Capítulo 13
O Vale das Lágrimas
- Você disse sim?- Libby mal podia acreditar quando Ana-Lucia encontrou as amigas no apartamento de Jack naquela mesma noite e contou que Sawyer a pedira em casamento e que ela dissera sim.
Ana-Lucia assentiu diante da empolgação da amiga.
- È, eu disse sim, mas agora estou pensando se essa é a coisa certa a fazer.
- È claro que é!- disse Kate. – Nossa, Ana! Você vai se casar com o presidente de uma das multinacionais mais ricas e poderosas do planeta. Além disso, o cara é lindo!
- Eu ouvi isso!- disse Jack, da cozinha. Ele estava preparando um delicioso spaguetti para restabelecer os ânimos depois da assustadora sessão espírita no apartamento de sua noiva. Hugo tinha ido para casa descansar, ainda estava muito abalado com tudo o que acontecera.
- Mas você é ainda mais, amor!- disse Kate, jogando um beijo para ele, fazendo-o sorrir.
- È, e não se esqueça de que além de tudo isso, o homem é a sua alma gêmea. O amor de um passado distante. Nunca vi nada mais romântico!
Ana respirou fundo. Seu mundo tinha virado de pernas para o ar desde que tinha sido beijada pelo estranho em um beco. A partir daí tudo pareceu seguir uma lista de eventos que a impulsionavam para aquele casamento. O que sua mãe pensaria de tudo isso se ainda estivesse viva?
- E onde ele está agora?- indagou Kate.
- Ele foi para o hotel organizar algumas coisas para o casamento, dar uns telefonemas, preparar tudo. Oh, meninas, eu estou tão nervosa com tudo isso! Ele disse que temos de nos casar amanhã. A cerimônia será ao meio-dia.
- Mas já?- assustou-se Libby.
- Segundo ele, é a única maneira de quebrar a maldição. Precisamos nos casar antes da virada do ano.
- E como vai ser?- perguntou Kate.
- Bem, ele quer partir para Madrig em uma hora, disse que ia reservar nossas passagens.
- E quanto ao seu vestido de noiva? A recepção?- questionou Libby.
- Vão se casar no cartório?- dessa vez foi Kate quem perguntou.
- Não, ele disse que tudo já estava sendo providenciado antes mesmo dele falar comigo, o vestido de noiva, as alianças, a festa, os convidados.
- Nossa!- exclamou Libby.
- Oh Ana, mas nós gostaríamos de estar no seu casamento.- disse Kate. – Se você irá se casar em Madrid, nós...
Ana-Lucia a cortou:
- Não nos casaremos em Madrid. Nos casaremos no castelo De La Vega.
- Que romântico!- exclamou Libby.
- Mas vocês irão comigo. Eu disse ao Sawyer que não podia me casar com ele se a minha família não estivesse presente. Então ele prometeu me dar como presente de casamento levar todos vocês comigo pra Espanha.
- Isso me inclui?- perguntou Jack indo até a sala, ainda usando o avental de cozinha com o meigo desenho de uma vaca.
- Sim, Jack. Você e Hugo. Se quiserem ir, é claro.
- Sim, pode contar comigo.- disse ele. – Acredito que o Hugo também irá, afinal nenhum de nós dois quer ficar aqui com esse fantasma.
- Sinto te dizer amor que todos nós estaremos indo para o covil do fantasma.- disse Kate, abraçando Jack pela cintura.
- Eu só espero que ele não ressuscite. - comentou Libby. – Já estou começando a me sentir em um daqueles filmes do Brendan Fraser.
Ana sorriu à piada da amiga, mas foi se recostar à janela e ficou pensando por alguns minutos enquanto seus amigos tagarelavam sem parar sobre a maravilhosa viagem que fariam às montanhas. Foi Libby quem notou o semblante preocupado dela.
- Hey, amiga. Está tudo bem?
- Eu não sei ao certo.- disse ela. – Está parecendo tudo tão frio. E eu sempre sonhei que quando chegasse o dia do meu casamento seria o dia mais feliz da minha vida, porque eu estaria me casando por amor, para unir minha vida à de outra pessoa e não por causa de uma maldição, entende?
- Eu entendo você, querida. Mas talvez esse seja realmente o seu destino. Essa maldição te persegue há tanto tempo. Me diga, amiga, e não importa o que esse fantasma idiota pensa, mas você ama o Sawyer?
Ana-Lucia estremeceu àquela pergunta, mas respondeu com sinceridade:
- Sim, eu o amo, se não o amasse não aceitaria me casar com ele. Quando ele entrou no apartamento foi como se toda angústia que eu estava sentindo pelo que acabara de acontecer, a sessão espírita, a possessão do Hugo se apagasse da minha mente porque ele estava lá, entende?
- Sim, eu entendo. Mas então?
- Então que ainda assim eu estou confusa. A lenda diz que somos almas gêmeas, mas sinto que ainda falta alguma coisa. Já pensou se nosso destino for sempre nos reencontrarmos e nos perdermos novamente. A tia dele tentou nos separar e conseguiu! Eu deixei as montanhas por causa disso!
- Ana-Lucia, aposto que a tia dele não deve nem conhecer direito a lenda do Castelo De La Vega. Ela é uma oportunista que queria manter o filho irresponsável debaixo das asas do Sawyer, ganhando dinheiro às custas dele. Isso não tem nada a ver com eles.
- Você tem razão, Libby, mas ainda assim esse sentimento de incerteza em relação à esse casamento me persegue. Eu aceitei me casar com ele porque me pareceu a coisa mais sensata a se fazer, mas e se não for? Ele foi capaz de me seduzir para proteger o casamento da amante. Como posso confiar nele agora?
- Nunca vai saber se não tentar, Ana. Sim, ele mentiu para você, mas se arrependeu e pediu perdão, sabe por que? Porque durante os dias que passaram juntos nas montanhas ele pode conhecê-la e descobrir a pessoa maravilhosa que você é.
- Hey, vocês duas!- interrompeu Kate. – Se vamos pra Espanha em uma hora não precisamos tomar algumas providências? Eu nem sei por onde anda meu passaporte.
Libby sorriu e abraçou Ana, dizendo:
- Kate tem razão, temos que nos preparar para viagem. Sorria Ana, você vai se casar e vai dar tudo certo!
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Sawyer mal podia acreditar que a tinha convencido a se casar com ele. Seu corpo tenso lamentava que além do sim ela não tivesse cedido à sedução e feito amor com ele mais uma vez, mas dizia a si mesmo que teriam muito tempo para isso depois que estivessem casados.
Ele estava planejando uma lua-de-mel maravilhosa, quem sabe refazer os caminhos que James, o Estranho e a Princesa Camille tinham percorrido séculos antes. Ele terminou de arrumar seus pertences na mala e riu consigo mesmo. Seu coração batia forte de ansiedade, mal podia esperar para se casar com Ana-Lucia. A despeito daquela história toda de almas gêmeas e maldições ele queria se casar com ela, de verdade. Tia Isabelle tinha lhe feito um favor ao arquitetar aquele plano de chantagem, pois isso servira para aproximá-lo e uni-los.
Partiriam em menos de uma hora. Ele já tinha telefonado para o castelo e confirmado com Lia que estava tudo preparado para a cerimônia e a festa de casamento logo após. Seria um evento tão grande, que os moradores da Vila De La Vega tinham sido autorizados a subirem a montanha e participarem de tudo. Lia relatou a ele o quanto o anúncio de seu casamento deixou os moradores felizes. Para eles, uma nova era de prosperidade se iniciava.
Sawyer já estava quase telefonando para a recepção para pedir um táxi para ele e Ana-Lucia quando seu celular tocou. Ele achou que fosse do aeroporto, confirmando as passagens de avião para os amigos de Ana, mas surpreendeu quando ouviu a voz invejosa da tia do outro lado da linha.
- Parabéns, sobrinho! Acabei de saber que vai se casar amanhã!
Ele sorriu, recordando-se do anúncio que pagara uma pequena fortuna para que saísse no jornal daquele mesmo dia sobre seu casamento.
- Gracias, tia Belle.- ele respondeu no mesmo tom falso que ela usara.
- Bem, eu espero que não esteja guardando ressentimentos de mim e de seu primo. Apesar de tudo somos da família e eu só quero a sua felicidade.
- Oh, é claro que sim, tia Belle. Mas eu também espero que não guarde ressentimentos porque não inclui você e Charlie na lista de convidados.
- James, você vai mesmo se negar a convidar sua única família para o seu casamento?- ela indagou com a voz esganiçada.
- Tia Belle, perdão, juro que não é por mim. È que isso desagradaria à minha noiva e a partir de agora eu me curvo à vontade dela.- Sawyer ainda pôde ouvir o suspiro surpreso da tia, mas desligou o telefone, rindo.
Guardou o celular no bolso do elegante paletó e pegou sua mala de rodinhas encaminhando-a para a porta, mas quando girou a maçaneta, ela não abriu. Ele tentou por várias vezes abrir, mas não conseguia. Retirou o cartão-chave do bolso e passou pelo leitor, mas a porta continuou trancada.
Sawyer largou a mala e foi até o telefone para chamar a recepção, pois aquela porta só deveria estar com defeito, mas quando discou o ramal da recepção do hotel, ele ouviu uma voz áspera do outro lado da linha, dizendo:
"Você não vai conseguir...ela é minha!"
Ele abaixou o telefone de imediato, assustado e começou a repetir em sua mente:
"Isso não está acontecendo, isso não está acontecendo..."
Voltou até a porta e introduziu o cartão-chave novamente. Dessa vez a porta se abriu sem problemas e ele aproveitou para sair dali o mais rápido possível. Nada o impediria de se casar com Ana-Lucia, nada.
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Ana-Lucia observava alguns flocos de neve caindo através da janela do táxi que a estava levando para o aeroporto internacional de Nova York. O natal já tinha passado, mas a linda decoração natalina se mantinha, com árvores enfeitadas e luzes piscando.
Seus amigos tinham tomado outro táxi para o aeroporto, e ela se encontrava ao lado de Sawyer, seu futuro marido. Ele estava quieto, pensativo, batendo os dedos enluvados no vidro da janela. Ainda não tinham trocado um beijo desde que se encontraram para ir ao aeroporto. Ana começou a imaginar se ele começara a ficar em dúvida também sobre o casamento.
Sawyer pareceu notar um pouco da insegurança dela em seu semblante e envolveu um braço ao redor dos ombros de Ana, dizendo:
- Sabe o que eu pensei quando a vi pela primeira vez, quando nos encontramos no semáforo e íamos atravessar a rua ao mesmo tempo?
Ela o fitou com interesse. Eles nunca tinham conversado sobre isso; o primeiro beijo trocado entre eles, em um beco na 16th street.
- Eu pensei, nossa, que mulher mais linda!- ele sorriu. – Eu precisava chegar perto de você, senti uma vontade enorme de poder abraçá-la, era como se eu tivesse esperado por aquele momento a minha vida inteira.
Ana ergueu uma sobrancelha.
- E então, eu te levei pra aquele beco e te beijei e você não me socou, nem chamou a polícia, você me olhou de um jeito que eu nunca vou esquecer. Eu senti que era correspondido, mas fiquei confuso com aquele sentimento novo e tão grande dentro de mim. Daí você foi embora, saiu correndo e eu ainda tentei de encontrar depois naquele prédio onde você entrou. Descrevi você pra uma moça na recepção, eu parecia um maluco querendo achá-la e a moça não se compadeceu de mim, ela simplesmente disse que você não trabalhava mais lá, sequer me disse o seu nome. Voltei pra Madrid com você na minha cabeça.
- Eu não acredito que me procurou.- ela disse, surpresa.
- Eu procurei sim, mi amor.- ele beijou a mão enluvada dela. – Mas o destino só quis que nos reencontrássemos de novo na Espanha. Quando Charlie chegou com você, eu fiquei extasiado e pensei em como o plano de minha tia tinha sido providencial. Eu não soube logo no início, mas foi naquele momento que eu decidi seduzir você pra valer, para tentar um relacionamento, ficarmos juntos...
- Pensou tudo isso?- ela o provocou.
- Oh, Dios, eu olhei pra você no aeroporto e ainda podia sentir seus lábios, sua boca com gosto de chá de hortelã.- ele sussurrou as últimas palavras e Ana sorriu. Tinha mesmo tomado chá de hortelã na manhã em que se conheceram, era o seu chá favorito. – Quero muito, muito mesmo me casar com você, mas não é o Estranho quem está pedindo, é James Sawyer Cooper e é James Sawyer Cooper quem quer te beijar, Ana-Lucia Cortez, agora mesmo.- ele acariciou um cacho do cabelo e aproximou seus lábios. Desde o natal na montanha que Ana não alisava os cabelos, tudo isso porque ele dissera que gostava dos cachos dela.
O taxista sorriu quando os viu se beijar e continuou seu caminho, porém, de repente, o carro deslizou de lado pela pista, assustando-os.
- Desculpem!- disse o taxista. – È que as ruas estão cobertas de gelo, o inverno está sendo rigoroso esse ano.
Entretanto, mal o taxista se desculpou, o carro deslizou outra vez e Ana agarrou-se a Sawyer, com medo. O motorista viu-se desesperado por alguns instantes, sem saber o que fazer para controlar o carro que derrapava na pista. Sawyer abraçou Ana-Lucia bem forte e disse mentalmente, com firmeza:
"Não tenho medo de você! Não vai nos impedir de nos casarmos! Eu a protegerei!
O motorista do táxi forçou algumas manobras perigosas na pista praticamente congelada e quase deu de frente com outro carro. Ana-Lucia gritou e escondeu o rosto no ombro de Sawyer. No entanto, o taxista conseguiu retomar o controle do carro e parou a alguns centímetros de um sinal vermelho.
- Isso foi estranho!- ele comentou. – Era como se não fosse eu quem estivesse dirigindo o carro.
Sawyer e Ana-Lucia se entreolharam.
- È ele?- ela indagou.
- Não tenha medo.- disse Sawyer e disse ao taxista que estava tudo bem e que ele podia continuar o trajeto até o aeroporto.
Cerca de vinte e cinco minutos depois eles chegavam ao aeroporto sem mais problemas no caminho. Encontraram Kate, Libby, Jack e Hugo esperando por eles. Hugo ainda estava um pouco resistente em relação à viagem, mas Libby insistia com ele, dizendo que tudo ficaria bem e que eles precisavam estar no casamento de Ana.
Ela não contou nada à seus amigos sobre o estranho acontecimento no táxi, não queria assustá-los mais do que já tinham ficado aquela noite. Durante o vôo para Madrid, Ana-Lucia ficou o tempo inteiro com Sawyer. Apesar de tudo se sentia mais segura junto dele e quanto a suas dúvidas sobre se casar, ele as estava sanando aos poucos com toda sua demonstração de amor por ela. Ele estava apaixonado, a amava, e ela também. Não existiam empecilhos para que se casassem a não ser eles mesmos. O fantasma de D. Henrique era um mero detalhe.
Chegaram à Madrid ao amanhecer. Ana-Lucia não entendia muito sobre fusos horários, mas era por volta de oito da manhã quando desembarcaram no aeroporto internacional de Madrid. Ana-Lucia disse a seus amigos que iria às montanhas com Sawyer para se preparar para a cerimônia e que depois das dez da manhã um jatinho estaria disponível para levá-los ao Castelo De La Veja. Enquanto isso, eles poderiam ficar na Mansão dos Cooper na cidade e descansar.
Depois de se despedir de seus amigos, Ana-Lucia e Sawyer encontraram Mr. Eko para levá-los de helicóptero às montanhas. O piloto sorriu, alegre, quando viu Ana-Lucia outra vez:
- È muito bom vê-la novamente, señorita Cortez.
- Também é bom vê-lo, Mr. Eko.
- Futura señora Cooper, não se esqueça, Eko!- lembrou Sawyer com um sorriso de contentamento.
O casal acompanhou o piloto até a pista de decolagem e seguiram para as montanhas. Durante o trajeto, Sawyer não parava de tagarelar acerca do que precisava ser feito antes da cerimônia. Da prova do vestido de noiva à aprovação do cardápio do jantar da festa. Ana-Lucia o ouvia atentamente, mas em dado momento riu, dizendo:
- Hey, a noiva sou eu! Não vai deixar nada pra eu decidir?
- Se tivéssemos tempo, eu deixaria você organizar tudo.- ele a acariciou no rosto e Ana se aninhou no peito dele.
A viagem transcorreu sem problemas durante quarenta minutos, no entanto, quando estavam se aproximando de uma região cortada de montanhas altas, conhecida como o "Vale das Lágrimas", alguns quilômetros ao norte das montanhas De La Vega, Mr. Eko sentiu que o helicóptero estava ficando pesado.
Sawyer notou que havia algo de errado.
- O que houve, Eko?- indagou.
- Não sei, Sr. Cooper, mas a aeronave está instável.
- Como assim?- perguntou Ana-Lucia, apavorada.
- Eu...- começou a dizer Eko, mas o manche do helicóptero tornou-se mole demais e ele perdeu o controle principal. A aeronave começou a cair de uma altura de mais de 25 mil pés. – Coloquem os pára-quedas!- gritou o piloto, colocando um pára-quedas em volta do próprio corpo.
Trêmula, Ana-Lucia tentava suportar a força da gravidade enquanto colocava o pára-quedas nas costas. Sawyer olhou para ela, assustado, já tinha posto o próprio pára-quedas.
- Será que só vamos nos ver em outra vida agora?- ela perguntou, a voz saindo estranha por causa da queda vertiginosa do helicóptero.
- Não, mi amor, será nesta!- Sawyer assegurou, puxando-a para que saltassem.
Ana-Lucia estava com medo e ao mirar o quanto o chão estava longe pensou em desistir.
- Não raciocine agora, señorita! Apenas pule!- disse Eko.
Sawyer tocou rapidamente nos ombros dela dizendo com o olhar que se veriam logo e Ana fechou os próprios olhos, atirando-se ao desconhecido.
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Aquele era o dia mais feliz de sua vida. Camille ajeitou o véu branco sobre os longos cabelos e apertou a fita branca do vestido simples ao redor da cintura esguia. Flora tinha sido muito bondosa em costurá-lo para ela, assim como em ter conseguido que a princesa pudesse deixar o castelo sem que Dom Henrique soubesse.
Depois daquela tarde tudo seria diferente. Partiria para sempre dali com o Estranho. Iriam para Scarborough Fair, o verdadeiro lar dele e que seria o lar dela também. Camille tinha estado lá ainda criança, mas se lembrava de ter amado o lugar, porque foi lá que se encontraram pela primeira vez.
Sem poder conter a própria ansiedade, ela montou em seu cavalo com uma pequena trouxa que continha pouco dos seus pertences. A única coisa de valor que trazia consigo era o colar de esmeraldas que tinha sido de sua mãe e pertencia à família De La Vega há gerações.
Desceu a montanha e galopou por entre os campos e prados até chegar ao Vale das Lágrimas. Encontrou o Estranho a esperando perto do riacho como havia sido combinado.
- James!- ela murmurou, descendo do cavalo e correndo para abraçá-lo.
Ele a ergueu do chão e rodopiou com ela no ar antes de beijá-la.
- Você está linda, Camille!
- Onde está o padre?- ela indagou, nervosa. Tinha medo de que algo desse errado.
- Ele nos espera na gruta, meu amor, e lá nos casaremos.
Camille sorriu, mal podendo conter a própria felicidade. James amarrou o cavalo dela junto ao dele, numa árvore próxima ao riacho. De mãos dadas eles seguiram para a gruta, subindo um terreno íngreme.
Durante o trajeto, James cantarolou, fazendo-a sorrir:
- "Are you going to Scarborough Fair? Parsley, Rosemary and Thyme, remember me who one lives there…"
- "She once was a true love of mine…"- Camille completou e eles se abraçaram.
Aquela era a canção deles, que falava do sonho que tinham de partir à Scarborough Fair e deixar todo o medo e sofrimento para trás. Sonho que estava prestes a se tornar realidade.
James avistou a gruta. Ficava escondida entre um emaranhado de trepadeiras que cresciam aos pés da rocha e subiam por toda a extensão da pequena caverna. Uma videira crescia por entre as flores e alguns cachos de uvas maduros pendiam à entrada da gruta.
Camille olhou para o estranho e ele lhe sorriu amorosamente.
- Entrem, meu filhos.- disse uma voz masculina bondosa, vinda de dentro da gruta.
Ana-Lucia sentiu o gosto metálico de sangue dentro da boca e notou que tinha mordido os lábios. O amargor fez com que seus sentidos despertassem e ela abriu os olhos de súbito. Enxergou o chão coberto de gramíneas e lilases, seus pés pareciam estar muito longe dele.
Ergueu a cabeça e sentiu um assomo de tontura. Percebeu que estava presa em uma árvore e uma grande quantidade de imagens começou a passar por sua cabeça. Seu casamento com Sawyer, o avião, as montanhas.
- Deus!- ela exclamou. Tinha sofrido um acidente. O piloto perdeu o controle do helicóptero e eles pularam na floresta. Ela ainda estava presa ao pára-quedas e precisava se soltar.
Ana sentiu uma dor lancinante no braço esquerdo, que estava preso de mau jeito. Um filete de sangue escorria pelo cotovelo dela. Respirando fundo, ela resolveu aplicar um pouco de força e se soltar. Mexeu os braços e se esticou para frente com tanta força que fez seus ossos estalarem.
- Ahhhhhhhh!- ela gritou de dor e seu corpo impulsionou-se para baixo, fazendo com que ela deslizasse pelo tronco da árvore, indo parar no chão.
Suas botas de frio amorteceram a queda e ela ficou alguns segundos deitada no chão, abraçando os próprios joelhos antes de resolver levantar-se. Quando finalmente colocou-se de pé, pensou em Sawyer e no acidente que tinham sofrido. Estaria ele vivo? Seu coração apertou e ela disse consigo mesma:
"Não, não posso perdê-lo, eu o amo! Não posso perdê-lo novamente!"
Ela começou a caminhar pela floresta fria. O sol estava escondido atrás das nuvens e Ana-Lucia não tinha a mínima idéia de que horas eram.
- Sawyerrrrrr!- ela gritou e o eco de sua voz reverberou pela floresta. – Sawyerrrrr!
Continua...
