Parte XXV
And now my world is crashing down
Now that I can't have you around
"Cadê o Finn?", Santana me perguntou, sentando-me ao meu lado.
Eu estava assistindo a O Fantasma da Ópera para um trabalho da NYADA, mas não conseguia prestar muita atenção. Não conseguia nem mesmo me forçar a estar atenta. Aquilo parecia estar além do meu esforço. Tudo o que eu fazia de cinco em cinco minutos era verificar o meu celular.
Santana tinha feito a pergunta certa: onde estava Finn? Eu também gostaria de saber. Já passava das sete da noite. Sua aula tinha começado às cinco, e eu sabia que durava apenas uma hora. Ele, àquela altura, já deveria ter me ligado. Eu estava tão ansiosa! O que será que ele tinha pra me contar? Será que seus alunos tinham encarado a aula numa boa? Será que Finn era, afinal, um professor ótimo? Será que ele tinha gostado daquilo?
Mas aquelas perguntas apenas ficavam rondando a minha cabeça, sem realmente terem suas respostas. Onde ele poderia estar? Por que não estava ali comigo, dividindo xícaras de chocolate quente e me falando de sua aula? O que poderia ser tão importante para ele não estar ali – e nem ter me dado notícias?
"Não sei", respondi baixo, aumentando o volume da TV. Eu estava começando a sentir uma coisa muito esquisita no meu estômago, quase como se eu fosse vomitar de nervoso. Além disso, algo me dizia que algo sério tinha acontecido. Finn nunca me deixava sem uma notícia, sem um telefonema. Ele gostava de se importar comigo. E eu gostava daquilo. Gostava quando ele passava dali e me fazia esquecer meus problemas.
"Seu Príncipe Encantado está atrasado", ela comentou. É, Santana, eu tinha ciência daquilo. Será que ela não poderia fazer qualquer outra coisa que não envolvesse me aporrinhar? Porque eu não estava no meu estado mais calmo – e duvidava muito que meu humor fosse melhorar. Apenas melhoraria se Finn aparecesse, e eu pudesse sentir o cheiro familiar dele e entendesse que tudo estava bem.
Mas onde ele estava?
"Kurt preparou aquelas batatas dele. Ou será que você prefere ácido sulfúrico pra abrandar esse mau-humor?", Santana quis saber, soando incrivelmente maldosa. "Santana, vê se sai pra lá!", exclamei, irritada. "Por que não vai ficar um pouco no telefone? Aposto que com quem quer que você fale todos os dias está sentindo falta da sua voz. Então, dê licença, ok? Aliás, eu preciso muito, muito mesmo me concentrar e assistir a esse filme! Vale metade da nota semestral, ouviu?", eu retruquei de uma só vez. Minhas sobrancelhas estavam franzidas e, opa, o meu-humor estava cem por cento dando as caras...
"Mas caramba! Se você quer tanto falar com Finn por que não liga para ele? Quem sabe assim vocês curtem uma rapidinha, e você para de descontar as suas lamentações em mim!", Santana revidou, também mal-humorada. Comprimi meus lábios. Santana sabia implicar com as pessoas, especialmente se essa pessoa era eu. Nós nunca nos suportamos muito, e parecia que aquilo estava se aflorando cada vez com mais frequência.
Puxa vida, eu apenas queria ficar no meu canto em paz! Será que ela não entendia? E por que ela sempre tinha que ficar perto de mim, se sabia que iríamos trocar fartas mais cedo ou mais tarde?
"Dê licença, por favor?", eu pedi. Mas num tom completamente revoltado. Aquilo não contribuiu em nada para a gentileza dela. "Quer saber, Berry? A vida não é como você quer. E se o seu namorado está te dando um gelo, é porque você merece", ao invés de ela ir embora, Santana apenas se levantou do sofá, me olhando com uma espécie de ódio. Qual era a novidade? Nós nunca tivéramos uma amizade leal. Mas aquilo... Aquilo soou como um tapa invisível bem na minha cara. Nem eu, nem Santana sabíamos por que Finn ainda não tinha ligado. E a última coisa que tinha acontecido entre mim e Finn não tinha acometido nenhuma briga – aliás, nós nunca tínhamos enfrentado brigas até aquele prezado momento. É claro que eu não queria ser aquele tipo de namorada louca que liga pro cara de quinze em quinze minutos, mas... Onde será que ele estava? Ele tinha me prometido que me ligaria!
"Eu não fiz nada para merecer isso!", exclamei enfezada.
"Bem, então dá pra parar de agir como se ele a tivesse largado ao relento?", Santana perguntou. "Os caras são assim, eles precisam de espaço", continuou, balançando a cabeça como se estivesse falando de um teorema muito simples, mas que eu fosse incapaz de entender. "Ele tem o espaço dele. É só que... Bem, é uma coisa importante, entendeu?", retruquei, ainda irritada. É claro que eu tentava deixá-lo livre o máximo possível, mas ele sempre acabava voltando ao loft e dormindo comigo. Não que eu pudesse reclamar. "Se tivessem feito um motim nele, tenho certeza de que você já saberia. Sei lá, e se ele foi comemorar com os amigos dele?", ela especulou, curiosa.
Sempre havia Puck e Sam. Eles eram ótimos, não me entenda mal. Eram divertidos e sabiam me tratar bem. Mas não dava para entender por que Finn preferiria festejar com os dois ao invés de mim. Quer dizer, tinha sido eu que conseguira aquilo para ele. Não seria mais natural que ele me ligasse e me convidasse para um jantar de comemoração?
Balancei a cabeça, descartando a ideia.
Finn não poderia me deixar sozinha, sem notícias! Ele mal sabia o quanto eu estava ansiando sua ligação!
"Por que a gente não sai um pouco?", Santana sugeriu. "E vamos para onde?", eu perguntei, soando nada feliz. Na verdade, eu queria muito, muito mesmo continuar a ficar ali, no sofá. E se Finn ligasse? "Sei lá, só sei que você tem que esfriar a cabeça. Sabe?", ela me respondeu. "Sinto muito, mas não posso sair agora".
"Qual é, Berry!", Santana falou alto, rolando os olhos. Ela era mestre em fazer aquilo. Rolar os olhos, quero dizer. "Vamos encontrar os meninos e beber um pouco", ela disse, logo pescando o seu celular do bolso do moletom que usava. "Santana! Nós vamos atrapalhá-los, não dá pra entender? Tenho certeza de que Blaine e Kurt querem ficar sozinhos", falei, imaginando que aquela tática pudesse fazê-la retroceder. Mas não adiantou nada, é claro. Porque ela estava totalmente me ignorando. Santana fez "Shh" para mim e fez um gesto com a mão para que eu fechasse a boca. "Ei, Blaine Days! Onde é que vocês estão?", ela foi dizendo numa voz de animadora de torcida festiva. "Morgan? Bem, parece meio longe, mas nada que a tia Snixx não possa resolver. Qual é o nome? Certo, Pub New York. Encontramo-nos daqui a pouco. Tchau", e desligou. E daí, me olhou com cara de triunfo. "Ande logo, Barbra! Vá se vestir, temos uma festa a comparecer!", ela arrancou o cobertor que me cobria e ficou me olhando com aquela cara de estou-mandando. "Festa? Santana, eu não quero ir a uma f...", minha surpresa se manifestou antes que eu pudesse me conter. "Quer, sim. Há quanto tempo você não sai desse loft para fazer algo por você? Ultimamente, as coisas têm se limitado a apenas o Finn, Finn, Finn. Isso é um saco. Vamos lá, você vai se divertir!", Santana exclamou, praticamente dando pulinhos na minha frente.
"Você tem se drogado?", perguntei.
"Cale a boca e vá se vestir! Rápido! Estou contando: dez minutos a partir de... Agora!", ela olhou no relógio do celular e daí correu para o próprio quarto. "RACHEL BERRY, NÃO ESTOU BRINCANDO!", ela gritou lá de dentro, enquanto eu ainda permanecia imóvel no sofá, apenas absorvendo a situação.
Wow, aquilo parecia demais. E eu nunca tinha sido, exatamente, uma garota festeira. É claro que estava acostumada a ir a bares, mas aquilo... Ai, meu Deus. Aquilo era como pegar catapora nas férias: um tormento.
"Caramba, estou indo", resmunguei. Levantei-me do sofá e me estiquei. Desliguei a TV (não é como se eu já não soubesse de cor sobre O Fantasma da Ópera. Não era um dos meus musicais preferidos, mas ainda assim era uma daquelas coisas importantes que você nunca pode deixar de assistir mais de 20 vezes). Eu não estava nada animada a me vestir para matar, ou para causar. De modo que escolhi o meu vestido mais simples, um preto justo, muito parecido com um daqueles vestidos-de-enterro que de vez em quando a gente compra só porque ter uma peça dessas no guarda-roupa é considerado uma mão na roda. Quando terminei de passar o batom, Santana já estava gritando lá da sala: "Berry, é só um bar! Você não precisa colocar camadas e mais camadas que são quase impossíveis de se retirar, como o Kurt faz!".
"Jesus, será que dá pra relaxar?", pedi, me adentrando na sala. Ela, claro, estava vestida-para-matar. Trajava um vestido vermelho justo e que ia até os joelhos com uma fenda profunda em uma das laterais, uns brincos que pareciam cacos de vidro vermelhos (mas muito mais reluzentes), uma maquiagem estonteante e um salto quinze. E o cabelo dela? Uau! Mal dava para supor que ela tinha se arrumado em quinze minutos! Eu, em contrapartida, estava parecendo a Sininho, de tão inocente. "Não me diga que hoje você vai arrasar!", eu brinquei com ela. "Querida, eu nasci pronta para arrasar", ela me respondeu. E eu não duvidava. Não mesmo.
Eu soltei uma risada e a segui porta afora. Era ótimo Santana ter um carro. Você nunca dá valor a uma coisa dessas a não ser que você esteja no meio da chuva às seis da tarde e precise muito voltar para casa e assistir o final de algum reality show. Ou a menos que você more a 18 minutos de onde está rolando uma festa que a) você foi forçada a ir, b) não deve ter ninguém interessante por perto, c) a bebida é liberada, e você não é do tipo que bebe álcool e d) a música deve ser péssima.
"E aí, ele já te ligou?", Santana quis saber. Já estávamos manobrando para sair do estacionamento, e eu estava tão quieta para uma tumba. Porque, na verdade, não havia muita coisa para se discutir. Nada além de "Uau, Santana, você está adorável" e "Vou querer esse vestido emprestado um dia desses".
"Não", respondi. Eu estava com o celular em cima das minhas pernas e esperava – não, mentira, eu estava tão nervosa que já estava no estágio rezando-desesperadamente-para-um-milagre-acontecer – que ele tocasse a qualquer instante. Mas, pelo visto, aquilo não iria acontecer tão cedo. Talvez, nem mesmo naquela noite. Já eram quase oito, e nada.
Onde Finn tinha se metido?
"A diversão vai fazê-la se esquecer disso. Aposte só", ela retrucou, toda feliz.
Só que, contra Santana, não havia o que apostar, porque ela era do tipo Estou Sempre Certa. E era verdade. Eu não duvidava nada que, dali a alguns minutos – a partir do momento em que eu me adentrasse no bar, por exemplo –, nada daquilo importaria, porque eu estaria preocupada em me divertir. E era a maior verdade: eu precisava mesmo fazer algo por mim. E se divertir parecia uma coisa totalmente aprovada pelo meu subconsciente.
O pub era pequeno, visto de fora. Apenas umas luzes coloridas e uma portinha. Mas lá dentro a coisa mudava de proporção. Um cara pediu a minha identidade e marcou um "x" no meu punho – nada de beber álcool. Combinado, cara. Santana, no entanto, não foi marcada. Olhei para ela, curiosa, enquanto caminhávamos para uma parte do local que era preenchida por mesas e cadeiras e casais conversando e dividindo garrafas de vinho. "Você precisa fazer uma identidade falsa, Berry. Como vai se divertir sem uma vodca com frutas por perto?", ela me respondeu. Eu nunca tinha pensado na possibilidade de fazer uma identidade falsa – eu gostava do meu nome e da minha idade. E não precisava de vodca com frutas para me divertir. "Você pode ser pega por falsidade ideológica, sabia?", perguntei. "Ah, é? Olhe eu me importando: oi, eu vou querer uma batida com álcool de morango e abacaxi", ela disse a uma moça vestida de preto, bem estilo eu-serei-a-sua-garçonete-pelo-restante-da-noite. E daí Santana olhou para mim quando nos sentamos e a moça foi embora. "Viu?", ela perguntou. "Divido com você", ela prometeu. "Eu não bebo", garanti a ela. "Berry, como você quer se divertir? E, POR DEUS, cadê aqueles dois?", Santana olhou ao redor com um misto de irritação e júbilo.
Olhei em volta também. Não, por favor – que Kurt e Blaine não me deixassem passar a noite com uma Santana bêbada!
Havia música alta advinda do fundo do estabelecimento. O local, depois da entrada, era escuro. Presumi que ali estivesse uma boate. E, assim, nada contra pessoas que amam boates. Mas eu não era uma dessas pessoas. Não era mesmo. Santana era. Kurt e Blaine também. Mas eu? Nãão, não eu.
"Bem. Há uma boate. Eles devem estar lá dentro", eu disse.
"Vamos", Santana disse, já me puxando. "Mas e a sua bebida?", eu perguntei. "Tanto faz".
Apenas esperava que aquele lugar não fosse uma boate gay. Obviamente, nada contra os gays: meu melhor amigo era gay. Mas era muito diferente do que frequentar uma boate gay. Porque, dã, eu tinha um namorado. E estava apaixonada por ele.
Passamos pela segunda porta e, de repente, um tecno muito alto estourou meus ouvidos – ou assim pareceu. "Meu Deus", eu berrei para Santana. "De mais, não é?", ela devolveu, sorrindo. Não, aquilo era horrível em variados níveis psicológicos! Pensei comigo: eu vou matar Kurt e Blaine. Porque eles mereciam. Quer dizer, era domingo. E eu deveria estar com o meu namorado. Esse mesmo namorado que não dava sinais de vida desde às cinco da tarde.
"Não! Quero ir embora, Santana!", eu respondi. "Caramba, fica relaxada!", ela berrou no meu ouvido. Mas ficar relaxada? Como? Além do mais, tinham alguns caras ali que não paravam de me encarar de um jeito totalmente grosseiro. E eu estava me sentindo como uma sardinha dentro da lata, toda espremida. Tinha muita gente ali dentro, me sufocando.
Chegamos, finalmente – depois de um tortuoso e perigoso caminho –, até os dois. Eles estavam sentados em uns sofazinhos muito bonitos para um lugar tão pobre de conceito, bebericando sei lá o quê nos copos deles. "Oi", eu gritei. "Estou indo embora!", gritei de novo. Kurt se levantou e me puxou para o sofá. "Kurt, estou indo embora!", bradei no ouvido dele, de modo totalmente enlouquecido. "Nada disso, você acabou de chegar! Vamos dançar! Cadê o Finn? Ele veio com vocês?", Kurt quis saber. Fiz que não com a cabeça, mas não disse nada. Não queria dizer que estava agindo como a namorada que tinha levado um pé na bunda, ou algo assim. "Então vamos dançar!", ele insistiu. Deixou o copo em cima da mesa em frente ao sofazinho e agarrou a minha mão. "Kurt, não estou no clima", resmunguei, mas ele não me ouviu, é claro. Ali estava tão abarrotado e tão sufocante!
Dancei uma canção – se é que aquilo poderia ser chamada de canção – que, a cada batida, fazia meu coração quase saltar pela boca. E daí, soltaram Wake Me Up numa versão remix, e eu dancei, também. Nisso, Blaine e Santana já tinha se juntado a nós. Depois disso, uma banda local subiu ao palco – eu nem sabia que tinha um palco ali – e gritou: "Oi, pessoal. Nós somos o alguma-coisa-incompreensível e vamos fazer-alguma-coisa-que-não-ouvi". E então eu declarei, de imediato, que a festa tinha acabado. "Desculpe, mas não dá pra ficar aqui", eu gritei para os três. "Berry, você tem 18 anos! Tem que se divertir! Esqueça-se do Finn pelo menos essa noite, já que ele fez questão de esquecer você!", Santana já foi berrando para mim, naquele jeito todo latino dela.
"Ele não me esqueceu!", lancei um olhar ferino a ela enquanto deixava aquilo bastante claro. "Talvez... Talvez ele tenha me ligado, mas esse lugar é muito barulhento e eu não escutei!", berrei. Caramba, eu parecia ensandecida. Busquei o meu celular dentro da pequena bolsa que tinha levado, mas não tive sorte. Nenhuma chamada. De ninguém.
Tentei esconder a minha decepção, tentei mesmo. Mas, no mesmo minuto, não precisei mais dela, pois meu celular vibrava e piscava todo louco – era Finn, eu tinha certeza.
Atendi no mesmo segundo, colocando um dedo no ouvido, para escutar a ligação.
"Alô? Rachel? Rachel?", entreouvi alguém perguntar.
"Finn?", berrei. "Ei, Broadway, onde é que você está? Está em barulho horrível", ele disse. Maldita boate...
"Você está no loft? Ai, meu Deus, mil desculpas! A Santana... Deu a louca nela e ela me convenceu a sair para encontrar os meninos!", eu fui dizendo, desesperada. Eu sabia que não tinha de sair de casa! E eu sabia, apenas sabia, que Finn iria me retornar! Mesmo que fosse às... Nove e quarenta e cinco da noite! Caramba, onde ele tinha se metido?! "Ah. Certo. Boa festa", ele falou. Não parecia irritado – pelo menos, eu achava que não. "Não! Você não entende! Eu não quero ficar aqui! Onde você está?", eu bradei ao telefone, com algumas pessoas esbarrando em mim. "Não vou me encontrar com você hoje, tá legal? Aconteceram... Uns problemas com o Puck e as piscinas. Precisamos nos reunir", Finn me falou. Ou gritou. Não sei. Só sei que, de repente, a minha voz e todo o resto tinha morrido em mim. E a decepção voltou com tudo.
"O quê? O que você está dizendo?!".
"Apenas liguei para dizer um oi e uma boa noite. Não vá beber demais, ok?", ele me aconselhou. Parecia que ele estava meio que rindo, mas poderia ser coisa da minha cabeça.
"Mas eu não bebo!", eu respondi.
"Boa noite, Broadway".
"O quê? Finn? Onde voc... Finn!", eu berrei. Olhei para meu aparelho. Ligação encerrada.
Ai, meu Deus.
O que tinha acontecido?
Juntei-me mais uma vez à Santana, que cantava com a banda. Olhei para ela, determinada. "Santana?! Cadê aquela bebida que você pediu? Preciso dela agora mesmo!", eu berrei, grudada ao braço dela.
Ela me olhou e riu.
Eu não disse mais nada.
Parte XXVI
You're insecure
But I was so sure, but I wanted you
Na noite posterior, estacionei em frente ao loft e olhei para cima, para a janela da sala. Estava aberta, as cortinas se balançando levemente, as luzes acesas. Já tinha passado das onze da noite: eu não tivera coragem de dirigir até ali antes disso. Estava meio envergonhado e, é verdade, um pouco ansioso. Por mais que Rachel não tivesse me persuadido a passar a noite com ela, eu bem sabia que ela estava meio incerta. Sua voz ao telefone, na noite anterior, não tinha se despedido de mim muito feliz. Com certeza estava chateada. Queria respostas. E eu não as tinha.
Não estava preparado para dizê-las.
Por isso, naquela segunda-feira, eu fiquei até mais tarde com Blaine e Mike na Oficina. Mike, se despediu de nós perto das oito, e se foi. Eu e Blaine continuamos ali dando um trato numa Yamaha dos anos oitenta. Ficava surpreso com as motos que apareciam: algumas poderiam ser peças de museu. Quando percebemos a hora, eram quase dez. O nosso estabelecimento era o único aberto. Fechamos as portas, limpamos a sujeira e ficamos bebericando Coca-Cola do frigobar nas escadas do fundo.
"Está tudo bem, cara? Você não tem falado muito", ele perguntou. Dei de ombros. Eu estava meio devastado. Jesse, no dia anterior, tinha acabado com o meu ânimo. Quer dizer, aquilo tudo era uma ilusão. E, talvez, até mesmo meu romance com Rachel também fosse.
"Há quanto tempo você conhece a Rachel?", eu perguntei a Blaine. Percebi que ele ficou surpreso. "Desde que estou com Kurt, isso dá uns seis meses", ele respondeu. "Por quê?".
Eu não podia falar. Por isso, fingi que era apenas curiosidade. "Bem. Gosto muito dela", Blaine disse. Assenti. "Vocês estão se dando bem, não estão?", ele perguntou. "Claro", eu disse. "E por que você está aqui, e não com ela?", Blaine fez uma cara confusa. "É bom se distanciar um pouco", eu disse, dando de ombros de novo. Eu estava meio mecânico demais; sem ação.
"Vocês brigaram? Porque você não apareceu ontem lá no loft".
Fiz que não com a cabeça, silencioso.
"Tem certeza de que você vai aguentar ficar com a Rachel? Porque parece que não", Blaine disse, me olhando e tentando detectar alguma coisa em mim que delatasse que ele estava certo. Mas será que estava? E as minhas convicções? Eu queria acreditar que tinha um futuro com Rachel. Estava me empenhando naquilo e, pelo que podia perceber, Rachel também estava. "Não é isso. Só não tive um fim de semana muito bom. Meus sentimentos por ela não mudaram", eu falei. Não tinha como meu amor por ela diminuir. Nem mesmo com Jesse aparecendo do nada para me infernizar. Ao invés de diminuir, apenas ficou meio confuso. Mas eu apostava que era por ora. Aquilo iria passar. Era normal eu me sentir ameaçado e inseguro.
Blaine concordou. "Vocês ainda estão no começo, espere as brigas começarem e tudo mais. Fica pior, meu amigo. Mas vai valer a pena", ele disse. "Você já brigou muito com o Kurt?", eu perguntei. Não estava querendo mesmo saber, pouco me importava, mas achava Blaine não fosse se incomodar. Ele era esse tipo de cara: respondia o que você quisesse. Ele riu. "Poucas vezes. E nunca foram brigas gigantes. De vez em quando é bom discordar da outra pessoa, mas fazer as pazes também. A gente se respeita", Blaine respondeu, e notei que estava sendo sincero. Assenti. "Sabe que nunca vi a Rachel tão animada? Jesse era legal, mas acho que você é muito mais. Pelo menos não tenho vontade de meter um soco na sua cara", ele me disse. Eu ri, de verdade, com sentimento. "Ela sempre dizia que o Jesse a deixava pra baixo, que não acreditava em ninguém além dele mesmo. Se você o conhecesse veria que é bem verdade. O cara é meio que um presunçoso", ele continuou.
Eu comecei a rir mais alto. Como ele estava certo. Um presunçoso: era aquilo que Jesse era. Mas e Rachel? Rachel não era como um iceberg? Mas não poderia indagar aquilo à Blaine. Porque, supostamente, eu e ela estávamos enfrentando dias maravilhosos – o que, claro, não deixava de ser verdade; o problema era comigo, o meu dia é que tinha sido uma porcaria e eu não deveria descontar na Rachel. Era isso que Jesse queria: que eu ficasse contra ela, que nosso namoro se desestabilizasse. E eu não queria aquilo.
Blaine e eu, depois, rumamos para o loft.
"Você não vai subir?", ele quis saber.
Assenti. "Claro", eu disse.
Eu não sabia se queria mesmo subir. Não queria dar de cara com a Rachel. Eu sabia que ela esperava ansiosamente alguma resposta sobre a tarde anterior, sobre a aula de bateria. E eu não queria ter de mentir para ela. Por outro lado, eu não sabia como sair daquela situação. Não poderia lhe dizer a verdade: ela não iria acreditar em mim. Iria querer saber se era mesmo verdade que seu ex tinha forjado as minhas expectativas.
Quando abri a porta, logo em seguida Rachel apareceu. Estava vestindo um pijama comportado, o cabelo ainda úmido do banho. Ela sorriu imediatamente para mim; um sorriso grande, de quem dizia que estava com saudade. Acho que ela não veio correndo ao meu encontro por causa de Blaine e de Kurt (que estava na cozinha), mas eu sabia que, caso pudesse, era isso que faria. Santana não estava ali, e imaginei que estivesse com a garota do grupo sobre Friends. Eu me inclinei para receber o abraço de Rachel. Ela me apertou de encontro a ela, enquanto eu fechava os olhos. Uma coisa sobre abraços que eu tinha aprendido com ela era que, quando você ama a pessoa, você fecha os olhos. Acho que tinha a ver com o fato de o abraço ser a junção de dois corações, ou sei lá. Apenas sabia que, quando a abraçava, era automático: eu fechava os olhos, não tinha jeito. "Oi, Broadway", eu falei, com um sorriso, assim que nos separamos. Sua pele emanava um cheiro ótimo, e eu fiquei tentado a afundar o meu nariz no pescoço dela, mas com Kurt ali não tinha condições.
Ela me deu um empurrãozinho de leve (com a máxima força que conseguia, é claro). "Você não me ligou hoje", ela me acusou, mas sua voz não estava tingida de nem um sentimento ruim; ela ainda carregava aquele sorriso nos lábios. Ela apenas parecia estar morrendo de saudade de mim. "Está tudo bem?", Rachel quis saber, desmoronando um pouco o sorriso e expressando um pouco de ansiedade no rosto e na voz.
Adorava tê-la por perto, sentia-me como se nada pudesse dar errado, como se ela fosse a minha bússola. Mas quando nos separávamos era ótimo também, porque quando nos reencontrávamos sempre havia aquele brilho nos olhos, aqueles gestos que delatavam totalmente o nosso amor. "Desculpe. Não deu tempo. Está tudo bem, sim", eu disse. Odiava ter que mentir para ela, mas era a opção que tinha no momento. A verdade era horrorosa demais: eu não queria ligar para ela.
Rachel me sorriu com mais vontade, parecendo mais relaxada.
"Tudo bem. Sabe o que eu fiz? Aquele macarrão com ervilhas", ela foi dizendo, me puxando pela mão em direção à cozinha. Kurt estava lá, então meio que brequei. "Já jantei", eu menti de novo. A verdade é que eu estava com fome, mas antes ficar com fome do que ter que fingir ser legal com Kurt. "Oh. Bem, quem sabe mais tarde", ela disse.
"Como foi a festa com a Santana?", eu perguntei, apenas para ter algo a dizer. Rachel rolou os olhos, subitamente irritada, mas quando falou, sua voz não apresentada irritação alguma, apenas um toque de seriedade. "Foi uma das piores noites. E eu bebi umas três taças gigantes de um negócio de frutas com vodca", ela disse. "Você? Mentira!", eu comecei a rir, mais aliviado. "Foi horrível, acredite. E metade daquelas pessoas estava completamente bêbada. Um cara idiota me abordou na hora do pagamento, mas Santana meteu a bolsa na cara dele".
Ri com mais vontade. Estava sentindo toda a tensão se dissipar e, de repente, eu estava me renovando.
Ficamos um pouco ali, parados um na frente do outro, em silêncio.
"Tudo bem se formos para o seu quarto?", perguntei. Eu sabia que, querendo ou não, eu não me sentia à vontade com Kurt perto de nós. Pelo menos no quarto daria para eu beijá-la com menos pânico, e tudo mais. "O que tem de errado com a sala?", ela logo rebateu. "Nada. Só que não dá pra eu fazer o que quero fazer com Blaine e Kurt aqui", eu respondi na orelha dela. Rachel se afastou de mim com o rosto róseo e, em seguida, soltou uma risadinha e me guiou para dentro de seu quarto, rapidamente. Eu sabia que estava com saudade dela na mesma proporção.
Fomos nos acomodar em sua cama. Puxei-a de encontro a mim, de modo que ela ficasse no meio das minhas pernas. É claro que antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela me beijou. Um beijo realmente quente e necessitado. Não havia tempo para outras coisas, na verdade, porque eu também precisava daquilo. Ela era ótima em me acalmar com um beijo e me deixar à sua mercê. Ouvi-a gemer baixo quando introduzi minha língua em sua boca, e, subitamente, ela me apertou num outro abraço – agora um pouco mais apertado. Meus dedos se infiltraram por dentro de uma blusa, em busca de seus pontos sensíveis. Ela gemeu de novo com o contato, e eu a trouxe para ainda mais perto. Sentia falta de quando todo mundo nos deixava sozinhos, e tínhamos o loft só para nós. Não que ainda não acontecesse, mas parecia que agora que nosso namoro havia engatado, ninguém estava muito preocupado com a nossa intimidade – todo mundo meio que achava que a gente não precisava ter mais isso, eu acho. Kurt, é claro, era o único que saía do nosso caminho, por causa de mim. Ao menos ele era sensato a esse ponto.
Eu estava prestes a retirar sua vestimenta, quando ela quebrou o beijo abruptamente. E, meio que arfando, disse: "Agora não". Eu sabia: ela estava preocupada com Blaine e Kurt. E é claro que, pensando bem, eu nunca conseguiria relaxar totalmente com Kurt do outro lado da porta.
Retirei as minhas mãos de seus seios e as pousei em suas costas, abraçando-a. Suspirei no topo de sua cabeça sentindo-me mais calmo. Rachel apoiou seu rosto, lateralmente, no meu peito e ficou lá, respirando e se recompondo. Quando achei que tivesse adormecido, ela levantou a cabeça e me olhou nos olhos. Eles brilhavam, e percebi como tinha sentido falta daquilo.
"E então? Você não vai me contar sobre a aula de ontem?", ela perguntou justamente aquilo que eu temia. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquilo iria surgir, mas... Tinha que ser tão cedo? Desviei meus olhos dos dela, meio nervoso. "Foi tudo bem", respondi, escolhendo a frase mais sucinta de todas. Ela, é claro, não satisfez Rachel, que me olhou indagadora. "O que mais? Como eles eram? O que você ensinou a eles? Você gostou da experiência?", lá foi Rachel me assaltar com mais perguntas naquele tom ansioso e repentinamente elétrico.
Dei de ombros.
"É, acho que sim. Foi tudo ok. Não havia muita coisa a ser ensinada".
"Não?", ela questionou. Havia uma ruga entre as sobrancelhas dela que me preocupou. De imediato pensei que ela não estava acreditando em mim. "Você já planejou a próxima aula? Eu posso assistir?", ela quis saber. Um sorriso cresceu em seus lábios, e eu fiquei com vontade de socar a minha própria cara por estar mentindo tanto assim para ela. Era totalmente explícito o quando Rachel estava animada com toda aquela ideia de ter um namorado professor de bateria. Dava para perceber que ela estava achando que eu, finalmente, tinha encontrado a minha vocação. "Não e... Não sei. Acho que ainda não", eu lhe disse. Rachel murchou na minha frente. "Não vou atrapalhar, você nem vai saber que estou lá, eu juro", ela tratou de prometer, como se aquilo definisse tudo. "Por favor", ela pediu.
Era justamente isso. Era justamente isso que eu estava tentando evitar. Eu sabia que não iria conseguir dizer não a ela. Mas como explicar que a minha aula não existiu e, muito provavelmente, nunca iria existir? Que era somente uma pegadinha do ex-namorado dela?
Abri a boca para lhe dizer não, mas nada saiu.
"Por favor", Rachel implorou, sorrindo como se estivesse pedindo aos pais um cachorrinho.
"Por enquanto não, está bem?", consegui dizer, depois de tanto olhar aquele sorriso que me deu vontade de sair correndo naquele mesmo instante, porque eu preferia sair correndo a decepcioná-la.
Ela fez aquela cara que eu temia: de quem estava desapontada. "Tudo bem", ela suspirou.
"Bem, nada é melhor do que ter você aqui, de qualquer jeito. Foi um dia muito cheio?", Rachel quis saber. O que mais gostava nela é que eu via que ela se interessava pelas coisas. Não perguntava só da boca pra fora, ela realmente se importava. "Gosto muito da Oficina", eu disse. "Eu nem sabia que você poderia lidar com essas coisas! O que mais você está escondendo de mim, hein?", ela me deu um beliscão rápido e indolor no antebraço. Eu sorri, nervoso: pensando que ela iria descobrir toda a minha farsa caso eu abrisse a boca. Por isso, mantive-a bem fechada e dei de ombros. "Então, quais são os planos?", ela perguntou, notando que eu não lhe diria nada. "Para hoje?", perguntei, e ela assentiu. "Ficar aqui?", sugeri com um sorriso. "Isso parece ótimo", Rachel sorriu, genuína, e depois me beijou rapidamente. "Não se importa se não rolar nada, não é?", ela quis se certificar. Fiz que não com a cabeça e disse: "Eu já te disse que não quero somente sexo, pare com isso". Rachel sorriu e me beijou de novo.
"Às vezes eu tenho tanta saudade de você...", ela sussurrou. "Eu também tenho, Broadway. Mas esse tempo sozinhos é também bom, não é? Não sou do tipo de gosta de pegar no pé", eu falei. "Eu não iria me incomodar se você pegasse no meu pé", Rachel disse, lançando-me uma piscadela. Balancei a cabeça e ri.
"Vem cá", eu disse, puxando-a para cima de mim.
A verdade é que aquela seria uma ótima hora para Blaine e Kurt saírem do loft...
Acordei com meu celular tocando. Rachel estava em cima de mim, e eu tive de afastá-la para o lado de leve. "Deixa pra lá", ela murmurou de olhos ainda fechados, sem desgarrar suas mãos de mim. Com meus olhos meio turvos, li no visor. "Ah, é só o Puck", eu disse.
"Deixa-o pra lá", Rachel falou. Olhei o horário. "Droga, são oito e meia", eu disse alto, me levantando e deixando Rachel na cama. Ela, subitamente, sentou-se na cama, esfregando o rosto. "Ai, meu Deus! Estou atrasada! Mercedes vai me matar, eu tinha prometido ajudá-la com uma partitura", Rachel resmungou com as mãos ainda sobre o rosto. O meu celular parou de tocar, e eu ri para Rachel. Tínhamos adormecido quase às três da manhã, depois de um tempão apenas conversando, por isso nem eu nem ela ouvimos seu despertador às seis. "Eu levo você", eu disse. Rachel sorriu da cama.
"Não vai dar tempo de fazer nada! Droga, droga, droga!", Rachel continuou a resmungar. "Acalme-se. Não é o fim do mundo", eu assegurei, tentando ser racional. Aquele comprometimento dela era adorável, mas completamente anormal. O celular dela, então, começou a tocar. Eu me esforcei para não cair na risada – eu sabia que era Mercedes. Vesti-me rapidamente, enquanto Rachel dizia ao telefone: "Oi... Sim, eu sei. Desculpe… É, eu sei. Não, não faço ideia… Às nove? Tem certeza?", e daí ela olhou para mim e perguntou, se afastando do aparelho: "Tem como voarmos até a NYADA até às nove?". Eu fiz que sim. Precisava escovar os dentes, e pronto. E daí, era só esperá-la. E, pelo visto, ela se arrumaria tão rapidamente quanto dizer a palavra 'congestionamento'. "Estarei aí", ela afirmou e então desligou. Soltou um suspiro e logo saltou da cama, indo se trocar.
Quando retornei do banheiro – não encontrando sinais de Santana nem de Kurt pelo loft –, Rachel já estava se maquiando. Uau, rápida mesmo! "Podemos parar numa cafeteria no caminho", eu sugeri. "Não dá tempo. Já retornou para o Puck?", ela quis saber.
Fiz que não. Tinha esquecido. Mas, já que era Puck, não deveria ser nada importante. Talvez eu tivesse me esquecido de avisá-lo de algo, e ele estivesse irritado. "Ligo depois. Vou para o hostel, de qualquer forma. Vamos nos encontrar", eu respondi.
Rachel concordou lá de seu espelho.
Mesmo que seu rosto ainda fosse capaz de denunciar um pouco de seu cansaço, Rachel estava bonita. E não era por causa da maquiagem.
"Vamos?", ela perguntou, soando ansiosa e apressada. Saímos de seu quarto e, novamente, tudo o que eu podia ouvir era o silêncio. Fiquei aliviado – não queria dar de cara com Kurt. Por mais que fosse normal nos encontrarmos praticamente todas as noites, eu ainda não me sentia confortável. Era como dar de cara com um fantasma constantemente. Era sempre um horror. E quanto menos eu o visse, melhor. Eu tentava me privar de sua presença o máximo possível, assim como ele fazia comigo.
"Senhorita Berry!", o porteiro berrou assim que viu Rachel saindo do elevador. Ele parecia animado. Havia uma entonação diferente em sua voz; não estava mais carregada de hostilidade. "Soube que seus pais irão vim visitá-la na Páscoa! Essa é uma ótima notícia!", ele comentou. Olhei para Rachel, segurando o riso. Aquele cara ainda era uma piada pra mim. "É, eles vão abrir uma filial aqui em New York", Rachel respondeu na maior calma, mas com passos apressados. Ele correu até a porta e a abriu para nós, com um sorriso. Aquele cara era insano. Rachel agradeceu, e assim que já estávamos na calçada eu não controlei o riso. "Ele é sempre assim?", perguntei. "Você sabe, ele é amigo dos meus pais", Rachel deu de ombros.
"Então... A Páscoa. Você não me falou sobre isso", eu comentei, colocando o capacete nela. Rachel acertou seus cabelos e disse: "Pretendia lhe contar, juro. Mas esqueci. Tudo em que eu vinha pensando era nas suas aulas". Sorri para ela, tentando exibir um semblante agradecido. Se algum dia ela soubesse que tudo aquilo não passara de uma pegadinha... Bem, não seria problema meu. Mas certamente ela ficaria chateada por eu não ter contado. Mas como contar? Nem pensar! Contar a ela era admitir que St. James tinha razão. E eu estava me esforçando ao máximo para não dar a razão à ele. Rachel não era um iceberg. Ela era tão verdadeira com ela mesma e, acima de tudo, comigo – até onde eu sabia – que aquilo parecia uma blasfêmia. E talvez fosse mesmo. Com certeza, Jesse não a conhecia do modo como ela merecia.
"Pensei em irmos almoçar, algo simples. Não precisa temer nada. Meus pais são tranquilos", Rachel me disse.
Mas ela tinha dois pais. Aquilo parecia pior ainda. Já os conhecia um pouco devido às conversas com Rachel. Hiram era o mais calmo e o mais flexível – era do tipo que contava piadas quando o clima ficava pesado. Leroy, no entanto, era mais fechado e sério – era o pai que a tratava como uma princesinha. Ainda assim, estar cara a cara com eles parecia assustador. Quinn nunca fizera tanta questão de reuniões em família, tanto é que, depois de tantos anos, eu mal tivera mais do que cinco conversas completas com o pai dela. Mas com Rachel, eu tinha colocado na cabeça, deveria ser diferente. Eu deveria conhecer os pais dela de verdade. Demonstrar interesse. Ser bem-humorado e legal. Rir das piadas mais sem graça do mundo.
Porque eu queria conquistar os velhos. Queria que eles soubessem que eu estava ali não porque era um fracassado e precisava de uma alavanca na vida, mas porque eu dava todo o apoio à Rachel para ela ser quem quisesse. Porque eu pensava em envelhecer ao lado dela, mesmo que aquilo parecesse uma bobagem.
"E você pode totalmente chamar o Puck e o Sam caso isso lhe faça melhor", Rachel me falou. Bem, provavelmente Puck iria ferrar com tudo. Gemi por dentro. Péssima ideia. Aquela seria uma Páscoa fracassada. "Finn", Rachel se aproximou de mim e, ainda de capacete, levou as mãos ao meu rosto. Será que minha face estampava claramente o quanto eu queria fugir daquela reunião? "Não esquente a cabeça, tá bem? Meus pais já sabem o que precisam saber de você: que você me ama. E isso é o mais importante, ok?", ela me ofereceu um sorriso. Não me contive e a beijei. "Você faz tudo parecer muito fácil", resmunguei em seguida. "Você sabe que o amor não salva tudo, certo?", eu quis conferir; na verdade, eu estava meio que rindo. "Nesse caso, ele salva", Rachel afirmou com convicção. Ofereci um sorriso a ela.
"Você não existe, sabia?", comentei.
Rachel se limitou a sorrir.
A vida era muito melhor com ela por perto.
Oi, gente!
Desculpem-me por não postar na semana passada, eu acabei esquecendo. Espero que tenham gostado desse capítulo ;) Por favor, não deixem de comentar! E não liguem pros erros, ok?
Love, Nina.
