Capítulo 12 – Halloween

31 de Outubro de 1991

O Aniversário da Queda do Lord das Trevas chegou e um grande banquete foi servido durante o jantar no Salão Principal da fantástica Escola de Bruxaria e Feitiçaria de Hogwarts.

Todos celebravam, mas ninguém parecia recordar-se do real significado por trás daquela data. Este dia não significava apenas a queda de um poderoso mago escuro, mas também a perda de dois grandes magos da luz, que deixaram para sempre o Mundo dos Vivos, abandonando no ato o seu pequeno filho com apenas um ano de vida.

Ao ver todos os seus colegas rirem e comerem alegremente, Harry não pôde evitar pensar que ninguém o compreendia ou se esforçava sequer em tentar fazê-lo. Todos o louvavam como o Salvador do Mundo Mágico. Que grande salvador! Tinha perdido os seus pais e todos pareciam querer que ele celebrasse tal facto. "Acaso pretendem que me junte à diversão, ria e celebre a perda dos meus pais?", pensou ao receber um olhar confuso por parte de Ron, ao não estar ele muito envolvido pelo espírito festivo do castelo, sentado cabisbaixo no seu canto, desanimado e melancólico.

Harry foi arrancado dos seus lamentos internos ao som das portas do salão a serem escancaradas rudemente, batendo na dura pedra das paredes laterais. Viu como aquele professor esquisito com um turbante na cabeça entrava numa corrida contra o tempo e parava no meio do corredor que dava de frente para o Diretor de Hogwarts, enquanto ofegava, com a mão direita sobre o peito, como que querendo evitar que o coração lhe saltasse do peito para fora.

― Um troll! Nas masmorras! ― exclamou, arfando fortemente e apoiando a mão esquerda sobre o joelho, para desmaiar de seguida.

Foi, então, nesse exato momento, que o desespero tomou conta da multidão. Os professores foram ver o que tinha acontecido exatamente nas masmorras do castelo. Não sem antes enviar os alunos para as suas respetivas Casas em segurança, guiados pelos monitores das mesmas.

oOo

Já a meio do corredor que dava para a Torre de Gryffindor, Harry deu-se conta, repentinamente, de que Hermione não estava na fila.

"Se bem me recordo, escutei umas meninas dizerem que a Hermione se fechou no quarto de banho que… que… que fica nas masmorras!? Não pode ser! Se ela foi para lá depois de o Ron a insultar e ninguém a voltou a ver… Então, ela não sabe que há um troll à solta nas masmorras… Preciso avisá-la agora mesmo!", pensou Harry para posteriormente puxar o ruivo pelo braço, em direção às escadas e explicar-lhe que iriam ajudar a menina de cabelos volumosos, ao que este torceu nariz em desacordo. Mas Harry não se deixou desviar do seu objetivo: Ron iria com ele, nem que o tivesse de arrastar o caminho todo. "Isto é culpa dele para começo de história! Ele não precisava de reagir daquela forma, na Aula de Encantamentos, por uma ligeira correção no modo de execução de um feitiço."

oOo

Os dois Gryffindors chegaram rapidamente às masmorras, dando imediatamente de caras com o troll. Fizeram a única coisa sensata que lhes passou pela cabeça, ao verem uma divisão com a chave na fechadura da porta, trancaram-no lá dentro.

― Ron!? Aquela porta não é a que dá para o quarto de banho feminino?

Ups… Precisavam de uma nova estratégia… Com o troll dentro do quarto de banho, Hermione estava em verdadeiro perigo. Antes de poderem organizar um bom plano, um grito agudo pairou no ar. Correram e abriram a porta, vendo a menina encolhida em baixo dos lavatórios ao lado dos cubículos destruídos, obra do bastão de madeira na mão da feiosa e fedorenta criatura.

― Hermione! ― gritou Harry preocupado ao observar o troll balançar o bastão e quebrar os lavatórios.

Harry, de varinha na mão, jogou-se em cima do monte de músculos que era a criatura e espetou-a na fossa nasal da mesma, sendo logo atirado ao chão por um golpe certeiro e seguramente muito doloroso. O troll tentou arrancar a varinha do nariz, mas a sua força bruta e o seu cérebro de ervilha não entraram em consenso, tornando-o inútil para executar essa simples missão, pelo que mudou de objetivo e tentou atacar o Menino-Que-Sobreviveu.

Hermione, que tinha perdido a varinha no processo de fuga, gritou as instruções a Ron para que este pudesse realizar o feitiço que o Professor Filius Flitwick havia ensinado na aula dessa manhã.

― Mas sabes que não o consigo fazer ― admitiu o ruivo nervoso, deslizando o olhar do troll para a garota e regressando novamente à imunda criatura.

― Tu podes! Só recorda o movimento do pulso e de pronunciar as palavras corretamente. Toma atenção à dicção!

Ron assentiu e procedeu a realizar o Wingardium Leviosa, a moca levitou suavemente e caiu em cheio na cabeça da montanha de músculos, fazendo-a cair para trás num grande e aparatoso tombo. Harry cautelosamente, acercou-se e viu que o troll estava inconsciente, pelo que com algo de esforço recuperou a sua varinha e limpou o ranho nos trapos que a criatura portava com uma expressão de asco. Os meninos iam começar a festejar quando os professores entraram, emitindo exclamações de espanto e indignação.

Hermione assumiu a culpa toda e foi esse simples ato altruísta que marcou o início da amizade entre aqueles três fedelhos, que um dia viriam a ser conhecidos como o Trio de Ouro.

oOo

Na Sala Comum de Slytherin, Draco não cessava de andar de um lado para o outro para desgosto de certo membro da Corte de Prata.

Sim, adivinharam, Lynx, membro honorário da Casa das Serpentes, não estava a gostar nadinha da falta de atenção por parte do seu dono. Draco parou de repente e o gatito ergueu a sua pequena cabecinha em expectativa. Mas o loiro logo retomou a a caminhada, ganhando um bufido de um gatinho eriçado até à medula espinal.

― Como é que um troll conseguiu entrar em Hogwarts? É o local mais seguro do Mundo Mágico e não é exagero, e sim um facto comprovado. Os trolls são as criaturas mais burras existentes à face da Terra, o único traço marcante deles é a força bruta e a pontaria ao arremessar pedras. Não há forma de que uma besta tão estúpida quanto um troll tenha conseguido burlar as defesas do castelo ― constatou Draco.

― Estás a supor que alguém o deixou entrar? ― perguntou Daphne.

― Supor? Sabes perfeitamente que eu não faço suposições, Daph.

― Então o que é que queres dizer? ― perguntou Blaise, avançando até Draco sob o olhar vigilante de Lynx e a sua aliada Pansy, a Tirana.

― Estou a dizer que alguém o deixou entrar intencionalmente. Na verdade, posso afirmá-lo com cem por cento de certeza, pois as barreiras estão intactas. Se tivessem sido violadas seria completamente percetível.

― Entendo! Tem lógica, mas quem poderia ter feito tal coisa? ― perguntou Theodore.

― Um troll e um andar restrito, no mesmo ano e no mesmo sítio. Não creio que seja coincidência ― afirmou Draco com um gesto travesso.

― Não podes estar sequer a pensar em ir ao andar restrito ― disse Pansy com um olhar atravessado e severo. ― É muito perigoso! ― bramou fora de si ― Não te vou deixar ir. Não, não e definitivamente não, e adivinha só… ― gritou a loira, levantando-se do sofá e colocando-se frente ao Príncipe de Prata ― Ainda é um rotundo não!

Draco suspirou resignado, contornando a amiga e sentando-se ao lado Daphne. Lynx aproveitou a deixa e deitou-se no seu colo para receber os seus preciosos mimos. Blaise, como quem não queria a coisa, sentou-se ao seu lado e Lynx fixou as suas vivazes ametistas nos olhos achocolatados do seu eterno némesis. Blaise entendeu a ameaça, mas não ia desistir tão facilmente.

Blaise foi-se chegando cada vez mais perto do Dragão, enquanto ignorava o sermão que a mamã Pansy dava ao bebé do grupo. E para não perder a prática soltou um novo grito, segurando a coxa ferida pelas afiadas garras do seu Tormento Pessoal.

― Isso é o que ganhas por tentar o que não deves ― disse Pansy rindo a todo pulmão, enquanto Draco suspirava resignado. Lynx não tinha remédio, era melhor deixá-lo fazer o que queria e ver se se cansava e acabava por parar sozinho. Mais tarde ou mais cedo teria que se aborrecer, certo?

Daphne recuou uns quantos centímetros, afastando-se do duo, principalmente do olhar ameaçador do terrível felino.

― Já sei! ― exclamou Theodore com tom sardónico ― O Terror de Slytherin! ― nomeou ao recordar todas as vítimas da fera que ronronava satisfeita pela atenção de Draco. Para quê mentir? Ele próprio já havia vivenciado quão dolorosas podiam ser as suas garras e presas, bem, ele e praticamente todos os presentes.

oOo

1 de Novembro de 1991

Essa manhã, Severus apareceu a coxear no Salão Principal. Hermione imediatamente associou a sua lesão ao cão de três cabeças, que o trio havia visto no andar restrito há algum tempo.

Início do Flashback

Blaise não podia tirar os olhos de cima de Draco, razão pela qual presenciou o momento exato em que o loirinho sussurrava as repostas às questões feitas pelo seu Chefe de Casa a Harry-Insofrível-Potter.

No corredor, após ver que o Dragão havia ido com as meninas à Sala Comum durante a hora livre, iniciou uma disputa com o Gryffindor e lançou o desafio para um duelo mágico.

A noite chegou, mas obviamente Blaise nunca compareceu ao compromisso. Em vez disso enviou uma nota anónima ao zelador, Argus Filch, onde constava que essa noite haveriam alguns alunos de Gryffindor na Sala dos Troféus após o horário de recolha. Os Gryffindors tiveram de fugir do zelador e, sem saberem bem como, acabaram no corredor do terceiro andar, o andar restrito, e sem saída, pois todas as portas estavam devidamente trancadas.

Hermione desbloqueou uma das portas mais próximas com o Alohomora e entraram, encontrando um Cerberus a guardar uma alçapão sob as suas patas.

Fim do Flashback

Draco por sua vez, não pôde senão sentir uma grande preocupação pela saúde e segurança do seu amado padrinho. Definitivamente necessitava investigar o incidente do troll. Algo lhe dizia o que quer que tivesse passado a Severus estava ligado ao monstrengo que invadira as masmorras.