Era um dia insuportavelmente quente. Já estava na Grécia há pouco mais que um ano e ainda assim seu corpo estranhava o calor e a umidade excessiva do Santuário. A máscara piorava o problema e não era para menos que muitas meninas desmaiavam durantes os treinos árduos. A pequena arena estava nos limites da Vila das Amazonas, não entendia porque deveriam usar o artefato se supostamente os homens não poderiam entrar sem permissão expressa naquele lugar.
Seu corpo doía pela luta intensa que exercia contra uma das garotas mais velhas de seu grupo de treinamento. Não eram as pancadas que lhe causavam dor, seus músculos ardiam por forçá-los constantemente a se esquivar de cada golpe que ela tentava lhe dar. Marin não precisava ver seu rosto para saber que estava furiosa com seu método furtivo. Sabia que não era forte como a mais experimente, então, cansava-a se esquivando por um bom tempo até que lhe dava um golpe certeiro para derrubá-la.
Um silêncio repentino se fez na arena. Marin observou como cada dupla parou uma a uma seu respectivo treinamento para ver o que fizera as instrutoras se silenciarem. Sua oponente fez o mesmo e ambas seguiram a direção que todas as cabeças olhavam. Descendo as arquibancadas de pedra estavam duas figuras altivas. Sabia que o silêncio não se dera pela presença da mulher da dupla, uma amazona morena que nunca vira. O comportamento adverso se dera graças a presença do outro visitante, um cavaleiro de cabelo longo e loiro. Ambos eram desconhecidos, mas a mulher lhe chamou muito mais a atenção do que o belo rapaz.
O queixo inclinado de maneira confiante, as passadas leves, as enormes asas tatuadas no braço. Não conseguia parar de observar aquela amazona, havia algo em sua postura que atiçava sua curiosidade. Apertou os olhos tentando visualizar melhor qual era o desenho do case que ela levava nas costas, seria uma águia? Notou novamente as tatuagens no braço e fez a correspondência das asas, sim, aquela amazona era dona da armadura de águia:
- Elas não são muito novas para usarem máscaras? - ouvi-a perguntar com uma voz de escárnio. A mentora que se aproximara para lhe dar boa tarde tentou explicar sobre o motivo da vestimenta, mas a mulher a ignorou rapidamente – Tá, tá, tudo bem... Nenhuma delas tem armadura, correto?
Marin não conseguiu entender muito bem o que as amazonas mais velhas lhe responderam ou o diálogo que se seguiu. Ela não compreendia grego com tanta fluência para seguir as falas rápidas daquela mulher ou as palavras gaguejadas das demais da roda. Não demorou muito até que a amazona de prata afastou-se do grupo e ficou de frente para as meninas da arena:
- Olá, aspirantes. O Santuário pediu que eu viesse aqui e escolhesse uma de vocês para ser minha pupila. Alguém interessada?
As garotas se entreolharam, Marin não precisava ver seus rostos para saber que estavam confusas. A pergunta foi uma surpresa e não sabiam como esboçar qualquer reação. Todas estavam ali compartilhando os ensinamentos básicos e esperando a próxima etapa de um treinamento.
- Tsc... - Impaciente, a guerreira de prata colocou no chão a caixa que continha sua armadura e fez um gesto com as mãos para que se aproximassem. - Quem estiver interessada, por favor se aproxime, o restante saia da arena, ok?
Marin esperava que todas ficassem, mas das garotas que entraram na mesma leva que ela, somente duas permaneceram. As outras dez eram um pouco mais experientes e, bem, pelo tempo de treinamento, deveriam ter prioridade para serem escolhidas. Seria tão ousado assim demonstrar que ela queria a experiência daquela amazona?
Notou o rapaz loiro logo atrás da visitante. Suas feições eram tão delicadas que poderia ser confundido com uma mulher e seu olhar sereno parecia estudar uma a uma das garotas que restaram. Seu semblante calmo transformou-se em diversão quando a amazona lhe murmurou algo. Ele riu e começou a se afastar indo em direção a saída da arena. Nas próximas falas da mulher, Marin entendeu o porque de sua saída:
- Muito bem, preciso que vocês tirem as máscaras. Misty vai ficar na porta vigiando caso algum maluco queira entrar para casar ou ser morto por vocês..
Marin sorriu por de trás do artefato. Ela já simpatizara com aquela mulher. Um pouco de ironia nesse lugar árido aliviava a responsabilidade que se esperava daquelas meninas. Observou-a tirando sua máscara. O cansaço de seus traços surpreendeu a ruiva, esperava que tivesse talvez o dobro de sua idade, mas notando as rugas demarcando o rosto especulou que tivesse o triplo. Tinha olhos tão escuros quanto seu cabelo e seu sorriso irônico combinava bem com o tom sarcástico que falara até agora. Ela pulou na arena e observou uma a uma:
- Eu não pedi para vocês tirarem as máscaras?
Ainda confusas, as jovens tiraram a vestimenta e aguardaram enquanto a mulher se dirigia até as armas colocadas de lado pelas instrutoras. A amazona pegou dois bastões de madeira e se aproximou da roda que a aguardava. Casualmente batia uma das armas no chão e passou na frente do grupo analisando friamente cada garota. O batuque constante aumentava a tensão daquela análise e quando trocou olhares com Marin, a ruiva teve certeza que ela não tinha chance alguma de ser sua pupila. Nunca se sentira tão vulnerável e provavelmente seu rosto demonstrou o quanto estava intimidada por sua presença. A Amazona de Águia esticou o braço e entregou um bastão para uma das garotas mais velhas da roda:
- Venha. Mostre-me o que você sabe.
Aquela foi a primeira a ser desafiada. Por quase meia hora, Marin assistiu as adolescentes serem chamadas. E derrotadas. Era curioso como para cada uma, o método de batalha mudava, para as garotas que Marin sabia que eram mais cautelosas, ela já começava com um ritmo intenso que as obrigava a se defender sem pestanejar por vários minutos; as mais rápidas ela aguardava o golpe e então forçava o atrito do bastão contra a própria garota. Diferentes métodos, mas as consequência era sempre a mesma: todas as concorrentes acabaram no chão sem fôlego. A ruiva sentiu as mãos gelarem quando percebeu que seria a última a lutar.
Pegou o bastão no chão e encarou a Amazona de Águia. O que seria usado contra ela? Sabia que era cautelosa, mas também era muito rápida quando necessário. Para sua surpresa, a desafiante não forçou uma aproximação por um bom tempo. Mantiveram-se próximas, o bastão em posição de defesa pronto para qualquer movimento, mas Marin sabia que não era a batalha física que estava sendo travada ali. Por segundo algum ela abandonou os olhos negros da amazona, nem mesmo quando esta forçou o bastão contra o dela. Sentiu um choque percorrer seu corpo com aquele atrito, era como se uma corrente elétrica tivesse invadido seus ossos e a incentivava a manter os braços firmes:
- Quem é você? - ouviu o sussurro da outra e nem acreditou quando respondeu sem pestanejar.
- Marin. Eu sou Marin.
A morena sorriu, misteriosa, e estreitou as pálpebras:
- Marin... Eu sou Selene. - murmurou e aumentou a pressão no bastão – Seus olhos.. Você é muito diferente das outras garotas daqui.
Ela forçou os braços e conseguiu distanciar Selene. O comentário a irritou. Sim, ela era japonesa e não precisava de mais uma pessoa no Santuário fazendo comentários ferinos sobre sua inferioridade. Começou a golpeá-la e seu ataque foi defendido todas as vezes até que a amazona chocou o bastão precisamente contra o seu e uma nova eletricidade preencheu seus músculos. Estava refém daquele olhar indagador e Marin estranhou como seu corpo não cedia aquela pressão pujante:
- Você está sentindo também, não é?
A ruiva arregalou os olhos. Ela estaria falando dessa onda elétrica que incomodava seu corpo a cada novo choque do bastão?
- Não fui apenas eu que percebi que você tem olhos de águia, garota. - Marin tentou entender para que local ela olhou de relance e demorou alguns segundos para se lembrar que era ali que estava o case da armadura de águia. - Essa conexão de cosmos é rara. Eu deveria ter ido direto em você, mas o que as outras aprenderiam com isso?
Ela empurrou Marin e aproveitou a distância para atingir suas canelas com o bastão. A ruiva caiu na terra e em meio ao pó que subiu ela viu o bastão ser postado no chão rente a sua orelha. Como todas as outras da arena, foi ridiculamente derrotada . Estava confusa com as últimas falas de Selene. O que ela estava dizendo? Que a armadura de águia a escolhera? Isso era ridículo.
A mulher se inclinou para ela, seus grandes olhos escuros analisavam sua face. Esboçou um sorriso singelo, o único que Marin viu até agora sem resquício de escárnio:
- Você vai ter que confiar em mim... – sussurrou e ofereceu-lhe a mão. Marin aceitou o convite e levantou-se. Escutou-a falando, bem próxima – Eu posso ver que vai ser difícil para você, mas você vai ter que se esforçar para confiar em mim. Você vai conseguir fazer isso, águia?
- A garota luta bem – a voz de Aioria ao seu lado a fez voltar ao seu presente.
Marin observou a batalha de armas brancas que se travava no centro do coliseu. Misty lutava contra uma amazona de bronze há alguns minutos e claramente se divertia por ter encontrado algum oponente a altura. A menina normalmente era afobada no corpo a corpo contra os cavaleiros de Prata, mas com o bastão de madeira demonstrava uma estratégia excelente. Observar aquela luta fizera Marin sentir uma estranha nostalgia dos tempos que treinara com Selene. A mentora mudou sua vida e a cada mês era mais difícil de ignorar o quanto sentia sua falta.
Por que nunca lhe respondera? Sabia que Selene rompera silenciosamente sua relação com o Santuário, escolhê-la para herdar a armadura de águia fez parte desse processo, mas não esperava que sumisse completamente depois que Marin deixasse a Creta.
Sentiu um toque leve em sua mão e olhou os dedos de Aioria roçando casualmente nos seus. Deixara a mão para trás como se estivesse apenas se inclinando para olhar melhor a luta, mas a ruiva já conhecia as maneiras sutis que o amigo encontrou de acariciá-la naquele lugar . Observou suas costas largas e imaginou como ele se sentia em relação ao próprio mentor. Já era ruim o suficiente ter uma mentora conhecida por seus comentários irônicos contra o Santuário, imagina ter um que efetivamente foi acusado de traição. Se a personalidade rebelde de Selene era admirada por muitos, as suspeitas contra Aioros acarretavam somente ódio e uma reputação terrível. Sempre desconfiou que Selene não acreditava em nenhuma dessas histórias, jamais a vira falando qualquer coisa negativa contra Aioros, muito pelo contrário. Sempre seu tom era repleto de admiração ao contar sobre alguma aventura que lutaram juntos, nunca fazia distinção dele para os outros companheiros de batalha. Inclusive, lembrava-se de tê-la ouvido falar sobre o talento precoce de Aioria mais de uma vez. A ruiva tinha uma estranha sensação de que a mentora condenava essas suspeitas, mas nunca a ouviu falar diretamente que desconfiava da liderança do Santuário.
Subitamente o urro da arena dispersou novamente seus pensamentos e Marin voltou a prestar atenção na luta. A garota conseguira derrubar Misty que não demorou a se levantar e investir novos golpes contra ela. A poeira avermelhada tingira seu cabelo e vestes de marrom e Marin podia imaginar o quanto ele estava se divertindo com aquilo:
- Ele adora um desafio – a amazona murmurou inclinando-se sobre os joelhos e ficando na mesma posição que Aioria. Os dedos se afastaram, mas propositalmente roçou o ombro desnudo contra o braço dele e manteve a proximidade:
- Não dá para ver pelo rosto dele...
- Quando ele fica bravo, parece que uma veia vai saltar de sua testa... e começa um diálogo infinito sobre o porquê da sua técnica estar errada, como você pode melhorar etc. Mesmo que seja ele quem esteja perdendo… Nunca reparou?
O loiro voltou o rosto para ela esboçando um sorriso irresistível:
- Hahahaha, acho que só o vi fazendo isso com você.
Ela deu de ombros e riu. Era realmente muito difícil resistir a vontade de acariciar as mechas loiras do leonino, seu cabelo acompanhavam a brisa leve do fim de tarde, ora ocultando, ora revelendo seu belo rosto. Assim como muitos outros dias, eles se encontraram hoje na arena antes de voltarem para suas respectivas casas. Mesmo que não conseguissem treinar, acabavam se encontrando por alguns minutos ali e acompanhavam uma batalha juntos. Era bom se sentir tão à vontade para conversar com ele. Quando todo o envolvimento começou, temia que não conseguissem dialogar como antes, mas depois de toda a tensão da noite da festa, pareceu que a química de suas conversas voltara a fluir normalmente. Apenas sentar ao seu lado e ouvir sua voz, dava um toque especial aos seus afazeres e percebeu que as obrigações do Santuário, incluindo a máscara, não a incomodavam mais tanto assim.
O leonino vira seu rosto. Sim, isso era... bem sério, mas naquela noite ele não demonstrou nenhum temor pelo novo passo de sua intimidade. O simples fato de Aioria conhecer suas expressões lhe dava uma estranha sensação de que não estava mais sozinha nesse lugar.
Desde que tudo voltara ao normal no Santuário, há duas semanas, eles não trocaram mais nenhuma carícia. No máximo toques e sussurros furtivos em uma luta ou na arquibancada. Ambos andavam extremamente atarefados com suas funções e conseguiam se ver no máximo nesses fins de tarde. Contudo, era nítida o aumento de intimidade dos dois, o quanto confiavam um no outro. Marin sentia sua falta e podia perceber que a cada novo entardecer, Aioria se aproximava com um olhar mais... intenso. Faminto. A ruiva temia que logo mais ambos não resistiriam e fariam algo por impulso a vista de todos.
Os olhos esmeraldas continuavam a encará-la intensamente ignorando completamente a luta na arena. A vontade de beijá-lo a fez morder o lábio inferior. Sabia que queria um novo beijo tanto quando ela, mas precisavam disfarçar o desejo. A amazona apontou para arena, Misty investia vários golpes seguidos contra a garota:
- Amanhã... lutamos? - ela murmurou a pergunta.
- Tenho uma reunião... - o sorriso do leonino se desmanchou - Não sei se consigo chegar a tempo. E se...
A voz de Aioria foi abafada pelos urros da arquibancada. A amazona de bronze perdera a luta e Misty foi aplaudido por todos. Marin e Aioria se levantaram, mas não imitaram os demais, sabiam que o Cavaleiro de Lagarto não se importava com aplausos de um treino padrão e apenas o observaram enquanto ajudava a garota a se levantar. Aioria se aproximou e encostou em seu cotovelo, dando mais espaço para os presentes dispersarem. Pôde ouvi-lo sussurrar:
- E de manhã, você está ocupada?
- Só se for antes das 7h, ou seja... – ela riu, apreciando o cheiro de seu corpo tão próximo.
Marin sabia que ele iria propor mais alguma coisa, porém a voz serena de Misty o interrompeu:
- Olá, Aioria.
O Cavaleiro de Leão largou seu cotovelo e calmamente se afastou:
- Oi, Misty. A menina de bronze deu mais trabalho que o normal?
- É.. ela está treinando com o grupo de Aldebaran, é bem nítido o aprimoramento dela. - apesar das palavras de elogio, a voz de Misty esboçava tanta indiferença quanto seu rosto. Ele fixou o olhar frio na amazona ruiva – Marin, podemos conversar?
- Oh, claro.
- Bem, eu já vou, então. Boa noite!
- Tchau, Aioria – Marin pôde perceber seu olhar preocupado antes que se virasse. O Cavaleiro sabia que Misty normalmente a escolhia para acompanhá-lo em alguma tarefa, mas desconfiou que a preocupação de Aioria não era sobre alguma missão fora do Santuário. Assim com ela, provavelmente temia que Misty estava prestes a lhe dar uma bronca pelas indiscrições do casal nos últimos dias:
- Bem, - ele apontou para os degraus da arquibancada e Marin o seguiu enquanto saíam do estádio – vejo que você e Aioria não estão mais brigados?
- Nunca estivemos brigados...
O loiro arqueou a sobrancelha e a olhou de relance:
- Desde que paramos de ajudar as vilas, percebi que vocês retornaram os treinos e estão se falando como antes. Até com mais frequência.
Marin engoliu em seco. Desde aquele dia na praia, Misty nunca mais lhe questionou sobre seu envolvimento com o leonino. Imaginava que sua observação meticulosa não ignorou as mudanças sutis de comportamento dos dois, contudo não se sentia à vontade para admitir que havia realmente mais entre eles do que a amizade. Não queria envolvê-lo expressamente nesse segredo, então respirou fundo e disse calmamente:
- Normal voltarmos para a rotina, não é? É sempre bom treinar com ele.
Misty esboçou um sorriso misterioso e ficou em silêncio até os degraus acabarem. Esperava por mais alguma pergunta, contudo, o Cavaleiro de Lagarto apenas continuou a andar até umas das trilhas que saíam da área de treino e, então, mudou de assunto:
- Algol te disse que o Santuário liberou o intercâmbio?
- Não, que ótimo! - A amazona se sentiu um pouco culpada. Ela interviu de boa vontade nos contatos iniciais para a viagem de Algol acontecer, mas a ansiedade do cavaleiro a incomodou algumas vezes. Marin percebeu que o cavaleiro tentará falar com ela hoje, mas preferiu continuar lutando até ele ir embora. Achava que, novamente, iria reclamar que o Santuário estava demorando para dar alguma resposta. Ou que a ilha deveria ser belíssima, os cavaleiros ágeis etc etc... - Eles já sabem quem de Creta virá?
- Provavelmente será alguém mais experiente...
Marin tinha uma esperança ridícula que talvez Selene viesse acompanhando o cavaleiro escolhido para o intercâmbio. Ela tinha relações abertas com o Santuário, seria ótimo que continuasse a ensinar amazonas por aqui. Imaginava como seria sua vida agora sem os treinos árduos. Tsc, duvidava que a mestra largara de vez suas habilidades, com ou sem armadura, provavelmente estava ajudando os cavaleiros cretenses a se aprimorar. Misty pareceu ler seus pensamentos:
- Ela não virá, Marin... Acho difícil que Selene pise aqui mais alguma vez.
As falas do Cavaleiro de Lagarto confirmava sua desconfiança que a intenção de Selene era realmente romper com o Santuário. Ele conhecia sua mentora muito bem, não apenas fizera parte de seu treinamento com ela, mas também era um grande amigo e possivelmente sabia exatamente o que fez a amazona não querer mais proteger Athena. Ela podia apostar que tinha algo a ver com a traição de Aioros, nunca teve certeza se seu rancor era por ser grande amiga de um traidor, ou se não acreditava na acusação do Santuário. Queria questionar Misty, contudo não teve coragem, apenas perguntou:
- … você acha que ela ainda está em Creta?
- Eu sei que não.
- Ela te falou algo? Disse aonde está?
- Não, Marin... Mas pense. Selene sempre teve um espírito inquieto, ela não aguentaria continuar envolvida por mais tempo. A máscara, os deveres...
- … Aioros – Marin ousou murmurar e sentiu um calafrio com o olhar cortante que Misty lhe deu.
O loiro olhou para trás e para frente, obviamente buscando algum sinal de que alguém os ouvira, contudo o único grupo de amazonas visto estava a muitos metros a frente:
- Sim. Você sabe que ela sempre questionou a traição. - ele sussurrou mantendo a expressão soturna - Dizem que outros o fizeram também, mas ou saíram do Santuário, ou foram mortos... Não duvido que ela aguentou ficar aqui só para investigar melhor o que realmente aconteceu.
A amazona não sabia o que dizer. Toda a polêmica envolvendo Aioros sempre lhe pareceu suspeita, especialmente se pensasse em sua relação com Aiolia... Como um possível traidor teria criado um irmão tão justo, bondoso e, principalmente, tão fiel a Athena? O tom que Misty falara sobre o assunto lhe demonstrou que, como ela, tinha suas dúvidas sobre as acusações, mas sua expressão soturna era um aviso que não gostaria de continuar falando sobre aquilo. Claro, se Aioros não tentou matar Athena, por que o Mestre do Santuário o acusou? O representante da deusa estaria mentindo?
- Talvez ela tenha descoberto algo... - Marin murmurou evitando o olhar de Misty e observando as árvores que circundavam o caminho. Respirou fundo e voltou a encará-lo – Mas eu sei que você não me chamou para falar de conspirações, certo? Para onde está me guiando?
O cavaleiro de prata desmanchou a expressão preocupada e deu um sorriso misterioso:
- Sou realmente terrível em conversa fiada. Veja o que essa conversa nos levou - apontou para mais uma bifurcação da trilha e seguiu por ela – Queria fazer uma surpresa, mas sou péssimo em surpresas também...
Marin riu e estreitou sua visão tentando ver o que havia mais para frente daquele caminho:
- Como assim, Misty?
- Conversei com a administração e eles concordaram comigo.
A princípio ela não compreendeu o que Misty citou, mas ao ver a pequena morada despontando entre as árvores parou e esboçou um som de surpresa:
- Oh, isso é? …
O loiro deu um de seus raros sorrisos e encostou em seu ombro incentivando-a a continuar a andar:
- Sim, você pode ficar nessa casa se quiser ficar sozinha por um tempo.
A amazona não conseguiu completar uma sequência lógica de palavras para falar qualquer coisa. Ficou alguns segundos observando a construção de pedra. Era um pouco menor do que a casa em que morava atualmente, mas telhado, cores e acabamento eram similares. Fitou as janelas de madeira e pode vislumbrar os cômodos vazios:
- É sério?
- Uhum – ele abriu a porta e a chamou para entrar. Marin o seguiu e percebeu que suas bochechas doíam de tanto sorrir. Isso realmente estava acontecendo... - Eles disponibilizaram alguns materiais caso queira reformar alguma coisa. Esse forro da sala bem deteriorado, acho que Aioria pode te ajudar com isso.
Nem a insinuação com o nome de Aioria a fez perder o sorriso. Muito pelo contrário. Misty sabia que havia algo entre eles e ainda assim intervira para que conseguisse mais privacidade... O amigo de sua mestra sempre a surpreendia:
- Se você não quer me ajudar na reforma, Misty, não meta outros nessa enrascada... - ela ironizou observando as madeiras tortas do forro.
- Tenho certeza que ele estará aqui antes mesmo de você pedir a ajuda...
Ela estava entrando no pequeno banheiro quando Misty terminou a sentença e resolveu ignorar a piada e continuar a conhecer sua nova morada. Porém a voz do Cavaleiro não parecia mais ser em tom de brincadeira nas novas falas que ele disse:
- Esse lugar é uma recompensa por todo seu trabalho árduo, Marin, mas também demonstra mais responsabilidade... Mais cobrança. Cuidado para não dar motivos para eles tirarem suas conquistas.
A ruiva voltou-se para o corredor, encarando-o e cruzando os braços:
- O que você quer dizer com isso?
- Você entendeu. - Ele continuou encarando sua face metálica sem pestanejar por alguns segundos, até que respirou fundo e completou – Seja discreta. Você acabou de se livrar de todo o estigma que te impuseram por ser oriental, por ser discípula de uma mulher que não tolerava as regras do Santuário... Não deixe que te reduzam a amante do irmão do traidor.
Marin sentiu uma pontada sobre o peito. Quando Misty fizera um alerta parecido anteriormente, achava que o grande problema de sua relação com Aioria era seu temperamento expansivo, entretanto agora claramente o que o preocupava desde o início é que a relacionassem de alguma maneira com o traidor de Athena. Podia ver em seu rosto que ele não duvidava da fidelidade de Aioria, contudo sua preocupação era sincera e ela não conseguiu ficar com raiva dele. Sentia apenas uma melancolia perturbadora por sua mestra e Aioria serem julgados por sua relação com O Cavaleiro de Sagitário. Eles não mereciam isso.
Mais do que nunca sentiu vontade de estar com o leonino, de abraçá-lo e demonstrar que ele era muito mais do que isso para ela. Por mais que o amigo andasse pelo Santuário de cabeça erguida, Marin sabia que essa sombra sempre o perseguiria:
- Sim, eu entendi... - ela murmurou, passando por Misty e vasculhando rapidamente o restante da casa.
Não trocaram mais palavras até que saíram do lugar e ele lhe entregou as chaves que estavam penduradas na porta. Durante o gesto, ela cobriu sua mão e disse:
- Misty, obrigada. Mesmo. - o Cavaleiro assentiu com a cabeça e Marin se afastou. – Vou para casa. Boa noite e até amanhã.
Ela não dormiu muito bem naquela noite. Teve diversos pesadelos, alguns envolviam o rompimento com seu irmão, outros mostravam Selene sendo acusada de traição. O sono foi interrompido várias vezes e quando começou a ouvir o som dos pássaros, desistiu de vez de dormir. Olhou o sino pendurado em sua cabeceira e o puxou. Fazia semanas que não o colocava, tinha medo de perdê-lo em meio aos destroços das vilas e acabou se habituando a não levá-lo constantemente. Se sentindo culpada, amarrou-o no pulso e se vestiu para caminhar.
Acordara uma hora mais cedo que o habitual e o Sol ainda não nascera, mas manteve sua rotina. Sabia que os treinos do dia teriam que ser mais leves com uma noite sem descanso assim, contudo o ar matinal a ajudaria apaziguar a inquietação provocada pelas palavras de Misty.
Caminhou por quase meia hora contemplando o céu ainda estrelado até que ouviu um som familiar. Uma águia sobrevoava a copa das árvores, contudo os pequenos barulhos não vinham dela, havia um ninho ali em algum lugar e provavelmente aquela ave buscava sua localização. Fazia muito tempo que não via uma águia por ali, costumava vê-las o tempo inteiro na Creta, curiosas com a figura altiva de Selene. A mestre parecia fasciná-las e tentou lhe ensinar algumas vezes como ser paciente e atrair as aves com seu cosmos. Marin respirou fundo, se sentindo uma tola por tanto saudosismo, entretanto não poderia ignorar a coincidência daquela aparição com a nostalgia do último dia. Fechou seus olhos e deixou seus cosmos aumentar gradativamente, se conectando com o terreno, as árvores e o céu estrelado. Podia sentir o vento frio no rosto e a liberdade do voo. Esticou seu braço e sentiu as garras da águia envolvendo-o.
O sino fez um tilintar metálico com o peso da águia. Marin abriu os olhos,não podia vê-la tão bem naquela luminosidade, o Sol começara a expulsar a escuridão, porém sabia que o animal fitava sua máscara. Ficaram ali por alguns minutos, a ruiva roçava suas penas cautelosamente e ouvia em resposta um burburinho de satisfação. Por que ela não fazia isso mais vezes?
- Você nunca me disse que podia fazer isso. - a voz de Aioria tirou sua concentração e o susto fez a águia abrir as asas e alçar voo. - Ah, desculpe, não queria te atrapalhar.
Marin riu e voltou-se para ele. Estava ofegante e suado pela corrida; a expressão arrependida lembrava-lhe a de um moleque pego em alguma travessura. Queria apertar suas bochechas, beijá-lo, abraçá-lo, mas conteve-se e colocou as mãos no quadril:
- O que está fazendo aqui?
- Você está sorrindo? - ele sussurrou dando alguns passos em sua direção.
- Sim. É claro que sim. - A águia e agora o leão... Isso era realmente um presente. Vê-lo assim, depois de um noite tão atribulada, depois de sentir tanta vontade de acalentá-lo e de compartilhar suas dúvidas com ele... Aproximou-se e usou seu cosmos para averiguar se havia mais alguém por ali. Nada.
Ele a deixou acariciar sua mão e o braço, observava-a atentamente e ousou passar os dedos em alguns fios de seu cabelo:
- Você estava me espionando? - perguntou com um tom divertido.
- Não! É... claro que não eu ...– percebeu seu constrangimento e tocou seu rosto para tranquilizá-lo. E calá-lo:
- Você tem algum tempo agora? Pode vir comigo? - sussurrou e o puxou. Ele apenas sorriu e aceitou que ela o guiasse. Inicialmente levou-o pela mão, até que se aproximaram de sua morada e ela apontou para a janela de madeira. Murmurou – Aquele é meu quarto. As meninas ainda estão aqui, então faça silêncio, eu já te encontro.
Viu um brilho no olhar esmeralda do leonino. Misto de desconfiança e ansiedade. Os raios solares dominavam a manhã cinzenta e revelavam seus traços, sua expressão sedutora. Se tivesse qualquer dúvida que era um erro trazê-lo, acabaria ali, naquele momento.
Observou os arredores enquanto ele pulava a janela e então entrou pela porta da frente. Como esperado, as meninas já estava afoitas para começarem suas tarefas. Hoje era dia de meditação com os servos do Cavaleiro de Virgem e sabia que, para variar, elas estavam atrasadas. Brigavam para ver quem tomaria banho primeiro, ou quem acabou com as frutas, ou quem sumiu com sua ombreira de treino. Talvez Marin pudesse sentir falta disso, como sentia da convivência com a mestra, mas não deixou-se levar por esses pensamentos. Sua única vontade agora era de aproveitar Aioria... Poderia esperar mais um pouco talvez, quando estivesse sozinhos, mas como ignorar que ele aparecera em seu caminho justamente hoje?
Abriu a porta do quarto e a fechou rapidamente. Ainda voltada para a fechadura que trancara, viu a sombra dele aumentar sobre ela. A respiração em seu pescoço fez seu coração acelerar:
- Isso não vai te dar nenhum problema?
- Não, é só não fazermos muito barulho – sussurrou e sentiu as mãos ásperas em seus ombros, acariciando suavemente sua pele até chegar em suas mãos e entrelaçar seus dedos. Deixou-o beijar sua nuca suavemente e então escorregou o corpo virando-se para ele e envolvendo seu pescoço. Sussurrou - Como senti sua falta...
Aioria a puxou pela cintura, erguendo-a um pouco do chão, e a colocou sobre os lençóis. Apoiado sobre ela, retirou lentamente sua máscara. Seu olhar, mescla de carinho e paixão, a fez se sentir nua a medida que revelava a pele de seu rosto:
- Eu também – beijou a ponta de seu nariz, mordiscou seu lábio inferior – Eu também.
O beijo suave despertou um turbilhão de emoções. A química de seus corpos era perfeita... Era como a conexão de seus cosmos com o da armadura. Uma simbiose viciante. Soube naquele momento o que realmente sentia por ele. Era impossível segurar aquela entrega. Como não confiar nele se sua alma lhe dizia que ele estava tão apaixonado quanto ela?
Marin tocou seu rosto, afastando-o e fitando os detalhes de seus traços. Sorriu:
- Eu queria muito te ver... Misty me contou ontem que eu poderei morar sozinha. Precisava te falar.
Aioria sorriu:
- Mesmo? Isso é ótimo!
- E talvez eu precise de ajuda com algumas coisas. - Marin notou que a expressão alegre sumiu de seu rosto:
- Oh, eu vou ter que acompanhar Milo em uma viagem, não tenho certeza se vou demorar, mas com certeza te ajudo assim que voltar.
A ruiva inclinou seu corpo e inverteu as posições, fazendo-o ficar sob ela:
- Tudo bem.. - beijou sua testa, lábios e pescoço - Quando irá?
- Hoje à tarde... - ele gemeu quando Marin mordiscou sua orelha – Você não se importa com o suor?
- Não – a amazona respirou seu aroma e percorreu os dedos por seu tórax. Podia sentir a umidade sob o tecido e atestou que não se importava nenhum um pouco. - Talvez se seu cheiro não fosse tão bom...
Aioria riu e puxou-a para que seus lábios se encontrassem. Continuaram a apenas se beijar por um tempo e independente da excitação crescente, ambos não pareciam dispostos a romper as carícias e conversas para transarem. Um ranger de porta comunicou que não havia mais ninguém na casa e Marin apreciou o silêncio que se fez. Ainda faltava uma hora para se apresentar ao seu treinamento e poderia apreciar mais sua presença. A amazona podia sentir que esse era um novo tipo de intimidade que estavam explorando aqui, como se tivessem dormido juntos e acordado compartilhando carícias enquanto conversavam.
Quando dormiram juntos há duas semanas, a amazona precisou correr para manter a descrição e pegar o transporte do Santuário. Era ótimo poder senti-lo sem pressa, sem culpa:
- Eu falei sério antes, porque nunca me falou que sabia lidar com águias?
- Hahaha, Selene sabia muito bem eu só... estava testando. - Marin sentou na cama e tirou os sapatos. Dela e dele.
- Você estava acariciando uma águia... não me pareceu apenas um teste.
- Eu estava apenas … com saudades dela, sabe?
- De sua mestra?
- Sim... - Marin soube que sua voz soara um pouco mais triste do que gostaria de demonstrar e naturalmente o Leão a puxou para que se deitasse.
Acariciou seu rosto exibindo uma expressão séria e a amazona soube que ele pensava em Aioros:
- Sei bem...
A amazona de prata o beijou suavemente. Queria lhe falar mais, falar sobre o que ouvira enquanto treinava em Creta. Falar sobre a conversa com Misty, contudo tinha certeza que isso o aborreceria. Era um assunto delicado demais e temia que a desprezasse caso falasse sobre suas suspeitas. Não queria vê-lo triste.
Dedicou-se a apenas beijá-lo pelos próximos minutos até que ambos não resistiram mais e se entregaram a excitação. Foi intenso e delicioso, mas, como sempre, insatisfatório para matar toda a vontade que sentia de ficar mais tempo com ele.
Capítulo longoooo e sem tanto romance, mas tava com vontade de explorar mais o passado (e possíveis consequências...) da Marin :B.
Obrigada pelos comentários!
