"I promise to try -- but it feels like a lie"
Aquela dor da mamãe se refletia em mim e eu sofria tanto quanto ela. A noite, deitada em minha cama esperando o sono vir, eu tentava imaginar como seria minha vida sem ela... nem conseguia imaginar. Eu sei que não teria vida sem a mamãe, pois eu não vivo sem ela, meu coração poderia estar bombeando todo aquele sangue que corria em meu corpo, eu poderia estar enxergando, respirando... mas tudo porque não tinha outra opção. Porque sem ela eu não vivo... apenas existo.
Nas minhas noites sem sono, sempre me levantava da cama e ia pra cozinha. Quando voltava preferia dormir na porta do quarto da mamãe, porque lá o sono vinha, eu tinha certeza que a mamãe não iria fugir de mim se ficasse ali olhando para ela. Olhava também a sua cômoda e os vários remédios espalhados por lá, isso me entristecia mais ainda.
Em varias noites eu seguia a mesma rotina, levantava de madrugada e ia para a porta de seu quarto. Nem passava mais pela cozinha, caminhava direto para o seu quarto. Ficava ali até amanhecer, depois me levantava correndo e ia para a minha cama, antes que alguém pudesse me ver.
Um dia desses, enquanto eu dormia em frente à porta do quarto da mamãe, ela se levantou para ir ao banheiro e me viu ali. Me acordou e perguntou assustada o que eu fazia ali, mas antes me deu uma bronca porque o chão estava gelado e sujo. Eu ficava calada, então ela me convidou para dormir em sua cama. Com certeza a cama era mais confortável e a companhia da mamãe era melhor ainda.
Então ela me pegou no colo, colocou-me deitadinha em sua cama e deitou-se ao meu lado. Mexia nos meus cabelos enquanto perguntava novamente porque eu fui me deitar na porta do seu quarto. Eu tomei coragem e respondi que tinha medo de acordar e ela não estar mais ali comigo. Mamãe sorriu e me deu um beijinho, disse que eu poderia dormir tranqüila pois ela não iria a lugar algum, assim eu pude dormir mais tranqüila.
Alguns dias se passaram... eu finalmente tinha superado o medo de acordar e não ver mais a mamãe ali comigo. Já estava dormindo tranqüila em meu quarto, mas às vezes ainda dava algumas olhadas na sua cama para ter certeza.
Eram seis horas da noite quando a mamãe começou a passar mal. A Tchia e o Tchio ficaram ali com ela, ajudando no que fosse preciso. A teimosa da mamãe não queria ir ao medico e estava vomitando de tudo! Era de se deixar preocupação, pois ela já não se alimentava direito e só tomava aqueles remédios. Por fim, adormeceu. O Tchio e a Tchia foram descansar enquanto a mamãe dormia sob efeito de um remédio e soro.
Mas eu ainda estava preocupada com ela, levantei-me da cama e fiquei sentada em frente a sua porta, caso ela precisasse. Acabei adormecendo por ali mesmo... sem perceber. De repente acordei, abri os olhos e olhei em direção da cama da mamãe. Por mais estranho que fosse, ela não estava ali. Fiquei preocupada, muito preocupada! Ontem ela estava muito mal e hoje ela não estava mais ali... nem seus remédios. A cama estava feita e o quarto arrumado. Fiquei apavorada, sentia meu coração bater depressa e uma profunda dor no peito.
Corri pelos corredores procurando a mamãe, gritava pelo seu nome. Chamava o Tchio, a Tchia... vovó, vovô. Desci as escadas gritando por alguém... abri a porta da frente da sala, ainda de pijama e segurando meu ursinho, chamava pela Amanda, Rachel, Renata, Isabeli, Drikenha, Bia... qualquer pessoa! Mas parecia estar tudo deserdo, eu olhava pela rua e não via um carro, uma pessoa. Comecei a ficar muito assustada.
Coloquei uma das mãos no peito e sentia meu coração bater com mais intensidade, não agüentava mais... não conseguia respirar direito. Sentei-me no chão, de baixo da janela, e comecei a chorar. Chorava tanto, tanto... mas tanto! Fechei os olhos e tentava imaginar a mamãe me abraçando e me confortando em seus braços. Queria que ela estivesse ali comigo!
De repente, abri os olhos e me levantei. Estava tudo branco... só via alguns vultos passando em minha frente. O cenário me lembrava a um hospital, enxuguei minhas lagrimas e dei uma olhada em meus braços... olhei para a minha roupa e logo notei que não estava usando o meu pijaminha. Era uma roupa branca e feia. Parecia com a mesma que usei quando fiquei internada no hospital.
Levantei a cabeça e respirei fundo. Estava tudo branco, mas lá no fundo... lá no fundo eu vi uma cama e me aproximei dela. Tinha um monte de médicos em volta dessa cama... ela
me parecia ser muito desconfortável pois era de ferro ou alumínio, não sei. Logo olhei novamente para os médicos e senti uma dor muito forte no peito. Vi a imagem da minha mãe e imaginei que talvez fosse ela deitada naquela cama desconfortável.
Cheguei mais perto daquela muvuca de médicos e enfermeiros, queria ver quem estava deitada na tal cama. Então escutei alguém chorar... olhei na direção que vinha o som de choro, olhei para frente e vi a mamãe. Mamãe estava sentada no chão, assim como eu estava sentada em nossa casa. Parecíamos as mesmas pessoas, mas éramos bem diferentes. Ela estava chorando, eu também estava chorando. A pulseirinha que usávamos no mesmo braço (ela havia comprado pra mim quando nasci e usava uma igual), estava se abrindo e eu tentava segurá-la para não cair. Apertei-a com força contra o peito e comecei a chorar, que nem a mamãe.
"Don't let memory play games with your mind
She's a faded smile frozen in time"
Ao mesmo tempo ouvia a faladeira dos médicos e seus aparelhos que faziam um barulho grande em meu ouvido. Olhava para eles, mas não conseguia enxergar quem estava deitada na maca. Então um dos aparelhos estranhos, começou a apitar...
Me encostei em um dos cantos da imensa sala branca e só fiquei observando o que acontecia. O movimento era grande, saia e entrava médicos de uma porta... eu não gostava muito de hospitais, me davam medo.
O barulho parecia que ia diminuindo cada vez mais... era só sussurros que eu ouvia. Uma moça que não me era estranha... loira, alta e com os olhos claros, se aproximava de mim e sorria, eu retribui o sorriso. Então me perguntou o que eu fazia sozinha naquele lugar, eu respondi que estava procurando a minha mãe. Ela desviou o olhar e sorriu, enquanto dizia que ali eu não iria encontrar ela mais. Não estava entendendo nada, deve ser porque estava mais preocupada em ficar de olho na mamãe, mas logo ela se explicou.
Chamava-se Anja, sim esse era o nome dela... era a mesma moça que me fazia dormir quando eu estava sem sono. Era ela que me confortava naquele chão gelado em que eu deitava esperando pela mamãe. Era ela que me dava toda aquela coragem que tinha. Resumindo, era a minha anjinha da guarda. E estava ali para me proteger daquele lugar, eu acho.
Ela percebeu que eu estava pensando muito na mamãe, então me deixou um tempinho com ela. Anja já estava de saída quando apontou para minha mãe e disse: "Olha lá, se quiser alcançá-la ainda dá tempo...".
Logo a vi saindo da sala branca, e junto estava o Tchio e a Tchia. Corri atrás para tentar alcançá-los, mas quando abri a mesma porta que eles atravessaram... eu sai em meu quarto. Achava que estava ficando louca, mas enquanto a mamãe estivesse comigo tudo estava bem, porque eu me sentia bem. Toda hora a via com uma roupa diferente, realmente a mamãe tinha um guarda roupa imenso.
Na verdade, eu a via, mas não estava enxergando-a. Eu via vultos, mas não via seu rosto. Eu só a queria ali pertinho de mim para sempre, já não estava entendendo mais nada do que acontecia. Enquanto ela dormia, eu ainda a vigiava pela janela. Agora sim eu poderia vê-la, mas ela não me via.
E não via felicidade naquela casa, só enxergava a nuvem cinza cobrindo cada vez mais aquele lugar. As vezes a mamãe tinha crise de choro e fazia o maior escândalo, o Tchio segurava seus braços para ela não poder se mexer. Mamãe só chorava... estava pior do que antes. Ela nem olhava mais pra mim, na verdade, nem o Tchio e a Tchia olhavam pra mim. Eu falava com eles e só me ignoravam. Nem a Amanda falava mais comigo, me ignorava também. Só a pequena Rachel... ela falava comigo! Mas só ela...
Um dia sentei em meu balanço e ela entrou no quintal, sentou no balanço ao meu lado. Perguntei por que todo mundo estava tão ocupado ultimamente, por que a minha mãe só chorava e todos tinham que segurá-la... mas ela não sabia me responder, ela disse que tentou falar com a mamãe da Amanda. Contou a ela que tinha me visto sentada em meu balanço e ainda brincava comigo, brincava comigo e com as bonecas que tínhamos iguais. Mas a mãe da Amanda e a sua mãe, falaram pra ela parar de falar daquele jeito, porque era uma coisa tão triste para se brincar. Mas afinal, ela não estava brincando.
Às vezes eu ia atrás da mamãe e tentava falar com ela, eu tinha certeza que ela olhava pra mim, mas por que não me respondia? Vários dias se passaram assim... o Tchio dava remédio pra mamãe dormir a noite, parecia que ela estava louca.
Mamãe estava em seu quarto deitadinha na cama, então me deitei ao seu lado e a abracei. Ela parecia nem saber que eu estava lá, então comecei a cantar bem baixinho uma de nossas musicas preferidas, que ela sempre cantava pra mim: "Ela para e fica ali parada, olha-se para nada... Paraná...". Por mais estranho que pareceu, ela continuou a cantar a música, bem da onde eu havia parado. Fiquei tão feliz que meus olhos brilhavam... no fundo, eu sentia uma certa emoção saindo da voz da mamãe e cantamos a musica inteira. Ela pegou um porta-retrato, onde estava a mostra uma foto nossa, e disse: "Bebê, como eu sinto a sua falta." Achei estranho e disse: "mas eu estou bem aqui mamãe, eu sempre estarei. A Anja me deixou ficar aqui com você durante um tempinho...", pareceu que ela ouviu o que falei... foi correndo descer as escadas e contar para a Tchia. Ela respondeu para a mamãe: "Nina, você deve estar muito cansada com tudo isso que está passando... todos sentem a falta da nossa princesinha...".
Eu não entendia, porque estava bem ali! Ao lado deles, mas nenhum deles queria falar comigo, o que poderia fazer?
Mamãe subiu as escadas, eu sempre a seguia, e foi para seu quarto. A Tchia ficou só observando, com um olhar muito triste, mas ela também não poderia fazer nada... só o tempo poderia.
Sentei-me ao lado da mamãe, em sua cama, e dizia que a amava muito. Ela chorava... olhava para a minha foto e chorava. Então eu comecei a chorar também e falei: "Mamãe, eu não sei mais o que fazer. Estou bem aqui! Estou com você... como eu faço pra você voltar pra mim?" Ela não respondia, só chorava e eu gritava pelo quarto chamando pelo seu nome.
Mamãe pegou o porta-retrato e desceu as escadas novamente, parecia decidida mas eu não sabia o que ia fazer, então só fiquei observando assustada. O Tchio perguntou onde ela estava indo... demorou e respondeu: "vou trazer a minha Belle pra mim." O Tchio tentou
segurá-la mas não teve sucesso. Mamãe saiu correndo em direção ao telhado de casa, era lá que fazíamos churrasco e as festas... ficava no terceiro andar da casa. A Tchia e o Tchio a seguiram, mamãe estava olhando para o céu... para as estrelas. Olhou para a Tchia e disse: "Eu quero a minha filha de volta, eu vou buscá-la e trazer pra pertinho de mim!". Os dois tentaram fazer ela parar, diziam que ela estava cansada e tendo alucinações... e eu continuava sem entender nada.
O Tchio tentou segurá-la de novo... mas ninguém conseguia. Então ela finalmente olhou pra mim e pode me ver! Eu sei que pode! Eu sei que ela me viu! Eu abri um sorriso tão grande e gritei: "Mamãe!". Ela retribuiu o sorriso, mas este parecia ser o mais puro e sincero sorriso de felicidade. Ela subiu no parapeito do telhado, olhava pra mim e seus olhos brilhavam, então ela dizia: "Filha, a mamãe já está indo!" Antes que alguém pudesse detê-la... mamãe me viu lá perto das estrelinhas e foi me trazer de volta pra perto dela. Ela pulou do telhado e vôo... vôo para bem longe, mas finalmente agora ela estava pertinho de mim.
Estávamos juntas e em um mundo só nosso, onde ninguém poderia nos separar. Nem cartas, nem dinheiro, nem vingança... nem nada. Nem mesmo a morte poderia nos separar, ela tentou, mas não conseguiu.
E as duas princesas viveram felizes para sempre... em seu mágico castelo de faz-de-conta...
"I'm still hanging on -- but I'm doing it wrong
Can't kiss her goodbye -- but I promise to try"
FIM ಌ
Personagens:
Todos os personagens deste "livro" são reais de algum modo, não com os exatos nomes, mas eles existem. Vou postar aqui as feições que imaginei para cada personagem do livro, não são as pessoas reais, não seja tolo de pensar isso, ok?
Isabelle Casanova Welbach: img413.imageshack.us/my.php?imageisabellevy3.jpg
Nina Casanova Welbach: img181.imageshack.us/my.php?imageninafk4.jpg
Belle&Nina: img413.imageshack.us/my.php?imagenbcs3.jpg
Amanda: img413.imageshack.us/my.php?imageamandawm5.jpg
Tchia&Tchio: img504.imageshack.us/my.php?imagetchiotchiatw0.jpg
Rachel: img413.imageshack.us/my.php?imagerachelul4.jpg
Amando: img181.imageshack.us/my.php?imageamandodc9.jpg
Vovó: img181.imageshack.us/my.php?imagevovxn2.jpg
Renata: img413.imageshack.us/my.php?imagerenatafu8.jpg
Eu só quero agradecer a todos que me ajudaram a escrever essa história, sejam com palavras ou levantando meu astral. (Só jogar o link no explorer para ver as fotos)
