Capítulo 13
Então, naquele momento, Sam entregou a longneck para o caçador, tentando imaginar uma maneira de "fazer acontecer". Não conseguia pensar em muitas coisas. Apavorava-se em pensar numa reação negativa de Céu Vermelho.
Ao aparentemente perceber seu incômodo, Céu Vermelho falou._Ei, Sam, pode voltar a fazer o que estava fazendo. Eu ligo a TV ou coisa assim. Não se preocupe comigo.
Sam quase deu um pulo, embaraçado._N-não. Faz tanto tempo que eu não sei de... Enfim, o que você anda fazendo? Mais alguma pista sobre o paradeiro de Leon?
A expressão do caçador ruivo mudou e ele se aproximou de Sam. Sam aproveitou para olhar bem no fundo dos olhos de Jordan, tentando fazer sua expressão mais doce e inocente. Não era difícil, era uma segunda natureza para ele. Era interessante, pois Sam percebia que facilmente alcançaria a altura dele, em alguns anos. O ruivo o encarou com seus olhos azuis e depois deu um leve sorriso desviando o olhar._Na verdade eu tive. Você sabe, eu coloquei um site de pessoas desaparecidas no ar. Algumas pessoas me contataram, dizendo que o viram. Mas quando eu fui checar, não havia mais nada. Achei que Dean tivesse comentado algo assim.
_Ah sim, comentou. Parece que ele está vivendo com o seu..._Sam começou e de repente sentiu que não devia terminar a frase, pois magoaria o caçador. Leon era seu filho adotivo, que Céu Vermelho encontrara quase morto ao lado da mãe morta, no deserto. Criara o menino até os dez anos, e de repente, os demônios apareceram e o levaram. Dean tinha comentado sobre um homem, Kovac ou algo assim, de quem ouviram falar. O cara era um assassino procurado por toda a polícia do país, e as pistas que tinham diziam que Leon estava com ele. Kovac dizia que era seu pai. Pai biológico. E isso era mau, muito mau, quando você juntava os elementos._Oh Céu, desculpe.
O caçador bateu no ombro de Sam.
_Tudo bem. Relaxa.
Sam admirava o jeito calmo do caçador, e sua capacidade de amar tanto um filho que nem mesmo tinha seu sangue, e não desistir dele, mesmo depois de quase nove anos de procura.
_Posso ver o site?_isso era uma coisa que ele poderia fazer, e talvez ajudasse.
_Claro._O ruivo sentou-se na escrivaninha onde Sam tinha o notebook ligado, digitou um endereço no navegador. Sam ficou atrás dele, apoiando um braço no espaldar da cadeira, e inclinou-se. Pode sentir o cheiro dos cabelos brilhantes dele, cheiro de xampu de motel, mas resistiu à vontade de tocá-los. Ainda.
A página era simples e resumia-se a algumas informações e fotos. Fotos de Leon McKeenan com 10 anos de idade, sorridente ao lado de um surpreendentemente jovem Céu Vermelho. Um menino pequeno e magro, de cabelos escuros e rosto radiante, brilhantes olhos azuis; ambos com máquinas fotográficas profissionais nas mãos, ao lado de um rio. Havia muitas outras fotos, mas esta era a única em que Céu Vermelho aparecia. Sam notou que o homem estava um pouco nervoso ao olhar as fotos do filho. Colocou a mão casualmente no seu ombro, chamando a atenção para algo que não fosse amargo. Apontou a foto de pai e filho:_Ei, Céu, você era bem diferente aqui.
_Ah, sim. Leon tinha 4 anos quando eu o encontrei. Eu tinha 21. Esta foto foi em nossa viagem para a Tanzânia, quando ele já tinha 9. Uma das últimas.
Claro que Sam sabia que antes de se tornar caçador Céu Vermelho era um respeitado fotográfico, especializado em fotos para revistas como a National Geographic. Enfim, Céu Vermelho tinha uma vasta cultura e tinha tido contato com diferentes povos e maneiras de pensar. Nada daquilo do típico ranger-americano-caçador-raivoso e arrogante com quem costumavam se encontrar. Gente insuportável que acha que só porque salgou um cadáver e o queimou, sabe de tudo na vida. E foi isso que Sam falou para o ruivo, tendo certeza de que tinha se inclinado o suficiente para olhar novamente bem dentro dos olhos dele, enquanto dizia o quanto admirava sua experiência. Claro que, depois disso, seu rosto começou a ficar quente, pois Jordan Céu Vermelho McKeenan esquadrinhava seu rosto com o olhar, um tanto surpreendido.
_Ah que bom que você já está aí, Jordan._A voz extremamente casual de Dean, despejando os pacotes ruidosamente sobre a mesa, fizeram Sam pular e usar a mesma mesa como escudo de sua vergonha. O desgraçado só podia estar espreitando, sabe-se lá há quanto tempo, já que nenhum dos dois tinha ouvido nenhum ruído, e tanto um quanto o outro, tinha ouvidos treinados. Jordan continuou sentado, cumprimentando o Winchester mais velho com um soco no ombro, igual ao outro. Dean sem rodeios pediu uma carona pra o caçador ruivo, para irem buscar o Impala no lava-rápido.
Quando saíram, Sam se jogou no sofá, mortificado.
A verdade é que, meses depois, Sam apenas guardava esta lembrança como um vergonhoso erro causado por sua confusão e solidão. Agradecia aos deuses por não ter passado daquilo, ou seja, por não ter falado de seus "sentimentos". Agora Sam tinha plena convicção (depois de ter lido muitos e muitos livros sobre psicologia na biblioteca da escola) de que seu "desejo" não passava de admiração infantil, e que isto era normal.
Mudavam-se freqüentemente, Sam convivia com histórias horrendas de crimes, suicídios, maldições e tanta perversão, que procurou um exemplo de caráter para seguir, e confundiu isto com amor sexual. Tinha acontecido exatamente quando Sam começava deixar de ser uma criança. Assim diziam os livros e Sam acreditava em livros. Quem mais poderia lhe dizer algo sobre isto? Com certeza não o pai linha dura e o irmão machista.
E o pior foi quando Dean voltou para pegar as coisas e deixar algum dinheiro com Sam, antes de sair para a caçada. Ele tirou o dinheiro da carteira e coçou a cabeça, daquele seu jeito típico de quem não tem certeza se deve falar algo:
_Ei,Sam...
Sam gelou, mas não conseguiu desviar o olhar. Dean continuou, embaraçado:
_Er, você sabe...mais cedo...O cara 'tava te aborrecendo?
_Ah, er... não. Diabos, não!_exaltou-se sem querer.
Dean esfregou o rosto com ambas as mãos, nervoso.
_Sammy! O que era aquilo?
_Aquilo o que? Não tinha nada acontecendo._embora Sam soubesse que sua voz tremia.
Dean pensou alguns minutos, então acabou lançando um sorriso benevolente para o mais novo. Veio até ele e colocou a mão em seu ombro._Escuta. Você tem que tomar cuidado com as palavras, cara. Tem gente que não vai entender o que você quer dizer.
Sam na defensiva desviou o olhar do irmão, absurdamente incomodado com o interrogatório, embora percebesse que, de algum modo, Dean não estava bravo com ele.
_Não sei o que você quer dizer com isso.
_Oh Deus._Dean falou quase para si mesmo._É impossível que, com a vida que vivemos, você seja tão inocente assim! Mas então lá vai: Sammy, quando você fala para um cara que "gosta da experiência dele", bem, este cara poderia interpretar isso como uma cantada. Cara, uma cantada!
Sam sentiu o rosto pegar fogo, olhou para o próprio peito. Dean apenas bagunçou o cabelo dele, abrindo um sorriso perverso.
_Não que você não seja mesmo um viadinho.
Sam também segurou o riso por baixo da cortina de cabelo. Chutou o irmão. _Idiota.
Riram e Sam teve certeza de que Dean jamais o culparia, jamais imaginaria... Oh que vergonha! Céu sabia!
Agora tudo o que esperava era não encontrar o caçador ruivo, pois não sabia como o encararia outra vez.
