Parte ?

-Então? Vais ficar aí a apontar-me essa cena ou vais entrar?

Carlos baixou rapidamente a faca ao som da voz femenina. Afastou-se da porta lentamente, deixando a luz entrar na escuridão onde April estava. Ela tinha os olhos vermelhos, suprimindo soluços. Os braços à volta dos joelhos, olhando directamente para ele, esfregando rapida e vigorosamente as faces.

-Sabes, a maioria das pessoas bate à porta. - Disse ela, num tom impaciente. Carlos estava certo de que tinha interrompido um momento solitário, e embora ele quisesse intuitivamente perguntar o que se passava; porque estava ela tão desconcertada, o óbvio embaraço dela prendeu-lhe a voz; Em vez disso sentou-se numa cadeira empoeirada em frente dela.

-Desculpa... - Entoou April em voz baixa. Carlos enclinou-se nos seus ombros.

-Não... Há coisas pelas quais vale a pena chorar.

Ela acenou e ergueu-se, efregando as mãos nos jeans. Numa fraca tentativa de um sorriso, fechou calmamente a porta. Esperou até a sua respiração abrandar um pouco antes de falar.

-Eu ouvi o Miguel a contar-te.

Carlos mexeu-se, desconfortável. -E-Eu não sabia... - Recostou-se novamente na cadeira, mirando o sangue que gotejava lentamente até ao chão, proveniente dos seus punhos arranhados, o inchaço a aumentar devido ao murro em pedra fria. - Não é justo. - Disse, enquanto fios vermelhos desciam pela sua mão. - Porque é que são sempre os inocentes a sofrer? O Miguel... até mesmo tu tens passado mais do que qualquer outra adolescente da tua idade devia passar.

- Eu consigo nomear outra pessoa jovem que passou pelo mesmo, senão pior.

Carlos continuou a fitar os rios cor de rubi. -É diferente. - Disse. - És jovem.

-Também tu o és.

A súbita suavidade da voz dela surpreendeu-o. Ele começava a sentir, levado pelas emoções que ruminavam dentro dele, muita dor e tristeza a pulsar por debaixo da sua expressão enquanto ele observava o sangue a gotejar para o chão. Ele estava farto desta guerra. Ainda assim, ele ficou ali, ele sabia que não podia virar as costas. Exaurido pelo arrependimento, olhou as pequenas gotas fundirem-se no chão, formando um circúlo maior. Ele precisava de se purgar daquela dor venenosa.

Sangrá-la para fora.

-Obrigado por não teres contado a ninguém o que se passou. Não acho que o grupo me deixaria voltar se soubessem. - Depois, quase como um repensar, April acrescentou - Não vais contar... pois não?

-Não, não vou dizer-lhes nada. - Disse ele. - Mas tu vais.

April não respondeu logo, e Carlos podia perceber pelo som da sua respiração que ela estava a conter-se arduamente. Mesmo assim, ele não levantou o olhar; fitando em vez disso a pequena poça de sangue a seus pés aumentar tamanho.

-Não. - A voz trémulade April foi curta e decidida.

Com a sua própria ira acesa, Carlos finalmente libertou-se das faixas invisíveis que o haviam miraculosamente contido até então. - Não posso deixar-te assim. Tu deixaste-me a pensar que... - Carlos calou-se ao aperceber-se do que ia dizer, o coração a bater-lhe dolorosamente.

-O que? - A fúria evaporou-se da voz de April. - A pensar o que? - Carlos despegou o olhar do liquido avermelhado, o seu fôlego incerto e áspero. Ele sentiu como se estivesse em cima de areias movediças. Naquele momento estava submerso até ao pescoço, e estava certo de que qualquer movimento que fizesse, afogar-se-ia completamente. - Carlos... em que estavas a pensar?

-Eu pensei... - hesitou.

-O que?

-Eu pensei que tu talvez... me tivesse perdoado.

Um silêncio horrível encheu o pequeno compartimento enquanto ele esperava que ela disse algo, e quanto mais se porlongava, Carlos começou a pressentir a verdade.

-Não, Carlos. - Ela abanou a cabeça levemente, algumas madeixas dos cabelo fugiram-lhe na face. - Ainda não consegui perdoar-te, embora tenha tentado.

Carlos fechou os olhos brevemente.

-Ao menos não temos de fingir mais. - Disse April suavemente.

Carlos conseguia sentir o seu coração ser comprimido. - Já não temos de fingir nada há muito tempo. - Afirmouem tom seco.

-Não, eu tenho fingido, mas não o vou fazer nunca mais. - Os olhos fogosos traíam a sua voz firme, tornando-se aquosos enquanto o fitava intensamente.

-Carlos, não percebes o efeito que tens em mim? - April tomou um passo a frente para ele. - Sempre que entras na sala, todos os meus nervos no meu corpo raiam, e sempre que sais, levas esses pequenos pedaços de luz contigo. Quando não aqui estás... é como... é como se não pudesse voltar a respirar até sorrires de novo. Estar contigo é tudo o que sempre precisei, mas mesmo assim, chegavas-me para trás. - Ela tremia visivelmente, mas ainda assim não havia ira na voz dela. - E quando julgava perceber porque... quando julguei que te percebia... então... - O olhar dela voltou-se para o chão. - então, entragaste-te a mim daquele modo.

-Eu não sei o que se passou, nem porque o fiz. - Ele sentiu a areia subir-lhe pela garganta, sofucando, envolvendo-o. Ele tinha de por tud bem. - Eu não te queria magoar, nunca o quereria, mas parecia, parecia que iria morrer se passasse mais sem ti, parecia como se o mundo não girasse enquanto não te tivesse comigo. - Carlos agarrou-lhe os braços, desesperado por faze-la entender. Ela desviou-lhe as mãos e virou-se, levando as costas da mão aos lábios lentamente. Carlos sentia uma grande faca quente de culpa e agonia furar-lhe o peito, enquanto uma lágrima brevemente solitária se lhe soltou pela face abaixo. Ele queria ir ter com ela, tomá-la nos braços e abraça-la até quando fosse preciso, até as suas feridas sararem, mas a sua culpa manteve-o no mesmo lugar. - Eu não sei como por tudo bem... diz-me como...

April mirou-o através dos seus olhos cheios de arrependimento, a voz muito mais calma quando falou. - Eu não sei se pode ficar tudo bem.

-Não me podes perdoar. - Expirou ele, em consumaçao de factos.

Ela moveu os pés para junto dele, forçando-o a aproximar o corpo dela ao seu. - Não, Carlos... não posso. - Ela colocou a mão sobre o peito dele, mergulhando os seus olhos nos dele enquanto tocava com a outra mão na face dele. - Mas nunca irei parar de te amar.

Ergueu a cabeça e roçou-lhe os lábios com os seus. Ao som daquelas palavras, a areia rapidamente se desvaneceu. Ela tinha dito que o amava.

Carlos fechou os olhos ao beijo dela, emergindo-se nela gentilmente, na doce sensação do seu toque. O sentimento cresceu nele, aumentando a pressão da sua boca na dela. Ele queria bebe-la, encher-se com ela. Ela tinha dito que o amava...

Quando ela brandamente se afastou dele, os lábios estavam vermelhos e cheios do desejo dele. - Se calhar é algo que eu vou aprender a viver com, não sei. - Ela fixou nele os olhos avelâ. - O que eu sei é que não quero passar nem mais um dia a mentir. Eu não quero mais nenhum dia sem ti.

Ele inclinou a cabeça e beijou-a novamente, não querendo deixa-la finda-lo. A boca dela tão suave e macia como ela lha oferecia, e ele moveu delicadamente os lábios através os dela, perdido na paixão que ardia dentro deles. Era o beijo que ele ansiava quando passava as noites sozinho; quando os seus desejos mais profundos surgiam, e ele renovava o impeto com esperança que nunca acabasse. Carlos passeou as mãos pelos contornos do corpo dela demoradamente enquanto ela deslizava as mãos pelo peito dele, afagando a simples pele. O sentir disso espalhando prazer nele, e ele entregou-se ao amor que tinha por ela, enterrando a culpa, sabendo que nunca mais a voltaria a magoar.