CAPÍTULO 13 - O TEMPLO ENVOLVIDO EM TEMPESTADES DE AREIA – SEGUNDA PARTE

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"E isso é para que tenha coragem..."

Tenko ainda podia sentir os lábios quentes e macios de Freya sobre os seus. Parada na porta do templo, ela se virou para ver a sacerdotisa mais uma vez. Falar o que estava entalado dentro de seu peito. Finalmente havia compreendido os sentimentos que a atordoavam e confundiam. Queria gritar. Queria que Midgard inteira ouvisse sua voz. Mas quando se virou, Freya não estava mais lá.
"Eu também amo você", a gatuna sussurrou para os ventos e para a areia. Em seguida, atravessou o grande portal de pedra amarelada e adentrou na Guilda dos Assassinos do Deserto de Sograt.

Assim que penetrou no templo, percebeu que estava em um corredor longo e escuro. Sem hesitar, andou em frente, deixando para trás a luz que vinha da porta. Não podia ver o final do caminho. Passado algum tempo, não podia ver nada. A porta de entrada era uma pequena mancha brilhante às suas costas. O silêncio era total, exceto pelo eco suave de seus próprios passos. De repente, a gatuna parou. Suas narinas haviam captado um odor extremamente familiar. Apurou os ouvidos e, devagar, tentou chegar na origem do cheiro. Percebeu um vulto em meio à escuridão. Corajosamente indagou:

"Quem é você, que cheira a sangue?"

A resposta foi outra pergunta, dita em uma voz grave e baixa.

"Quem é você, que entra neste templo como se pisasse no chão de sua própria casa?"

"Me chamo Tenko Kitsune", respondeu a garota. "Sou uma gatuna". O vulto se moveu um pouco, aproximando-se de Tenko.

"E o que deseja aqui, Tenko Kitsune?", perguntou outra vez. "Desejo me tornar uma assassina", respondeu a gatuna com firmeza. Assim que o eco das últimas palavras de Tenko silenciou, uma tocha se acendeu, enchendo o ambiente com uma luminosidade avermelhada.

Tenko agora podia ver o vulto. Era um homem de meia-idade, magro e um pouco recurvado. Seus cabelos eram de um castanho sujo, permeados de fios brancos. Tinha um cavanhaque, e não tinha um dos olhos, a órbita esquerda vazia e cortada verticalmente por uma enorme cicatriz. Estava envolvido em um velho manto cinza-azulado, rasgado e gasto em várias partes, coberto de manchas escuras, que a gatuna imaginou ser a origem do cheiro que sentira. Por baixo do manto podia ver não um, mas dois cabos de adaga apontando para cima. "Muitos vem até este templo com desejo de se tornarem assassinos. Mas apenas os melhores serão aceitos", disse o homem, sondando a gatuna de cima a baixo com seu único olho castanho. Tenko não se deixou intimidar. Levantou o queixo e fitou ferozmente o rosto de seu interlocutor. Os lábios ressequidos do homem se curvaram lentamente em uma espécie de sorriso. "Orgulhosa! Isso é interessante!", exclamou ele. "Você deseja ser testada e ver se está apta a se tornar uma assassina então?". A gatuna assentiu com a cabeça. "Saiba que não nos responsabilizaremos por sua integridade física, jovem gatuna. Você conseguiu passar pelo povo da areia. Esse foi o primeiro teste. Os outros serão tão ou mais difíceis quanto. Ainda assim quer tentar?". Tenko assentiu novamente, sem hesitar por um segundo. O assassino sondou-a mais uma vez com o olhar. "Certo. Siga-me". Empurrou uma das pedras na parede e uma porta se abriu. O homem apagou a tocha e atravessou a porta. Tenko o seguiu, e a passagem se fechou às suas costas.

Os olhos de Tenko já haviam se acostumado com a escuridão e ela ficou ofuscada por alguns instantes ao chegar no salão iluminado. Era feito de pedra também, da mesma pedra do corredor. Não havia nenhum objeto ou mobília, apenas uma escada que levava aparentemente a um andar inferior do templo. Olhou para cima e descobriu que um vão no teto era a fonte da luz que preenchia o aposento. Notou que o cheiro de sangue havia desaparecido. Estava sozinha.

"Heh heh heh... o que faz aqui sozinha, jovem gatuna?"

Tenko procurou a origem da voz, mas foi inútil. Não ouvia nem um som, não sentia nem um cheiro. "Quem é você?", indagou, sem saber para onde direcionar a voz.

"Eu sou aquele que já matou tantos... que não importa o quanto eu limpe, minhas mãos sempre tem o cheiro de sangue. Eu sou a sombra da morte, minha cara. Sou um assassino. Heh heh heh heh... eu posso te ver, mas você não sabe onde eu estou. Não sente medo?"

"Não."

"Neste exato momento, eu posso ter uma adaga apontada para as suas costas. Não sente medo?"

"Não tenho medo."

"Até onde vai a coragem antes de se tornar estupidez? É uma coisa a se pensar, não... Tenko Kitsune. É este seu nome, não é? Bom, vejo que Tenko Kitsune é uma gatuna corajosa. Eu serei o responsável por seu teste teórico. Farei algumas perguntas, e se responder corretamente, poderá fazer o próximo teste. Caso contrário, boa sorte atravessando de volta as tempestades de areia. Mas serei gentil, você poderá errar uma vez. Apenas uma. Está pronta?"

"Estou", disse a gatuna, sentando-se tranquilamente no chão de pedra e jogando o manto de lado no ombro.

"Primeira pergunta. Porque você não pode me ver?"

"Porque você é um assassino. Um mestre da furtividade". Essa havia sido fácil.

"Certo. Segunda. Porque o katar é uma das armas de nossa preferência?"

"O katar é leve, fácil de carregar e esconder. Além disso, é bom para ataques críticos por ser uma arma com que se pode acertar o alvo com muita precisão. Se bem usado é possível quebrar cotas de malha e perfurar escudos com ele". A pequena aula com Kuroi Yuri certamente havia rendido. Tenko fez uma nota mental para agradecer à mercadora mais tarde.

"Uhhn... boa resposta. Terceira pergunta."

O assassino invisível fez mais sete ou oito perguntas, que Tenko respondeu corretamente. Sempre atenta, seus olhos cor-de-sangue sondavam a sala procurando qualquer pista da localização do homem. Seus músculos enrijecidos estavam prontos para saltar, se esquivando a qualquer momento. Após algumas perguntas sobre armas, venenos, cartas e técnicas, o assassino chegou ao final de seu teste.

"Última pergunta. O que tem no seu bolso?"

Tenko pensou por um momento. "Nada. Havia uma garrafa de poção, mas você acabou de furtá-la."

"Heh heh heh heh... correto! Que sirva como lição. Esteja sempre atenta ao seu redor, e não esqueça as técnicas que aprendeu como gatuna! Pode prosseguir para o próximo teste, basta descer a escada adiante."

Tenko levantou-se e acenou com a cabeça, despedindo-se do seu estranho professor. Em resposta, uma garrafa de poção foi atirada aos seus pés. Não conseguiu identificar de onde veio. Resolvendo que não valia a pena se preocupar mais com isso, guardou-a no bolso, deu as costas e desceu a escada.

Outro corredor escuro, mas mais curto que o da entrada. E dessa vez ela podia ver uma tênue luz no final. À medida que ia em direção a ela, começou a ouvir um leve ronronar. Chegou no fim do corredor. A luz vinha do vão de uma grande porta de pedra. Em um dos cantos do corredor, um par de olhos amarelados refletiam a luz que vinha da sala ao lado. O ronronar ficou mais forte. A criatura saltou para frente de Tenko, e para sua surpresa, era uma jovem e bela assassina. Tinha longos e macios cabelos louros, e sua pele era amorenada. Tinha a mesma altura de Tenko, e era ainda mais esguia. Vestia roupas escuras, justas ao corpo esbelto, e seu peito, ventre e coxas estavam envoltos em faixas. Tenko notou também um par de ombreiras metálicas em seus ombros, e um par de katar pendendo de sua cintura.

"Purrrrrrr... veja só! Esta aqui se parece comigo!"

A assassina se moveu, deixando seu rosto totalmente iluminado. Suas feições eram incomuns. Tinha o rosto arredondado, o nariz pequeno e levemente achatado. A boca grande, com lábios finos que deixavam para fora a ponta de duas pequenas presas. Seus olhos eram afilados, de íris amarelo-esverdeadas e pupilas em fenda. Das pontas dos seus dedos brotavam unhas longas e pontiagudas. Na cabeça, um par de orelhas negras de gato, que se voltavam para todos os lados, tentando não deixar escapar nenhum som. Combinando com as orelhas, a assassina possuía uma longa e felpuda cauda negra, que ondulava graciosamente quando ela se mexia. Ela aproximou o rosto do de Tenko e sorriu, deixando a mostra quatro presas afiadas.

"Bonitos olhos vermelhos! Onde os conseguiu? Será que já viu tanto sangue que eles ficaram dessa cor?", disse ela rindo, com uma voz aguda e levemente nasalada.

"Nasceram comigo", respondeu a gatuna. Não estava com humor para brincadeiras, e estava intrigada e, porque não, um pouco assustada com os seus exóticos tutores. Mas isso ela não deixaria transparecer por nada.

"Desculpe a curiosidade!", disse a assassina, recuando um passo e empinando o queixo. "Tenko Kitsune, certo? Fui informada da sua vinda. Soube que foi bem no teste teórico. Agora é a hora para o seu primeiro teste prático. Pode tirar a capa e sente-se, fique à vontade. Vou explicar o que deve fazer". Sentou-se de pernas cruzadas, apoiando as duas mãos no chão. Recostou tranquilamente a cauda por cima de uma das coxas.

"Somos assassinos. Somos parias. Somos odiados por muitos e temidos por quase todos. Você já deve saber disso, e ainda assim veio nos procurar e deseja ser uma de nós. É um caminho muito árduo, muito solitário. Você vai se sujar de sangue todos os dias, e as pessoas vão olhar para você com um misto de desprezo e terror. Você vai ter de viver escondida, sempre nas sombras, fugindo da luz e do convívio humano. Você acha que está pronta para isso, Tenko Kitsune?"

Tenko apoiou o queixo em uma das mãos, pensativa. Como gatuna ela já vivia suja de sangue e se escondendo pelas sombras. Sua aparência por si só já era assustadora para alguns. Olhos cor-de-sangue nunca tiveram boa reputação. No entanto, tinha pessoas em quem podia confiar. Kuroi, Sethit, e claro, Freya. O que mudaria como assassina? Seria mais temida? Odiada? Suas companheiras se afastariam? Freya se afastaria? Fechou os olhos, mastigando suas dúvidas. Era tarde demais para voltar atrás. Havia uma missão a cumprir. Uma vingança a se realizar. Um inimigo para derrotar.

"Estou pronta. Mas discordo de você em alguns pontos. Creio que existem pessoas que não vão se afastar de mim, mesmo se eu estiver banhada em sangue e vivendo nas sombras."

A assassina sorriu e balançou a cauda suavemente para cima e para baixo. "Purrr... está certa, Tenko Kitsune! Seus verdadeiros aliados não se afastarão de você! Por isso, você deve se manter fiel aos que são fiéis a você. Proteja os seus aliados. Sempre! Deve tomar cuidado, Tenko Kitsune, e estar sempre atenta. Aliados e inimigos são fáceis de confundir no calor da batalha. Nossa profissão é matar, e isso é o que fazemos melhor. Nesta profissão, um erro pode ser irreparável. Por isso, um assassino deve ser capaz de distinguir perfeitamente aliados de inimigos. Este será seu próximo teste."

Colocou a mão dentro das vestes e retirou um pequeno broche. Uma cruz de prata, com uma pedra vermelha incrustada. "Você entrará na sala ao lado e encontrará vários monstros. Monstros fracos, como porings e lunáticos. Em seis deles há broches como esse. Esses seis são suas vítimas. Você terá três minutos para aniquilar as seis vítimas. Está pronta para o teste?"
"Parece simples", pensou a gatuna. "Estou pronta!"

"Purrrrrr... certo então. Estarei observando. Três minutos, nem um segundo a mais! Boa sorte, Olhos Vermelhos!", respondeu a assassina. Piscou os olhos fendidos algumas vezes, pressionou uma das pedras na parede e a porta se abriu. Tenko entrou e sua tutora fechou a porta às suas costas. "Três minutos a partir de agora!", repetiu pela última vez.

Seus olhos se acostumaram com a luz mais uma vez. Tenko tomou um susto ao ver que estava em um salão imenso. Havia tantos porings, poporings, drops e lunáticos que mal se enxergava o chão. Onde não havia monstros, havia enormes e negros buracos, tão fundos que não se podia ver onde terminavam ou o que havia neles.

"Certo... vai ser um pouco mais difícil que eu imaginei."

Desembainhou a adaga e começou a andar tranquilamente entre as pequenas criaturas, procurando o sinal da cruz de prata. Encontrou a primeira com certa facilidade, e de um golpe só destroçou o poring que a carregava. Demorou mais um minuto inteiro para encontrar o segundo e o terceiro. Estava ficando preocupada com o tempo, e corria velozmente de um lado para o outro do salão. A tutora avisou que já haviam se passado dois minutos quando encontrou e assassinou o quarto e o quinto monstro. Não encontrava o sexto. Trinta segundos. Vislumbrou o brilho da prata em meio ao pelo fofo de um lunático. Voou até ele, apertando com força o cabo da Damascus. Vinte segundos. Escorregou para dentro de um dos buracos no chão. Cravou a Damascus na parede com toda a força que tinha, e acabou pendurada nela. Quinze segundos. Com um impulso e algumas tentativas, voltou ao chão. A Damascus caiu no fosso. Dez segundos. Agarrou o lunático. Cinco segundos. Quebrou-lhe o pescoço com as mãos.

"Tempo esgotado!", bradou a assassina. "Você foi aprovada. As seis vítimas estão mortas. Sinto pela sua adaga, mas o importante é que você foi bem sucedida no teste. Está pronta para o próximo, Tenko Kitsune?"

Tenko ainda estava ofegante da corrida. "Não tenho mais armas", argumentou. "Tem sim", rebateu a tutora, "Tem um par de jurs na sua cintura. E ainda tem suas mãos, que já provaram ser eficientes. Tenha pleno conhecimento da sua capacidade, Tenko Kitsune! Não se subestime ou se supervalorize. Um assassino deve conhecer a si mesmo e ao inimigo com precisão."

O corpo da gatuna ainda se ressentia do esforço feito para sair do alçapão. Não sabia usar as jurs corretamente, suas mãos eram fracas e estava sem sua garrafa de veneno. Tirou da bolsa outra garrafa de poção do despertar. Bebeu seu conteúdo de uma vez só, e se sentiu muito melhor. "Qual é o próximo teste?", perguntou, limpando a boca com a manga da camisa.

"Purrrr... cuidado, essa coisa vicia. Bom, o próximo teste irá testar sua capacidade de esquiva e furtividade. Um assassino deve ser veloz e passar despercebido, assim você pode atacar o inimigo de surpresa ou escapar de uma situação onde você não possa vencer uma luta. Sim, é importante morrer com honra e dignidade, mas você só tem uma vida, então não a desperdice. Você entrará na próxima sala, e ela estará cheia de monstros. Não tão fracos desta vez. Você não precisa matá-los, apenas atravesse a sala. Aliás, você não pode feri-los de modo algum. Apenas se esquive e se esconda quando achar necessário. Vejo que você é uma gatuna forte, acho que não terá problemas."
A assassina apertou outro botão e um alçapão se abriu no piso. "Abaixo de nós está a sala do seu próximo teste. Desça quando estiver pronta. Eu estarei esperando do outro lado. Quando você estiver próxima o bastante para me tocar, o teste acaba."

Disse isso e saltou dentro da fenda no chão. Tenko respirou fundo algumas vezes e logo em seguida saltou atrás dela. A queda foi maior que o esperado, e o impacto fez com que a gatuna esfolasse os dois joelhos no chão. Seus tornozelos estalaram de forma dolorosa. Mas ela não teve muito tempo para pensar na dor. Centenas de múmias vinham lentamente em sua direção. Começou a correr. Estava cercada. Rapidamente olhou em volta procurando uma saída. Saltou de lado e se ocultou em uma sombra próxima. Nesse momento, tentáculos agarraram seu braço. Havia se escondido perto da borda de um imenso tanque de hidras. Rapidamente agarrou uma das jurs e cortou os tentáculos. Não havia saída, teria que depender somente da sua capacidade de esquiva. Correu o mais que pode, abaixou o corpo, jogando as pernas para frente e passando por baixo das pernas das múmias que vinham em sua direção. Continuou aumentando sua velocidade. Corria próxima à parede do salão. O caminho era mais longo, mas pelo menos poderia ficar longe do tanque de hidras. Mais um grupo de múmias vinha em sua direção. A gatuna não parou de correr. Aumentou a velocidade e foi de encontro aos monstros. Saltou, e apoiando as mãos na cabeça de uma delas, impulsionou seu corpo para frente em um longo salto. Voou alguns metros, aterrisou e recomeçou a correr. Já podia ver sua tutora no final da sala. Mais múmias vinham pela direita e pela esquerda. Estava cercada! Colou o corpo à parede e se ocultou nas sombras. Era uma questão de tempo até que os monstros percebessem sua presença...

Resolveu arriscar. Lenta e cuidadosamente, começou a se deslocar junto à parede. Pisava de leve, tentando não fazer nenhum barulho. Com muita paciência, atravessou a última fileira de múmias. No segundo em que saio do meio dos monstros, desatou a correr o mais rápido que suas pernas permitiam. As múmias perceberam e a perseguiram, mas Tenko já estava a poucos centímetros da assassina.

"Fim do teste! Você está aprovada!"

Ronronando amigavelmente, a assassina agachou-se ao lado de Tenko, que havia se sentado no chão, ofegante e encharcada de suor. "Os testes físicos acabaram. Seu corpo é apto para a nossa profissão, Tenko Kitsune. Agora, há apenas mais um teste".

"Ainda mais um?", pensou a gatuna, exausta. Mas ergueu-se, tirou o cabelo do rosto e perguntou qual era o último teste. A tutora levantou-se também.Pressionou não uma, mas dez pedras em uma ordem certa. Uma porta se abriu. Dessa vez Tenko viu à sua frente não um salão de pedra, mas um belo salão atapetado, com armas variadas penduradas na parede, quadros e estantes com livros. No fundo da sala, via-se uma escrivaninha. Sentado a ela havia um homem que já parecia beirar os sessenta anos de idade. Vestia trajes verde-escuros, seu peito e braços estavam enfaixados, e também possuía ombreiras metálicas. Sobre o encosto da cadeira havia um manto negro pendurado. Seus cabelos grisalhos eram longos e presos em um rabo de cavalo. Possuía um bigode fino, e seu rosto e braços estavam cobertos de cicatrizes. Ele se levantou e fechou o livro, colocando-o em cima da escrivaninha. Fitou a gatuna e a assassina. Seus olhos eram azul-turquesa, e pareciam ao mesmo tempo serenos e tristes.

"Mestre, esta gatuna de nome Tenko Kitsune foi bem sucedida em todos os testes até agora", miou a assassina, fazendo uma respeitosa reverência. Suas orelhas abaixadas e sua cauda imóvel. O velho mestre se aproximou alguns passos. "Então vamos ao ultimo teste", respondeu ele com voz suave. "Obrigado, Bast, pode se retirar".

A assassina fez outra reverência. "Simpatizo com você, Tenko Kitsune. Sinto que somos iguais, de alguma maneira. Desejo-te sorte!", disse ela, as últimas palavras mais parecendo um ronronar. Em seguida, deu um salto felino para fora da sala e desapareceu. A porta se fechou.

"Tenko Kitsune é o seu nome, então?", disse o velho mestre. "Bom, Tenko Kitsune, o último teste é muito simples. Tudo que você tem de fazer é chegar até mim".

Tenko não se fez de rogada. Andou na direção do velho assassino em passos decididos. Bateu de cara com alguma coisa. Soltou um gemido de dor, esfregando a testa machucada. Sem se alterar, o velho mestre disse:

"Uma pessoa como eu não pode ficar se expondo. Por isso foi construído na minha sala este labirinto invisível. Este é seu último teste. Atravesse o labirinto e venha até mim."

A gatuna estendeu uma das mãos devagar, até tocar na parede. Era estranho sentir o toque frio da pedra na palma da mão e não enxergar nada. Seguiu apalpando as paredes. Sentia-se cega. Mais de uma vez trombou em uma quina ou muro. As horas passavam, e Tenko começou a entrar em desespero. Agora estava no meio da sala, irremediavelmente perdida em meio às paredes invisíveis. O líder da guilda continuava em pé, imóvel, olhando fixamente para ela. A gatuna havia parado de andar. Ofegava, exausta depois de horas de caminhada infrutífera.

"Você está perto. Tem uma passagem à sua esquerda. Não pare".

Tenko levantou o olhar. O velho mestre continuava imóvel, braços cruzados. O rosto impassível parecia esculpido em madeira. A gatuna apalpou a parede à sua esquerda. Realmente, havia uma passagem. Seguiu por ela e foi se aproximando cada vez mais da escrivaninha do líder. Chegou em um beco sem saída.

"Não desista. Você está muito perto".

Ela não desistiu. Foram mais algumas árduas horas de caminhada, mais alguns encontrões em paredes invisíveis, mas antes do cair da noite Tenko Kitsune estava ao lado do líder da Guilda dos Assassinos do Deserto de Sograt. Nunca havia se sentido tão cansada. O velho mestre finalmente saiu de sua imobilidade, e lhe ofereceu uma cadeira. Tenko desabou. Em seguida, o mestre puxou uma cadeira para si mesmo e sentou ao lado da gatuna. Silenciosamente, tirou uma garrafa d'água de baixo da mesa e ofereceu um copo à gatuna, que engoliu o líquido rapidamente. Sussurrou um agradecimento. "Não estava envenenada, mas tome mais cuidado da próxima vez. Perdoarei essa falha porque você não cometeu nenhuma outra durante o teste", disse o mestre, olhando-a diretamente nos olhos. Surpresa, Tenko endireitou-se na cadeira. "Idiota! Como pude cometer um erro tão estúpido?", pensou ela. O velho mestre, porém, sorriu gentilmente.

"Tudo bem. Você completou o teste com excelência. Você ainda é jovem, e eu posso perdoar uma pequena falha. Bem vinda à Guilda dos Assassinos, Tenko Kitsune!"

Tenko sentiu seu sangue ferver. Mais uma vez, tinha vontade de gritar. Ela havia passado no teste! Era uma assassina agora, e poderia seguir com seu plano de vingança! Não pode conter um sorriso. Levantou-se e fez uma reverência, agradecendo ao líder da guilda. "Sente-se, Tenko Kitsune", ele disse, "vamos conversar um pouco. Seus olhos e seu sorriso demonstram uma intenção clara. Nossa profissão é derramar sangue, mas este não deve ser derramado sem um bom motivo. O que pretende fazer quando sair daqui, jovem guerreira?"

E então, Tenko contou ao velho mestre toda a história. Contou sobre seu pai, sobre Primus, sobre Shi e sobre seus planos de vingança. Sem saber a razão, o velho assassino lhe transmitia confiança. Quando terminou, o mestre parou por um momento, com a mão apoiada no queixo, seus olhos tristes fixos nos olhos ferozes da gatuna. "Vejo que está pronta para matar, Tenko Kitsune. Mas está pronta para morrer?"

"Como?", perguntou ela.

"Aquele que está disposto a matar deve estar disposto a morrer. Um assassino tira vidas, essa é sua profissão. Mas não seria justo viver para tirar a vida de outros e não aceitar que a sua fosse tirada, não acha? É a lei básica da reciprocidade. Um assassino tem a morte como companheira em todos os momentos. Convivemos com ela a cada dia, a cada minuto. Somos a Sombra da Morte! Alguém que a teme não é digno de fazer parte desta guilda. Aquele que tem medo de morrer jamais será um bom assassino".

Tenko ficou pensativa. "Você tem força e habilidade o bastante para aniquilar os soldados de seu pai, Tenko Kitsune", disse o velho mestre. "Para isso nem precisaria ter vindo até aqui. A sua força vem de você mesma. O que eu posso lhe oferecer é conhecimento. Técnica. E talvez, sabedoria. Essa sua vingança seria apenas uma chacina inútil. Não importa quanto sangue você derrame, seu amigo está morto. Mesmo que mate todos os soldados dos Renard, um a um, Shi no Toge continuará morto. Não arrisque sua vida em ações vazias, jovem guerreira. Eu posso perdoar seus erros, mas o mundo certamente não perdoará".

A gatuna baixou a cabeça. Via a razão nas palavras do velho assassino. Com muito esforço continha as lágrimas que tentavam escapar de seus olhos. Até que não agüentou mais, e desatou a soluçar, os grossos pingos que caiam de seus olhos formando uma pequena poça salgada no tampo da escrivaninha. A quem estava tentando enganar? Shi estava morto. Jamais o veria novamente. A vingança que planejava seria, além de inútil, injusta. O líder da guilda, imóvel como uma estátua, observava em silêncio o pranto da gatuna. Quando a garota começou a se acalmar, o velho assassino disse rispidamente:

"Se este era o único motivo pelo qual queria se tornar uma assassina, peço que se retire. Não precisamos de pessoas focadas em vinganças fúteis".

Tenko lentamente começou a se levantar. Cabisbaixa, andava em direção à porta. De repente, parou. Levantou a cabeça.

"Não. Tem mais um motivo".

"E qual seria?", perguntou o velho mestre.

"Tem alguém esperando por mim. Alguém que eu preciso proteger". Tenko virou-se bruscamente. Seus olhos mais ferozes que nunca.
"Alguém que eu amo!"

"Entendo. Você quer se tornar uma assassina para proteger melhor essa pessoa". O mestre sorriu novamente. "Nunca deixe que seu amado se vá... o tempo nunca volta atrás! Que seu amor seja eterno!"

Em seguida, o velho assassino bradou:

"Todos que estiveram envolvidos no teste de Tenko Kitsune, por favor, venham até aqui!"

Imediatamente surgiram das sombras todos os assassinos que Tenko havia conhecido naquele dia. O assassino que cheirava a sangue e tinha um olho só, o homem invisível, que ela agora podia ver, a mulher com feições de gato, e mais alguns outros que ela não havia visto, mas que com certeza estiveram por perto. "O que acham desta gatuna?", disse o líder da guilda. "Ela está apta a ser uma de nós?"

"Ela é orgulhosa, e o orgulho é importante para um assassino. Somente ele impede que nos percamos na escuridão das nossas próprias almas. O orgulho impede que nos tornemos meras sombras de nós mesmos. Eu a aprovo!", disse o primeiro assassino.

"Heh heh heh... ela é destemida e impetuosa. Até demais, talvez. Mas é melhor do que se fosse uma covarde! Eu a aprovo também!", disse o segundo tutor.

"Purrrrrrrr... ela ainda é muito jovem, muito imatura. Mas sinto que esta garota tem algo especial. Ela encontrará o caminho certo, creio eu. E com o tempo, se tornará uma das melhores assassinas de Midgard. Eu a aprovo!", miou Bast, a terceira tutora.

"Ela é inexperiente, mas tem um coração nobre. Com o tempo, adquirirá conhecimento e sabedoria. Acredito que ela honrará o nome dos Assassinos do Deserto de Sograt.", disse o líder da guilda. "Tenko Kitsune, jamais nos envergonhe!"

Todos os assassinos ajoelharam-se, e Tenko os imitou. O mestre pegou em uma das gavetas de sua escrivaninha uma caixa ricamente decorada. Abriu-a, e dela retirou um colar com um pequeno pingente, um busto de mulher com uma adaga cravada no peito. "Este é o Colar do Oblívio, símbolo dos assassinos. Ele representa o nosso orgulho. Honre sempre este símbolo!", disse ele, e colocou o colar no pescoço da gatuna.

"Levante-se, Tenko Kitsune! E a partir de agora, viva como uma assassina, uma filha do deus Loki! Não se esqueça de que isso foi uma escolha sua, e toda escolha representa uma mudança. Você jamais será uma gatuna novamente! A partir deste momento, você é a Sombra da Morte!"

Todos os assassinos se levantaram e fizeram uma leve reverência para o mais novo membro de sua guilda.

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"Minha filha, já faz uma semana que todos os dias você se levanta antes do Sol nascer e volta para casa pouco antes dele se por. Sua busca é nobre, mas tudo me leva a imaginar que sua amiga gatuna pereceu no deserto.", disse o patriarca dos Aintaurë. "Devo a Tenko Kitsune minha vida, meu pai. Peço apenas mais um dia para tentar. Hoje Kuroi e eu sairemos em busca de Tenko, e se não a encontrarmos, me darei por vencida, e eternamente lamentarei não ter pago minha dívida."

O caçador concordou. Sethit Aintaurë jogou seu arco ao ombro e seguiu com Kuroi Yuri para o Deserto de Sograt, em busca de sua amiga desaparecida. Naquele dia porém, a arqueira e a mercadora não tiveram sorte. Já havia algumas horas que estavam presas em cima de uma pedra, cercadas por uma matilha faminta de Lobos do Deserto. Sethit havia afastado quantos podia com suas flechas, mas a fome dos lobos era mais forte. Agora a alijava da arqueira estava tão vazia quanto o estômago dos brutos que a cercavam, e tudo que restava fazer era esperar e rezar.

O dia já havia terminado e a Lua já ia alta no céu escuro. Era uma noite clara, de Lua cheia, e esta parecia um enorme disco de prata pendurado no firmamento. As duas garotas já haviam se acostumado com os uivos das feras, quando foram surpreendidas pelo silêncio. Logo em seguida, rosnados ferozes, e depois deles ganidos apavorados. Kuroi e Sethit olharam para baixo com a intenção de descobrir o que havia acontecido com seus perseguidores. Não viram nenhum lobo, exceto os que estavam mortos ou agonizantes no chão, brutalmente desfigurados. Os corpos retalhados eram apenas massas disformes de sangue e pelo.

Em meio à matilha morta, uma figura esguia encontrava-se de pé, banhada pelo luar, de costas para elas. Calçava botas leves, e tinha os tornozelos enfaixados. As pernas recobertas quase inteiras por uma malha de tecido escuro. No quadril, uma espécie de saia curta balançava suavemente com a brisa noturna. O abdome e o peito envoltos por faixas de tecido, assim como os tornozelos e pulsos. Um par de ombreiras metálicas brilhava, refletindo a luz da Lua. Caindo sobre os ombros, até o meio das costas, cabelos ondulados, da mesma cor do luar. Os antebraços também envoltos em tecido escuro, e em ambas as mãos, uma jur tinta de vermelho. A figura se virou de frente para as garotas, e elas puderam ver, com a luz da noite clara, um rosto pálido e anguloso, uma boca de lábios avermelhados. E no meio do rosto, em destaque, um par de selvagens, ferozes, furiosos olhos vermelho-sangue. No deserto, à noite, sob o luar, aquela figura parecia em perfeita harmonia com o ambiente. Poderia-se dizer até que era bela. Não a beleza requintada dos salões de baile, mas a beleza aterrorizante e misteriosa dos predadores.

"Vocês deviam ter me esperado em casa. Não é seguro ficar passeando à noite pelo meio do deserto".
Kuroi sorriu. "Você conseguiu! Você é tão cabeçuda que até para morrer você é teimosa!". Tranquilamente, a assassina limpou o sangue das jurs e guardou-as de volta nas bainhas. Jogou a velha capa de viagem no ombro e ajeitou o sakkat na cabeça. "Eu acompanho vocês até em casa".

No meio do caminho, Tenko sentiu estar sendo observada. Olhou para trás. Olhos vermelhos encontraram olhos púrpura. Ela sorriu. "Ah, é você! Tenho que te agradecer. Estou em dívida com você!"

A raposa branca sorriu de volta, repuxando os lábios e abanando a longa cauda felpuda. Em seguida, saiu correndo e desapareceu no meio da noite.