Capítulo 13 - Selva
Heiro parecia um pouco desconfortável com o interrogatório que meu pai havia feito, aquela altura, tinha vontade de rir só de imaginar o que papai pudesse ter perguntado.
E ele estava lá, sentado, com uma cara engraçada, enquanto meu pai parecia querer rir dele.
-Heiro, venha. - O chamei.
Por sorte meus pais confiam em mim, ou jamais permitiriam que eu levasse um menino ao meu quarto. Ainda mais por minha mãe saber que eu gostava dele.
Ele olhou todo o lugar, quase ignorando minha presença.
Perdeu tempo olhando as pelúcias, o teto, a mesinha do computador.
Até que, finalmente, voltou seu olhar a mim.
-Seu pai é um cara e tanto. - E sorriu.
Heiro estava com as mãos nos bolsos, como sempre, um olhar calmo.
Ele me trazia paz.
Aprendi que ele se mantinha sereno diante de toda situação... Enquanto eu era mais impulsiva.
-Heiro... - Estava buscando coragem para lhe fazer um mundo de perguntas.
-Pode dizer. - Ele mantinha o sorriso.
Bastou que ele dissesse isso, e eu já me encontrava calma.
-Você me assustou um pouco durante aquela briga.
-Não era aquilo que eu queria dizer.
-Desculpa.
-Onde aprendeu a lutar daquele jeito? - Não era o que eu queria perguntar.
Heiro fez uma pausa, tirou uma das mãos no bolso e fez um gesto que lembrava a expressão: Estou confuso.
-Meu pai.
-O Mafioso, certo? - Talvez eu não tenha usado as palavras certas.
-Ele é um bom homem. - Ele olhava pra a janela.
-Ele manda matar pessoas. - Novamente, a escolha errada de palavras.
-Onde quer chegar?
-Desculpe, não é sobre isso que queria falar.
Heiro suspirou, talvez um pouco aliviado.
-Você tem cuidado bem desse quarto...
-É meu cantinho agora, preciso cuidar dele, não é? - Devolvi um sorriso, grata pelo elogio.
Heiro parecia perdido em muitos pensamentos, em muitos mundos.
O que estava acontecendo com ele afinal? Parecia muito mais distraído do que de costume.
-Oh... Sim... - Ele estava distante.
Ainda restavam muitas perguntas a serem feitas, eu precisava ter mais coragem.
Assumir logo a responsabilidade do beijo, dizer o que sentia.
E só então, esperar pelas respostas dele.
-Heiro, como conheceu a Lira? - Ainda não era bem o que eu queria perguntar.
-Acho que a pergunta não é essa.
Ele me deixou completamente perdida.
-E qual seria?
-"Heiro, como Lira te conheceu?" - Ele disse.
-Então responda-me.
-Pra ser bem sincero, nem mesmo eu sei a resposta.
E voltamos ao ponto inicial.
-Vocês estão namorando sério, certo?
-Sim. - Ele era seco.
-Você...- Controlei a respiração pra não gaguejar - Gosta mesmo dela... Certo?
-Acredito que sim.
Eu já me sentia mal com aquela situação, enquanto isso, ele passeava os olhos no local pela milésima vez.
-Heiro, gostaria de te mostrar uma coisa.
Ele me acompanhou até o computador, coloquei o vídeo de sua luta para que ele visse.
-Ah, então você já sabe?
-Que você participa dessas lutas?
E ele me devoleu um aceno de cabeça, enquanto olhava para o espelho que ficava um pouco acima.
Heiro não se importava com o fato de estar assistindo a si mesmo atacando uma outra pessoa.
Tirando sangue de outra pessoa.
Causando dano a outra pessoa.
Além de distante, ele parecia frio.
Então se afastou e sentou-se na cama.
Aquilo era um pouco invasivo, mas era o Heiro, não me importava.
Ele levou as mãos a face, e perguntou:
-Será que você já chegou ao limite de ter que fazer algo que julgasse errado... - Ele suspirou-... Apenas para ajudar a quem ama?
-Não.
-Mary - Ele tirou as mãos do rosto, olhou nos meus olhos - Quando fizer isso, me entenderá.
Ainda distante, ele pegou o celular.
Disse algo bem baixo, mal pude entender o que era.
Então desligou, sem se importar com o fato de sequer ter pedido licença pra fazer a ligação.
-Vim até aqui pelo que aconteceu...
-Durante o intervalo, certo? - Eu já esperava que ele me perguntasse isso.
Sentei-me ao lado dele.
Heiro se calou, era a deixa para que eu disesse tudo o que devia.
-Não seja idiota, eu gosto de você.
-Gosta? - Ele parecia confuso e assustado, mesmo tendo esboçado um leve sorriso pelo "idiota".
-Que outra razão levaria uma garota a beijar um garoto daquela maneira?
E então Heiro sorriu, de leve, olhando para o chão.
Em retribuição, sorri da mesma maneira.
Enquanto eu olhava para meus pés, descalça, senti que ele havia me abraçado.
O tempo parou.
Heiro deitou-se sobre mim na cama.
Alguns sons estranhos começaram, como bombas.
Eu o abracei com força, com medo, agarrei-me ao afeto que sentia por ele.
Calafrios, gritos.
Meus pais entraram no quarto.
-Estão atirando! - Papai gritou.
-Mary! - Mamãe berrou.
-Estou aqui! - Exclamei.
Naquela altura, Heiro já havia levantado, estava olhando pela janela.
Meu pai era quem me abraçava.
Os tiros cessaram.
-Mary, você tá bem? - Ele estava assustado, segurando-me pelos ombros.
-Estou, e você?!
-Estou bem. - Ele susurrou.
E saiu, sem dizer mais nada. Da janela o vi entrando em um carro negro.
Heiro se foi.
E não parava de me perguntar os motivos de tudo aquilo
Havia sangue no colchão da cama.
Não era meu, de minha mãe ou meu pai.
E então chorei, pedindo a Deus, do fundo de minha alma, que ele estivesse bem.
