FULL MOON by Sue Hellen

13. Sinuca

Hendrik deu entrada em mais um hotel, porque eram cinco da manhã e não havia mais nada que pudéssemos fazer senão esperar pelo nascer do novo dia.

Novamente, eu dormi no quarto dele, sozinha na cama que ele não usaria para coisa alguma, e que seria totalmente dispensável naquele quarto se eu não estivesse lá.

Quando acordei, já era hora do almoço, e ele me acompanhou a um restaurante, escolhido por ele, evidentemente. Eu fingi comer todos aqueles vegetais frescos e saudáveis, mas me enchi mesmo foi com as massas incluídas no buffet, como o cappeleti e o fetuccini, que estavam deliciosos.

Voltando para o hotel, eu me sentei no meio da cama com meus "brinquedinhos" novos, para aprender como montá-los. De início, precisei ler o manual algumas vezes, porém, não demorou muito para que eu estivesse juntando as peças corretamente em apenas três segundos, e de olhos fechados.

O próximo passo era acertar a pontaria, e durante horas, eu atirei contra um alvo de papelão pregado na porta do quarto, atingindo excelentes resultados nas últimas tentativas.

O vampiro, caladamente, apenas me fitava, parecendo assustado com a minha obstinação.

"Você vai até aquele bar... hoje?" ele enfim perguntou, com certa cautela.

"Sim." eu exalei o ar junto com a resposta.

"Como pode ter tanta certeza que ele irá parecer lá?" ele duvidou.

Eu sacudi os ombros "Intuição."

"Hmm..." pausou ele por um momento, e depois completou "Matar alguém premeditadamente faz de você uma assassina, sabia?"

Eu o encarei "Eu não tenho medo disso, Hen. Ele é um vampiro, e se não fosse por ele muita coisa ruim não teria me acontecido nos últimos dias."

Hendrik emudeceu, e andou na minha direção, até sentar-se perante mim.

"Eu só queria que você demonstrasse alguma humanidade perante isso, Sandra. Essa sua frieza faz com que você se pareça com ele." divagou o loiro, com um ar angustiado.

Eu desarmei um pouco minha postura rígida "Eu não posso me dar ao luxo de ser humana, meu amigo, porque meus inimigos usariam isso contra mim." discuti docemente, e o vi abaixar os olhos, concordando com desagrado "Você não consegue entender isso porque você, sei lá por qual motivo, tem uma alma boa. E eu aposto que você nunca mataria ninguém a sangue frio." finalizei, deslizando a mão por seu rosto gelado.

"Não, a sangue frio, realmente não." ele balançou a cabeça, evitando o meu escrutínio "Entretanto, eu já cometi erros, e me arrependo muito deles. E esse é um caminho sem volta, minha querida, no qual eu a vejo seguindo ainda tão jovem, tão... ingênua." mencionou baixinho.

Aquela descrição me causou um sorriso "É assim que você me vê? Jovem e ingênua?"

Ele voltou a me fitar, com seu olhar tenro "É assim que você é! Uma criança. Abruptamente tornando-se adulta." ele ponderou, me forçando refletir um pouco.

Talvez Hendrik estivesse certo. Talvez eu estivesse seguindo por uma estrada de via única. Partir numa caçada sozinha seria, como se diz entre as tribos indígenas, o meu Rito de Iniciação. Dali, eu sairia apta a enfrentar a realidade adulta, ou então, se falhasse, seria morta, e não haveria uma segunda chance.

Não obstante, havia algo dentro me mim que me impulsionava a persistir. Era algo maior que o meu sentimento por Leonard, era algo maior que o meu desejo de vingança. Era instinto. Um sentido de dever. Uma necessidade que eu não poderia ignorar, pois fazia parte do que eu era, e fugir daquilo me tornaria uma covarde. E tal palavra sempre foi proibida entre o meu povo.

"Eu preciso fazer isso, Hendrik. Mais do que por Leonard, mais do que pelo meu pai. Por mim mesma." afirmei.

Ele fez uma expressão complacente e me abraçou apertado, de súbito "Eu sei... E espero que você tenha sorte." falou com amargura sobre meu ombro, alisando meus cabelos.

Meus braços se uniram em torno de seu corpo, duro e frio como um iceberg, embora por dentro, eu soubesse que era totalmente o oposto.

"Obrigada, Hen."

"Por nada." sorriu ele, me soltando "Agora, vamos trabalhar melhor esse seu plano!"

***

O dia havia acabado de escurecer, quando estacionamos próximo ao Texas Stadium.

Há menos de dois quilômetros dali, na Interestadual-35, ficava o Baby Doll's, um famoso strip-club de Dallas, e o local onde eu deveria encontrar Mark LeBrant, o vampiro que havia vendido a mim e ao meu namorado para um psicopata assassino.

Local este também, que haveria de ser o túmulo dele, se tudo saísse como eu esperava.

"Tem certeza que está pronta?" questionou o vampiro ao meu lado, girando a chave na ignição.

"Absoluta." respondi seriamente, checando se ninguém nos observava da calçada.

"Não seria melhor se..." ele tentou sugerir, mas eu o interrompi, sabendo que seria a mesma sugestão já dada umas mil vezes.

"Não, Hen. Você espera. Eu te chamo se precisar." Deliberei, começando a guardar as estacas de sorveira no cós da calça jeans, por debaixo da jaqueta, e dividindo as peças da Besta entre os bolsos desta.

"Tudo bem." ele assentiu a contragosto "Mas eu estarei te vigiando, de longe."

"Certo. Mas lembre-se que tem que ser de longe mesmo! Se ele sentir o seu cheiro..." adverti, pegando por último o embrulho de papel que continha uma garrafa de whisky.

"Eu sei, eu sei. Ele não vai sentir." confirmou ele, com a atenção fixa em mim, da mesma forma que eu sabia que ficaria o tempo todo em que estivéssemos ali.

Por fim, eu dei mais uma arrumada nos cabelos com os dedos, e chequei o batom no retrovisor, antes de abrir a porta "Nos vemos mais tarde, então." me despedi. Hendrik, contudo, me segurou pelo pulso.

"Tenha cuidado, por favor." implorou ele, quando o olhei.

Eu sorri, e lhe dei um beijo na bochecha, que, por acidente, pegou no canto de sua boca "Não se preocupe." disse, meio sem graça. E em seguida, deixei a BMW.

O tempo estava abafado lá fora, com um ar chuvoso, enquanto o trânsito se mostrava tumultuado e barulhento, como sempre naquela cidade. Calmamente, eu perfiz o meu caminho pela auto-estrada, sem olhar muito para os lados, ignorando uma cantada ou outra que recebia de babacas sem ter o que fazer, presos no engarrafamento.

Logo, me deparei com o néon cor-de-rosa e a placa luminescente que indicava double free para aquela noite de quarta-feira. Ainda levaria algumas horas para que eles começassem a receber clientes, mas eu precisava encontrar o meu posicionamento ideal, escondida contra o vento, sobre o telhado, e por isso havia chegado mais cedo.

Sem levantar suspeitas, me aproximei do bar, e o rodeei pelos fundos. A pesquisa toda levou apenas alguns minutos, e prontamente, eu me vi andando agachada entre as telhas do Baby Doll's,e parando atrás da placa superior frontal, que era baixa, feita de madeira, de onde dava para ter uma visão privilegiada da entrada.

Agora bastava apenas aguardar, e torcer, para que minha presa aparecesse.

***

Oito horas da noite. Sentada pouco confortável contra a quina da mureta de concreto que segurava a placa, eu terminei de checar minha arma, e também as munições dela, afiadas ao máximo.

Nove horas. Uma pontada de ansiedade começou a me abater por dentro, e as incertezas que eu estava tentando esconder de mim mesma começaram a aflorar na minha mente. E se eu errasse a mira? E se ele me notasse? O plano B funcionaria exatamente como eu planejara? Infelizmente, eu não tinha a solução para nenhuma daquelas dúvidas. Conformada, continuei a esperar.

Dez. Minha respiração estava tensa, e eu tremia ligeiramente, presa naquele lugar escuro, ouvindo pessoas chegando aos poucos para curtir as atrações do bar. Procurando me acalmar, decidi beber um pouco do Jack Daniel's, comprado especialmente para a ocasião, sentindo-o descer como fogo pelo meu esôfago.

O efeito foi imediato. Relaxante. Um brinde aos escoceses e suas saias de tartan*.

Onze e meia. Dei mais uma golada no Jack, e espiei novamente por sobre a armação de madeira. O bar já estava relativamente cheio, o que poderia vir a ser um grande contratempo, caso a sorte decidisse não estar ao meu lado na hora final.

De repente, meus sentidos me despertaram para a claridade de um farol de moto, vindo ao longe pela highway, e se aproximando velozmente. Em poucos segundos, o meu olfato confirmou o que meus instintos primitivos já sabiam.

Minha caça havia chegado, e o jogo iria começar.

LeBrant dirigia uma Suzuki turbinada amarela, com decalques que imitavam fogo, em laranja. Ele usava calças dark jeans, apertadas nas coxas bem definidas, e uma camiseta preta, que deixavam à mostra as tatuagens nos ombros. Tinha também um pingente no pescoço, amarrado num cordão preto, que eu não me aticei muito para saber o que era.

Com a Besta apoiada na mureta, eu o esperava estacionar numa das vagas laterais ao bar, destinadas aos freqüentadores, de tal modo que, quando ele se virasse de frente para mim, eu atiraria.

Tudo ia ocorrendo dentro dos planos, até que...

"Não. Não. Não!" eu choraminguei internamente "Agora não!" implorei, sentindo o coração disparar ainda mais, as narinas inflarem, os pêlos dos braços se eriçarem. Todas as reações do meu pavor mais profundo, ocasionado devido à criatura que aparecera caminhando lentamente pela parede ao meu lado, com suas oito patas finíssimas, e listras vermelhas pelo corpo arredondado, negro como piche.

Em qualquer outra circunstância, minha reação seria dar um pulo para trás, até que ela saísse do meu campo de visão, e fosse embora. É claro que aquilo não fazia o menor sentido, afinal eu era maior do que ela infinitas vezes, e seu veneno não me causaria nenhum dano grave, entretanto, não existe nada racional em se ter uma fobia, não é? E eu tinha. Tremia de nervoso de pensar que ela poderia tocar em mim com sua pele viscosa e suas pernas de pontas afiadas, como agulhas retorcidas.

Contudo, naquele momento, eu não podia me mexer, eu não podia nem ao menos respirar, ou os sentidos sobrenaturais de LeBrand me perceberiam, e eu passaria de predadora à presa fácil. Assim, eu apertei os lábios e espremi os olhos, fazendo um esforço inumano para me controlar, e esquecer que eu tinha uma companhia tão indesejável ali comigo. Depois, voltei a fitar o meu alvo, e o vi estacionado a moto, descendo desta em seguida.

Eu tinha apenas um segundo, dois no máximo, para atirar e acertá-lo bem no coração.

E de súbito, naquele lugar sombrio, mediante ao andar sempre alerta daquele vampiro experiente, isso parecia impossível.

Prestes a entrar em desespero, busquei na memória as instruções sobre caçadas que havia recebido.

"Como eu faço, tio? Com eu faço pra acertar de primeira?"

"Pra acertar de primeira? Ah, bem... Não é difícil. É tipo sinuca, sabe?" falou meu tio Julio.

"Sinuca?" eu achei que ele estivesse me zoando, como de costume.

"É! Saca só. Sinuca não é só uma questão de mira, é um exercício de visualização também. Você tem que se ver acertando antes na sua mente... Veja a bolinha branca batendo na bolinha amarela, e esta caindo na caçapa, e depois, bata nela com o taco. Simples!"

"Bolinha branca na bolinha amarela... E pronto?" eu quis me certificar de que ele estava mesmo dando aquele exemplo ridículo.

"É isso aí! Bolinha branca na bolinha amarela. E pronto!" ele confirmou alegremente.

"Bolinha banca na bolinha amarela. E pronto." repeti na minha mente mais uma vez, visualizando o peito do vampiro, enquanto ele dava um, dois, três passos. "Estaca branca no coração vermelho." me corrigi "E pronto. Pronto!" apertei o gatilho.

A estaca fez um caminho reto, preciso. LeBrant chegou a notá-la vindo, mas, pego de surpresa, não conseguiu ser rápido o suficiente para esquivar-se.

A ponta afiada da sorveira atingiu seu objetivo, e o vampiro caiu, petrificado, para trás.

Exalando o ar, aliviada, eu me ergui, feliz em poder finalmente sair da presença da coisa que me apavorava mais do que ter um vampiro antigo no meu encalço.

Agora, era preciso agir ainda mais rápido do que antes, para que ninguém nos visse. Dessa forma, eu pulei do telhado, e olhei cautelosamente para os lados, quando atingi o chão. Imediatamente, corri até o corpo do vampiro, e passei a arrastá-lo para os fundos do club, que estava vazio e pouco iluminado àquela hora.

Pendurando a Besta nas costas pela alça de nylon, eu me sentei sobre ele, e parei para observar a expressão de pânico em sua face.

Ah, como era saboroso o gosto da vingança...

"Olá, LeBrant." sorri, olhando-o bem de perto "Enfim nos reencontramos, não é?"

O vampiro, obviamente, não respondeu nada. Cada um dos músculos de seu corpo estava paralisado, e apenas seu par de olhos brilhantes, arregalados como no instante em que seu coração fora atingido, davam a certeza de que ele estava vivo.

E ambos ardiam de ódio por mim.

"Hmm... Você não parece muito feliz em me ver." fui dizendo baixinho, em tom de zombaria, enquanto ele me encarava fixamente "Mas tudo bem, vamos deixar de conversinha. Eu tenho um trato pra fazer com você." disse, apertando seu queixo "E para sermos práticos, vamos instituir uma linguagem de sinais. Olhar para direita quer dizer 'sim', para esquerda, quer dizer 'não'. Se não olhar para lugar nenhum o jogo acaba, e você perde. Entendeu?"

Deixando transparecer uma profunda má vontade, ele moveu as órbitas para a direita.

"Muito bem! Você aprende rápido!" caçoei "Agora, eis o trato: Eu preciso que você me ajude com três perguntas. Se você responder a todas elas sinceramente, eu prometo não aproveitar que você está imóvel para acabar com a sua vida... O que você me diz? Aceita?"

LeBrant parou para raciocinar longamente, e eu li em seus olhos o quê ele estava pensando.

"É claro que eu estou dizendo a verdade! Diferente de vocês vampiros, nós lobisomens sabemos honrar nossa palavra!" blefei, usando toda a minha cara-de-pau "E eu não acho que você vá querer me matar depois deu ter poupado a sua vida eterna, não é? O que você ganharia com isso?" ironizei.

Ele ponderou, e por fim, lançou as íris amareladas para o lado direito.

"Ótimo!" festejei "Agora vamos às perguntas: Você raptou Leonard?"

Essa ele respondeu com prazer.

"Tudo bem. Eu já sabia que você tinha. Estava só conferindo sua franqueza..." falei, desdenhando "Segunda pergunta: Você o entregou ao Doutor?"

Novamente, sim.

"Agora a última: Ele o levou de volta para Chicago?" perguntei, seriamente. O vampiro demorou um pouco antes de dar a resposta, até que eu o sacudi, ansiosa "Vamos! Diga!"

Seus olhos então se moveram, lentamente, para o lado... esquerdo.

Exatamente como eu esperava, ele havia caído na minha armadilha.

"Não? Ele não foi para Chicago?" eu dissimulei, vendo-o manter a resposta "E você sabe para onde ele o levou?" perguntei, e a resposta dele passou para afirmativa "E me dirá, se eu te soltar?" indaguei mais uma vez, e ele tentou prosseguir com a enganação.

Eu continuei fingindo que estava analisando aquela possibilidade, vendo seus olhos se abrandarem, como os uma serpente que ia aos poucos destilando seu veneno.

Sem resistir mais, porém, soltei uma risada curta "Quem você pensa que eu sou, LeBrant? Você acha mesmo que em algum momento eu acreditaria em você e te soltaria?" indaguei, achando graça outra vez "Agora eu tenho mais certeza do que nunca que eles voltaram para Chicago. E como trato é trato, e você foi um mentiroso..." eu me levantei, pegando a garrafa de whisky do chão, e passando a jogar o líquido por todo o corpo dele "Eu vou te dar uma chance de já ir se acostumando com o inferno." finalizei, puxando uma caixa de fósforos que tinha inscrito o nome do hotel onde eu estava hospedada.

O olhar dele era um misto de terror e fúria enquanto eu riscava os palitos, no entanto, eu não consegui sentir piedade. Logo, aquele belo vampiro era uma pira de chamas coloridas, que se elevavam em direção às estrelas. Por algum tempo, eu fiquei ali, parada próxima ao fogo, observando-o. Uma a uma, eu me lembrava de cada lágrima que eu havia derramado depois que ele passara pela minha vida.

Agora, todas as lembranças ruins haveriam de se tornar pó, junto com ele.

"Sandra?" eu ouvi a voz amável de Hendrik surgir atrás de mim de repente, e me virei.

"Sim?"

"Ele deixou cair isso..." disse o vampiro, me estendendo um celular. O mesmo Motorola V3 preto-metálico que LeBrant segurava quando eu o vi pela primeira vez.

Tranqüilamente, eu peguei o aparelho, e o abri, sabendo que em algum lugar da memória poderia estar gravado o número do maníaco que mantinha o meu namorado prisioneiro.

Meu maior desejo era achar esse número, e ligar para avisar que ele seria o próximo a morrer, sem misericórdia. Entretanto, eu tinha aprendido que fazia bem planejar e aguardar. E a prova disso, encontrava-se em combustão, a um passo de distância de mim.

Sem dizer mais nada, eu me voltei uma última vez para o vampiro moreno, meu anteriormente temido perseguidor. Apática, tirei uma foto de seu fim miserável, focalizando seu rosto e o pingente em seu pescoço, reluzindo em dourado.

Na hora propícia, pensei, o Doutor poderá contemplar de antemão o seu próprio futuro...

"Vamos embora." solicitei a Hendrik, e calados, nós andamos até o carro.

"Tudo bem com você?" ele me perguntou depois de algumas milhas, vendo que eu estava estática desde que me sentara naquele banco, fitando o vazio.

"Eu não consigo me sentir feliz. Eu pensei que me sentiria feliz depois disso, mas não." balbuciei, com a garganta apertada.

"Isso é porque você se vingou dele, porém, não apagou o que ele fez." disse o vampiro enigmaticamente. Eu levei alguns segundos, mas enfim entendi o que ele quis dizer.

Eu havia matado LeBrant, mas não havia trago Leonard de volta.

"Você está certo. Eu ainda sinto falta de Leonard." disse, apertando o celular entre as palmas das mãos, cheia de angústia "Eu só queria... só queria ouvir a voz dele... só queria ter certeza que ele está vivo." revelei, trancando a mandíbula para não chorar.

Hendrik parou o carro, levando-o para o meio-fio, e me olhou carinhosamente "Sandra, ele está vivo! Você precisa continuar tendo fé que sim!"

Eu o olhei em retorno, cedendo às lágrimas "Ele tem que estar, Hen. Eu preciso ter ele de volta!"

"Você vai ter, sua boba." o vampiro riu, secando meu rosto "É claro que você vai ter!"

Eu sorri, envergonhada "Desculpe, por eu estar tendo esse ataque de frescura."

"Tudo bem." falou o vampiro, ainda de bom humor "Depois do que eu vi você fazer lá atrás, eu fico feliz em te ver tendo um ataque de frescura."

"Eu assustei você?" perguntei de mansinho.

"Um pouco." ele confessou.

Eu sorri para ele "Não precisa se preocupar. Você nunca mereceria algo como aquilo."

O vampiro sorriu em retorno "É. Eu venho trabalhando nisso já há alguns anos..." brincou, religando o carro, e pegando novamente a estrada.

"E tem se saído muito bem." elogiei. Ele apenas continuou sorrindo, meio tímido com o elogio, até que eu o chamei de novo "Hendrik?"

"Hm?"

"Você é um ótimo amigo." falei, agradecida pelo apoio.

"Você também é uma ótima amiga." ele disse simplesmente "Agora, por que não tenta descansar um pouco?"

"Hmm... Está bem." concordei me ajeitando o banco, cansada.

Não demorou e eu já estava cochilando.

Quando chegamos ao hotel, eu nem me dei ao trabalho de me trocar, ou de fazer qualquer outra coisa, exceto tirar os sapatos. Desta maneira, apenas me joguei sobre a cama, e voltei a dormir.

Muito antes do nascer do sol, entretanto, acabei despertando devido a um pesadelo. Outra vez, eu vi LeBrant sendo carbonizado, só que agora, havia aranhas terríveis saindo do buraco do peito dele, onde antes estivera a estaca. Então, ele se movia de súbito, e me atacava, enfiando os dentes no meu pescoço.

Meus olhos se escancararam de repente, o corpo dando um sobressalto, e eu me deparei com Hendrik me observando.

"Sandra? Que foi?" indagou ele, reparando na minha expressão assustada.

"Um pesadelo... só isso." eu disse respirando com dificuldade, tentando apagar a imagem da minha mente.

"Quer um pouco de água, ou algo assim?" ele ofereceu bondosamente.

"Não... eu vou ficar bem." afirmei, puxando meio trêmula o edredom para junto do queixo, e procurando me acalmar. Se ao menos Leonard estivesse ali, isso seria tão mais fácil...

De um instante para o outro, o vampiro apareceu sentado ao meu lado "Então volte a dormir, eu estarei aqui." disse ele com sua voz mansa, musical, embreando os dedos cuidadosamente nos meus cabelos. Isso até que ajuda bastante... pensei.

"Me diga, o que você estava vendo na internet..." pedi, um pouco mais calma, notando que o laptop dele estava ligado. Precisava substituir as cenas do pesadelo na minha cabeça, ou nunca mais conseguiria dormir de novo.

O vampiro sorriu, percebendo isso "Eu estava vendo que estamos perdendo uma festa maravilhosa em Munique... Todos os anos, no mês de outubro, a cidade é enfeitada com flores coloridas e os anfitriões se vestem com roupas típicas alemãs para receber os turistas, com barris e mais barris de cerveja. Então, os bares e barracas montadas nas calçadas tocam músicas alegres durante todo o dia e toda a noite, enquanto as pessoas festejam pelas ruas..." narrou ele, num tom poético, perdendo-se na própria descrição.

"Tem uma festa assim no Brasil também, que acontece no Sul. Mas eu nunca fui." comentei, sonolenta.

"Se não estivéssemos com tanta pressa, eu levaria você comigo esse ano... Quase todos os anos eu passo por lá nesta época, pois prefiro o outono europeu à primavera. Todas aquelas folhas avermelhadas cobrindo a grama dos parques... é tão bonito." ele divagou.

E, por fim, eu já não estava ouvindo mais nada.

Eu acordei ansiosa na manhã seguinte, me lembrando que faltava apenas três noites para a primeira Lua Cheia de outubro. Eu convenci Hendrik de que tínhamos que ir logo para Chicago, pois era hora de planejar uma forma de invadir o laboratório do Doutor, e resgatar Leonard, sendo que eu ainda precisava descobrir onde, dentro da nossa centenária Universidade, ficava esse lugar.

Café tomado e malas feitas, nós voltamos para a estrada.

A cada milha, meu coração pulsava com mais alento diante da possibilidade de que tudo aquilo acabasse logo, e assim, toda a inquietação, toda a insegurança passariam, finalmente, a fazer parte do passado.


N/A:

*Tartan é o nome do tecido xadrez do qual são feitos os kilts escoceses.