Capítulo 13
Passaram-se alguns dias e Lord M não voltou ao palácio.
Victoria estava à beira do colapso! Porque era difícil não o ver e não ter a presença dele; e porque da última vez que tinham estado juntos as coisas não tinham terminado da melhor maneira. Ele tinha dito que a avisaria quando pudesse retornar, mas ele nunca mais tinha enviado nenhuma carta e isso deixava-a desesperada. E também era verdade que as reuniões entre eles estavam atrasadas…
Então ela escreveu:
"Buckingham Palace, 21 de Abril de 1840
A Rainha espera que Lord M se encontre plenamente bem e confessa que sente a falta do conselho confiável dele e da sua presença calorosa.
A Rainha tem diversos assuntos políticos pendentes para discutir com Lord M, aqueles que não foram discutidos na semana passada mais os que entretanto se acumularam.
A Rainha está preocupada porque Lord M não disse mais nada depois da última carta.
Lord M pode enviar uma mensagem à Rainha onde ele diga o que se passa e quando vai regressar?
A Rainha aguarda, ansiosamente, por uma resposta."
Melbourne leu a carta e, ainda que não tivesse nenhuma intenção de voltar ao palácio, sentiu-se obrigado a responder. Não era a ausência de desejo de vê-la que o impedia de ir ao palácio, mas o receio de que a conversa dela voltasse ao mesmo assunto dos encontros anteriores, e ele temia as consequências disso. Não ir até lá era uma forma de impedir uma catástrofe.
Então ele escreveu:
"South Street, 21 de Abril de 1840
Lord Melbourne apresenta o humilde dever dele para com Vossa Majestade e informa que tem estado muito ocupado nos últimos dias entre a atividade parlamentar e reuniões de gabinete.
Lord Melbourne pede desculpa se tem descurado as obrigações dele para com Vossa Majestade e se está em falta em facultar-vos informação e em prestar-vos conselho.
Assim que seja possível Lord Melbourne irá reunir com Vossa Majestade."
"Blá, blá, blá!" Victoria exclamou desiludida quando acabou de ler a carta.
Ele desculpava-se e ficava tudo como estava! Ela continuava sem ele e sem saber quando lhe voltaria a colocar os olhos em cima!
Hoje Albert ia passar revista às tropas do 11th Hussars, o regimento de cavalaria do exército britânico, criado em 1715, que em 1840 tinha sido renomeado 11th (Prince Albert's Own) Hussars e do qual o consorte da Rainha se tornaria Coronel.
Victoria considerou que devia acompanhá-lo na cerimónia, pois Lord M tinha dito que não se devia deixar passar para a opinião pública a desconfiança de que alguma coisa não estava bem entre a Rainha e o Príncipe.
"Albert, espere! Eu vou com você!" Ela exclamou decidida quando se cruzou com ele, já fardado, num dos corredores do palácio.
"Porque é que você quer ir? Este é o meu regimento!" Albert reclamou como quem sentia que ela lhe estava a querer tirar o pouco que tinha.
"Pode ser o seu regimento, mas é o meu exército!" Ela lembrou.
Albert sentiu, mais uma vez, que tudo o que possuía só existia porque era uma concessão deste país estrangeiro, que tinha permitido relutante que ele se tornasse marido da Rainha de Inglaterra, e uma doação da soberania de Victoria.
"Eu não gastarei muito tempo a vestir-me." Ela informou e continuou pelo corredor.
Albert suspirou, mas não podia fazer nada. Agora que ele ia brilhar no seu novo uniforme, Victoria vinha para ofuscá-lo!
A Rainha e o Príncipe dirigiram-se a cavalo para o local onde as tropas perfiladas os aguardavam.
Num palanque próximo estavam sentadas para assistir à cerimónia algumas proeminentes figuras políticas e militares, incluindo o Primeiro-Ministro.
Melbourne observou a entrada da Rainha e do Príncipe a cavalo no recinto ao ar livre.
Victoria observou Lord M à distância. Ela sabia que hoje ele estaria aqui. Também por isso ela quisera vir.
Victoria e Albert pararam no local adequado e aí se mantiveram, em cima dos cavalos, enquanto o regimento desfilava na sua frente.
Victoria desejou que fosse Lord M que estivesse ali a seu lado, como tinha estado em outras ocasiões.
Melbourne constatou, mais uma vez, como ela era esplêndida assim fardada! Ela era sempre esplêndida, mas o uniforme dava-lhe imponência e acrescentava-lhe um fascínio peculiar por lhe conferir um atributo comumente masculino.
Ele ainda não tinha visto o Príncipe depois do infeliz incidente descrito por Victoria. Ele era a única pessoa ali que sabia que o casamento da Rainha ainda não tinha sido consumado, que aquele homem ainda não tinha obtido aquilo a que tinha direito como marido dela e a razão pela qual isso ainda não acontecera: ele próprio, William Lamb.
Por muito entusiasmante que fosse vê-la, era perturbador recordar os acontecimentos das últimas duas vezes que tinham estado juntos. Aquilo que ela lhe tinha dito e aquilo que ele próprio não conseguira evitar dizer. Mas, como sempre na vida, aquilo que era proibido exercia um atração especial.
"Eles formam um belo casal!" Wellington, sentado à direita de Melbourne, despertou-o dos seus pensamentos.
"É verdade…" Ele teve de concordar.
"E o soldadinho alemão está muito orgulhoso do seu regimento…Um homem que nunca soube o que é a guerra!" Wellington observou crítico.
"Faz parte das prerrogativas do Príncipe…" Melbourne constatou, como algo inevitável.
A Rainha e o Príncipe vieram sentar-se nas cadeiras que lhe estavam destinadas no centro do palanque para assistirem às restantes demonstrações das tropas.
Todos os presentes se levantaram à chegada do casal real. Melbourne teve de disfarçar a repugnância que sentia pelo Príncipe. Agora que ele estava a par de tudo o que tinha acontecido, suportar a presença de Albert era mais difícil.
Victoria passou os olhos profundamente por Lord M antes de se sentar ao lado dele. Albert à esquerda dela e Lord M à sua direita.
"Os novos uniformes são muito bonitos, não acha Lord M?" A Rainha perguntou aproximando um pouco a sua cabeça ao Primeiro-ministro, mas sem deixar de olhar em frente.
"Bonitos eles podem ser, mas eles também são caricatos…" Ele segredou.
"Porquê, Lord M?" Ela perguntou curiosa, agora olhando para ele.
"A cor das calças, ma'am. Nenhum outro regimento britânico possui calças de cor carmim."
"Sim, mas eles não podem ser diferentes?"
"Talvez, mas o incidente mais embaraço para o 11th Hussars foi a emboscada que uma tropa do regimento sofreu em 1811, em Espanha, em San Martín de Trevejo. Os soldados foram forçados pelos franceses a procurar abrigo num pomar, o que deu origem ao apelido do regimentode "Cherry Pickers". E agora os "Cherry Pickers" usam calças "cherry"…"
Victoria não conseguiu evitar rir com aquela alusão.
Albert, embora não soubesse o motivo do riso, olhou para ela com um ar reprovador daquele comportamento.
Quando a cerimónia terminou todos se levantaram e Victoria e Albert cumprimentaram as individualidades presentes.
Melbourne colocou nesse cumprimento, o ar dele mais natural possível.
Victoria perguntou então a Lord M:
"Vai acompanhar nos até ao palácio?"
"Obrigada, ma'am, mas Emily está lá em minha casa e eu prometi almoçar com ela"
Victoria forçou-se a sorrir. Ele devia estar a falar verdade, mas ela percebeu que aquilo também não deixava de ser uma forma de ele evitar ir ao palácio e de estar com ela. E com Albert, também.
Melbourne regressou a casa para almoçar com Emily. Depois de ter estado lá em casa na semana passada, esta semana ela tinha decidido voltar.
Enquanto ele se dirigia para casa na carruagem Melbourne pensava na sua situação atual. Ele estava metido num problema tremendo. Ele não queria que a vida dele estivesse naquela situação e não queria que a vida de Victoria também estivesse naquelas circunstâncias, mas os sentimentos são incontroláveis, manifestam-se simplesmente. Se ele não a amasse aquilo seria muito mais simples. Ele nunca permitiria que as coisas chegassem ao ponto de ocorrer algo ousado entre eles, ele iria simplesmente repeli-la e nada aconteceria. Mas ele amava-a e desejava-a e esse era o seu grande problema. De facto, ele era a detonador. Se ele não tivesse vontade de agir ele nunca o faria e aquilo nunca aconteceria. Mas se o detonador tinha tanta vontade de fazer a bomba explodir, tal como ela…
"William… Eu estava mesmo a ser necessária nesta casa! Quando eu não venho aqui durante muito tempo o vosso mordomo e os vossos criados, deixados sozinhos, começam a descurar os cuidados com a casa. Você não tem mão neles…" Emily discursou enquanto seguia o irmão, desde que ele entrou à porta de casa, e entregou o chapéu ao mordomo, até que ele atingiu a porta da biblioteca.
"Eu tenho muito mais com o que me preocupar, Emily." Disse ele entrando na biblioteca e despindo o casaco.
"Pois, para você tudo está certo, não é? Não importa se há livros espalhados pelo chão, se você não almoça, se você bebe toda uma garrafa de bebida e se você dorme numa poltrona…"
Ele colocou o casaco nas costas de uma cadeira e, enquanto voltava a encaminhar-se para fora da biblioteca, disse:
"Por favor Emily, que desagradável se cada vez que você vem aqui a minha casa é para repreender o modo como eu vivo!"
"Eu preocupo-me com você! E você sabe disso!" Emily sustentou, enquanto atravessavam os dois o hall a caminho da sala de jantar.
E depois ela continuou, já na sala de jantar, enquanto eles se sentavam à mesa:
"Os criados são o espelho do dono da casa. Se você não impõe ordem e regras na sua vida doméstica, eles fazem o que querem, ou melhor, não fazem o que devem!"
"Eu organizo-me no meio do caos. Se eu arrumar as minhas coisas eu deixo de saber onde elas estão." Ele explicou.
Então ele lembrou-se da biblioteca e temendo o que ela podia fazer ele ordenou:
"Você está proibida de mandar alguém organizar a biblioteca!"
"Não se preocupe! Eu não mexo em nada lá…Todas aquelas cartas que você guarda…"
"Emily, você andou a ler a minha correspondência?" Ele perguntou preocupado.
"Eu sou um túmulo! Você sabe!" Ela assegurou.
William suspirou.
Depois do almoço estar servido e de eles terem começado a comer, ela introduziu o tema onde, no fundo, ela queria chegar:
"Tão elegante lá fora, tão maravilhoso na vossa imagem, e aqui em casa é isto… Sabe do que é que você precisa? Você precisa de uma esposa!"
"Por favor, não me venha com esse assunto outra vez!" Ele pediu incomodado.
"Repare que eu disse uma esposa e não uma mulher…Isso, você arranja por aí com facilidade e não lhe serve para nada…"
"Eu já tive uma esposa."
"Sim, mas essa aí, infelizmente, não serve como exemplo para ninguém! Nem como mulher, quanto mais como esposa! O que você precisa é de alguém que seja realmente adequado para a posição que você ocupa na sociedade e que saiba gerir uma casa. Desde que você se tornou Primeiro-ministro que eu faço de anfitriã na sua casa e administro o que eu posso, mesmo à distância e não estando sempre aqui. E você sabe que eu faço isso com prazer, mas se você tivesse uma esposa você teria um verdadeiro lar."
"Ou isso, ou mais uma série de problemas…" Disse ele, em descrédito das vantagens que ela apontava.
"É incompreensível como é que você faz tanto sucesso entre as mulheres e nunca conseguiu ter uma vida conjugal feliz. Como é que você faz tanto sucesso entre as mulheres e só teve problemas com elas. Com aquela com quem você foi casado e com todas as outras…"
"Eu preferia que elas não se interessassem por mim. E pelos vistos eu não sei escolher. Eu nunca acertei até hoje…"
"Então… talvez eu deva ajudar…" Ela sugeriu.
"Você está louca?" Ele perguntou chocado pela ideia dela.
"William, eu só quero fazer sugestões. Você é que escolhe. Mas as minhas sugestões já vêm selecionadas criteriosamente, claro."
"Eu não acredito no que eu estou a ouvir! Você acha que eu vou casar com uma mulher que você sugerir?"
"Você precisa de uma sensibilidade feminina que ajude a mostrar qual é a melhor escolha. Os homens são uns tontos. Os vossos critérios de seleção não são os mais acertados. Vocês só olham para decotes e para o que imaginam debaixo das saias dos vestidos, mas uma esposa para um homem como você tem de ter mais do que isso."
"Eu não quero casar! Será que você é capaz de aceitar isso?"
"É um desperdício. Um homem tão bonito como você, sozinho nesta casa! Eu diria até que nos últimos meses você tem estado enterrado em vida. Você precisa de alguém que o tire dessa letargia. Mas eu não quero que você arranje mais um caso passageiro que só lhe traga problemas, como essa puta da Caroline Norton."
"Não fale dela dessa forma!" Ele pediu.
"Porque não? Ela não vos deu problemas suficientes?"
"Ela é minha amiga."
"Se você acha…" Disse Emily com ar de quem desprezava Caroline.
Então ela olhou para ele durante alguns segundos em silêncio e depois disse convicta:
"Eu acho que o que você precisa é de uma mulher mais jovem que vos eleve o espirito! Uma mulher jovem pode ser um problema em alguns aspetos, mas ao mesmo tempo é alguém que vos trará alegria. Você não pode casar com uma mulher da sua idade que já seja aborrecida. Você precisa de vida nesta casa! E você precisa de filhos! Uma mulher da sua idade já não poderia dar vos filhos. Bonito como você é, há muitas mulheres jovens que suspiram por você. O que muitas delas – mesmo as já casadas – dariam, para ter um homem como você em vez dos maridos patetas!"
Ele pensou que era isso mesmo que estava a acontecer. Victoria era uma mulher jovem, que elevava o espírito dele (e a carne) e que lhe poderia dar filhos. E ela suspirava por ele e só queria ver-se livre do marido pateta. Se Emily soubesse…
"Veja como eu estou feliz com Henry. E Frederick está apaixonado por aquela mulher muito mais jovem do que ele."
Para que ela se calasse ou, pelo menos, para que ela parasse de falar naquele assunto, Melbourne disse:
"Eu vou pensar na sua ideia e depois eu digo o que eu decidi. Mas, por favor, não faça nada antes disso!"
Emily sorriu como se já tivesse alcançado uma vitória. A seguir ao almoço ela iria para o seu Almack, um dos clubes da alta sociedade londrina de que ela era patrona. Ela, que organizava os jantares e os bailes no clube, e que tinha nas mãos dela toda a alta sociedade londrina, teria de arranjar uma mulher apropriada para William!
No Sábado de tarde Albert apareceu à porta da sala de estar de Victoria. Agora, quando ele aparecia, ele vinha sempre com um ar de cachorrinho que tinha feito asneira. E se ele aparecia fora das horas das refeições ou fora da hora dos compromissos conjuntos era porque ele vinha pedir alguma coisa.
Antes que ele falasse, Victoria, que estava a desenhar, disse:
"Pode entrar Albert. O que é que você deseja?"
"Victoria, eu tive uma ideia, mas eu preciso da sua concordância." Disse ele entrando na sala.
"Que ideia foi essa?"
"Eu gostaria de ir para Windsor durante alguns dias. Eu gosto de estar lá e eu gostaria de organizar uma caçada."
"Uma caçada?"
"Sim, uma caçada aos veados. Eu falarei com o guarda-florestal de Windsor e queria convidar os nobres da Corte para participarem. Isso seria uma atividade interessante para toda a nobreza e uma forma de eu estreitar relações com os nobres ingleses."
Victoria achou que tinha de o deixar fazer alguma coisa e não havia nada de negativo em deixá-lo organizar uma caçada. Aliás, isso até era uma forma de o manter longe dela…
"Parece-me uma boa ideia. Você pode organizar essa caçada e pode ir para Windsor quando quiser." Ela concordou.
"Mas eu pretendia que você também fosse para lá…Quer dizer, seria estranho se houvesse um evento de grande dimensão em Windsor e se a Rainha não fosse, mais estranho ainda se nós somos recém-casados e eu vou para Windsor e você fica em Londres…" Albert explicou.
Ela lembrou-se de novo de que publicamente era preciso fazer parecer que tudo estava bem. Mas ela não iria para Windsor deixando Lord M em Londres! Ele também teria de ir! Então ela disse:
"Muito bem Albert. Comece a organizar essa caçada e diga-me o mais rápido possível para quando é que você prevê que isso poderá acontecer. Eu preciso de organizar os meus compromissos em função desse acontecimento."
"Obrigada, Victoria!"
Victoria recebeu uma mensagem de Lord M ao final do dia que informava apenas que ele iria ao palácio na próxima Segunda-feira.
Na Segunda feira de manhã, Victoria estava ansiosa à espera de Lord M.
A escolha do vestido e do penteado já tinha sido uma dificuldade na busca daquilo que mais a favorecia e Skerrett não pudera evitar rir disfarçadamente ao ver tanto nervosismo.
A reunião decorreu normalmente, como se "aquele assunto" nunca tivesse sido discutido entre eles. Ela sabia que ele não queria que ela abordasse essa matéria e, de facto, eles tinham de falar de política. O dever exigia isso!
Todavia, era impossível para ambos, não pensar "naquele assunto" no meio dos temas do governo e da atualidade política.
No final da reunião ela levantou-se da cadeira e deu alguns passos na sala, de costas para ele.
Melbourne permaneceu sentado, observando a forma como as ancas dela, balançavam o vestido enquanto ela caminhava.
Victoria virou-se para ele e informou:
"Albert está a organizar uma caçada em Windsor. Ainda não sei a data, mas quando isso acontecer você virá connosco."
"Eu, ma'am?" Ele perguntou surpreendido, levantando-se da cadeira.
Ele não estava com disposição de ir para Windsor e ficar lá a partilhar o espaço com Albert.
"Claro! Albert pretende arregimentar toda a nobreza para este evento."
"Mas eu já nem me interesso por caçar há vários anos…"
"Mas você não precisa de caçar! Você vai para que possamos colocar as nossas reuniões em dia. Não foi você que me tinha alertado que estávamos a descurar as nossas reuniões. Continuamos com muito trabalho em atraso que podemos fazer lá."
Não havia nada a fazer. Ela não iria desistir. E a luta interna dele, se por um lado isso o puxava para que ele não fosse, por outro lado empurrava-o para ir.
"Muito bem, ma'am. Eu farei vos companhia em Windsor." Ele concordou sorrindo.
Victoria sentiu o interior dela em elevação!
Chegou o dia em que Victoria iria para Windsor por causa da caçada organizada por Albert. Ele já tinha ido na véspera, mas Victoria só seguia hoje por causa dos seus compromissos reais.
Victoria viajou acompanhada por Emma e Harriet. Entre as pessoas da sua comitiva seguiam também Lehzen e Skerrett.
Lord M só chegaria ao final do dia, antes do jantar.
Hoje parecia que todos os caminhos ir dar a Windsor, com a quantidade de carruagens da nobreza que, vindas de diversos locais, se dirigiam para o antigo castelo.
No castelo havia uma grande agitação devido ao elevado número de pessoas para acomodar e devido aos preparativos da caçada que aconteceria no dia seguinte. Porém, alguns dos convidados iriam ficar alojados no pavilhão de caça de Winkfield – próximo da grande floresta de Windsor, onde iria decorrer a caçada – que tinha salas de receção no rés-do-chão e quartos no primeiro andar.
Lord M chegou mesmo antes do jantar.
Victoria caminhou com urgência para ele quando o viu entrar no salão.
Eles deram as mãos e ela exclamou:
"Lord M! Seja bem-vindo!
"Ma'am! Obrigada!
"Fez uma boa viagem?" Ela perguntou muito sorridente e completamente fixada nele.
"Sem incidentes, ma'am!"
Ela largou as mãos dele e disse:
"Ótimo! Amanhã eu gostaria de sair cedo para assistir aos preparativos da caçada e eu quero que me faça companhia. Quando todos tiverem partido para caçar, nós poderemos dar um passeio a cavalo."
"Mas eu pensava que nós devíamos reunir, ma'am…" Ele lembrou.
"Sim, mas faremos isso mais tarde. Eu quero assistir."
Ele constatou como os acontecimentos se estavam a tornar imprevisíveis, mas ele não podia, nem ele queria, contrariar nada do que ela decidia e, por isso, ele teve de concordar:
"Então eu irei acompanhá-la!"
Albert aproximou-se de ambos.
Por todas as razões, Victoria sentiu-se incomodada pela presença dele.
"Boa noite, Lord Melbourne!"
"Boa noite, Vossa Alteza." O Primeiro-ministro cumprimentou, tentando parecer gentil.
"Também nos acompanha na caçada de amanhã?" Albert perguntou.
"Não, Vossa Alteza. A caça é algo que hoje em dia já não está entre os meus passatempos. Prefiro atividades mais pacíficas, como a jardinagem."
"Compreendo. Você veio então para Windsor porque…" Disse Albert na tentativa de perceber o que é que ele fazia ali.
"Eu estou apenas ao serviço de Her Majestade! Como sempre!" Melbourne respondeu.
Albert não disse mais nada e Victoria sorriu.
Depois do jantar, Melbourne acompanhou os restantes convivas até ao grande salão. Victoria era algo delicioso de se ver, parecia uma borboleta esvoaçando num jardim. Mas ele não tinha vontade de ficar ali, a fazer conversa de circunstância com as pessoas presentes, e decidiu aposentar-se. Por isso, ele foi despedir-se da Rainha que estava acompanhada por algumas damas num ponto do salão:
"Ma'am…Desculpe interromper…"
As damas afastaram-se.
"Sim, Lord M?"
"Eu peço desculpa por me retirar tão cedo, mas eu prefiro ir deitar-me, eu estou cansado da viagem…"
Victoria ficou um pouco desiludida com a informação, mas disse:
"Claro, Lord M. Você é que sabe."
"E amanhã temos de nos levantar cedo…" Ele adicionou.
"Sim, claro, uma boa noite!"
"Boa noite, ma'am!"
Ele saiu do salão e Victoria ficou a vê-lo afastar-se.
Ele já tinha saído quando ela decidiu sair atrás dele.
"Lord M!" Ela chamou no corredor atrás das costas dele.
Ele virou-se e ela caminhou até ele.
Melbourne verificou o espaço do corredor que os olhos dele alcançavam. Eles estavam sozinhos e ele temeu o que ela ia dizer ou fazer a seguir.
"Eu ordenei que arrumassem os seus aposentos com todo o cuidado, e eu mesma fui esta tarde verificar se estava tudo como eu pedi." Ela informou.
"Obrigada, ma'am!"
"Você raramente utiliza os seus aposentos aqui em Windsor e eu não sei se estará tudo como gosta, mas se houver alguma coisa que não esteja do seu agrado é só dizer-me. Eu mesma me encarregarei para que isso seja resolvido." Disse ela com um cuidado para com ele que era notório no tom de voz.
"Deve estar tudo ótimo, obrigada! Eu não sou exigente. Tenho a certeza que existe uma cama e isso já é mais do que eu podia desejar. Para mim uma poltrona já seria suficiente…"
Ela sorriu ligeiramente. Um misto de divertimento e de tristeza. Divertimento pela forma despretensiosa como ele falava, tristeza porque ela sentia alguma apreensão que ele não se preocupasse com ele próprio e também porque ele iria refugiar-se nos aposentos dele e ela ficaria a sentir-se sozinha num salão cheio de gente.
A manhã chegou com os primeiros raios de sol e com eles a agitação dos ocupantes do castelo e do pavilhão de caça.
Victoria dirigiu-se a cavalo com Lord M e uma escolta de dois cavaleiros até ao local onde decorriam os últimos preparativos para a caçada, nas imediações do pavilhão de caça. Havia todo um alvoroço de cavalos, cavaleiros armados, caçadores apeados e cães de caça.
Quando os caçadores partiram para a floresta, Victoria e Lor sua escolta encaminharam-se noutro sentido, para local seguro longe da direção dos tiros, para passearem a cavalo.
"Agora damos o nosso passeio e depois, quando acharmos que eles devem estar a regressar, voltamos para acompanhar a contagem das peças e a exposição dos troféus de caça. Eu tenho de vir aqui para presenciar o êxito do meu digníssimo marido…" Victoria informou dando às últimas palavras um tom irónico.
Melbourne não fez nenhuma observação.
Victoria notou:
"Às vezes você fica muito calado…Eu gostaria que você falasse mais…"
"Vossa Majestade conhece com certeza o provérbio que diz: "speech is silver, silence is golden". Tomar a palavra no momento certo é importante, mas manter a reserva ou saber conter-se em determinadas ocasiões é-o ainda mais.
Ela sorriu.
Eles estavam tão pouco tempo juntos e, na maioria das vezes, ou tinham de falar de política ou estavam acompanhados de outras pessoas. Ela tinha de aproveitar as ocasiões em que estavam sozinhos – ou quase sozinhos, era bom lembrar que havia uma escolta lá atrás – e não foi capaz de resistir à tentação de dizer o que ela precisava.
"Lord M, você lembra-se do que eu lhe disse quando eu me despedi de si no dia do meu casamento?"
Ele sentiu um baque no peito. Vinha aí de novo "aquele assunto".
"Você disse várias coisas, ma'am…"
"Eu disse que você estava quase certo quando me tinha dito em Brocket Hall que quando eu desse o meu coração, eu o daria sem hesitação…"
"Sim, você disse."
"O que é que você deduziu das minhas palavras?"
Ele hesitou um pouco e depois revelou:
"Bem, se eu estava quase certo era porque eu não estava certo…"
"Então…" Ela incentivou-o para que ele continuasse.
"Então você estava hesitante." Ele concluiu.
"Exatamente! Eu estava a dizer vos que o meu casamento com Albert não era sem hesitação e eu disse também que eu nunca me esqueceria… do passado, de Brocket Hall, de si, de nós…"
"Eu compreendi, ma'am." Ele afirmou com profundidade na voz.
Pelas palavras dele e pelo tom em que foram pronunciadas, Victoria achou que, talvez, pela primeira vez ele estivesse a dar uma resposta positiva à insistência dela naquele assunto.
"Eu nunca me esqueci. E suportar essa memória tornou-se cada vez mais difícil. A sua imagem está sempre comigo." Ela afirmou.
Ele não disse nada.
Ouviram-se latidos de cãos ao longe.
Ela continuou:
"Mesmo depois de ter pedido Albert em casamento eu senti-me infeliz, eu fiquei preocupada e apreensiva, eu sentia que eu não queria realmente casar com ele…"
"Mas na cerimónia do casamento e na festa você parecia feliz…" Ele notou.
"Eu estava tomada pelos acontecimentos! Tudo aquilo era novo para mim e o vestido, a cerimónia, a festa…Era bonito…Mas, no fundo de mim mesma, eu não sentia que eu desejasse Albert a meu lado.
Ouviu-se o som de tiros vindo da floresta.
Ela observou como ele puxou a bainha das luvas para cima, esticando-as. O gesto permitia que ele fizesse algo que justificasse porque é que ele não olhava para ela.
"Quando você me beijou no rosto antes de eu viajar para aqui, para Windsor…"
Ela ficou emocionada com essa recordação o que a obrigou a parar. Depois ela continuou:
"Foi como se o mundo desabasse sobre mim! Quando eu vos deixei lá eu percorri aquele corredor a chorar. Eu fiz uma viagem angustiada para Windsor, eu neguei entregar-me a Albert, nessa noite eu chorei até adormecer e eu passei três dias tortuosos em que eu devia ter estado em lua-de-mel…"
"Eu lamento tudo isso, ma'am. Acredite que é verdade." Ele afirmou num tom que ela interpretou como de absoluta sinceridade.
"Lord M, você fez tanto por mim! Mas o que você fez por mim não foi suficiente… Eu preciso de mais... E eu acho que você também quer…"
De repente ouviu-se um som de grande agitação vindo da floresta.
Embora eles estivessem em espaço aberto, a floresta estava mesmo ali ao lado.
Eles viraram-se ambos para o lado de onde vinha o som.
Um veado, aparentemente ferido, tinha fugido da zona dos caçadores e dos cães e deslocava-se em grande velocidade, partindo a vegetação à sua passagem, o que provocava aquele barulho.
"Oh, é um veado, Lord M!" Victoria exclamou, considerando a situação apenas curiosa.
Ainda que o veado seguisse o seu caminho, sem que, provavelmente, os tivesse visto, Melbourne ficou preocupado com a segurança de Victoria.
Alertados pelo mesmo som, e também preocupados com a segurança da Rainha, os dois cavaleiros da escolta aproximaram-se dela e de Lord Melbourne.
"Eu acho que alguém devia tentar localizar aquele veado, ma'am. Um veado ferido pode ser perigoso." Lord M avisou.
"Os dois cavaleiros da nossa escolta podem seguir o veado." Victoria propôs.
"Mas Vossa Majestade ficará desprotegida." Um dos cavaleiros alertou.
"Eu estou muito bem. Lord M está comigo!" Victoria exclamou perentória, olhando para Melbourne na esperança de que ele concordasse com ela.
"Eu acho que, com escolta ou sem ela, devemos regressar imediatamente ao pavilhão de caça, não é seguro para Vossa Majestade permanecer aqui." Melbourne sugeriu.
"Muito bem, podem ir." Victoria ordenou aos dois homens. E depois ela acrescentou: "Eu regresso imediatamente com Lord M ao pavilhão de caça"
Os dois cavaleiros partiram.
Victoria e Lord M tomaram a direção do pavilhão por um caminho de terra batida diferente daquele por onde tinham vindo.
Agora que a conversa deles tinha sido interrompida, e depois daquela agitação por causa do veado, ela já não teve coragem para voltar ao mesmo assunto. Restava apenas aproveitar a presença de Lord M. Os dois sozinhos no meio do campo.
Talvez um desafio fosse interessante! Ela adorava atividades que lhe elevassem a adrenalina.
"Eu proponho uma corrida até aos salgueiros!" Ela exclamou de repente.
Sem esperar que ele concordasse, ou desse qualquer outra resposta, Victoria partiu, em velocidade crescente.
Melbourne foi apanhado desprevenido e amaldiçoou o facto de que tendo acabado de tentar colocá-la em segurança, ela já estava a arriscar-se de novo. Mas como não era possível pará-la, ele esporou o cavalo e seguiu-a.
O caminho de terra batida tinha boas condições de visibilidade e de piso. Só existiam algumas árvores na beira do caminho e Melbourne descansou pensando que não havia perigo evidente.
Em determinado ponto do percurso Victoria deparou-se com uma árvore caída na estrada, o que lhe cortava a passagem. Era uma árvore de pequeno porte e por isso ela achou que era fácil saltar por cima da árvore.
Ela incitou o cavalo e ele saltou facilmente sobre o obstáculo, assentando as patas do outro lado da árvore.
Todavia, por alguma razão imprevisível, Melbourne viu que depois de executar o salto na perfeição e ultrapassar a árvore, o cavalo dela afundou mais do que era espectável, fazendo mergulhar Victoria com ele.
O cavalo caiu, arrastando Victoria, e tombou para o lado direito, projetando a para fora da sela já perto do chão. Com o impulso ela rebolou pela terra e perdeu o chapéu.
"Victoria!" Ele gritou a alguma distância.
Melbourne acelerou o cavalo, saltou sobre a árvore e foi parar próximo dela.
Ele pulou para o chão de imediato e correu para ela.
Ela estava a levantar a cabeça.
"Você está bem?" Ele perguntou aflito enquanto se baixava.
Ela estava um pouco atordoada e não respondeu imediatamente.
Ele agarrou-a pelos braços, acima dos cotovelos, e a ajudou-a a sentar.
"Está tudo bem com você?" Ele insistiu preocupado.
"Sim…Eu acho que está tudo bem…" Ela respondeu finalmente.
"Está a doer em algum sítio?
"Acho que não…"
"Você consegue levantar-se?" Ele continuava a interrogá-la com preocupação na voz.
"Sim…"
Ele ajudou-a a colocar-se de pé.
Aquela aflição e aquela atenção dele estavam a ser encantadoras para Victoria.
Ela ficou algum tempo amparada por ele. O braço direito dele à volta dos ombros dela e o braço esquerdo dela, encostado ao tronco dele. Victoria achou a sensação de estar envolvida por Lord M tão agradável que pensou que já devia ter caído do cavalo há mais tempo atrás…
"Você assustou-me!" Ele exclamou mais aliviado, enquanto sentiu vontade de beijar a cabeça dela ali tão perto do ombro dele.
O cavalo tinha-se levantado e era visível que coxeava. Aparentemente estava magoado na mão direita.
Quando achou que Victoria estava estabilizada ele largou-a e foi apanhar o chapéu dela, que lhe entregou.
"Obrigada Lord M!"
Depois ele foi verificar o que tinha provocado a queda e como estava a mão do cavalo, que se encontrava a alguma distância.
Quando ele regressou para junto dela trazendo o cavalo, Melbourne informou:
"Há um buraco na estrada a seguir à árvore caída. Aparentemente o cavalo meteu a mão direita no buraco e desequilibrou-se o que provocou a queda. Ele não vai poder levar-vos daqui. Vamos prendê-lo a uma árvore para que depois alguém venha tratá-lo e recolhê-lo."
"Oh, pobrezinho! Você acha que é grave?" Ela perguntou enquanto se aproximava do cavalo.
"Talvez não. Mas é melhor que ele não se esforce. E em vez de irmos para o pavilhão de caça, devemos ir para o castelo para que vos seja dado outro cavalo."
Victoria fez algumas carícias no pescoço do cavalo e perguntou:
"Mas agora como saímos daqui?"
"Agora temos duas hipóteses. Ou você monta o meu cavalo, com uma sela que não é uma sela lateral, e eu vou a pé, o que nos vai tomar muito tempo para chegar ao castelo, ou montamos os dois no meu cavalo e podemos chegar um pouco mais depressa ao castelo." Ele explicou enquanto prendia o cavalo dela a uma árvore.
"Podemos montar os dois no seu cavalo." Ela escolheu, com plena consciência do que isso implicava.
Ele caminhou para junto do cavalo dele, enquanto ela seguia atrás dele, e advertiu:
"Ninguém deve ver-nos dessa forma…"
Ela parou junto dele, segurando o chapéu com a mão esquerda, e disse:
"Estamos no meio do campo, acho que não deve haver muita gente para nos ver…E é uma emergência…"
"Quando chegarmos próximo do castelo eu devo desmontar…"
"Como você preferir." Ela concluiu.
Ele sorriu de forma impercetível, como só ele sabia fazer, e ela sabia reconhecer, e não disse mais nada. Sem aviso prévio, ele agarrou-a com as duas mãos, uma de cada lado do tronco dela, elevou-a no ar e sentou-a em cima do cavalo. Na parte da frente da sela, com as pernas viradas para a esquerda do animal.
Victoria sentiu-se flutuar. Não só porque ele lhe levantou os pés literalmente do chão, mas pela forma determinada e, ao mesmo tempo, gentil como ele lhe tinha pegado. Mais do que o corpo levantado do chão, o que ela sentiu foi todo o seu interior pairando. O movimento e o toque das mãos dele durara apenas uns segundos e, no entanto, depois que ele tirou a mãos dele do corpo dela, ela ainda conseguia senti-las.
De acordo com as regras ele devia ter pedido autorização para pegar nela, mas neste momento da vida de ambos ele não achou necessário seguir as normas…
Então, de seguida ele agarrou as rédeas do cavalo com a mão esquerda, colocou o pé esquerdo no estribo e num movimento repentino elevou o corpo e rodou-o, sentando-se na sela e agarrando as rédeas com as duas mãos.
Ela sentiu que ele se encaixava nela. As pernas dele parcialmente à volta das ancas dela e os braços dele que ladeavam o tronco dela, segurando nas rédeas.
Victoria sentiu-se tão confortável e tão extasiada nesta situação!
Ele sabia perfeitamente o efeito que aquilo devia estar a ter nela, mas ele estava a gostar de lhe provocar esse fascínio. Ela que enlouquecesse por causa dele para saber o que ele passava por causa dela!
Ela rodou um pouco a cabeça para a esquerda e olhou para cima, para ele.
Ele olhou para baixo, para ela. Ele estava a senti-la entre as pernas e entre os braços dele e estava a ver os olhos dela em dilatação e a boca dela ao alcance dele.
Ela queria que ele a beijasse neste momento…
Ele pensou que podia beijá-la neste momento…
"Podemos ir, ma'am?" Só então ele falou.
Ela acenou afirmativamente.
Eles começaram a mover-se.
