A lei do amor

Kaline Bogard

Capítulo 13

O garoto esticou-se um pouco, apoiando-se nas pontas dos pés para alcançar a altura certa. Os olhos semicerram-se.

E os lábios se tocaram.

O contato foi singelo. Onde Kiba entregou-se às sensações até agora desconhecidas. Os lábios de Shino eram finos, mas quentes, vivos. Um instinto primordial falou mais alto, mesmo na inexperiência, Kiba sabia exatamente o que fazer. Ele entreabriu a boca, um convite irrecusável que Shino logo aceitou. As línguas se encontraram num contato úmido e morno que arrepiou Kiba todinho, antes de intensificar-se como uma garoa que se torna tempestade.

Durou até Shino gemer e afastar-se um pouco, com sangue nos lábios.

— Shino...? — Kiba estranhou o gosto férreo na boca, deixando os pés se apoiarem de volta no chão. A respiração ofegante e o rosto corado funcionando como claras indicações do efeito daquele beijo sobre si.

— Suas presas — o rapaz tocou-se de leve com os dedos e fez uma careta pela dorzinha aguda — São afiadas!

— Oh! — ele escondeu o rosto no tórax de Shino — Desculpa. É a primeira vez que faço isso.

— Eu sei.

Naquela posição Kiba podia sentir-lhe o coração disparado. Mal acreditou que ele, com um beijo, conseguira desbancar o controle de um dos ninjas mais ponderados da sua geração. Não que pudesse julgar, afinal, seu próprio coração socava o peito de um jeito selvagem. Nem sabia de onde arranjara coragem pra ousada investida. Porém não se arrependia nem um pouco!

— Isso foi bom, não foi?

— Sim, foi muito bom.

— Então a gente precisa treinar mais, pra eu aprender a não machucar você.

Shino colocou a mão nas costas de Kiba e o puxou para mais perto de si.

— Será um prazer.

Kiba deu uma risadinha. Até então tinha tantos fantasmas e tantas fantasias na cabeça, que acreditou que morreria de vergonha por trocar beijos com Shino. E ali, naquele momento, dentre todas as coisas que sentia, constrangimento não estava na lista. Okay, até havia algum embaraço, mas em um grau que podia lidar.

Aproveitou o contato por alguns segundos, tempo necessário para retomar o ritmo cardíaco e acalmar a respiração. Então se libertou do semi abraço e sentou-se a mesa. Shino foi ao banheiro, lavar-se do sangue e depois retomou a tarefa de preparar o jantar.

— Ne, Naruto me contou mais ou menos sobre como ele e o Sasuke ficaram juntos — Kiba falou depois de um tempo.

— E como foi?

— Um lance de vida ou morte pesado pra caralho. Tipo, foi preciso o Sasuke quase morrer pro Naruto ver o que sentia. Dai fiquei com isso na cabeça e tentei pensar em como seria perder você. Shino, você é meu melhor amigo desde antes da academia, não consigo me ver sem você. E nem to falando no sentido de namorados. É em qualquer sentido mesmo.

Shino espiou por cima do ombro e flagrou Kiba traçando desenhos abstratos com a garrinha sobre o tampo da mesa. Aquele jeito sincero e puro era algo que amava em Kiba, mas as vezes vinha como o impacto de um jutsu de alto nível.

— Não se preocupe, você não vai me perder tão já.

— Hn — o monossílabo soou baixinho. Então ele ergueu a cabeça — Você sente alguma coisa diferente, quando está comigo?

— Essa pergunta é um tanto perigosa — Shino terminou de cortar a abobrinha da Kabocha e pegou a cavalinha que descongelava para preparar shime saba.

— Shino pervertido! Besta — Kiba recriminou — To perguntando em outro sentido. Primeiro foi a Ino, depois o Naruto. Eles falaram que tinha uma coisa boa no ar porque eu sou um Ômega!

— Entendi — Shino gastou alguns segundos pensando na resposta que daria — Eu tenho sentido uma coisa diferente desde que você disse sim para o nosso vinculo. Achei que era alegria apenas. Mas agora que trouxe a questão a tona, talvez seja algo a mais...

— Pode ser o "efeito" Ômega?

— Pela intensidade e duração... eu diria que não apenas o "efeito" Ômega, mas o "efeito" do meu Ômega.

O derradeiro pronome foi dito com naturalidade, embora atingisse Kiba em cheio. Ele só ficou quietinho, saboreando a sensação de posse que alguém demonstrava sobre si, pela primeira vez alguém diferente de sua mãe ou irmã.

Shino, por sua vez, não gostava de ser tachado com todos os pressupostos atribuídos aos Alphas, ele queria e tentava não validar preconceitos, mas algumas coisas estavam além de sua vontade e controle. Por mais que respeitasse e compreendesse a função de um Ômega no equilíbrio social, era bem incomodo ouvir que outros tiravam proveito de algo que queria pra si. Seria esse um egoísmo criado pelo amor? Amor devia trazer sentimentos assim? Ciúmes eram fruto de insegurança, não? Nesse caso, tal insegurança se embasava no fato de que o Ômega que desejava como companheiro o via apenas como amigo? Sim, por mais maduro e sensato que fosse, Shino também lutava contra duvidas e medos que se estendiam além do alcance de suas atitudes, temores que não podia enfrentar sozinho. Mas a que precisava encarar de um jeito ou de outro, pois o parceiro que poderia ajudá-lo preferia não o fazer.

— Isso está cheirando bem — Kiba comentou para quebrar o silencio.

— Está quase pronto.

— Você... está incomodado? — ele soou um tanto hesitante, para então repetir com mais certeza — Você está incomodado!

— Um pouco.

— Eu consigo meio que... sentir você. Que bizarro! Oh... isso é efeito do vínculo? Acho que é a primeira vez desde sábado que eu consegui fazer isso! Será que é efeito atrasado? Será que o vinculo por conveniência funciona assim por causa de ser mais fraco? Ou... hum... foi o beijo que fez funcionar?!

Kiba soou eufórico com as novas descobertas. Olhou para as costas de Shino, que continuava cozinhando com a aparência de perfeita normalidade. Mas por baixo da fachada, havia sentimentos contraditórios. Sentimentos de posse e ciúmes!

— Você tem ciúmes! Caralho, Shino! Você gosta tanto assim de mim? É ciúmes mesmo, eu sei porque senti isso hoje quando a Ino... hum... não importa — cortou a frase a um segundo de fazer a revelação comprometedora sobre o que motivara seu aborrecimento na conversa com a ex-colega.

— E você está constrangido — Shino percebeu isso sem usar o vínculo entre eles ou qualquer outro artificio. O conhecia o bastante para saber que deveria estar com a face em chamas.

Desligou o fogo, dando o jantar por preparado. Kiba saltou da cadeira e tratou de arrumar a mesa para que pudessem comer. A refeição, deliciosa como sempre, foi feita em silêncio, com os primeiros bocados vindo com certa dor nos lábios de Shino.

Ambos aproveitaram para brincar e testar as sensações que captavam um do outro, fascinados com o laço que não tinham percebido existir entre eles, não enxergando-o como verdadeiramente era.

Como Ômega, Kiba entendeu que conseguia, de alguma forma, acalmar o ambiente em que estava. Mesmo ele, com todo seu jeito inquieto e selvagem, conseguia levar algo de bom para os outros shifters! Aprendia agora, de forma inesperada, que do seu companheiro, podia "pegar" resquícios de sentimentos, sensações. Em contrapartida, Shino também parecia captar esses fragmentos. Uma ligação que levava a relação a outro nível de intimidade.

— Acabaram-se os segredos — Kiba suspirou, depois que engolir um tanto de abobrinha com maionese.

Shino sorriu. Não era lá grande coisa, se pensasse bem. Kiba era um livro aberto que nunca tivera dificuldades para desvendar. Engraçado. Shino realmente conseguia ler as atitudes e reações do garoto com uma clareza impressionante. Habilidade que não tinha com outros shifters, pelo menos não em um nível tão profundo. Desde que podia se lembrar, era capaz de dizer muito sobre Kiba, sem esforço algum! Talvez não sentisse em tal intensidade, sendo mais uma intuição do que qualquer outra coisa. Mas; ainda assim, a facilidade de saber sempre estivera presente.

O sorriso diminuiu um pouco. O que aquela constatação queria dizer...?

— Shino? Tudo bem? Você ficou chateado?

— Não chateado. Estava apenas pensando em como você nunca manteve realmente um segredo de mim. Desde que consigo lembrar.

Kiba parou com o par de hashi próximo aos lábios, um pedaço de sashimi de cavalinha molhado em shoyu preso a ponta.

— Verdade — não teve problemas em admitir aquilo — Então não é coisa de vinculo? Mas eu não posso dizer o mesmo. Agora que prestei atenção, deu pra sentir você. Antes não dava.

— Não sei o que significa.

— Vou perguntar para Iruka sensei. Ele disse que pode ajudar com as minhas dúvidas.

Shino balançou a cabeça concordando. Nenhum dos dois tinha experiência e informações para entender a situação. Precisavam recorrer a um adulto para sanar a questão de uma vez.

Depois do jantar, como já era costume, Kiba cuidou das vasilhas, lavou tudo e guardou. Era o seu jeito de ajudar nas tarefas e não largar tudo por conta do Alpha. Não era tão folgado assim.

Foi tomar banho primeiro. Depois ficou na sala assistindo um pouco de televisão, distraído com um programa de competição ninja qualquer. Só subiu para o quarto quando Shino desceu para pegar algo para beber na sacada, admirando o céu estrelado, como vazia em algumas noites.

Mas, diferente de antes, quando Shino entrou no quarto não foi direto para a sacada, pois encontrou Kiba sentado na cama, com as costas apoiadas na cabeceira, acordado.

— Tá doendo muito? — Kiba perguntou lançando um breve olhar para os lábios do outro rapaz.

— Não — a resposta veio rápida.

— Quer... quer... hum... treinar um pouco? Só um pouquinho?

Shino observou a face corada de seu companheiro, notando que os olhos inquietos não se fixavam em nenhuma parte do quarto. Reações que, diferente da noite do vínculo, não revelavam desconforto ou medo. Ínfimos pontinhos de ansiedade e vergonha fluíram através do vínculo, sem que Shino pudesse evitar, captando-os um a um até que tivesse a certeza de que Kiba não se sentia pressionado ou obrigado a fazer algo desagradável. Acabou por esboçar um leve sorriso.

— Claro. Será um prazer — colocou a garrafinha de sake sobre o criado mudo e ajeitou-se na cama, ao lado de Kiba. Antes de mais nada, levou uma mão ao rosto de pele dourada pelo sol, de modo que pudesse acariciar a marca vermelha com o polegar.

Kiba quase fechou os olhos diante da caricia, mas tinha na mirada de Shino uma requisição tão intensa, que era impossível fugir ao contato visual.

— S-Shino — exclamou depois de algum tempo, quando o silêncio prolongou-se demais.

Atendendo ao chamado, o Alpha inclinou-se um pouco, cobrindo o corpo menor com o seu, tomando os lábios entreabertos nos seus. Uma das mãos de Shino continuou segurando Kiba na face, enquanto a outra buscava apoio na curva do quadril, em cima do pijama. Kiba, por sua vez, levou ambas as mãos à nuca de Shino, entrelaçando os dedos a pequenos tufos de fios de cabelo.

O segundo beijo daquele casal veio menos afoito, sem incidentes dolorosos, um gesto concreto de aprendizagem e conhecimento. Apenas o começo de uma longa noite de "treinamento".