Começamos a nos encontrar então toda tarde, para almoçar e depois treinar juntos. Eu, Keisuke e Keiko nos tornamos amigos muito unidos, mesmo que Keiko nem sempre saísse conosco. Foi naquela época que sua mãe começou a adoecer, e ela muitas vezes tinha que ajudar o pai com os negócios.
E eu não me cansava de observar Keisuke. Ele era simpático, por vezes até engraçado, mas reservado; dependia muito da intimidade que ele tinha com a pessoa também. No início era difícil fazê-lo realmente conversar, mas conforme fui descobrindo seus assuntos preferidos, foi ficando mais fácil.
- AI!
- Desculpa, te machuquei?
- Não foi nada...
Eu massageava o pulso e Keisuke me ignorou, pegando minha mão e olhando. Ele treinava a sério, e raramente falava, mas também parecia preocupado com não me machucar. Nós agora treinávamos no mesmo dojo, algumas vezes Takahara-sensei até ficava pra ver. Ele parecia feliz por ter encontrado alguém pra me fazer ficar mais tempo treinando. Afinal, era impossível não me dedicar com um incentivo como Keisuke...
- É sério, não foi nada - Eu disse, retirando a mão rapidamente. - Não sou feita de porcelana.
- Às vezes parece - Ele desviou o rosto rapidamente, mas eu sabia que sorria. - Acho que chega por hoje.
Ele estava olhando pra fora, o sol já estava baixando no céu. Suspirei e guardei a bokuto.
- Quer visitar Keiko-chan? Estou um pouco preocupada com ela.
Keisuke fez um sim com a cabeça, também guardando suas coisas. Nós então fomos saindo do dojo, e lá fora, eu congelei quando vi um homem se aproximar de nós.
- Ah. Fujimiya-kun.
Era Minamoto, aquele olhar nojento dele sobre mim enquanto falava com Keisuke. Instintivamente me aproximei do garoto, e percebi que ele tinha os punhos tensos. Que sensação de perigo era aquela?
- Minamoto.
- Hah. - Minamoto não se importou com falta de educação, como de costume. Ele mesmo não tinha um tom muito educado. - Não sabia que já tinha uma mulher, não é muito jovem pra casar?
- Veio aqui só para me dizer isso?
- Não, não - Minamoto demorou os olhos nele e voltou pra mim. - Onde está o seu mestre, menina?
Demorei um pouco pra responder.
- Lá dentro.
- Ótimo então, tenho assuntos a tratar com ele. - Ele ficou parado, como se esperasse que perguntássemos que assuntos eram aqueles. - Tenham uma boa noite.
E entrou no dojo. Porém, antes que eu suspirasse de alívio, ele virou-se novamente.
- Ah, Fujimiya-kun. Diga para seu pai cuidar direito do que é dele. Isso também vale para você.
Sim, Keisuke não conhecia Minamoto até o Tanabata. Mas desde então, parece que Minamoto e o pai de Keisuke estavam tendo uma disputa dentro do exército e também dentro de suas terras - Minamoto estava querendo pegar parte da terra dos Fujimiya para si, como Keisuke me contou depois. Eu nunca o tinha visto tão bravo até então, andando rápido, e fazendo eu quase correr para acompanhá-lo.
- Aquele bastardo, eu devia matá-lo ali mesmo - Ele falava consigo mesmo, em fúria. - Aquele jeito que ele olhou pra você...!
Me impressionei com o tom de ciúmes de sua voz. Ele pareceu se impressionar também, desanuviando a expressão e suspirando.
- Em pensar que antigamente eu não me importaria. Na verdade, eu não me preocupava com nada...
De repente o tom dele pareceu de desabafo, isso nunca tinha acontecido antes. Nós paramos debaixo de uma árvore, e eu apenas fiquei obsevando-o em silêncio. Keisuke olhava não pra mim, mas para o céu, hábito que ele tinha quando ia falar algo sério ou que tivesse vergonha de dizer.
- Lembra que uma vez você me perguntou, porque eu queria ser samurai?
- Sim.
- Eu agora sei porque. - E ele se virou pra mim, olhando nos meus olhos.
Meu coração disparou com o significado daquele olhar. Acho que até esqueci de respirar.
- Você é linda, Miyabi. E muito forte. Antes de te conhecer, eu não tinha nenhum propósito na minha vida, apenas seguia o caminho que me apontavam. Mas depois de te conhecer... - Ele suspirou. - Eu decidi que quero te proteger pra sempre, garota de porcelana... Quero proteger quem amo, com minhas próprias mãos.
Houve uma pequena pausa.
- ...V-Você ama? - Eu gaguejei ridiculamente, baixando a cabeça, completamente atordoada pela declaração.
Keisuke riu gentilmente, levantando meu rosto de novo com a mão no meu queixo e olhando bem fundo nos meus olhos, e eu estava consciente da proximidade de nossos rostos.
- Amo você, sua boba, foi o que acabei de dizer. - Sua expressão se tornou de desafio. - E se você não me amar, juro que me jogo da ponte mais próxima.
- É claro que eu amo! - Eu exclamei sem pensar, alarmada com a ameaça absurda. Então percebi pelo seu sorriso que era isso mesmo que ele queria.
E sem dizer mais nada, ele me beijou.
O meu primeiro beijo foi simplesmente... Indescritível. Eu poderia tentar dizer como eu estava feliz, e todas as sensações, mas não faria jus à realidade. As mãos de Keisuke me trouxeram para mais perto me fazendo sentir o calor de seu corpo. Nos afastamos, mas ele continuou me segurando bem junto a ele. Sorriu como se fosse uma adorável surpresa eu de repente estar ali em seus braços.
Não falei nada por um longo momento, apenas aconchegada em seu peito. Não queria que aquele dia terminasse nunca.
- Você promete... Que vai me proteger pra sempre? - Eu sussurrei finalmente.
- Prometo.
- Então eu também prometo te proteger. - Isso fez ele rir alto. Comecei a rir também. - Não ria, eu falo sério!
Ele afagou meus cabelos.
- Você é muito linda mesmo.
No fim, acabamos não visitando Keiko aquele dia. Mas quando ela soube do que aconteceu, só faltava soltar fogos de artifício comemorando.
- Já era sem tempo! - Ela exclamou, dando pulinhos. - Vocês são lentos demais!
