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*Roslyn - Bon Iver & St. Vicent
O primeiro ano de Thomas passou em um piscar de olhos e logo eu presenciava meu filho tentar manter uma conversa com as poucas palavras que sabia falar, andando livremente pela casa com passos desastrados que muito lembravam os meus próprios passos. Ele estava cada dia mais lindo e esperto, ganhando uma personalidade muito parecida com a do pai no jeito de demonstrar irritação e de rir alto, sendo a diversão das reuniões de família.
Ele era minha distração de um dia estressante, pois conseguia arrancar um sorriso de mim quando eu chegava cheia de problemas do trabalho e tinha que encarar os problemas de casa ainda. Eu recorria a ele quando não queria passar uma noite discutindo alguma bobagem com Edward e Thomas parecia exercer muito bem o papel de apaziguador da situação dos pais. Nem eu, nem Edward tínhamos paciência para brigar, para gritar, para dizer alguma verdade, então, vivíamos como robôs dentro de casa para fora dela continuar atuando em nome da paz na família.
Os Cullens não desconfiavam que essa nossa falta de brigas fosse um teatro, mas também sabiam que a situação não tinha melhorado entre nós. Vira e mexe eu percebia o olhar de pena que Alice e Rose tinham sobre mim em algum jantar, mas depois do Natal elas não escutaram mais minhas lamentações. Eu precisaria resolver meus problemas sozinha e parar de envolver as pessoas com a desculpa esfarrapada de que estava fazendo o meu melhor. Não, eu não estava fazendo era nada a respeito disso e sabia perfeitamente que Edward também não estava.
Sem achar uma solução, nós vivíamos em função de Thomas. Era para ele que nós trabalhávamos como condenados, que tentávamos manter as atividades com a família e em Janeiro a atividade mais interessante era discutir sobre o que fazer na festa de um ano. Como sempre, eu não queria nada extravagante e Alice queria a maior festa de um ano existente. Depois de muitas brigas e conversas sérias sobre isso, entramos em um acordo: ela poderia fazer a festa de dois anos dele o mais extravagante possível, mas por conta da situação delicada entre Edward e eu, a festa de primeiro ano seria o mais simples possível.
Aproveitei que a data do aniversário de Thomas caía em um final de semana e liguei para meus tios para saber se eles poderiam passar o final de semana em New Jersey e conhecer o sobrinho. Tia Camille foi a que mais adorou a idéia e começou a fazer planos de possíveis presentes para Thomas e eu fiquei mais feliz ainda por saber que Katy e Jacob poderiam participar do aniversário também. Fazia muito tempo que eu não reunia a minha família e era exatamente isso que eu estava precisando; um tempo como a velha Bella para ver se isso ajudaria em alguma coisa.
Para tornar o aniversário de Thomas o mais perfeito possível, recebi um e-mail de meu pai informando que ficaria em New Jersey por uma semana por causa de um congresso e poderia passar o aniversário do neto com ele. Não me preocupei de estar no trabalho quando recebi a notícia e corri para ligar para ele, saber se era verdade mesmo e combinar tudo corretamente.
- Isso é sério? - perguntei quando ele atendeu. - Você vai estar aqui no dia 29?
- Vou, eu te disse. - ele respondeu rindo de minha surpresa. - Tem algum problema? Você já tem algum plano?
- Não, pai. É perfeito. É aniversário do Tom, você poderá vê-lo depois de tantos meses longe e tia Camille também virá com o tio John... É perfeito.
- Você realmente ficou feliz com isso, não foi Bells? - ele me perguntou com aquele tom de voz de um pai que notava quando a filha não estava bem.
- Você não tem noção, papa Charlie. - respondei relembrando seu apelido que há muito tempo eu não usava. - Eu estou morrendo de saudade de poder ter minha família reunida e será maravilhoso passar o primeiro aniversário de Thomas com vocês.
- Mal posso esperar para ver como esse moleque está. Pela foto dá pra perceber que ele é a cara de Edward, não é mesmo?
- Idêntico. - disse soltando um suspiro.
- E não se preocupe com hospedagem, pois a organização do evento irá pagar todas as minhas despesas na cidade.
- Eu ainda não estou acreditando que você vem mesmo e eu vou poder reunir minha família.
- Mas você já tem sua família com o Thomas e Edward.
- Tenho, mas você e meus tios são minha família de verdade e agora com o Thomas eu vou sentir que ela está completa.
- Oh Bells, eu sinto tanto falta de sua mãe. - ele me confessou com a voz meio falha e foi o suficiente para fazer meus olhos lacrimejarem.
- Eu também, pai. - funguei para não desabar no choro em pleno trabalho. René ainda era um assunto delicado entre nós. - Eu... eu preciso voltar ao trabalho.
- Certo. Até dia 27, filha.
- Vou ficar te esperando.
Saber que minha família iria estar presente no primeiro ano de Thomas me fez a pessoa mais feliz na semana seguinte, nada sendo capaz de estragar meu humor nas alturas. Pela primeira vez em meses eu estava sorrindo abertamente e os erros de Edward passavam despercebidos para meus olhos sempre críticos. Acho que ele imaginou que eu tivesse desistido de ser a esposa pentelha e tivesse aceitado de vez as coisas que ele fazia e eu não julgava serem certas, mas na verdade eu estava entorpecida pelo prazer de saber que por um final de semana nós não iríamos brigar tanto porque eu estaria ocupada com minha família reunida. Por uma semana tudo foi normal entre nós.
Mesmo com um aniversário simples, eu tive muito que fazer nos dias que antecederam a festa, ainda mais que Alice estava ocupada com o final de uma pesquisa que ela estava coordenando no hospital que trabalhava. Precisei encomendar um bolo para as quase vinte pessoas que iriam para a festa no sábado, comprar mais algumas coisas para comer e algo para decorar a casa já que por ser tratar de uma festa infantil o Thomas iria querer algum estimulo visual colorido. Eu sabia que Edward estaria muito ocupado com o trabalho para me ajudar com algumas dessas tarefas, porém fui surpreendida quando ele sentou ao meu lado no sofá e me ajudou a encher as bolas coloridas.
- Não tem nada para estudar? Nenhum prontuário para preencher? - perguntei o observando encher uma bola com mais facilidade que eu.
- Noite livre. - ele me respondeu apertando os lábios e tentando amarrar a bola, mas suas mãos grandes o atrapalhavam. - Tenho plantão amanhã.
- Como é? - retruquei surpresa. - Você tem plantão amanhã?
- É. Você não sabia?
- Edward, amanhã é aniversário do Thomas e você vai trabalhar na hora da festa?
- Desculpe, mas meu quadro de plantões saiu antes de saber da festa.
- Mas você poderia muito bem pedir para trocar o plantão da tarde para estar no aniversário. Eu te avisei na semana passada sobre a festa, Edward.
- Não comece a fazer drama por causa de uma bobagem. - ele resmungou jogando a bola no chão e levantando do sofá para finalizar a discussão, mas eu ainda não tinha terminado.
- Drama não! - falei o seguindo até a cozinha. - É o primeiro ano do Thomas, minha família vai estar aqui e a sua também. Isso não é uma bobagem, Edward. É um momento para reunir todos e você está sendo displicente mais uma vez em relação a criação de seu próprio filho.
- Você quer que eu troque meu plantão, é isso? - ele perguntou se virando com uma expressão de raiva. - Eu troco a merda do plantão se isso for tão importante para você.
- A questão não é o que eu quero. É você agir corretamente em relação ao seu filho e não ser um pai apenas para a parte divertida porque depois quem fica escutando todas as reclamações sou eu, não você. Eu sou sempre a culpada em todas as coisas erradas que acontecem com o Tom.
- Você está exagerando.
- Não mesmo, querido. - comentei dando as costas para ele e voltando para a sala. - Porque não é você quem tem uma sogra dominadora.
Edward ficou na cozinha e não escutou a última parte de minha reclamação, mas eu realmente não queria que ele escutasse. Eu só queria poder colocar para fora o que eu pensava pelo menos uma vez na vida e não ficar com sentimentos que tanto me deixavam angustiada presos no peito. Voltei a encher as malditas bolas e o escutei subir as escadas com passos pesados indicando que - mais uma vez - nós dois iríamos dormir brigados.
Na manhã seguinte ele não estava mais em casa quando eu acordei, mas mandei uma mensagem para seu celular pedindo que fosse buscar o bolo na confeitaria perto do hospital às duas horas da tarde, pois a festa estava marcada para o final da tarde. Eu precisei cancelar o show marcado para aquele dia por causa do aniversário, mas meu editor estava acostumado com esses cancelamentos das mães que trabalhavam no jornal e não reclamou nada. Apenas exigiu um pedaço de bolo na segunda e eu levaria com todo o prazer.
Tia Camille e Katy vieram me ajudar antes do almoço e eu agradeci muito, pois, enquanto Katy matava a saudade do afilhado brincando com Thomas no jardim, eu terminava de decorar a casa com a ajuda de minha tia. Não era nada muito trabalhoso, mas durante esse tempo que só nós estávamos em casa eu pude colocar todos os assuntos em dia com elas. Deu para atualizá-las bastante sobre minha vida antes dos outros convidados chegarem.
Thomas estava curtindo sua festa, até porque ele adorava ser o centro das atenções ao contrário de mim. Meus tios babavam descaradamente por eles, Esme o encheu de presentes mesmo eu pedindo para ela não comprar mais brinquedos porque o quarto dele não tinha mais espaço e até Charlie que não tinha muito jeito com criança se rendeu ao charme de Tom. Ele sabia cativar qualquer um com seu sorriso de três dentes, risada fácil e jeito fofo de dizer "ince" quando alguém perguntava quem era a mãe dele.
Mas ele não contribuiu comigo quando eu pedi que ele mostrasse quanto anos estava fazendo como eu o ensinei durante quase duas semanas. Eu queria mostrar como era engraçado o jeito que ele apontava o dedo e dava uma gargalhada alta, mas ele simplesmente não fez isso quando eu pedi e me deixou no vácuo achando mais interessante o boneco desmontável que Luke, Sharon e Holly deram de presente. Mas essa frustração não foi nada comparada com a que eu tive com o decorrer da festa.
Eu deveria esperar isso, mas não imaginei que Edward fosse realmente capaz de se atrasar para o aniversário do filho. Fui clara com ele sobre os horários; às 14h pegava o bolo e às 16h começava o aniversário, mas eu me dei conta de que ele estava atrasado quando deu 17h e ele ainda não tinha aparecido.
Tentei o celular e estava desligado. Mandei duas mensagens para o Pager dele e não obtive resposta. Todo mundo já estava desconfiado de que algo errado estava acontecido comigo porque eu passei a ficar no telefone o tempo inteiro e me refugiei na varanda da casa para fumar um cigarro em busca de relaxamento, mas Katy me pegou no flagra.
- Sabia. - ela disse parada na porta.
- Não venha com lição de moral essa hora, por favor. - resmunguei tragando o cigarro no final e jogando a bituca na grama. - Eu estou muito puta com Edward.
- Onde ele está?
- Quem sabe? Eu falei que ele deveria chegar no máximo às 15h com o bolo e até agora ele não deu sinal de vida.
- Será que aconteceu algo no hospital? Você já tentou ligar para lá?
- Tentei, mas o telefone da emergência está ocupado e a recepção dos médicos nunca transfere as ligações corretamente.
- Relaxa, priminha. - ela me pediu sentando ao meu lado no sofazinho e afagando meu ombro. - Ele deve ter uma explicação para esse atraso.
- Eu espero, porque quem está fazendo papel de idiota sou eu, não ele.
- Vamos voltar para a festa e fingir que tudo está maravilhoso. Acho que papai conseguiu ensinar Thomas a bater palmas para o parabéns.
Sempre a minha família conseguia me fazer relaxar e esquecer dos problemas que eu senti muito falta da época que morava em Phoenix e minha maior preocupação era se conseguiria passar de ano ou ficaria com alguma matéria pendente. Comparado com meus problemas atuais, eu não tinha motivo algum para ficar sem dormir na semana de provas.
Eu estava tirando mais uma garrafa de refrigerante do freezer quando Edward entrou pela porta da garagem e parou na entrada da cozinha guardando a chave do carro no bolso da calça jeans. Ele estava simplesmente quatro horas atrasado e parecia não se importar com isso, pois depositou o bolo de chocolate embalado no balcão e me fitou com um sorriso nos lábios.
- Ótimo, já temos bolo para o aniversário de dois anos do Tom. - murmurei alto o suficiente para ele escutar. - Onde você se meteu a tarde toda, Edward?
- Trabalhando, eu acho... - ele respondeu dando de ombros com cinismo. - Você sabia que eu tinha plantão hoje.
- Mas eu falei para você trocar seu turno dessa tarde para pegar o bolo às duas horas da tarde, não às sete horas da noite. - eu retruquei voltando a ficar irritada com seu atraso. - Estamos em uma festa infantil e o bolo só chegou quando o aniversariante já está quase dormindo.
- Houve um acidente essa tarde e eu não podia deixar e emergência, Bella. - ele falou parando ao meu lado enquanto eu abria a embalagem do bolo. - Eu fiz uma cirurgia importante sem a supervisão do Dr. Stuart, você tem noção disso?
- Eu perdi um show importante de um artigo e uma entrevista com a banda porque era aniversário de meu filho. - falei abrindo uma gaveta à procura da vela. - O Tom só faz um ano uma vez na vida e você não parece se importar com isso.
- Pelo amor de Deus, Bella. Ele não tem nem noção do que está acontecendo aqui...
- Mas toda a família tem. - falei ríspida, perdendo a paciência com sua falta de atenção para certos detalhes. - Meus tios vieram de Phoenix, meu pai viajou quase vinte horas para estar aqui hoje. Tudo o que você precisava fazer era deixar a merda do hospital antes das duas horas da tarde e passar o aniversário do seu filho como qualquer outro pai.
- Não venha questionar minha paternidade. - ele disse ficando rapidamente irritado, mas aquilo não me abalava.
- Estou começando a questionar, sabia? - comentei fincando a vela de qualquer forma no meio do bolo e empurrando em sua direção. - Tente consertar sua idiotice um pouco e reze para que ninguém perceba seu atraso homérico.
Meu olhar era de muita raiva quando peguei a garrafa de refrigerante e saí da cozinha em direção ao jardim, Edward me seguindo enquanto segurava o bolo na mão. Todos estavam conversando animados, mas ninguém conseguiu disfarçar a curiosidade de saber como nós tínhamos resolvido a confusão que o atraso de Edward causou e olharam tentando entender nossas faces transparecendo sorrisos falsos. Depois de algumas brigas, Edward e eu aprendemos a fingir muito bem que tudo estava resolvido para evitar os questionamentos de sua família.
Tom estava no colo de tia Camille quando avistou Edward e esticou os braços em sua direção, se remexendo nervoso dizendo "pa" até que ele deixasse o bolo sobre a mesa e o carregasse no colo. Era engraçado - não de modo divertido -, mas todas as vezes que nós brigávamos Tom sempre fazia meus argumentos não terem valor algum quando sua animação ao vê o pai era incontrolável e Edward me lançava um olhar como se dissesse "Está vendo? Eu sou um excelente pai e você fica irritada sem motivo". Não era sem motivo, eu realmente sentia que Edward era negligente em certos assuntos.
- Chegou cedo, Edward. - meu pai comentou irônico fazendo todos rirem e eu acompanhei a risada para não deixar o clima ainda pior.
- Tive uma cirurgia de última hora. - Edward respondeu balançando Tom para cima e para baixo, arrancando gargalhadas fáceis dele. - Pai, eu fiz um enxerto de crânio utilizando osso da bacia hoje e sem a supervisão. Voo solo.
- E você utilizou que método? - Carlisle perguntou com um tom mais médico que paterno.
- Ok, vamos deixar o papo de hospital para mais tarde. - falei interrompendo a conversas dos dois. - Tom já está sonolento e nós precisamos cantar Parabéns logo...
- Ele me parece bastante animado, não é Tommy? - Edward comentou mordendo a barriga de Tom enquanto ele gargalhava mais alto. - Quantos anos você tá fazendo hoje, moleque? Mostra ai pro "pa" ver.
- Nem se abale se ele não... - comecei a dizer rindo, mas meu sorriso morreu quando Thomas levantou o dedo indicador e mostrou que estava fazendo 1 ano. Precisei controlar para meu queixo não desabar de indignação.
- Vamos acender essa vela? - Esme falou ficando em pé e evitando que eu ficasse mais sem graça ainda por Thomas ter obedecido a Edward e não a mim. - Você trouxe o fósforo, Bella?
- Não, mas eu tenho isqueiro. - murmurei tirando o isqueiro o bolso de minha calça e ainda observando Thomas se divertindo com Edward.
- Como sempre... - escutei Edward murmurar e eu lhe lancei um olhar para não começar aquela outra briga mais uma vez. Não queria escutar novamente ele reclamar da volta do meu hábito de fumar.
Acendi a vela de um ano e toda família se reuniu ao redor da mesa para cantar parabéns enquanto Tom batia palmas e ria com as palhaçadas que Edward fazia para ele. Observando aquela cena, eu até esquecia a raiva que ele me causou ao se atrasar para a festa, de todas as outras vezes que ele deixou de fazer algo por causa do trabalho, e conseguia sorrir com o modo único que ele tratava o filho. Ali ainda existia um pouco do antigo Edward, daquele homem que eu considerava perfeito e me derretia facilmente, mas a responsabilidade de mãe e as intolerâncias para seus erros constantes estavam me transformando em uma monstra aos poucos e eu não conseguia evitar que aquilo acontecesse. Eu queria ser a Bella que não ligava para nada, mas era impossível ficar cega quando os motivos para as brigas sempre tinham fundamento.
Toda a família deixou a festa quase fracassada poucas horas depois do Parabéns e que eu servi o bolo de chocolate para eles, mas eu estava longe de descansar naquela noite. O jardim estava bagunçado com copos amassados e resto de bolo nos pratos e a limpeza sempre sobrava para mim. Depois que dei banho em Tom para acalmá-lo e o coloquei para dormir - praticamente desmaiando de cansaço no berço depois de passar o dia inteiro brincando com meus tios e Charlie - eu tirei meu salto, prendi meu cabelo e comecei a colocar tudo em ordem na casa. Minha sorte foi não haver crianças na festa, pois eu já tinha presenciado como elas conseguiam destruir tudo ao redor enquanto corriam sem orientação e comiam docinhos sujando tudo.
Eu estava tentando entender como adultos conseguiam sujar tantos copos quando Edward apareceu no jardim com uma garrafa de cerveja na mão. Ele realmente não tinha motivos para reclamar que eu fumava quando ele praticamente bebia todas as noites depois que chegava do trabalho, mas eu não fiz esse comentário para não ter mais estresse naquele dia exaustivo.
- Tom já está dormindo? - ele perguntou tomando um gole da cerveja enquanto eu colocava os últimos pratos descartáveis no saco de lixo.
- Conseguiu depois que eu dei um banho frio para tentar acalmá-lo já que você ficou o atiçando com as brincadeiras. - respondi sem paciência para procurar uma resposta agradável aos seus ouvidos.
- Eu queria aproveitar minhas poucas horas com ele. - Edward disse me seguindo até a cozinha.
- Claro, porque você está sempre ocupado demais com o hospital. - não evitei fazer o comentário sarcástico.
- Qual é seu problema, Bella? - ele perguntou perdendo a paciência e colocando a cerveja no balcão. - Você fica toda irritadinha porque eu me atrasei um pouco hoje... Eu tenho responsabilidades no hospital, sabia?
- Eu também tenho um emprego, Edward. - retruquei parando abruptamente e o encarando com mais raiva ainda. - Você não é o único nessa casa que trabalha.
- Não queira comparar seu emprego com o meu. Eu passo quase vinte horas salvando vidas enquanto você só vai ao jornal três vezes por semana.
- Eu passo dez horas no jornal quando eu vou para lá e passo o restante de minha noite cuidando do Tom. - falei indignada com sua mania de colocar seu emprego em um patamar acima do meu. - Enquanto você fica esperando alguém adoecer para executar seu precioso trabalho, eu estou correndo atrás do Tom para ele não cair e se machucar, eu estou o alimentando, o deixando perfeito para então você chegar em casa e acordá-lo, aí eu tenho que acordar também e colocá-lo para dormir...
- Ei, não venha me dizer essas coisas apenas agora. - ele falou querendo ser a vítima na briga, como sempre. - Por que você não me disse isso antes?
- Eu já te disse isso milhares de vezes, todas as malditas noites que você o acorda e sou eu que preciso ficar acordada até ele dormir outra vez. - gritei jogando o saco de lixo no chão e saindo da cozinha.
- Pare de gritar, Bella. - ele disse ríspido quando segurou meu braço e me impediu de subir a escada. - Você pode acordar o Tom e os vizinhos...
- Oh, você ficou preocupado? - perguntei com uma overdose de sarcasmo na voz. - Estou emocionada, Edward.
- Eu não estou te reconhecendo, é sério. - ele falou me analisando com desgosto.
- Bem vindo ao clube, pois eu não te reconheço mais há muito tempo. - retruquei soltando meu braço e pisando firme escada acima.
Tomei um banho irritada com mais uma briga pesada que nós tínhamos nos últimos três meses e deitei quase na ponta do meu lado da cama para tentar dormir, mas era difícil procurar uma calma quando eu queria gritar muito alto.
Eu estava ficando facilmente estressada com o trabalho e tentando cuidar de Tom sozinha, mas tudo piorava quando Edward vinha com seu discurso sobre como apenas seu trabalho era importante e eu estava reclamando de barriga cheia. Queria que ele experimentasse passar um dia inteiro no hospital e depois fosse cuidar de um bebê hiperativo que estava aprendendo a andar e mexia em tudo que encontrasse ao seu alcance. Se ele passasse um dia inteiro como babá de Tom mudaria rapidamente sua opinião sobre meus chamados estresses sem motivo.
A cama afundou e eu sabia que era Edward deitado ao meu lado, mas me mantive de costas para ele e fingindo que já estava dormindo. Ele sabia muito bem que eu não dormia logo após uma briga e eu senti sua mão subir por minha cintura sobre a coberta e um beijo sendo depositado em meu ombro. Como sempre, ele tentava tomar as rédeas da situação ao destilar seu charme para cima de mim com carícias quando eu menos esperava, mas dessa vez eu estava irritada demais para me deixar levar.
- Desculpe pelo atraso, Prince. - ele sussurrou em meu ouvido antes de morder o lóbulo de minha orelha e acariciar meu seio por cima do pijama. - Eu prometo que vou tentar chegar no horário da próxima vez...
- Se eu ganhasse um centavo para cada vez que escutasse isso... - murmurei tentando não me entregar à suas mãos e virando meu rosto para longe de seus lábios. - Eu estou com dor de cabeça, Edward. E cansada demais de fazer nada no trabalho.
O escutei bufar de raiva com minha cortada e sabia que ele estava de costas para mim agora, pois aquela era nossa rotina quase todas as semanas. Nós sempre brigávamos por besteiras e assunto sério, terminando a noite com um espaço grande entre nossos corpos na cama e com um cumprimento mal humorado na manhã seguinte. Eu não estaria mentindo se falasse que não conseguia recordar a última vez que nós tivemos uma noite de amor e eu adormeci em seus braços. Definitivamente, as coisas não estavam indo bem.
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