CAPÍTULO DOZE

— Edward Cullen.

Ela não ouviu o telefone tocar, apenas a voz de Edward quando ele o atendeu.

— Kebi Hamilton está de plantão neste final de semana. Não, eu a vi, ela estava no hospital mais cedo. — Ela sentiu os lençóis se movendo, Edward levantando da cama, ouviu o som do chuveiro ligado antes que a conversa estivesse terminada, e dois minutos depois, Edward, ainda molhado do banho, estava ao lado dela, vestindo os jeans.

— Eu preciso ir ao hospital.

— Algum problema?

— Talvez, Kebi não está atendendo às chamadas. — Ele a beijou e aquilo a confortou, mas de forma quase sin cronizada, no momento em que ele saiu, as horas de sono dela terminaram, porque Willow acordou. Isabella desceu as escadas e preparou uma mamadeira para a menina, e então a colocou na cama para alimentá-la. Foi a mamada noturna mais fácil da vida de Willow, a mamadeira estava vazia em poucos minutos, e ela adormeceu novamente. Willow mere cia um abraço por ser uma menina tão boa, pensou Isabella, e arrumou os travesseiros, aconchegando-se à filha e deter minadamente ignorando a voz de sua mãe em sua cabeça, que lhe dizia que ela não deveria deitar-se na cama com o bebê.

E foi aquela cena que Edward encontrou quando voltou para casa. Depois de lidar com o problema no trabalho, ele passara no posto de gasolina, comprara suprimentos e estava pronto para cair na cama de novo. Durante o caminho de volta, tudo havia parecido lógico, e ele se sentira tão seguro. Ele havia ido até a casa de Kebi. Certo de que ela estava em casa, ele havia esmurrado a porta, e sentira uma pontada de medo, o mesmo medo que sentira quando chegara à casa e encontrara Maggie. A casa silenciosa, e uma sensação horrível de que algo estava errado.

— Kebi! — ele gritara. — Eu vou chamar a polícia se você não abrir a porta.

— Desculpe! — A porta se abriu, e ele viu que os olhos dela estavam inchados de tanto chorar. — Eu não posso ir trabalhar.

— O que aconteceu? — ele perguntou, espantado.

— Você pode cobrir por mim hoje?

— Claro.

— Você pode ligar para a recepção do hospital e pedir a eles que avisem a você, se houver algum problema?

— Vou fazer isso agora — Edward disse, impedindo que ela fechasse a porta, quando ela tentou dispensá-lo. — Kebi, o que está havendo?

— Infecção intestinal.

— Não me venha com essa! — ele exclamou.

— Por favor, Edward.

Não era da conta dele. Desde que ela estivesse bem, era ò que importava, mas o coração dele ainda estava acelerado quando ele entrou em casa, o gosto metálico do medo perma necia em sua boca, e ele tomou um copo de água e mais outro antes de subir as escadas.

E então ele viu as duas na cama, enrascadas como duas gatinhas, dormindo tão tranqüilamente, tão perfeitas e ino centes. Mas ele havia se reconectado com o passado naque la noite, havia sentido o gosto do medo novamente ao bater à porta de Kebi, e talvez aquele, Edward decidiu, tivesse sido o sinal que ele pedira a Maggie. Talvez aquilo tivesse sido um aviso.

Isabella se mexeu, acordou, e viu Edward sentado na beirada da cama.

— Como estão as coisas?

— Movimentadas. Eu tive que resolver algumas pendên cias, já que eles não conseguiram encontrar Kebi.

— Isso não é típico dela — Isabella comentou, franzindo a testa. — Você acha que ela está bem?

— Ela está bem — disse Edward. — Bem, não exatamente. Eu passei pelo apartamento dela no caminho de volta. Ela disse que está com infecção intestinal, mas eu acho que... — Ele não terminou. A vida pessoal de Kebi só dizia respeito a ela, e não devia ser comentada. — Não importa.

Isabella sentiu que havia acabado de ser relegada a um se gundo plano, sabia, embora fosse algo quase indefinível, que o que ela mais temia, perder o que acabara de encontrar, já havia acontecido.

— Eu vou colocar Willow de volta no carrinho. — Ela pen sou que Edward iria pegar o bebê no colo, mas ele não o fez, então Isabella levantou da cama e foi para o quarto de hóspedes, onde acomodou a filha no carrinho. Como Willow acordou e come çou a resmungar, ela levou o carrinho de volta para o quarto de Edward, e encostou-o em um dos cantos enquanto ele se despia e ia para a cama.

Ela levou alguns minutos para acalmar Willow, e quando ela voltou para a cama, Edward estava dormindo. Ou fingia dormir.

Ela ficou olhando para as chaves e para o telefone dele, e para o pequeno embrulho de papel do posto de gasolina, sabendo o que ele continha e percebendo que eles não precisariam.

E ficou pensando no que poderia ter acontecido para mudar tanto as coisas em tão pouco tempo. Ela disse a si mesma que estava imaginando coisas, que estava exagerando.

Talvez ele estivesse mesmo dormindo, e não apenas fingin do. A vista da cama era mágica, e deveria tê-la acalmado, quando ela se deitou ao lado dele, mas não acalmou.

Eles haviam concordado em ir devagar, jantares e encon tros, e o sexo certamente não havia sido um problema. Mesmo inexperiente como era, Isabella sabia com certeza que o que havia compartilhado com Edward era muito mais do que ela ja mais esperara ou imaginara. Então, o que estava acontecendo de errado entre eles?

Embora agir de forma fria e sofisticada não fosse exata mente o seu forte, embora ela quisesse abraçá-lo, acordá-lo com o beijo que o corpo dela exigia que ela lhe desse, rolar na cama macia e sentir os braços dele ao redor dela, Isabella resis tiu à tentação.

Aquilo era importante demais para julgar mal. Então, ela levantou da cama, com relutância, e verificou como estava Willow, ainda adormecida, antes de aproveitar o momento de paz para tomar um banho, porque se permanecesse deitada certamente quebraria àquele silêncio tenso.

Ele ficou deitado, imóvel, à beira de tomar uma decisão. Edward sabia que ela estava acordada, sabia que ela estava espe rando por ele, sabia que a noite passada a havia deixado con fusa. Ele estava confuso, também.

Com Willow no quarto, ele não conseguira pregar o olho. Não eram as pequenas fungadas da menina que o mantinham acordado, era o silêncio que o atormentava.

Ele atravessou o quarto, verificou se ela ainda estava res pirando, e é claro que estava. De fato, quando ele olhou para Willow, ela imediatamente abriu os olhos e sorriu para ele.

Mas Edward lutou para retribuir o sorriso. Em vez disso, ele tentou voltar para a cama, mas ela o tinha visto agora, e estava começando a chorar.

Deus, ele esperava que Isabella não demorasse muito no banho. Edward desceu as escadas, fez café para os dois e preparou a mamadeira de Willow, rangendo os dentes quando o choro dela ficou mais forte, e imaginando se Isabella já teria saído do chuveiro quando ele voltasse para o quarto.

Esperando que ela tivesse saído.

Ele voltou para o quarto, e colocou a mamadeira e as xíca ras em uma mesinha, tentando ouvir por detrás da porta do banheiro, ele percebeu que o chuveiro ainda estava ligado. Será que ela não estava ouvindo Willow chorar?

Certamente que estava!

Edward olhou para o carrinho, pegou a chupeta do bebê e colo cou-a em sua boca, mas Willow cuspiu-a, revoltada, com os olhos fixos nele, as lágrimas escorrendo, como se estivesse pedindo a ele para pegá-la no colo. E ele tentou, dizendo a si mesmo para fingir que estava no trabalho, onde ele operava no piloto automático, mas não estava funcionando.

Ele queria pegá-la no colo, e até mesmo colocou as mãos no carrinho, pronto para fazê-lo... mas se afastou, e tentou ba lançar o carrinho em vez de segurar o bebê, rezando para Isabella sair do chuveiro e vir acalmar a filha.

De que diabos ele tinha tanto medo?

Irritado consigo mesmo, Edward andou pelo quarto. Ele iria até lá, pegaria o bebê no colo, e acabaria logo com aquilo. Foi então que ele ouviu o bip do telefone de Isabella.

Félix

Ele não leu a mensagem, mas sentiu um arrepio, como uma sombra, como um grande pássaro preto no céu, que pudesse, num voo rasante, tirá-las dele a qualquer momento...

— Willow! — Ainda molhada, enrolada em uma toalha, Isabella correu para o carrinho, pegando a filha no colo, sentin do seu rostinho quente e vermelho e voltando os olhos acusa dores para ele. — Ela estava soluçando!

— Eu ia bater à porta e chamar você — ele disse, patetica mente.

— Bater? — Isabella olhou para ele, de boca aberta. — Você nem pensou em pegá-la no colo?

— Eu estava fazendo café — Edward disse, na defensiva. — E a mamadeira dela.

O que parecia bastante lógico e razoável, percebeu Isabella, mas bebês não eram nem lógicos, nem razoáveis, e Willow precisava de colo.

— Você pode segurá-la para mim? — A voz de Isabella tra zia uma ponta de desafio. — Eu preciso me vestir...

— Eu preciso tomar banho e me vestir também — Edward mentiu. — O hospital acabou de ligar, eu preciso ir trabalhar.

— Edward... — Para alguém normalmente tão emotiva, a voz de Isabella estava assustadoramente calma. — Eu não estou pedindo a você que a alimente nem que a troque, eu estou pe dindo a você para segurar Willow por dois minutos.

— Desculpe. — Ele sacudiu a cabeça. — Eu tenho que me arrumar.

— Edward? — Ela não conseguia acreditar, não conseguia acreditar na maneira com que ele estava agindo. — Eu não estou lhe pedindo que...

— Olhe — Edward interrompeu — ela não é minha... — Ele não terminou, sua boca se fechou, antes que aquela manhã se tornasse um pesadelo, mas Isabella terminou por ele.

— Não é sua o quê? Não é problema seu? — Ele não quise ra dizer aquilo, mas era mais fácil concordar do que explicar. — Deus. — Isabella deu uma risada seca. — Eu realmente sei escolher cretinos, não é?

Edward não respondeu, e ela continuou:

— O que exatamente você queria dizer com ir devagar, Edward? Que quando ela fosse para a faculdade nós poderíamos ir morar juntos? — ela disse, sarcasticamente.

— O pai de Willow acabou de mandar uma mensagem...

— Não ponha a culpa disso nele! — Isabella retrucou. — Você está estranho comigo desde a noite passada. — Quando ele não respondeu, ela perguntou novamente: — O que você queria dizer com ir devagar, Edward?

— Eu não sei.

Ela olhou para a filha, a pessoa mais importante do mundo para ela, e soube o que precisava fazer.

— Eu não vou fazê-la passar por isso. — Willow estava co meçando a choramingar. O colo de sua mãe era um lugar bom, mas seria ainda melhor com a mamadeira. — Eu deveria ter ouvido você desde o começo. Você não quer filhos, e eu tenho um bebê. — O telefone dela fez outro bip, e Isabella rangeu os dentes. Que diabos Félix poderia querer?

— É melhor você ver o que o pai dela quer! — Edward já esta va perdendo a paciência. Ela estava certa, Willow merecia coi sa melhor do que ele, e a única forma de aquilo acontecer era terminar tudo, terminar de verdade. — Afinal, ela é responsa bilidade dele.

— Correção! — Isabella cuspiu, odiando-o demais naquele momento para chorar. — Ela é minha responsabilidade. Ele não respondeu, simplesmente foi para o chuveiro.

— Você pode até ficar feliz de se livrar de mim e de Willow, Edward — ela gritou para as costas dele. — Mas não faz idéia do que acabou de perder. — Ele fechou a porta atrás de si e soube, porque conhecia Isabella, que ela teria partido quando ele saís se do banho, que ela não ficaria ali para discutir. Ele ligou o chuveiro no máximo e rezou para que ela fosse embora logo, porque apesar da água abafar o som do choro de Willow, não abafaria o som do choro dele.

Não era Willow o problema dele.

Ele se sentou no chão do chuveiro e segurou a cabeça entre as mãos.

O problema era a sua própria filha.

Era uma dor como Isabella jamais havia experimentado.

À rejeição não era somente a ela, ela podia lidar com isso, já havia lidado com isso no passado, e poderia lidar novamente agora. Era a rejeição a Willow que a machucava, uma dor tão aguda quanto a de uma ferroada, mas que não desaparecia.

Seria aquele o preço da maternidade? Que o homem de seus sonhos pudesse sé afastar dela tão facilmente? Bem, que fosse assim, então.

— Quanto tempo você vai demorar? — Sua mãe estava para da à porta, segurando Willow no colo.

— Eu não sei — Isabella estourou. Depois de semanas in sistindo para que Isabella falasse com o pai de Willow, agora que o momento chegara, sua mãe estava exigindo prazos! Será que ela não percebia o quanto aquilo era difícil? — Tem mamadeiras prontas na geladeira.

— Você vai voltar para buscar Willow, não vai? — Aquilo nem sequer merecia resposta, e Isabella rangeu os dentes. — Talvez você devesse levá-la...

— Mãe! — Não era um estouro desta vez, mas um pedido para que ela parasse de se preocupar, de interferir... e então, Isabella entendeu, teve a resposta da pergunta com que lutava havia semanas, não, meses, agora. Sete semanas como mãe, e Isabella estava começando a compreender como as coisas funcionavam, aquela preocupação interminável, dolorida, duraria mais do que a gravidez, mais do que os primeiros dias ou meses. Ela estava condenada, para a vida inteira, a sentir aquele temor pela filha, da mesma forma que ocorria com sua própria mãe. E quando sua voz voltou, estava mais gentil, mais razoável, mais amistosa, até. — Eu não vou desfilar com Willow na frente dele, ele nem se quer pediu para vê-la. Eu só vou ver o que ele quer.

— O que você quer?

— Eu não sei — Isabella admitiu. — Algum tipo de pai para Willow, eu suponho...

— E se ele a quiser de volta? — Era a primeira conversa real que elas tinham em anos, e Isabella estava finalmente pronta para responder honestamente.

— Ele me perdeu há muito tempo, mãe. Eu só vou me en contrar com ele pelo bem de Willow.

— Tenha cuidado — Renee disse, e Isabella assentiu.

— Não se preo... — As palavras morreram em seus lábios, e Isabella sorriu. — Tudo bem, preocupe-se à vontade, mas você realmente não precisa. O que quer que ele tenha a dizer, Willow e eu vamos ficar bem.

Olhando para ele novamente, Isabella se sentiu mais velha, e talvez, possivelmente, um pouco mais sábia.

Não havia mais nada daquele pico de adrenalina que ela sentira, como aluna, a cada vez que ele entrava na sala de aula, ela não enrubesceu quando ele falou, nem esperou ansiosa por cada palavra dele, Querendo ou não, ela havia verdadeiramen te amadurecido, e podia ver Félix exatamente como ele era agora: uma triste caricatura de homem, que havia abusado da ingenuidade dela, que havia tirado vantagem da paixão perfei tamente normal que ela sentira, quando era ele quem deveria ter pensado melhor.

As regras existiam por um motivo.

Foi um encontro muito rápido, e nem um pouco agradável. Ele queria certificar-se de que sua vida perfeita não estava para acabar, e de que Isabella não iria, de repente, mudar de idéia e bater na porta dele, uma certeza que ela ficou bem feliz de dar a ele!

— O que você vai dizer a Willow? — ele perguntou, des confiado.

— A verdade — Isabella olhou para ele, friamente. — Pro vavelmente, uma versão mais positiva. Eu vou omitir a parte em que você se ofereceu para pagar por um aborto, mas ela vai crescer sabendo a verdade. E quando ela tiver idade suficiente, o que ela vai fazer com essa verdade será decisão dela, Félix.

E então, não havia mais nada a dizer, absolutamente nada, è ela não se importava mais.

Isabella se levantou e saiu da cafeteria, respirou fundo, e respirou fundo de novo. Até que finalmente ela se acalmou, e conseguiu deixar Félix no passado, de uma vez por todas. Ela colocou um pé na frente do outro, e repetiu o processo, continuou a colocar um pé na frente do outro, e percebeu que estava andando.

Caminhando e prosseguindo com o resto de sua vida.


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