Golden Wings

(Capitulo 13)


Milo rolava pela cama. Tentava a todo custo dormir o sono dos justos, mas sua mente pregava peças. Seus sonhos eram povoados por imagens de Camus saindo do banho. Um barulho insistente teimava em atrapalhar. Uma sirene, uma ambulância.

Finalmente seu cérebro despertou para o som. Era o telefone. Atendeu mal-humorado. Logo no melhor da história era interrompido. Conteve o palavrão.

- Yes... - grunhiu ao telefone, sentando-se na cama - ... WHAT?

A neve não tinha parado de cair. Agradeceu atrapalhadamente como pode, levantando-se apressado. Olhando pela janela, observou uma camada considerável de neve cobrindo o chão. Não dava sinais de abrandar.

Daquela forma os voos tinham sido cancelados. Era impossível levantar voo naquelas condições.

Bocejou preparando-se para voltar para a cama quando ouviu duas batidas na porta do quarto.

Grunhiu ficando alguns segundos parado afagando os próprios cabelos, o tempo que a massa cinzenta decidisse voltar a funcionar devidamente.

De novo duas batidas na porta.

Ronronou arrastando os pés, finalmente acabando com a distância até a porta. Foi com um enorme bocejo que a abriu, deparando-se com um ruivo, alto, lindos olhos castanhos... nádegas firmes...

- Ah, é você Camus... - rindo internamente pelos próprios pensamentos, cedeu passagem ao francês que já se encontrava vestido e pronto para sair.

- Bonjour Milo. - Camus entrou no quarto, olhando a pouca bagunça que o grego tinha conseguido fazer em tão pouco tempo - vim avisá-lo que o nosso voo assim como os outros todos foram cancelados devido à neve.

Milo voltou a caminhar sonolento até a cama jogando-se nela, aninhando o rosto de novo no travesseiro fofo.

- Infelizmente chegou tarde demais... admito que teria sido muito melhor despertador que o telefone. - voltou a bocejar, coçando a cabeça de olhos fechados - acabaram de me avisar do aeroporto. Acho que ficamos presos neste hotel até segunda ordem.

Camus olhou em volta, com uma certa indecisão. Sabia que deveria virar-se e voltar para seu quarto, mas tinha uma imensa vontade de jogar-se na cama ao lado de Milo.

Depois de alguns segundos, decidiu por um meio termo sentando-se em uma cadeira vazia próxima a janela.

- Creio que vai ser bom ficar um pouco aqui. - Camus sobressaltou-se ao ouvir a voz de Milo.

- Como?

- Sim, você não estava passando muito bem. Um repouso forçado vai te fazer bem.

Camus grunhiu em resposta, cruzando as pernas, observando a neve pela janela. Desde criança que sempre adorava neve. Algo nela apelava-o, a imensidão e o vazio que tudo se tornava quando tudo era coberto de branco.

- Preferia um repouso forçado em casa. Mas confesso que podia ser pior.

- Também podia ser melhor - a voz de Milo era abafada pelo travesseiro, à medida que batia com a mão na cama ao seu lado sugestivo.

Camus deixou escapar um sorriso com o gesto do loiro. A imagem do grego semi-nu largado na cama era tentadora, mas como sempre fazia, conteve-se.

- Milo, você é muito dorminhoco para enfermeira...

Milo entreabriu um olho, encarando o ruivo - e você muito chato para um doente. Estou oferecendo um lugarzinho na minha cama para você descansar. Na minha terra sempre me disseram que era correcto aceitar ofertas...

- Ah bon? Você aceita todos os lugarzinhos nas várias camas que lhe oferecem? - o ruivo estava divertido com a situação.

- Camus... não me faça perguntas complicadas ao acordar... nunca dá bom resultado.

- Sempre fala a verdade quando acorda?

- Verdade é uma questão de ponto de vista. Eu posso aceitar todos os lugares nas camas que me oferecem e dormir, ou não... Continuará sendo verdade?

- Agora entendo o que quis dizer. Você não fala coisa com coisa ao acordar.

- Então por que não deita logo e deixemos de papo?

- Tudo bem, voltarei para meu quarto.

- Camus, não me faça levantar desta cama quentinha, vestir uma roupa para me dirigir a seu quarto. Não acontecerá nada que não queira.

"Talvez esse seja o problema", foi a única resposta que passou pela cabeça de Camus. Mas decidiu parar de pensar demais nas coisas. Calmamente descalçou os sapatos, arrumando-os metodicamente sob a cadeira e deitou-se ao lado do escorpiano.

- Esta cama parece mais macia que a minha…

- Camus, essa conversa já está despropositada. Não há necessidade de falar nada. Acomode-se e relaxe.

Relaxar ao lado de Milo seria a única coisa que Camus não conseguiria, mas resolveu não se preocupar com isso. Acomodou-se da melhor maneira possível e fechou os olhos tentando dormir. Pensou em contar carneirinhos para esquecer a presença que ressonava suave a seu lado, mas percebeu que não seria uma idéia eficaz quando chegou perto dos quinhentos carneiros. Achou que a posição não estava confortável e começou a mexer-se em busca da tranquilidade necessária ao repouso.

Milo continuava a ressonar baixo, mas atento aos movimentos de seu companheiro. Percebia a inquietude de Camus e sorria internamente. Realmente aquele jogo era para dois. Pouco tempo depois sentia a mão de Camus apoiada sobre seu corpo, acariciando-o levemente. Finalmente ele encontrara uma posição confortável e relaxara.

Camus mantinha os olhos fechados à medida que a sua mão acariciava despreocupadamente a pele do grego. Quente, apesar do frio no quarto. Não sabia desde quando tinha perdido a cabeça daquela forma, deixando-se levar por emoções.

Mu e Shaka tinham-no avisado que Milo era uma verdadeira criança crescida, mas tinham-se esquecido da parte perigosa do grego... acreditava que nenhum deles conhecesse essa faceta dele tão intimamente. Pelo menos esperava-o.

Viu-se tentado a abrir os olhos ao sentir o calor do corpo de Milo bem próximo, mas não o fez. Deixando o fingimento de lado, o loiro tinha-se aproximado em resposta à sua carícia. Os lábios quentes pousaram-se sobre a sua testa, arrancando uma respiração funda da parte de Camus.

Beijo na bochecha e o ruivo não parecia dar sinais de o afastar... no queixo... Milo sorriu ao perceber que o francês entreabrira os lábios, reacção de quem esperava mais.

O escorpiano resolveu continuar a exploração lentamente, beijando a ponta do nariz, os olhos e finalmente acariciando levemente o francês que não conteve o suspiro ao sentir as mãos do outro sobre si.

Milo aparentemente não tinha pressa, mas sentia como se um vulcão fosse entrar em erupção a qualquer momento. Controlava-se para continuar a manter o ritmo sedutor das carícias, mas os lábios entreabertos do ruivo clamando por um beijo foi irresistível. Com um sorriso de canto, aproximou perigosamente os lábios dos do francês, tocando-os sensualmente com a língua.

Foi um toque rápido, sutil. Camus desejava mais. Aconchegou-se mais ao corpo do escorpiano e suas carícias tornaram-se um pouco mais ousadas. Deixou que sua mão explorasse com mais intimidade o corpo que tanto desejava.

Noites e noites sonhara em acariciar aquele corpo como fazia agora e resistira. Já era hora de guardar os receios em algum recanto esquecido do cérebro.

Seus lábios procuraram os lábios do grego iniciando um beijo profundo. Saboreava cada nuance do veneno contido naqueles lábios. Não se importava com mais nada, desejava ardentemente ir além, mas continuou a acariciar e beijar o loiro a seu lado. O que é bom, saboreia-se.

Milo surpreendeu-se com o beijo de Camus, sabia que o francês acabaria por ceder, mas não esperava que tomasse a iniciativa tão rapidamente. Descobrira os limites do outro e como era desejado. Seu cérebro começou a tecer centenas de conjecturas acerca do assunto que foram imediatamente esquecidas no momento em teve uma sensível área de sua pele suavemente acariciada. Não conteve o gemido rouco e o arrepio sob o cabelo.

As mãos do francês vagueavam pela lateral do seu corpo. Deliciosamente geladas.

Sem partir o beijo, Milo aproveitou para abrir os botões da camisa do ruivo lentamente. Apesar da retribuição evidente ao seu contacto, Milo receava que o outro se afastasse a qualquer momento.

- Não devíamos aproveitar para visitar a cidade?

A voz do ruivo chegou aos seus ouvidos num tom de deboche. Milo apenas sorriu, continuando a distribuir beijos pelo seu pescoço e ombros agora desvendados.

- Quer melhor aproveitamento que ver Nova York por um canudo? - sussurrou perto do seu ouvido.

- Pensei que gostasse de conhecer lugares, andar pelas cidades. - Camus manteve o tom levemente irónico.

- Gostar eu gosto, mas não debaixo de neve. Não vejo melhor lugar para estar nesses dias que aqui, sobre a cama.

- Então acho que vou me retirar para que possa aproveitar a cama melhor.

- Não ouse!

O loiro segurou-o pelo pulso, impedindo-o de levantar, embora não fosse essa a sua intenção. Os beijos reiniciaram, desta vez mais intensos. Os corpos se entrelaçaram na cama. Camus era beijado com posse, como se o outro quisesse marcá-lo e particularmente adorava a sensação. Sentiu vontade de entregar-se, o que não era comum a sua pessoa. Antes mesmo que tivesse condições de racionalizar toda a atenção dos seus sentidos foi canalizada para sua pele e pelo rasto de fogo deixado pelos beijos de Milo.

A sua respiração tornou-se mais pesada, à medida que sentia os lábios do grego descerem pelo seu peito lentamente. Num gesto inconsciente, entrelaçou os dedos longos nos cachos loiros, tentando ganhar algum controle naquele momento. Mas em vão. Não sabia quando tinha acontecido, mas Milo detinha poder total, não só no seu corpo, como na sua mente.

Milo beijou a barriga do francês numa calma propositada. Mordiscou à volta do umbigo, soprou sentindo a pele clara se arrepiar com aquele simples gesto. Deliciava-se com a entrega do ruivo. Voltou a subir com as carícias, levando a mão ao ziper da calça do outro, abrindo-a habilmente.

Ouviu um gemido contido do francês quando começou uma carícia mais intima. Camus fechou os olhos ao sentir a mão quente do grego massajando o seu membro.

Milo intercalava carícias suaves com outras mais fortes procurando dar o máximo de prazer a Camus, que encontrava-se completamente entregue.

A calça começou a incomodá-lo sobremaneira. Queria sentir a pele do grego junto a sua e o tecido atrapalhava. Começou a puxar a calça, tentando arrancá-la de seu corpo, mas o homem sobre si atrapalhava a empreitada. Grunhiu entre gemidos uma imprecação contra a calça. Milo sussurrou em seu ouvido.

- Algum problema? Precisa de alguma ajuda?

A voz sedutora e suave do grego serviram para acabar com o resto de auto-controle que ainda possuía.

Colocou a mão sobre a do loiro, levando-a ao cós da própria calça.

- Já que insiste... - sussurrou de volta, tomando em seguida os lábios de Milo num beijo intenso.

Com algum custo, Milo afastou-se o tempo suficiente para acabar de despir a peça de roupa, jogando-a no chão do quarto.

Voltando a cobrir o corpo do ruivo com o seu, encaixou uma das pernas entre as suas retomando com as carícias. Deixou escapar um gemido ao ouvido do francês ao sentir o seu próprio membro ser friccionado pelo tecido fino da cueca, num vai e vem cadenciado e ao mesmo tempo alucinante. Seus sonhos interrompidos não chegavam nem perto da realidade.

Voltou a dar atenção aos lábios do francês, beijos longos e sensuais enquanto acariciava-o com todo o seu corpo. Desejava senti-lo mais profundamente, mas cada coisa a seu tempo.

Camus estava completamente entregue as sensações, seu corpo adquiriu vida própria explorando cada pedaço ínfimo da pele do amante. Sussurrava alguma coisa inteligível até mesmo para si, mas que exteriorizava o prazer. Não sabia se seria capaz de suportar mais muito tempo quando teve sua boca tomada. Arqueou o corpo tentando unir-se mais ainda ao outro.

Entrelaçou os dedos nos longos fios loiros do amante à medida que a outra mão descia numa exploração deliciosa das costas morenas.

Começando a sentir-se sem fôlego, puxou ligeiramente Milo pelo cabelo, cravando as unhas na sua pele a altura dos rins.

Este deu um gemido em respostas ao sentir uma dor repentina pelas acções do ruivo. Voltou a gemer, mas deliciado, ao perceber o seu pescoço ser beijado e levemente mordiscado à medida que a ultima peça de roupa lhe era retirada.

Num suspiro de alivio que não escapou aos ouvidos de Camus, Milo desceu pelo corpo esguio distribuindo carícias ousadas. O ruivo fechou os olhos, apenas sentindo lábios e mãos percorrerem o seu corpo de forma tão intensa e descendo perigosamente até ao seu baixo ventre.

O francês não conseguiria mais esperar, não era mais senhor de si e de seus atos. Puxou Milo pelos cabelos fazendo com que seus olhos se encontrassem.

- Milo...

Milo sorriu, vendo os magníficos olhos castanhos normalmente tão gélidos carregados e nublados de pura luxúria.

Levou um dedo aos lábios do francês, calando-o, enquanto seus próprios lábios voltaram à procura do membro do amante. Introduziu suavemente o primeiro dedo em Camus, sentindo-o retesar-se, aumentou a intensidade das carícias no seu baixo-ventre até que o desconforto inicial cessasse.

Camus remexeu-se na cama à medida que sentia os dedos do escorpiano explorando o seu interior calmamente. A sua mente não assimilava, apenas dando asas às reacções do seu corpo às carícias que lhe eram impostas. Acrescentando mais um dedo à exploração, Milo sugava uma ultima vez o membro desperto, percebendo que o aquariano não iria conseguir aguentar muito mais aquela tortura.

- Caaaaamus... - sussurrou languidamente ao seu ouvido à medida que retirava os dedos do seu interior, mordiscando a pele clara do seu pescoço.

Camus abriu os olhos quando sentiu o corpo quente do escorpiano afastar-se do seu. Observou com os olhos nublados o grego abrir a gaveta do criado mudo onde tinha escondido uma pequena bolsa com os seus pertences de higiene. Voltou a fechar os olhos suspirando, apenas ouvindo um barulho de papel sendo rasgado.

Pouco tempo se passou antes que voltasse a sentir o amante posicionar-se sensualmente sobre ele, substituindo os dedos por seu próprio membro. Oolhar de Milo estava fixo em Camus, admirando sua beleza e capturando cada reacção, de prazer, de dor, de paixão... Respirou fundo. Seus dedos acariciaram suavemente o rosto em brasa do francês. Esperava pacientemente explorando o corpo adorado que esse se acostumasse a invasão. Controlar-se estava sendo uma tortura, mas o homem que estava consigo era digno de todo o seu controle e muito mais.

Iniciou os movimentos quando sentiu-o mais confortável. Calmamente. Mordia os próprios lábios, pensava nos controles da aeronave ou nas chatas reuniões de fim de ano, ou tudo acabaria antes mesmo de começar. Os gemidos de Camus o enlouqueciam. Milo trouxe-o para mais perto de si, precisava senti-lo mais intensamente como se isso fosse possível.

O ruivo arqueou as costas, sentindo o ar faltar à medida que se sentia os movimentos de Milo aumentarem de intensidade aos poucos. Perdendo a consciência aos poucos, cravava de novo as unhas na pele quente do escorpiano sobre si, perdendo a noção da força exercida. Apenas sabia do prazer que tinha superado a dor das primeiras investidas e dos gemidos de Milo que chamavam pelo seu nome de uma forma nunca antes ouvida.

O escorpiano grunhiu ligeiramente ao sentir uma ligeira ponta de dor com a investida do francês, o que apenas o incitou a intensificar os movimentos numa deliciosa vingança. Puxou uma das mãos do francês com a sua, pressionando-a contra os lençóis brancos e entrelaçando os dedos nos seus.

Não sabia se aguentaria por mais muito tempo, aproveitava cada nova sensação descoberta junto ao delicioso corpo do ruivo. Os cabelos de Camus grudavam em seu rosto dando a ele um aspecto selvagem que o enlouquecia cada vez mais. Tomou o membro do francês em suas mãos acariciando-o ao mesmo tempo que aumentava o ritmo das estocadas.

Camus viu o prazer escurecer o olhar de Milo, deixando-o quase da cor do mar revolto. Gemeu mais uma vez, esquecendo por completo o detalhe, ao ter seu membro acariciado.

A respiração acelerada, agarrou firmemente a mão do escorpiano afundando a cabeça no travesseiro, expondo assim o seu pescoço aos lábios ávidos do grego.

Milo gemeu longamente ao seu ouvido antes de marcar uma última vez a pele clara.

- Ca…mus…

O ruivo não aguentando mais o prazer proporcionado pelos toques no seu interior e pelas carícias no seu membro, acabou se deixando levar, melando a mão do escorpiano e os seus abdominais.

O prazer de Camus foi o estopim para a explosão que Milo sentiu dentro de si. Nunca antes sentira alcançara tamanho orgasmo em sua vida. Com um gemido longo deu uma estocada antes de finalmente dar vazão ao seu próprio prazer.

Separar-se de Camus foi quase doloroso. O francês sentiu-se incompleto quando Milo deitou-se a seu lado, ofegante. Gostaria que não precisassem se separar, seu corpo sentiu-se completo ligado ao amante. Riu ao imaginar algumas cenas bizarras que poderiam ocorrer caso seu desejo fosse realizado.

- De que está rindo? - o louro perguntou confuso. Esperara inúmeras reacções do francês, menos uma gargalhada despropositada.

O ruivo sorriu fechando os olhos, respirando fundo. Milo, jogado na cama de barriga para baixo, o rosto meio escondido no travesseiro, levantou uma sobrancelha, sem forças para sair daquela posição para pedir explicações.

- Rien Milo. – respondeu deixando escapar um pequeno grunhido e alisando a própria barriga melada – estou apenas exprimindo a minha intensa felicidade – comentou irónico, continuando a sorrir.

- E eu estou andando de patins, mas que seja. Não quero estragar um momento tão bom com discussões sem sentindo. Vem cá...

Milo rolou na cama ficando novamente com as costas no colchão. Estendeu o braço para que Camus se aconchegasse. Fechou os olhos e suspirou pensando que enfim tudo estava em seu devido lugar, ou seja, Camus estava em sua cama.

--oOo--

- Paris, St Germain des Pres -

As nuvens carregadas tinham começado a cobrir o céu desde o inicio da tarde. Não tinha chovido ainda, mas quem conhecesse aquela cidade sabia que não iria tardar.

Mu tinha deixado de acreditar nos metereólogos à muito, apenas guiando-se pelo seu instinto. Esse nunca tinha falhado.

Deixou escapar um longo suspiro ao empurrar o carrinho pelos corredores cheios de iguarias deliciosas, praticamente babando a cada prateleira. Tinha sido complicado arrancar Shaka de casa para fazer compras de início de mês, mas finalmente após alguns argumentos sem sentido da sua parte, tinha conseguido convencer o virginiano.

Infelizmente cada pró tem o seu contra... e o virginiano em questão, de lista na mão direita onde estava escrito por ordem alfabética tudo o que necessitavam comprar, andava à sua frente pegando nas prateleiras o que era necessário e apenas isso, colocando calmamente no carrinho.

- Shaka... o que acha de levarmos um vinho, uns queijos?

Shaka verificou a lista.

- M, N, O, P, Q, Queijo Branco, sim, consta na lista... T, U, V... vagem, verduras, vinagre... não estou vendo vinho aqui. Infelizmente acho que não poderei ajudá-lo, Mu.

- Mas, mas... Shaka! Foi você que fez a lista, pode muito bem acrescentar alguma coisa ou retirar.

- Não posso não! Se eu fizer isso não teria razão para fazer lista. Bastava chegar aqui e comprar todas as porcarias apelativas e desnecessárias expostas.

- E, isso não seria bom, pelo menos uma vez na vida?

- Mu, já fiz muito isso e sei muito bem que não leva a lugar algum.

Mu emburrou a cara. Compraria o vinho e beberia tudo sozinho, bastava que fizesse Shaka o perder de vista por um instante.

Continuou por minutos atrás do loiro, empurrando o carrinho e forçando-se a permanecer calado. Grunhia por vezes palavras inteligíveis aos ouvidos do loiro quando passava diante algo demasiado apetecível. Ficaria calado, mas não iria perder uma oportunidade para demonstrar o seu descontentamento!

- Hum... - o loiro parou de repente, fazendo Mu quase esbarrar com o carrinho nele - esqueci da água.

Mu recusava-se a olhar para o virginiano fingindo interesse na prateleira ao seu lado, quando na sua cabeça algo o fez despertar. Água, bebida, corredor das bebidas, perto do vinho.

Nos seus lábios finos um sorriso começou a desenhar-se enquanto Shaka observava o que ainda lhe faltava comprar.

- Continue, eu vou pegar a água. - disse prestável sem dar tempo de resposta ao virginiano que estava demasiado concentrado no restante das compras - NÃO ESQUECE DO MEU CAFÉ!! - ainda gritou do final do corredor antes de desaparecer.

Finalmente encontrara a oportunidade perfeita. Dirigiu-se ao corredor de bebidas com o carrinho, pegou as garrafas de água sem prestar realmente muita atenção ao que comprava e começou a mirar as diversas marcas de vinhos expostas tentando decidir-se sobre qual seria mais apropriada.

Não podia demorar-se muito, escolheu um vinho tinto, entretanto suave, bem apropriado para o que tinha em mente e correu para pagá-lo antes que Shaka o pegasse em pleno delito.

Escondendo a garrafa minuciosamente por baixo do restante das compras que já estavam no carro, voltou a dirigir-se à ala onde ainda estava o virginiano esperando com um pacote de chá branco e um de café na mão.

- D... - jogou o chá e o café no carrinho sem dar muita atenção, voltando a olhar a lista - Detergente para a roupa...

Mu sorria, seguindo o amante e tentando não dar índice do que tinha feito. Restava conseguir passar a garrafa na caixa sem que Shaka se apercebesse...

- ... está muito calado Mu...

Mu sobressaltou-se. Shaka o olhou desconfiado, o ariano estava com cara de "criança travessa".

- Calado eu? Imagina. Estava apenas apreciando algumas delícias que uma certa pessoa me impede de comer.

- Eu não faço isso, apenas tento zelar por nossa saúde.

- Sei... mas... nem um mísero pedaço de chocolate?

- Não! - Shaka foi enfático esquecendo o porquê do início da conversa.

Mu deu de ombros emburrando – viu só?

Shaka fingiu-se de desentendido, continuando pelos longos corredores, riscando aos poucos os itens da lista.

- J…L… Leite. – olhou a enorme quantidade de escolha, optando pelo de sempre.

Mu viu desconsolado o leite magro ser colocado no carrinho, enquanto o virginiano fazia sinal para que seguissem.

Após terem percorrido tudo calmamente, Shaka deu-se por satisfeito com o montinho que via no carrinho. Apenas o necessário, nada de extras como gostava. Durante alguns anos tinha tido que aprender a cortar nos gastos desnecessários, o que se tinha mantido até agora. Apesar de não ter mais problemas de dinheiro e de serem dois a ajudar nos custos para a casa, tentava sempre evitar as extravagâncias da sua vida anterior.

Dirigiram-se calmamente até a caixa, colocando os itens na passadeira aos poucos.

Mu sentiu o sangue gelar, Shaka o empurrara para o fim da passadeira, para que ele cuidasse do empacotamento dos itens já computados. Droga, tanto esforço para nada e o namorado ainda ralharia consigo. Emburrou mais ainda. Definitivamente amava Shaka, mas fazer compras com ele era demasiado chato.

Shaka retirava os itens do carrinho calmamente, cantarolando baixo uma música qualquer. Conferira mentalmente os itens e deixava por último alguns agradinhos que colocara no carrinho para seu genioso carneiro sem que este percebesse. Sabia que tinha de ceder em algumas coisas, mas nunca deixaria que ele percebesse que estava cedendo por amor. Quando faltavam poucos itens, sua mão tocou em algo que com toda certeza do mundo não tinha de estar ali...

- MU VAJRA!! O senhor poderia me informar o que isto está fazendo aqui? - Shaka pergunta empunhando a prova do crime.

Mu arregalou os olhos desviando a atenção para Shaka, fingindo-se chocado.

- O vinho tem vida própria! - levou a mão ao peito, num gesto dramático - ele parece estar pedindo para vir connosco! Pobrezinho... estava tão sozinho lá na prateleira...

Shaka levantou uma sobrancelha continuando a encarar o namorado reprovador. Mu, percebendo que a sua cena não estava levando a lado nenhum além do riso da atendente, deu de ombros e continuou a sua tarefa de guardar as compras.

- Deixe aí... - resmungou sem olhar para o loiro.

Shaka colocou a garrafa de lado, pedindo desculpa à atendente, dizendo que aquele item não era para levar. Mu guardava tudo sem se preocupar em olhar o que era, demasiado emburrado para falar uma palavra que fosse.

Acabou de guardar as compras e pegou o cartão de crédito para pagar como sempre fazia.

- Não, Mu. Desta vez eu pagarei as compras, por favor, vá levando as bolsas para o carro, seguirei logo.

Mu nada respondeu. Guardou novamente o cartão e virou as costas para Shaka empurrando o carrinho com as bolsas. Se ele queria pagar, que pagasse. Rosnou alguma coisa que nem mesmo ele sabia exatamente o quê, enquanto acomodava as compras no carro.

Fechou a bagageira num estrondo antes de ir arrumar o carrinho juntamente com os outros. Ao regressar verificou que Shaka já se encontrava dentro do carro, no lugar do motorista. Sem dizer uma palavra, abriu a porta do pendura, sentando-se e colocando o cinto.

O caminho até casa parecia interminável, sobretudo quando, apesar de fazer de tudo para mostrar ao loiro o seu desagrado, este permanecia calado fingindo que não era nada com ele. Nem mesmo o som do rádio tinha ligado, mantendo tudo no maior silêncio.

Chegar em casa, estacionar, esvaziar o bagageiro, levar as compras, guardar os itens. Tudo foi executado mecanicamente e em silêncio tumular.

- CHEGAAAAA! Não aguento mais esse silêncio! - Mu bradou com toda a força dos pulmões.

- Algum problema Mu? - Shaka perguntou com fingida inocência.

- Todos os problemas do mundo! Como você consegue ser tão irritantemente calmo?

- Mu, não estou entendendo o motivo de tanto nervosismo. Quer que eu te faça um chá?

- Chá?! Shaka... deixa pra lá. Acho melhor aceitar o chá. - Mu soprou a franja, se jogou no sofá e ligou a TV, zapeando pelos canais sem realmente se importar com a programação.

Ouvia barulhos metálicos vindos da cozinha, pratos e afins. Olhou de relance para a janela, vendo a chuva bater contra o vidro com alguma intensidade. Finalmente tinham conseguido chegar a casa a tempo, antes que começasse a tempestade.

A trovoada fez-se ouvir acompanhando a chuva. Mu adorava a sensação de conforto que lhe proporcionava ficar observando uma tempestade daquelas, no aconchego da sua casa, ouvindo uma boa música e degustando... um bom vinho.

Remexeu-se no sofá voltando a irritar-se pela cena momentos antes.

- O que está vendo?

A voz do virginiano ecoou na sala quando este entrou, um tabuleiro nas mãos. Duas xícaras fumegantes e um prato com alguns doces foi o que Mu conseguiu ver antes de desviar o olhar e fingir que não estava nem aí.

- Noticiário.

- Noticiário? - Shaka levantou apenas uma das sobrancelhas, o mau humor mostrava-se mais sério que o normal. - Venha, vamos comer alguma coisa. Creio que deve estar com fome.

- Não estou fome. - Mu sabia como ser implicante quando as coisas não saiam exatamente como queria.

Shaka sentou-se no chão. As costas apoiadas no sofá, os cabelos roçando as pernas de Mu. Pegou uma fatia de torta com cobertura cremosa de chocolate e mordeu, deixando que o creme escorresse um pouco.

- Será que poderia me ajudar a limpar, Mu? Esqueci o guardanapo na cozinha.

Tentação. Essa foi a única palavra que Mu conseguiu pensar. Shaka ali, sentado a seus pés, os lábios borrados com chocolate. Droga, qual era o motivo para estar irritado mesmo?

O vinho...

Respirou fundo, tentando manter o controle da situação. Levantou-se, escapulindo-se rapidamente até a cozinha, trazendo um montinho de guardanapos e jogando-os sobre a mesa.

- De nada Shaka... - apressou-se a falar, voltando a sentar-se no sofá.

O virginiano, da sua vez, respirou fundo, limpando os lábios.

- Você consegue ser muito casmurro quando quer, sabia? - comentou, continuando a comer.

- Somos dois então.

- Francamente Mu... ta agindo feito uma criança mimada! O que queria que eu fizesse?

Mu fechou a cara, olhando fixamente para a televisão.

- Que trouxesse o vinho.

- Ter trazido o vinho seria mais importante que o resto que eu trouxe para o agradar? Caso não tenha entendido, o que esta na sua xícara é café. A torta com cobertura de chocolate é para você. O chocolate que está na cozinha É para você.

Shaka preocupava-se consigo. Em geral cedia aos seus apelos, fizera o seu amado café, trouxera os chocolates sem que visse. O silêncio voltou a instalar-se entre os dois, o que o deixava cada vez mais com peso na consciência, enquanto o loiro acabava de degustar a torta.

Mu remexeu-se no sofá, começando a sentir o remorso aflorar rapidamente.

Com um longo gemido desconsolado, o ariano deitou-se no sofá, colocando o travesseiro sobre o rosto.

- Hmpff nqkshba... – o som abafado chegava aos ouvidos de Shaka sem nexo nenhum.

Shaka manteve o silêncio. Não estava aborrecido de verdade com Mu, mas também sabia ser casmurro.

- O quê?

Mu voltou a respirar fundo, grunhindo a resposta de forma mais perceptível, sem retirar o travesseiro do rosto.

- Estou sendo um idiota…

- Concordo.

- Não faço de propósito… é mais forte que eu…

- Eu sei.

Mu afastou o travesseiro do rosto, dando com ele levemente na cabeça do virginiano.

- Quer deixar de ser tão metódico? Tou tentando pedir desculpa!!

Shaka apenas sorriu.

- Eu sei o que está tentando fazer, ou esqueceu que eu te conheço bem? - entregando um pouco de torta e o café ao ariano – Pega, café da paz…

Mu pegou na xícara, olhando o líquido agora frio meio sem jeito. Entendendo que algo estava errado, Shaka interrogou-o.

- Não precisa ficar assim, desculpas aceites… o que aconteceu agora?

- Sabe… é que… - remexeu-se no sofá, a voz saindo bem baixa – agora me deu vontade de beber chá…

Continua...