informei equilibrando o celular contra o ombro para pegar um carrinho.
- Já sabe onde você irá almoçar? Afinal, sua casa não tem nada e você não pode ficar sem comer por muito tempo...
- Já pesquisei alguns restaurantes perto de meu apartamento e tenho pelo menos umas cinco opções de escolha. Não se preocupe com minha alimentação que eu me viro muito bem.
- Tem certeza que você não precisa de minha ajuda para organizar tudo? Eu posso passar uma semana enquanto você se estabelecesse.
- Mãe, pode ir parando. Não há necessidade de você viajar quase 4 horas para me ajudar com uma simples mudança. Eu já fiz isso várias vezes em minha vida.
- Eu sei, Bella. Mas eu queria ver onde você irá morar, se é um local adequado e centralizado.
- Você pode vir na inauguração da agência, pronto. Vou mandar as passagens para você e Charlie, aí vocês podem conhecer onde eu moro e meu novo trabalho.
- Oh, querida. Será maravilhoso passar algum tempo com você!
- Só tente convencer Charlie a sair um pouco de Forks pra variar.
- Não será tão difícil fazer com que ele viaje se for por sua causa, você sabe. Seu pai faz tudo pela filhinha...
- Olha o ciúmes, René. - brinquei rindo junto com ela, uma sensação de leveza que antes eu nunca me permitiria ter em uma conversa com minha mãe. - Te ligo à noite, quando tiver organizado pelo menos metade de minhas coisas.
- Tire foto do apartamento e mande para meu e-mail, ok? - ela pediu, exatamente como das outras vezes que me mudei. - Até mais, filha.
Eu não era superticiosa ou ligada a qualquer tipo de religião, mas quando eu entrava em algum lugar pela primeira vez gostava de colocar o pé direito primeiro. Era mais mania do que crença, então fiz exatamente isso quando o porteiro do prédio que eu moraria abriu a porta do meu novo apartamento - que era um flat, na verdade - para me mostrar o local. Segui-o enquanto ele me indicava onde cada ambiente importante ficava e fiz uma análise rápida com o primeiro contato, já começando a gostar de onde moraria. Bem menor do que meu antigo apartamento em Nova York, mas era ideal para quem mal pararia em casa com tanto trabalho até estar tudo organizado na nova agência.
- Bem vinda ao prédio, senhora Swan. - o senhorzinho porteiro disse me entregando as duas chaves.
- Senhorita. - corrigi por costume de cortar qualquer pessoa que se dirigisse a mim como alguém comprometida. - E obrigada pela recepção, senhor Johnson.
- Qualquer coisa é só me interfonar.
Sozinha, finalmente, arrastei minhas duas malas gigantescas até o quarto. Minhas caixas com livros, objetos de decoração e outras coisas do meu antigo apartamento estavam previstas para chegarem na segunda-feira e por enquanto eu só tinha minhas roupas, sapatos e objetos pessoais de extrema necessidade como meu computador. Não queria acessar meu e-mail e ficar várias horas respondendo as mensagens que provavelmente estavam lotando minha caixa de entrada para acertar os últimos detalhes do primeiro dia na agência. Era meu momento de curtir minha nova casa e começar a fincar de vez minhas raízes em Chicago, começando por meu armário. Logo eu teria que procurar um lugar para almoçar e verificar a minha vizinhança para saber o que tinha a meu dispor a poucos metros.
Cumprimentei o senhor Johnson na portaria quando deixei o prédio pouco mais de uma hora depois de me instalar. A fome falava mais alto do que a necessitade de tirar minhas roupas da mala e eu poderia terminar de arrumar tudo depois do almoço e de um passeio rápido ao redor do quarteirão. A agência tinha escolhido um bairro bastante central para que eu morasse, e disseram que era a menos de meia hora de onde o escritório ficava, o que seria bom já que teria que ir de táxi antes de conhecer o caminho para utilizar outro tipo de transporte. Bem que também tentei arrastar Mike comigo para Chicago e continuar com motorista particular, mas eu sabia que era loucura querer que todo mundo mudasse suas vidas para me acompanhar. Teria que me contentar a descobrir outras maneiras de sobreviver sem minha entourage, quem sabe até voltaria a dirigir.
Mesmo com muito frio e vento gelado batendo em meu rosto pouco protegido, caminhei bons minutos olhando tudo ao redor até dar de cara com um bistrô bem arrumadinho, escolhendo-o como meu restaurante daquele dia. O local estava quente o bastante para que eu tirasse o casaco assim que entrei e escolhi me sentar em uma das mesinhas com duas cadeiras, sendo abordada por uma garçonete me entregando o cardápio de couro.
- Bem vinda ao Bristol, eu sou Kendra e serei sua atendente hoje.
- Obrigada.
- Alguma bebida para começar?
- Uma taça de vinho rosé, por favor.
Ainda não havia voltado a beber como antigamente, mas ocasionalmente me permitia uma taça de vinho, até porque fazia bem para o coração. Só beberia aquela taça de vinho no almoço para preservar meu pâncreas ainda não 100% recuperado para a inauguração da agência na próxima semana. Seria uma noite de muitos brindes, com tantas taças de espumante que era uma escolha inteligente não beber nos próximos dias para evitar transtornos maiores.
Após comer muito pratos deliciosos que pedi e ainda comer sobremesa com outra taça de vinho, me arrastei para fora do restaurante sentindo o peso de tanta comida ingerida e sem a mínima vontade de voltar andando para casa. Mas como eu não sabia o endereço direito, só sabia fazer o caminho de volta à pé. Por isso respirei fundo e cruzei os braços para me manter aquecida, não tendo o mínimo de pressa para andar rápido. Minhas malas bagunçadas precisando serem desfeitas poderiam esperar só mais um pouco abertas no chão do quarto porque até eu consegui chegar ao prédio, poderia levar muito tempo a depender de meu ânimo para dar passos.
Ao parar no sinal de pedestres vermelho, notei do outro lado da rua uma pessoa que chamou minha atenção. Era uma garotinha de cabelo escuro até o meio das costas e jeito engraçado de puxar a mão do homem alto de cabelo loiro escuro. Meu coração pulou começando a bater rápido porque aquelas duas pessoas eram muito parecidas com Bree e Edward, me deixando nervosa a ponto de querer dar meia volta. Quando eles atravessaram, eu pude ver melhor seus rostos - notando que não eram eles - e respirei um pouco mais aliviada, porém, minha mente estava um turbilhão. Tinha certeza de que meus dias seriam daquela forma; tremendo de ansiedade com a possibilidade de cruzar com algum dos Cullen já que eu estava na cidade.
Precisava logo tomar a decisão de como informar àquela família que estava por perto e querendo muito fazer parte da vida de Bree de alguma forma, não necessariamente como a mãe biológica. Não queria estragar o que nós tínhamos ao contar que ela era minha filha, porque sua reação poderia ser a pior possível. Ela poderia não odiar a mãe biológica que a deu para os Cullen cuidar, porém, não era garantia de que fosse me receber de braços abertos e aceitar essa história sem problemas, afinal, eu havia mentido por pelo menos quatro meses desde que nos reencontramos. Teria que ser algo bastante pensado, embora antes disso, eu tinha que focar no que realmente fui fazer em Chicago; montar uma equipe vencedora.
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No primeiro dia de trabalho no escritório, eu acordei muito antes do que programei meu celular para despertar e fiquei encarando o teto desconhecido, não sentindo conforto nos lençóis que não eram meus. Aquela ansiedade que sufoca e te faz suar frio já estava querendo me dominar, assim como a vontade de acender um cigarro. A sorte era que eu não tinha um maço dentro da bolsa como em todas as outras ocasiões em que fiquei ansiosa demais, me tornando quase oficialmente uma ex-fumante. Eu sabia que tudo daria certo, porque não fui escolhida a dedo para ser presidente daquela filial se não fosse realmente capacitada, então eu chutei o cobertor para longe e comecei minha preparação para o grande dia.
Logo após sair do banho, ainda enrolada na toalha, a campainha tocou para minha surpresa, já que eu não esperava ninguém em minha porta a aquela hora. Nem mesmo se eu tivesse vizinhos aquela seria uma boa hora de dar as boas vindas, afinal, eram sete horas da manhã. Corri para vestir o roupão disponível no banheiro e abrir a porta, encontrando o senhor Johnson segurando um buquê de lírios.
- Bom dia, senhorita Swan. Entrega especial.
- Pra mim? - retruquei surpresa com as flores.
- Sim, sim. Acabaram de entregar.
- Obrigada.
Segurei o incrível buquê em meus braços e fechei a porta quando o senhor Johnson se despediu de mim, o cheiro dos lírios invadindo minhas narinas quando me aproximei um pouco para sentir o aroma de minha flor favorita. Quem sabia daquele fato havia as escolhido para me presentar em um dos dias mais importantes em minha carreira, e eu desprendi o cartãozinho preso na embalagem de papel.
"Para a melhor CEO que Chicago conhecerá em seu primeiro de muitos dias de sucesso. Estamos torcendo por você daqui de Nova York.
Brad e Equipe."
A escolha das flores certamente veio de Alice, pois ela me conhecia bem o suficiente para captar aquele fato de alguma de nossas conversas. Meus olhos encheram de lágrimas com o carinho que aquelas pessoas tinham por mim e todos os desejos de sucesso que recebi de cada desde que fui escolhida. Até sentir meu peito apertar de saudade do escritório em Nova York, imaginando cada um deles se arrumando naquele momento para começar um novo dia juntos. E eu tinha que voltar a me arrumar para não me atrasar em meu primeiro.
Peguei o taxista mais gentil do mundo, totalmente diferente dos indianos mal-educados que costumava pegar nos táxis de Nova York, e ele me deu várias dicas de lugares para conhecer quando tivesse mais tempo, além das boas vindas a Chicago. O prédio enorme que o escritório ficava era localizada em uma das principais avenidas da cidade, logo ao lado do rio que cortava Chicago e dividia a área em duas partes. Seria interessante ter a vista dele de minha janela ao invés de táxis e engarrafamento como minha antiga sala, quem sabe até seria mais relaxante trabalhar com aquela tranquilidade de paisagem. Na subida de 18 andares de elevador, voltei a ficar nervosa e a suar frio de ansiedade, tremendo dos pés a cabeça quando a porta abriu e eu dei de cara com a entrada da agência: Gordon & Barry PR - Chicago.
Na recepção, uma jovem borbulhante me deu as boas vindas como se soubesse que eu iria ser a chefona do lugar, indicando uma porta de vidro escuro para que entrasse e a acompanhasse até onde Mark Gordon - um dos "grandões" da agência - estava me esperando para começar a reunião receptiva. Olhei rapidamente a área toda do escritório, não sendo tão diferente assim da sede em Nova York, e novamente ela me indicou uma porta escura que eu poderia entrar sem bater. Na sala com uma mesa de vinte lugares, Mark me esperava com mais dois homens e me deu o sorriso mais acalentador até hoje.
- Bem vinda a Chicago! - Mark disse apertando minha mão com vigor. - Pronta para arrasar aqui também?
- E como! - respondi com meu falso tom de animação beirando o ataque epiléptico, porque se havia uma coisa que Mark gostava era de animação extrema.
- Esses são Riley Biers e Emmett McCarty, dois dos melhores publicitários de Chicago que irão trabalhar junto com você.
- Isabella Swan, muito prazer. - cumprimentei o loiro de cabelo arrumadinho e o grandão de cabeça raspada e cara de lutador de UFC.
- Vamos a nossa reunião? Temos muito que organizar nessa semana anterior a grande inauguração.
Sentamos na sala grande demais para apenas quatro pessoas e Mark começou a fala por mais de 1 hora sobre como a filial iria funcionar, a função de cada um naquela agência que já chegava ao mercado de Chicago com uma reputação incrível. Basicamente, funcionaria daquela forma; Riley era o diretor criativo que comandaria uma equipe de cinco pessoas, Emmett era o diretor de produção com mais três funcionários e eu estava acima dos dois, de qualquer pessoa ali. Eles teriam que responder a mim em qualquer passo dado da agência, o que poderia ser um problema já que muitos homens se sentiam ameaçados por mulheres com cargos altos na empresa, mas pelo pouco que conversamos não vi que eles fossem aquele tipo. Riley era o calado entre os dois e Emmett o brincalhão com comentários sagaz, creio que nos daríamos bem.
- Eu escolhi justamente vocês três para tocar a agência aqui em Chicago porque conheço aspectos em cada que, unidos, farão essa equipe vencedora. - Mark explicou enquanto cada um recolhia suas pastas com os documentos importantes. - Vou poder voltar para Nova York sem me preocupar em deixar meu "bebê" abandono nos primeiros passos.
- Nós cuidaremos de seu bebê como bons pais adotivos. - Emmett brincou fazendo meu estômago afundar com a palavra "adoção". Não o tipo de brincadeira que me faria rir.
- Ficarei na cidade até o dia da festa que daremos para que os clientes em potencial já comecem a conhecer nosso trabalho. Mais para o final dessa semana, eu pedirei que minha assistente informe melhor sobre esse coquetel, nada muito chique. Agora, vamos começar a trabalhar.
Mark fez um pequeno tour para que conhecêssemos o escritório todo, um lugar que alguém que já trabalhou em qualquer agência publicitária já estava acostumado. Minha sala ficava no final de um corredor com outros pequenos ambientes no caminho, a vista sendo exatamente como eu esperava; para o rio Chicago. Era maior do que meu antigo escritório em Nova York, com espaço para uma pequena sala com tv de LCD presa na parede e uma mini-copa que eu poderia utilizar caso preferisse comer a qualquer momento, uma recepção que minha futura assistente ficaria recebendo minhas ligações e pedindo que as pessoas aguardassem um pouco. Tudo passava uma sensação de poder que queimava em meu peito de modo gostoso, junto com o peso da responsabilidade que afundada em meu estomago, doendo de medo de dar tudo errado.
Após esse momento de apresentações, cada um seguiu para sua sala e eu já tinha uma lista de coisas para fazer, a principal de todas; analisar os vários currículos ao meu dispor para contratar uma assistente. Uma nova Alice em minha vida, que sofreria em minha mão até se ser moldada com as minhas manias no trabalho. Cada folha cheia de informações que eu lia, notava que essas garotas recém-formadas em busca de um emprego tinham o mesmo sonho em comum; ser bem sucedida em suas carreiras. Eu escutaria o mesmo discurso quando fizesse as entrevistas, de que elas seriam capazes de abdicar de tudo em suas vidas para chegar ao topo. Pobrezinhas, não sabiam que a estrada era difícil de caminhar e as chances de você se arrepender de suas escolhas depois eram altíssimas. No entanto, não queria estragar o sonho de ninguém com um papo amargurado sobre como eu estava no topo e com uma vida pessoal miserável. Brad não me jogou da nuvem quando eu apareci em sua porta com aquela conversa de carreira e sucesso, também não iria fazer aquilo com a futura "Bella" que apareceria na minha.
Encontrar cinco garotas que passariam para a próxima etapa até um delas ser escolhida demorou praticamente a manhã toda, já que todos os currículos eram cheios de qualificações que eu poderia utilizar. Cinco línguas, estágios em várias partes do mundo, muitos editores-chefe dos jornais de suas respectivas faculdades, um caso engraçado de "herdeira da maior revendedora de carros do Arkansas". No papel, todo mundo era ideal para o cargo, mas eu queria ver quando o final de uma campanha estivesse chegando e você precisasse ficar até a meia-noite na agência apertando a mente de editores de vídeo para entregar tudo no prazo. Seria uma longa semana de entrevistas e nomes riscados da lista, meu pescoço começando a doer de tensão quando alguém bateu em minha porta já aberta.
- Ocupada? - Emmett perguntou colocando a cabeça para dentro da sala e sorrindo, as covinhas ornamentando suas bochechas.
- Só tentando escolher potenciais assistentes. - respondi deixando as folhas que tinha em mãos sobre a mesa.
- Riley e eu vamos procurar algum restaurante aqui por perto para almoçar. Não quer ir com a gente?
- Já é hora do almoço? - retruquei surpresa de não ter notado tantas horas passando.
- Bom, minha barriga já começou a reclamar, então... - ele brincou me fazendo rir. - E só estamos nós três na agência por enquanto, não vou te deixar sozinha nesse lugar fantasmagórico.
- Almoçar seria uma boa idéia. Não aguento mais ler sobre recém-formados que são perfeitos para o cargo, em suas próprias palavras.
- Experimente ter que escolher entre dezenas de nerds com graduação em tantos ramos tecnológicos que alguns,eu até duvido que existem. Uma cerveja no final do dia cairá muito bem.
Desci o elevador com meus novos colegas de trabalho achando um pouco estranho aquela interação já no primeiro dia, diferente do que eu estava acostumada a fazer. Em Nova York era cada um por si e ninguém se importava se você já havia almoçado ou passaria o dia inteiro só com café no estômago. Chicago já se mostrava diferente, pelo menos meus companheiros de agência eram simpáticos o suficiente e cavalheiros, como notei quando Riley abriu a porta do restaurante e me deu prioridade na passagem.
Eu queria uma taça de vinho naquele almoço, mas me contentei com suco para acompanhar minha salada como entrada e nhoque de ricota com pesto. Emmett era o homem da carne com sua costela de porco ao molho barbecue, pouco se importando de parecer ogro no nosso primeiro contato. No final daquele almoço descontraído, até Riley que me pareceu bastante reservado a principio, já estava conversando com mais desenvoltura e rindo dos comentários que Emmett fazia.
- Então, Bella... Você é totalmente diferente da sua fama. - Emmett comentou me fazendo engasgar com o espresso que bebia.
- Fama? Que fama?
- De carrasca. Quando disseram que você seria a CEO da filial aqui, me alertaram que você era o tipo de publicitária que só descansava quando fazia alguém chorar durante uma campanha.
- Eu não sou assim! - retruquei rapidamente, mesmo que ele estivesse rindo de minha expressão de espanto.
- Então você nunca fez ninguém chorar? - Riley ainda assim quis saber.
- Fiz, mas... Eram pessoas que mereciam chorar de tão incompetentes que eram.
- Clássico discurso de chefe carrasco. - Emmett disse querendo me provocar ainda mais. - Vou logo te avisando que a única pessoa que me faz chorar é minha Rachel.
- E quem seria sua Rachel?
- Minha filha de 3 anos. Aquela garotinha de olhos azuis sabe desmontar o papai aqui quando diz que me ama.
- Que bonitinho... - murmurei impressionada com a imagem que tinha dele e foi facilmente destruída naquele momento. - Não imaginei que você tivesse uma filha.
- Filha, esposa, cachorro... pacote familiar completo.
- E você também é casado, Riley?
- Noivo há mais de seis anos. - ele respondeu mostrando a aliança no dedo anelar direito. - Mas eu não estou a enrolando, nem nada. Só estou esperando Victoria terminar a residência.
- Sua noiva é médica?
- Enfermeira. Trabalha no Mercy Hospital Chicago.
- Eu fiquei internada lá! - falei surpresa com aquele fato e notando os olhares dos dois. - Mas foi quando eu precisei fazer um transplante.
Mais olhares de espanto.
- Não foi pra mim. Eu só doei um pedaço de meu pâncreas para minha filha...
- Você tem uma filha? - Emmett me interrompeu.
- Tenho e não tenho. - respondi escolhendo a forma certa de já contar aos meus colegas aquela história, até optar pela sinceridade. - Eu a tive quando tinha apenas 17 anos, então a coloquei pra adoção e uma família daqui a adotou. Ano passado que nós retornamos o contato quando ela precisou de uma doador e eu era a única pessoa compatível.
- Uau, isso eu não imaginava.
- Nem eu. - Riley completou me encarando com aquele olhar de surpresa. - Então ela tem uns...
- 10 anos. - retruquei dando um sorriso de orgulho típico de mãe. - Eu tenho uma filha que está quase entrando na adolescência.
- Eu... nem sei o que dizer. Porque você não tem cara de que é mãe, muito menos que já tem uma filha de 10 anos.
- Um pouco de irresponsabilidade no Ensino Médio, mas já aprendi a lição.
- Oh, Bella... quem te ver assim, toda chefona e responsável por uma agência como a Gordon & Barry nunca iria imaginar sua história. - Emmett fez esse comentário me alertando de que eles poderiam começar a me ver de modo diferente.
- Mas isso não significa que eu não faço mais as pessoas chorarem. Experimentem me contrariar pra ver. - disse em tom jocoso, mas no fundo desejando que eles realmente tivessem medo de mim e me respeitassem.
- Não sou louco para contrariar uma mulher. Rose já me ensinou várias lições de que esse é o maior erro que um homem pode cometer.
- Victoria também. - Riley completou respirando fundo. - Você está com os dois caras que mais respeitam mulheres independentes.
- Fico feliz de saber que nos daremos bem nessa nova jornada.
- Um brinde a isso! - Emmett disse erguendo sua taça de água e nós três brindamos ao começo.
Nem bem estava em Chicago a um final de semana e já tinha o que poderia considerar amigos de trabalho. Riley e Emmett me deram a confiança necessária para que eu me abrisse e mostrasse aquele lado que fazia parte de minha história, sem medo de parecer incosequentes por conta de um erro do passado. Eles me respeitavam por tudo que eu fiz até chegar a aquele dia, mostrando que não era tão errado assim confiar um pouco nas pessoas e deixar essas barreiras caírem em seu tempo adequado.
Ao retornar do almoço que levou mais de uma hora, a recepcionista nos abordou pedindo que até quinta-feira nós dêssemos a lista de convidados para a inauguração oficial da agência. Alguns nomes passaram por minha cabeça e eu tive um insight que me fez vasculhar minha bolsa atrás de um bloco de notas para rabiscar algumas informações.
- Você pode conseguir o telefone dessa pessoa? - pedi a recepcionista. - O mais rápido possível.
- Tentarei ao máximo conseguir até o final do dia, senhorita Swan.
- Seu nome é...?
- Daisy.
- Obrigada, Daisy.
Daisy não precisou até o termino de sua jornada de trabalho para bater em minha porta me dizendo que já tinha o telefone e endereço da pessoa que eu pedi, me entregando tudo anotado em um papel com o logo da agência. Agradeci e ainda brinquei que ela deveria ser minha assistente por demonstrar tanta eficiência, a fazendo dar um de seus sorrisos borbulhantes. Quando estava novamente sozinha, desdobrei o papel e analisei as informações.
"Esme Cullen,
Foster Drive, nº 87, Lincoln Park.
570-6321"
A decisão já estava tomada; eu iria encontrar Esme e informá-la que eu estava em Chicago de vez. Da maneira certa, como ela tanto prezou que estivesse caso quisesse fazer parte da vida de Bree. E eu queria, mais do que tudo, principalmente depois de contar aos meus colegas de trabalho sobre sua existência e sentir aquela felicidade que apenas as mães sentiam. Orgulho da cria. Não saberia qual sua reação diante dessa minha "exigência", mas eu tinha que correr o risco se quisesse uma vida com tudo ajustado. Bree era minha vida agora e eu iria me ajustar da melhor maneira para fazer parte da sua.
Meus dedos tremiam quando peguei meu celular e disquei o número dos Cullen, rezando para que Bree não atendesse. Mas pelo horário, ela ainda deveria estar na escola e meu risco era mínimo. Poderia ter o azar de Carlisle estar de folga e atender ou ninguém atender, porém, quando a voz feminina disse "alô" do outro lado da linha, eu senti meu coração ir parar na ponta de meu dedão no pé.
- Hum... Esme, por favor. - disse com minha voz estranha de nervosismo.
- É ela. Quem está falando?
- Aqui é... Bella.
- Bella? Bella Swan? Não esperava sua ligação...
- Pois é... Eu estou ligando porque estou em Chicago a trabalho esses dias e gostaria de te encontrar para tratar sobre alguns assuntos.
- Quais assuntos? - ela quis saber com rigidez na voz, não cedendo facilmente.
- Eu prefiro falar pessoalmente, se você não se importar.
- Tudo bem, já que parece ser tão importante assim. E onde você gostaria de me encontrar?
- Qualquer lugar que esteja bom para você no horário do almoço, que é quando eu tenho uma hora de folga do trabalho. Perto da Avenida Michingan, de preferência.
- Pode ser o Fulton's On the River.
- Pronto, provavelmente é perto de onde eu estou. Às 13h de amanhã, pode ser?
- Pode ser. Farei uma reserva em meu nome para não termos problema de indisponibilidade de mesa.
- Obrigada.
- Te vejo amanhã, então.
Eu veria aquela mulher a pouco mais de vinte e quatro horas, e nem se eu tivesse uma semana para me preparar conseguiria ficar calma. Porque Esme era a chave que abriria ou trancaria de vez meu relacionamento com Bree, eu tinha que aceitar isso.
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Trabalhar a manhã toda com minha mente focando em outra coisa foi difícil, principalmente por ser tratar de entrevistas com possíveis assistentes. Tentei ao máximo prestar a atenção no que cada candidata me dizia, uma missão impossível quando eu só pensava no almoço que teria com Esme. Não que ela fosse arrancar minha cabeça ou me jogar no rio Chicago, mas era esperado que nosso papo não fosse o mais relaxante do mundo. Haveria uma tensão clara em nós duas, por um motivo óbvio. Não era uma disputa para quem ficaria com Bree, até porque eu não estava indo encontrá-la para reaver a guarda. Era uma questão que estava pendente desde nosso primeiro encontro em Agosto do ano anterior. Nosso encontro seria mais para mostrar que eu nunca iria tomar Bree dela.
O restaurante que ela escolheu ficava do outro lado do rio, quase em frente ao prédio que a agência se encontrava. Cheguei um pouco antes do combinado porque tive medo de me perder na cidade desconhecida e acabar me atrasado, o que daria uma péssima impressão. A mesa reservada em seu nome ficava no salão com grandes janelas me permitindo ver a avenida movimentada lá fora, agradecendo por estar protegida do frio incrível que fazia na cidade.
O garçom me serviu com água Perrier quando avistei Esme se aproximando com o maître, toda sua elegância chamando rapidamente minha atenção. Para alguém que tinha um filho de vinte e oito anos, ela estava muito bem e aparentemente sem plásticas para conservá-la. Ela agradeceu quando o maître puxou a cadeira para que sentasse em minha frente e sorriu educadamente para o garçom que também encheu sua taça.
- Olá, Isabella. - disse com bastante calma, dando um discreto sorriso de canto que eu lembrei de já ter visto na face de outra pessoa. De um homem, na verdade.
- Obrigada por concordar em me encontrar assim, em cima da hora.
- Você disse que era importante e que estaria na cidade por alguns dias, então...
- Na verdade, eu não estou na cidade por alguns dias. É justamente por isso que eu precisava conversar com você. Porque eu estou morando aqui em Chicago agora.
- Você está morando aqui? Como... Desde quando?
- Desde a sexta-feira passada. Eu fui convidada para ser a CEO de minha agência aqui em Chicago e aceitei o cargo, afinal, é algo irrecusável.
- Fico feliz por você e esse grande passo em sua carreira.
- Obrigada.
- Então, isso significa que você estará por perto agora? Bree ficará feliz de saber isso.
Ela trouxe o assunto a tona antes que eu sequer fizesse menção de incluir Bree em nossa conversa. Claro, era a única questão que nós ainda tínhamos pendente e era minha hora de mostrar que eu estava querendo jogar sério.
- Antes de qualquer coisa, eu queria te dizer que Bree foi um dos motivos que me fez aceitar esse emprego aqui em Chicago. - Esme abriu a boca para dizer algo, mas eu continue falando. - Não vou mentir e dizer que só pensei em minha carreira, porque eu não estaria enganando ninguém. Não foi só isso. Foi o fato de que eu teria a chance de conviver com Bree que me fez aceitar deixar Nova York para trás e me arriscar, me atrevendo a dizerr que quero fazer parte da vida de Bree da maneira certa.
Esperei que ela dissesse qualquer coisa, mas Esme continuou me encarando séria e esperando que eu me mantivesse falando, desse mais argumentos que validassem minha proposta. E eu sabia exatamente o que falar.
- Não quero roubar Bree de vocês, até porque eu nunca serei a verdadeira mãe dela. Só você é a mulher que ela pode chamar de mãe e eu sei disso, eu quis que fosse assim.
- Eu sei que você não veio para tirar Bree de mim. - ela finalmente disse algo.
- Então por que você me odeia tanto?
- Eu te odeio? Pelo amor de Deus, Bella! Você me deu uma filha incrível e depois a salvou. Como eu posso te odiar?
- Você me quis fora da vida de Bree! fez com que eu mentisse para ela dizendo que nunca mais poderia encontrá-la.
- Porque até aquele momento você ainda era a mulher que só pensava em trabalho, que não estava preparada para assumir a responsabilidade de ter um relacionamento com uma criança. Você ainda não tinha me dado motivos suficiente para acreditar nos seus sentimentos, mas depois... Sua ida ao hospital para se despedir dela, a vinda para o Ação de Graças, isso tudo me fez abrir os olhos e começar a acreditar.
- E você acredita agora que eu estou pronta de verdade para fazer parte da vida dela?
- Se você realmente quer, então eu acredito.
Uma onda gelada de alívio invadiu meu corpo e me fez cair discretamente na cadeira do restaurante, voltando a respirar normalmente. Foi mais fácil do que eu imaginei, sem gritaria e de modo civilizado. O que faltou entre nós duas desde o começo foi cada uma expor seu lado naquela história até que concordassemos que tínhamos um interesse em comum; o bem de Bree. Se me ter na sua vida fosse fazer Bree feliz, então Esme aceitaria isso sem problemas maiores.
- Não se preocupe que ela não saberá a verdade se depender de mim. - fiz questão de informá-la para não deixar nenhum problema mal-resolvido. - Continuarei sendo apenas a mulher que fez a doação.
- Por enquanto é a melhor escolha. Quando Bree for madura o suficiente para entender tudo, nós contaremos.
- E eu prometo que farei até o impossível para não machucá-la. Até porque, eu não me perdoaria se Bree ficasse triste por causa de alguma burrice que cometi.
- Lidar com os sentimentos de uma criança não é a tarefa mais fácil do mundo, vou logo te avisando. Principalmente uma criança como Bree, que se apega demais as pessoas. Mas creio que você fará um bom trabalho.
Minha garganta estava tão seca de nervosismo que eu precisei tomar um gole da água antes de começar a falar sobre outro assunto que também fui tratar com ela.
- E eu também gostaria de convidar você e Carlisle para a festa de lançamento a agência que ocorrerá na semana que vem. Os convites ainda serão enviados, mas eu queria só confimar a prenseça de vocês. Será importante para mim.
- Se Carlisle não tiver um de seus jantares chatos da promotoria, será um prazer confraternizar com você nesse grande dia. - Esme confirmou com um sorriso mais largo e menos tenso. - Mas infelizmente Bree não poderá ir já que é uma festa de adultos...
- Claro. Nem pensei em chamá-la porque ela só tem 10 anos.
- Mas qualquer dia desses eu a levarei para te visitar e conhecer seu escritório. Ela adora esses ambientes.
Agora sim eu tinha certeza que Esme havia me aceitado na vida de Bree sem querer me matar. E certeza também tive que minha ida para Chicago foi a melhor escolha que eu já havia feito.
…
Voltamos com review = preview nesse capítulo. Posso demorar um pouquinho para responder todo mundo, mas garanto que cada uma irá receber. É só ter fé na Jeu.
Bêzzo!
