CAPÍTULO 13

- Isso foi maldade - disse Kate, enquanto saíam da casa de Burguess, que haviam invadido, para Sawyer deixar seu presentinho.
- Isso, colega, foi foi um recado, pra ele não esquecer que a batata dele tá assando! - retrucou Sawyer - E pra quem arrombou a fechadura com a maior facilidade, como você fez, tá virtuosa demais pro meu gosto!

Kate amarrou a cara.
Tá certo, ela sabia arrombar fechaduras e janelas.
Estranhamente ela parecia possuir talentos estranhos, desde adolescente. Como arrombar coisas fechadas, fazer ligações diretas em carros e escalar qualquer coisa vertical, fosse uma árvore, um morro ou uma parede.
Isso a aborrecia, mas era a pura verdade sobre ela.
Kate abrira a fechadura da porta sólida como uma profissional. Sawyer adorara!

Kate observou Sawyer. Apesar dos momentos divertidos no almoço por causa da malcriação de Sawyer pela comida, Kate ainda sentia o clima pesado entre eles. Ele não eatva mais tão aberto e receptivo quanto antes e ela se sentia mal por isso.
Ele abriu o porta-mala do carro e tirou uma mochila com roupas. Curiosa, o viu vestir uma calças e uma blusa de moleton, bem mais largas do que ele, por cima da própria roupa. Ele amarrou o cabelo em um rabo de cavalo e colocou um boné surrado.
Terminou por colocar óculos escuros.

- Por que está botando essas roupas? - perguntou ela.
- Por que com o susto que vou dar no cara e esses disfarces, ele nunca vai ser capas de me reconhecer ou me descrever. Tudo que ele vai lembrar é de um cara gordão, sem cor de cabelos ou de olhos. Se me ver de novo na rua ou na perseguição, não vai ter certeza de que sou eu.

Kate o olhou fascinada. Sawyer podia ter todos os defeitos do mundo, mas era um gênio nesse trabalho. Lá estava ele, com aquelas roupas largas engolindo seu corpo, os óculos escuros enormes tapando o rosto e o cabelo enfiado no boné encardido... e mesmo assim, ainda exalava perigo e excitação!
- Onde você aprendeu todos esses truques?
- Vai ver que no mesmo lugar onde você aprendeu a arrombar fechaduras. - Sorrindo um pouco, ele acrescentou - Detalhes, Sardenta! Está tudo nos detalhes. Pra entender as coisas. Pra fazer as coisas darem certo... tudo nos detalhes!
Dando a volta no carro, ele disse:
- Agora, fica aqui no carro me esperando. É melhor Burguesse não saber que estamos em dupla.
Concordando, Kate abriu a porta do carro e entrou. O veículo estava estacionado há uns quinze metros acima da casa de Burguess, na calçada oposta, o que lhe dava uma boa visão do lugar.

Segundos depois de Kate entrar no carro e Sawyer começar a caminhar para mais perto da casa, ambos viram um carro chegar cantando pneus e freando violentamente, estacionando descuidado, com um pneu em cima da calçada.

"É ele!' percebeu Sawyer, ao ver um homem descer nervoso, suado e com as mãos na cabeça, olhando para todos os lados.

- Mas... mas... - balbuciou trêmulo no meio da rua, atônito por não ver nenhum sinal de fogo ou bombeiros na rua - O que tá acontecendo?
Kate viu Sawyer se aproximar do homem em um segundo, rápido e ágil, segurando-lhe o braço e puxando para trás com uma brusquidão que deve ter doído.
- Qual o problema, amigo? Aonde é o incêndio? - sussurrou ele ameaçador - É o seu amigo Blake que tá queimando?
Arregalando os olhos de susto e dor, Burguess tentou correr, mas Sawyer aumentou a força do aperto e disse:
- Não vai me convidar pra entrar na sua casa? Anda! - ordenou ele, engrossando a voz.

Tremendo, Burguess caminhou aos tropeções com Sawyer colado nele.
Kate escutava a conversa pelo receptor:
- Pode levar tudo que quiser, o carro, o dinheiro, tudo bem, eu não vou reagir!
Achando graça, Sawyer respondeu:
- É muita gentileza sua me dar seu carrinho de playboy, mas você sabe que não é isso que eu quero.

Entrando na casa, Sawyer o jogou para dentro da casa, sacudindo-o pelo paletó. O rapaz abriu a boca, gaguejando sons desconexos.
- - Eu não sei do que você tá falando. Não sei onde George está!
Sawyer o jogou com força contra a parede, fazendo-o desabar no chão.
- Resposta errada! - vociferou Sawyer - Segunda e última chance! Onde está Blake?
- Não sei onde ele está, eu juro! - gritou Burguess, se encostando no canto atrás da porta da casa.
- Eles o levaram, não sei para onde, eles disseram que é um esconderijo. George queria enregar todo mundo...
Sawyer o interrempeu:
- Ele ainda tá vivo?
Arregalando os olhos, Burguess disse:
- Acho que sim! Pelo menos foi o que me disseram. Olhe não era pra nada disso estar acontecendo, era só pra ganhar uma grana fácil, mas tudo engrossou e ficamos sem saída - explicou Burguess, tentando angariar alguma simpatia naquele rosto sem expressão - Você é da polícia?
- Eu sou caçador de recompensa, teu colega deu um beiço na fiança e agora, alguém vai ter que pagar!

Dando a impressão de se acalmar um pouco, Sawyer caminhou até ele, que se espremeu mais contra a parede. Dando uma de simpático, Sawyer disse:
- Escuta aqui, amigo, você não tem que patar o pato pela burrice do Blake. Eu não tenho nada contra você, só quero saber onde o George da selva se enfiou.
Burguess deu uma risada curta e nervosa ao entender a piada.
- "George da selva", hahaha!
Sem sorrir, Sawyer continuou:
- Quem pegou ele? Quem são eles?

- Perkins e Krause, nossos chefes... eles montaram o esquema e eles levaram George quando ele quis cair fora.
- Entendi. Olha só, você vai arrumar o endereço do esconderijo de qualquer jeito...
- Eles não vão me dar-
- Cála a boca e escuta: arruma o endereço, não me interessa como! Por que, eu vou voltar aqui e vou querer respostas!
Sawyer deu outro tranco no homem.
- E se você não tiver nada pra me dar, não vai ser legal pra você! - declarou ele, franzindo a testa, assustador.
Sawyer socou a parede ao lado da cabeça de Burguess, se arrependendo em seguida - aquilo doeu! - e saiu sem pressa da casa, deixando Burguess escorregando para o chão.

Caminhando tranquilamente até o carro, Sawyer entrou e esperou ao lado de Kate. Até que um grito ecoou pelo transmissor:
- Mas que MERDA! Filho de uma puta! Olha o que ele fez na minha parede!

Sawyer deu uma risada malévola ao lado de Kate, que sacudiu a cabeça em desaprovação.
-Você precisava mesmo ter pichado as paredes brancas da sala do cara de tinta preta? E ainda ter escrito "I´ll be back" - indagou ela, imitando o sotaque de Arnold Schwarzenegger - Quem você pensa que é, afinal? O exterminador do futuro?
- Eu achei que foi um belo toque! - respondeu ele, contente consigo mesmo.
Kate deu uma risada e comentou:
- Que maldade...
- Mas eu sou malvado!
Ela se virou em sua direção com um sorriso no rosto, mas a graça sumiu de seu rosto ao notar sua expressão fria e seca:
- Eu não sou uma boa pessoa, Sardenta - e acrescentou, como se fosse uma obviedade - Você já sabe disso, melhor do que ninguém.
Ela enfrentou o olhar frio e o desafiou:
- Ah, é? Então, por que está aqui, me ajudando?

Ele sacudiu a cabeça:
- Eu estou "me" ajudando. Minha comissão, lembra? Aquela grana vai cair muito bem no meu bolso!
-Então, você só liga pra grana? Só isso? - Kate sorriu, cínica - Eu não caio nessa, conta outra.
- Não cai em quê?
Tranquilamente, ela disse:
- Nesse seu papo de cada um por si. Já andei te observando, você não é tão casca grossa quanto gosta de parecer.
- Boneca, se você ainda não sabe, eu vou te explicar, nessa vida é cada um por si. Pode pensar o que quiser, mas eu só cuido de mim mesmo!

Ele pareceu muito irritado ao dizer isso e incomodado pelas palavras dela, mas antes que tivesse tempo de responder, uma ligação do celular de Burguess entrou no receptador. A voz de Burguess soou histérica:
- erkins, Perkins! Tá tudo ferrado, ferrou tudo!
Uma voz calma respondeu:
- Burguess! Calma! Que é que você tá falando? Fala direito!
- Calma é o caramba! Me atacaram, me bateram...

Sawyer falou chocado:
- Mas que mentiroso!
Kate fez:
- Shhhh!

- Quem te atacou? - a voz de Perkins pareceu mais em alerta, agora:
- Um caçador de fugitivo! Ele quer saber do George... quase me matou. Me agarrou na rua, invadiu minha casa, vandalizou, sujou tudo de tinta! Ele vai me matar!
- O que esse cara queria?
Perdendo a paciência, Burguess gritou:
- Ele quer George! Ele caça fugitivos! George faltou a audiencia, não pagou a fiança, é um fugitivo! Agora ele tá atrás de George e resolveu pegar no meu pé! Ele vai voltar - a voz de Burguess estava esganiçada de pânico - O cara parece um assassino! Não tá brincando, ele vai me triturar! Ele vai voltar e quer o paradeiro de George ou vai me deixar em pedaços!

- Vou mesmo! - murmurou Sawyer entre os dentes - Bundão!

A conversa continuou:
- Pára de gritar, droga! Tenta fingir que é um homem! - exclamou Perkins - Quando ele vai voltar?
- Ele não disse. Você precisa me dar o endereço do esconderijo!
Perkins riu do outro lado da rua:
- Você acha mesmo que eu vou te dar o endereço pra você entregar de mão beijada pra esse palhaço? Você é mais idiota do que parece, Burguess!
- E eu que vou morrer por causa disso?
- Ele não vai te matar, essa gente não pode matar ninguèm.
- Mas vai me arrebentar! Eu vi o jeito dele!
- Tudo bem, como ele é?
- Enorme! Gordão! Sei lá...

Sawyer sorriu ao ouvir a pouca definição que Burguess tinha de sua aparência.

- Pelo amor de Deus, Perkins! Ele não tá brincando!
- Vê se se acalma! Eu vou pensar no que fazer e te ligo amanhã.
- Amanhã? - a histeria voltando à voz de Burguess - e se ele voltar hoje?
- Ele não vai voltar hoje, ele quer que você entre em pânico e faça alguma besteira.
- Eu vou na polícia!
A voz de Perkins ficou fria e ele escandiu as palavras, perigosamente:
- Você não vai fazer nada disso!
- Vou sim, vou pedir garantia de vida contra esse cara!
Suspirando, Perkins disse:
- Burguess, se você fizer isso, vai se arrepender! Somos muito mais perigosos do que um caçador idiota qualquer! Não faz besteira! Ou você vai fazer companhia pro George!
- Vocês mataram ele?
- Já disse que ele está bem... por enquanto! Ninguém precisa se machucar. Se controla! Ese cara não vai voltar tão cedo, ele não deve ser burro como você! Ele sabe que vai demorar pra você arrumar o endereço. Temos tempo pra pensar em alguma coisa. É só você não entrar em pânico.
Burguess gemeu no telefone:
- Perkins, me ajuda ou então eu jogo a merda toda no ventilador...
Respirando profundamente, Perkins pareceu mudar de tática:
- Burg, presta atenção, você não vai fazer nada! Vai esperar até amanhã. Entendeu? Vou falar com o Krause e amnhã a gente se encontra pra resolver tudo. Lá pelas 10 da manhã, no lugar de sempre...
Mais calmo, Burguess repetiu:
- Amanhã, às dez, então? Vou te esperar... se você não aparecer, vou direto na polícia.
- Eu vou estar lá - gritou Perkins - E vê se toma um calmante, você tá ridículo!
E desligou sem aviso, encerrando a conversa.

Kate e Sawyer ficaram uns instantes em silêncio, digerindo a conversa, até que Sawyer falou:
- Bom, pelo menos temos certeza qeu Blake está seguro por enquanto e que o panaca do Burguess não tem idéia de onde ele está.
Sorrindo com uma expressão sádica e orgulhosa ao mesmo tempo, Kate observou suavemente:
- Você assustou mesmo o Burguess, dava para sentir ele se borrando pelo telefone.
Olhando com o canto do olho, Sawyer soltou um sorriso debochado e envaidecido ao mesmo tempo:
- E eu que sou malvado, né? Bom, é isso, por hoje tá encerrado. Amanhã a gente vai ter que madrugar na porta do cara par seguir ele até o lugar do encontro.
- Ok;

Como Kate estava no voltante, Sawyer indagou:
- Vai pra casa ou fica em algum lugar?
- Pra onde você vai?
- Já dise, tenho trabalho pra fazer, se quero continuar no emprego.
Se entusiasmando, Kate perguntou:
- Posso ir junto?
- Junto como? - estranhou ele.
- Junto! Trabalhar com você! Te ajudar a pegar alguém. Parece muito divertido.

Sawyer observou o rosto dela, brilhando de excitamento e gosto pelo perigo. Se viu tmaginando como seria incrivelmente prazeroso te-la a seu lado a tarde toda, enquanto corria atrás dos fugitivos.
E sentiu a mesma atração traiçoeira que vinha sentindo desde que a conhecera. Aquilo não era bom e ele resolveu cortar o mal pela raiz, dizendo rapidamente:
- Melhor não, Sardenta. Você pode me atrasar. Além do mais - acrescentou ele maldoso - uma senhora de futuro como você não deve ser vista por aí com um traste como eu.
A excitação de Kate diminuiu com a cortada dele.
- Tudo bem, então! Eu fico no centro, tenho umas coisas a fazer por lá.
Ela partiu com o carro e dirigiu em silêncio. Sawyer também parecia não ter nada a falar e já se sentia arrependido por ter se recusado a leva-la com ele.

Chegando num ponto conveniente, Kate estacionou para saltar.
- Aqui está bom pra mim. Vou fazer umas compras.
Sawyer fez que sim com a cabeça e acrescentou:
- Amanhã a gente tem que sair cedo pra escorar o Burguess.
- Tudo bem. Te vejo no churrasco?
- Eu não sei se vou...
Kate o encarou surpresa.
- Tenho trabalho atrasado - disse ele como desculpa - Se der eu apareço, mas não vou fazer falta. Eu não sou muito chegado nas pessoas, e vamos ser francos, as pessoas também não são muito chegadas a mim.
Continuando a encará-lo, ela disse com suavidade:
- Acho que está enganado. Pelo pouco que vi no condomínio, todo mundo te adora.
Ele pareceu constrangido com as palavras dela.
- Você podia se esforçar pra ir.
Ela abriu a porta do carro para sair e ainda ouviu Sawyer dizer, com ar debochado e piscando o olho.
- Vou fazer o possível.

Ele saiu com o carro, deixando-a na calçada mais confusa do que nunca sobre ele.