.normalidade.

Potter poderia esperar qualquer resposta, qualquer reação – qualquer coisa mesmo – do outro rapaz, menos o que acontecera. Draco o puxara em sua direção, girando seu corpo sobre sua perna menos machucada, empurrando Potter contra a arquibancada, e puxou o cachecol, que não se soltou, e muito menos as mãos do outro por sobre as suas.

E quando se deu conta, seu corpo estava por sobre o do outro, os olhos de Potter fitando os seus muito de perto, seus narizes lado a lado, e sentiu sua boca roçando na do outro. Não se moveram, ainda segurava o tecido vermelho, ele ainda segurava suas mãos, e agora ele sentia o hálito com a respiração acelerada do outro entrando em sua boca. Sentia o peito do outro descendo e subindo rápido, batendo de encontro ao seu, que fazia a mesma coisa, na mesma velocidade.

Harry não estava totalmente assustado, na verdade, estava curioso para saber qual seria o próximo passo do outro, porque ele os colocara naquela situação. Fechou mais os dedos contra as mãos do loiro, sentindo que ele fechava mais as mãos contra seu cachecol. Não conseguiu não sorrir.

-Você é sempre teimoso desse jeito?

Todas as letras que Harry disse fizeram seus lábios tocarem o de Malfoy, e o rapaz levou aquilo como uma afronta. Ele percebera a determinação de Potter em seus olhos, no modo como os nós da mão dele já estavam brancos de tanto apertarem suas mãos, e não teve dúvidas de que se ele não o soltasse, não se afastasse, não se importava com aquela aproximação, Draco também não iria. Ficou na mesma posição, tentando ainda puxar o cachecol do pescoço do outro.

-Você é sempre tão babaca?

Harry riu outra vez. As palavras de Malfoy só demonstravam que ele realmente era teimoso, e suas atitudes demonstravam que ele não sairia dali também, não daria o braço a torcer. Sentiu os lábios de Malfoy baterem nos seus enquanto ele falava, e ficou ainda mais curioso para saber qual seria a reação do outro se teimasse mais que ele.

-Não vou soltar.

Draco sentiu o lábio de Harry roçar com mais força no seu, e não se importou, enquanto Potter não desse para trás, ele também não daria. Puxou o cachecol com força, a boca do moreno colando definitivamente com a sua.

-Não vai conseguir tirar.

Harry provocou, sua boca ainda contra a de Malfoy. O loiro apenas empurrou Potter, afastando suas bocas, mas continuando próximo demais. Não soltaria o cachecol, se fosse necessário rasgaria o tecido para tirar aquele cachecol dali, para acabar com aquela besteira toda.

-Você é muito teimoso.

-Não sou único.

Malfoy olhou dentro dos olhos de Potter, vendo a determinação mal disfarçada do outro por debaixo da diversão. Ele não soltaria suas mãos, e sabia que Draco seria teimoso o suficiente para não largar o cachecol. A boca de Potter ainda exibia aquele sorriso de deboche e Malfoy sabia que ele estava lhe provocando, mas não daria o braço a torcer. Não daria.

-Vai ter que rasgar com os dentes.

Isso inflamou o loiro por dentro, fez aquele ódio em seu peito inundar seu coração e correr por suas veias. Os olhos cinza de Malfoy se tornaram chumbo, e Harry viu quando ele o puxou com força, o rosto determinado a rasgar o cachecol. E se fosse necessário, seria com os dentes realmente.

Riu, da fúria do outro rapaz. Era uma coisa tão banal que o outro se irritava, que chegava a ser patético. Mas não deixaria que ele conseguisse o que queria, queria ver qual era o limite de Draco, queria ver o que ele era capaz de fazer para conseguir o que queria. Apertou os dedos por cima dos dele, dessa vez querendo machucar. Viu que Malfoy se aproximara, a perna parecia já não mais agüentar aquela posição.

-Desiste?

-Nunca.

A voz de Malfoy apenas fez Harry rir, e isso deixou o loiro definitivamente com raiva, pronto para conseguir arrancar aquele cachecol de qualquer jeito. Sua respiração acelerada batia de encontro com o rosto do outro, e a dele contra sua face. E foi quando Draco se lembrou de uma pequena frase que Blaise lhe dissera semanas atrás, enquanto roubava em um jogo de xadrez bruxo: 'Use dos piores artifícios para vencer seu inimigo. Até aqueles mais baixos.'

Draco sabia bem que poderia usar vários artifícios com Potter, mas o moreno não cairia, era mais esperto que as pessoas que o cercavam. Não, com Potter teria que jogar extremamente baixo, pisar no calo do rapaz. E foi quando viu o sorriso dele aumentando mais e mais conforme parecia achar que Draco desistiria, afrouxando as mãos no cachecol, que a idéia o acertou.

Para ele não seria novidade, já fizera isso antes, mas para o rapaz de ouro da Gryffindor, para o pobre herói ferido, aquilo seria um choque. E esse choque lhe garantiria a forma de arrancar o cachecol e provar que ele era mais forte que o outro. Fechou os dedos contra o tecido, empurrando seu corpo decidido contra o outro, e colocou sua boca na de Potter, fechando seus olhos devagar, conseguindo ver antes de suas pálpebras se fecharem de vez, a surpresa nos olhos arregalados do outro.

Harry sentiu a boca de Draco contra a sua, o corpo dele pressionado ao seu, e nos dois primeiros segundos – que se passaram lentamente – ele assustou-se com aquilo. Mas então sentira a pressão que a mão de Draco fazia para a esquerda, puxando o cachecol, tentando tirar o tecido. A mente de Harry riu por ele, e decidiu entrar na jogada.

Quando Malfoy sentiu que Harry empurrava o corpo contra o seu, mas o puxava pelas mãos, pouco entendeu. Mas quando então sentiu que ele ainda impedia suas mãos de tirarem o cachecol é que percebeu que o outro também estava teimando. Ficou com ainda mais raiva, queria ganhar e seria jogando baixo, bem baixo.

Abriu a boca, a ponta de sua língua tocando os lábios de Potter, sentindo que eles continuavam fechados. Se o forçasse bastante, ele o empurraria, e assim que ele o fizesse, seguraria no tecido com força e o conseguiria tirar, conseguindo assim provar quem estava comandando aquela situação. O que nem um nem o outro esperavam era que Harry abrisse a boca, deixando a língua de Malfoy passar por seus lábios.

E foi quando as línguas se tocaram que ambos desistiram ao mesmo tempo. Malfoy se jogou para trás, abrindo os dedos e soltando o tecido. Harry fez o mesmo, empurrou seu corpo para trás, soltando as mãos de Malfoy. Potter parecia ter corrido todo o campo, sua respiração saía tão rápida que chegava a queimar seus pulmões. Draco cambaleou em sua perna boa, encostando de leve a dolorida no chão, olhando o outro, ouvindo seu próprio coração parecer tocar bateria dentro deu peito. E sua voz saiu quase estrangulada.

-Mas que diabos...?