Capítulo 13 – O Sonho
Era difícil crer e dimensionar... Mas não havia alguém que temesse perder seus amigos tanto quanto ele. Mesmo que fosse um guerreiro hábil, um soldado dedicado em tempos antigos e um ser dotado de uma fé elogiável, não conseguia lutar contra as constantes dificuldades em se expressar. Passava a maior parte do tempo quieto, a ler ou a meditar. Às vezes conversava com os Winchester's, porém procurava se manter calado. Não sabia como lidar com a sensação de querer se tornar um humano, de não achar mais tão proveitoso assim ser um anjo. Lembrava-se, agora, de Anna, do porquê da queda dela; e percebia, atônito, que tudo fazia sentido, que as coisas ditas por ela ficavam cada vez mais claras. Sentia-se constrangido; não queria decepcionar Deus ao desejar ser humano; não sabia o que fazer para explicar a Azrael que gostaria de permanecer na Terra com os irmãos. Não. Aquilo não era viável, por mais que quisesse, não poderia continuar em um local que não era seu. E tamanha tristeza o fazia se calar; não conseguia, com tal sensação a atormentá-lo dia e noite, exprimir tudo que sentia.
Durante as manhãs, acompanhava Samuel e Lúcifer no rigoroso treinamento mental dado ao jovem caçador. Ajudava no que fosse preciso, observava tudo com muita atenção; notava, com imensa alegria, a cada dia que passava, a nítida evolução do Winchester mais novo. O treino, que duraria três dias, porém, foi estendido para uma semana. Na primeira manhã, o rapaz sofrera graves lesões nas costelas e no peito, devido ao intenso poder emanado pelo rebelde, o que levou Cass a curá-lo com urgência; se Dean visse o irmão em um estado tão precário de saúde, poderia encrencar de novo, e não era o que nenhum dos três – Samael, Castiel e Sam – objetivavam.
Mesmo contente por ter alguém que o apoiasse, o caçador considerava estranho que Cass sempre conversasse com ele, ao findarem os árduos treinos; trazia-lhe coragem, esperança e fé. Era, por assim dizer, um irmão para todas as horas, bem como Dean, que por mais brigão que fosse, gostava de Sam, e por isso tinha um modo peculiar de proteger o mais novo.
O loiro, por outro lado, confiava ao ser celeste a missão de cuidar de Samuel, na medida do possível. Como sairia para caçar com Bobby e com Azrael pelos sete dias restantes em uma cidade próxima, o Winchester mais velho pediu ao anjo que ficasse de olhos abertos. E Castiel seguia as orientações do amigo, não por desconfiar de Lúcifer e muito menos de Sam; mas sim por se sentir feliz pela credibilidade que Dean depositara nele.
Terminada aquela semana aparentemente tranqüila, os seis amigos já estavam reunidos de novo. Bobby ainda considerava estranho ter o anjo que iniciara o apocalipse em sua casa, porém aos poucos se acostumava com a idéia. A noite foi calma. Compraram sanduíches, hambúrgueres e cerveja; conversaram muito e se divertiram pelo resto do tempo. Em um dado momento, decidiram ir a um bar próximo à casa de Robert Singer, que, por sua vez, não quis acompanhar o grupo.
– Estou velho demais para isso, rapazes – argumentou, diante da insistência dos irmãos Winchester's.
– Certo, ok, ok... Você venceu – respondeu o loiro. – Então fique aí com o Cass. Ele não vai conosco, disse que está cansado.
– Pode deixar, então. Cuidem-se e aproveitem!
– Valeu, papai! – brincou Sam, e todos riram do comentário, inclusive Bobby.
Azrael, Lúcifer, Dean e Samuel não saíram da residência sem deixar de recomendar ao caçador que lhes telefonasse caso necessitasse de algo, ou caso ocorresse algum problema. Eles só se foram depois que o homem lhes afirmou, mais de uma vez, que os avisaria se algo urgente acontecesse.
Como Castiel dormia tranqüilamente no sofá, Bobby resolveu pesquisar no computador alguma nova caçada. Como não encontrou nenhuma novidade interessante, foi ao seu quarto e ligou a televisão; necessitava de algo para passar a noite e distrair os pensamentos um pouco.
(...).
– A covardia é um ato lamentável para um bom soldado como você, não acha?
– O que quer aqui, Rafael? Por que vem em meus sonhos agora?
– Porque não há outra alternativa. Você se esconde como uma criança assustada, e não sei o que tanto teme.
– Repito... O que quer? – o tom mais sério de Castiel denunciava uma certa impaciência.
– Ora anjinho... Vamos com calma – disse o Arcanjo. – Não costumo ter pressa. E nem seu irmão, Kasbeel.
– Onde... Ele está? – o ser celeste manteve a frieza por um bom tempo, mas ao ouvir o nome do menor, estremeceu.
– No bar onde seus amigos foram.
– O que? Seu ... Maldito!
– O que foi, Castiel? Não vai brincar? Eu já disse que não tenho pressa, que tudo tem seu tempo... Acho, porém, que não deseja que seus amigos se machuquem em um local infestado de demônios, não é?
– Como é? Mas você disse que meu irmão...
– Ele já iniciou a coisa toda. Dominaremos o planeta, quer você deixe, quer nãodeixe; isso não é relevante para nós. Sua fé em Deus é tão medíocre, que acabarei com ela com uma simples frase: se não acordar agora, seus amigos morrem.
– É mentira!
– Acha mesmo? Então acorde, Castiel? Só... Cuide para não despertar tarde demais – falou, após rir da expressão de desespero do outro. – Como é fraco e tem sentimentos agora, fica mais fácil pegar você.
– E quem disse que vai me pegar, Rafael? Não sou tão fraco como pensa – comentou, em um tom desafiador.
– Ah não? É só aplicarmos o jogo certo e mexermos com suas emoções... Você cai como um patinho.
– Isso é o que você vai ver, Arcanjo desgraçado.
(...).
O ser celeste despertou, olhou em volta e se dirigiu ao quarto de Bobby. Depois de constatar que o caçador dormia, buscou a adaga para matar anjos e foi à rua. Ao passar em frente ao bar onde os amigos se encontravam, viu uma cena de horror e de violência. Cerca de quarenta demônios, que possuíram moradores das cercanias, trucidavam as pessoas que lá estavam. Muitos humanos caíam no chão, ensangüentados; outros, tentavam lutar, mas tinham destino semelhante: a morte.
Apavorado, Cass entrou no estabelecimento. Conseguiu, com o grande poder energético que possuía, matar metade das entidades. As outras, porém, atenderam a um pedido que vinha do fundo do bar:
– Deixem-no passar – o anjo conhecia aquela voz. Era Kasbeel. Mas não queria um duelo contra o mais novo; apenas desejava saber onde estavam os Winchester's e seus irmãos.
