Notas Iniciais:
Novo capítulo no ar :D
Olho Azul Apresenta:
Em Sono Aparente
Capítulo 13 – Ikki Vai Ao Mundo dos Mortos
Seu corpo se sentia como se houvesse sido desfeito e reconstruído com outras peças. Corpo? Se o transporte de Jonir funcionara, Ikki não possuía mais um corpo. E, ainda assim, neste momento, ele estava com os olhos fechados, cansado. Era como uma manhã preguiçosa seguindo algum dia de trabalho intenso. Então, mesmo sem ter um corpo, ele podia ser sono?
Antes de abrir os olhos, levou a mão ao peito. Sentia-se envolvido por um pano, mas bem ali estava a fita em que pendurara a aliança de Ilie, sua promessa de que voltaria à vila. Jonir, ao menos, estava certo nesse sentido. Se você se projetar com aquele objeto, uma réplica dele irá contigo, ainda que o original permaneça lá onde seu corpo estava.
"Eu devia ter me fixado em imaginar minha armadura então... Com ou sem cosmo, seria uma boa ajuda." Mas pensou melhor e decidiu que uma armadura sagrada definitivamente chamaria atenção para ele.
Ikki abriu os olhos.
- Oh! – Uma mulher desconhecida exclamou.
Ainda sentindo a sensação estranha de não estar no próprio corpo, Ikki não conseguia absorver muitos detalhes de seus arredores. Apenas que parecia ser uma casa simples, mas bem mobiliada. A mulher era uma jovem adulta de cabelos dourados e olhos azuis que parecia estar arrumando o quarto naquele momento.
Ela aproximou-se da cama com um sorriso:
- Enfim descobri a cor dos seus olhos! – disse.
Ikki imaginou se ainda estaria na vila. Sentia bastante frio e aquele lugar não era muito o estilo da vila de Hécate, mas havia algo de familiar também.
- Onde estou? – perguntou ele, sentindo-se frustrado por sua tentativa de salvar Athena parecer apenas havê-lo transportado para outro lugar de seu mundo.
Então, Ikki percebeu que eles estavam falando sua língua materna.
- Estou no Japão? – Ele levou a mão à cabeça, como se tentando segurar-se ali naquela cama.
A mulher franzia a testa:
- Japão? Não... Você estava falando em japonês. Então, respondi assim.
Agora que ele percebia, aquela mulher não estava nem perto de ser fluente.
Ikki olhou melhor para o quarto e seus olhos pararam em um espelho que refletia parte de sua cama. Entortando o corpo de forma a se ver melhor, o cavaleiro sentiu o coração bater mais forte.
- Algum problema? – A moça pareceu seguir seu olhar e sorriu compreensiva. – Você vai ficar com uma aparência melhor daqui a umas horas. Só precisa de um pouco de tempo para se estabilizar.
Antes que Ikki pudesse responder qualquer coisa, a porta do quarto se abriu de novo e um rapaz entrou com um pano amarrado como se fosse uma sacola.
- Mama, voltei com os peixes e vou limpá-los agora.
Por que Ikki entendia? Aquela língua não era Japonês, ou mesmo Grego. Como ele podia ter certeza de que o rapaz dissera peixes?
- Ele acordou? – perguntou o recém-chegado, cujos olhos azuis estavam fixos em Ikki agora.
- Hyoga... – balbuciou confuso o cavaleiro de fênix em japonês, – Estou sonhando?
O loiro franziu a testa:
- Jonir disse que você mesmo pediu para vir aqui. Como pode não acreditar? – perguntava ele, por sua vez.
- Mas... Não apenas você ainda parece ter dezoito anos, mas eu mesmo também! E você falou em Russo agora, não foi? Só que eu entendi tudo, melhor que o japonês da sua mãe.
Hyoga começou a rir levemente:
- É melhor você tomar um banho quente e relaxar um pouco Ikki. Vivos ou mortos, as primeiras horas depois que acordamos são as piores. Jonir me disse que depois você se acostuma... Digo, nas vezes em que se vem depois. A ponto de chegarmos de pé. Eu já o vi aparecendo e realmente o invejo. Eu passei mal quase o dia inteiro quando cheguei. Já Jonir parece que só foi teletransportado aqui pro mundos dos mortos.
- Sim, pobre do meu Hyoga. Era como se ele fosse morrer a qualquer hora... – disse a mulher, quem Ikki agora sabia ser a tão falada mãe de Hyoga, cujo nome o cavaleiro não recordava, - Bem, vou esquentar água para você e logo ficará bem. Enquanto isso, vá preparando os peixes, querido.
Ikki os observou em uma vida aparentemente cotidiana e voltou a se olhar pelo espelho. Era como se houvesse acabado de voltar do mundo de Hades, apenas a tira com a aliança de Ilie em seu pescoço havia mudado.
Ikki passou todo o primeiro dia com a sensação de que seu corpo iria desaparecer. Além do mais, sempre que via seu reflexo em algum lugar, ele não podia deixar de parar e imaginar como era incrível ter um corpo jovem mais uma vez. Não que sentisse falta dele.
Aparentemente, você aparece ali com a imagem que projeta para si. Então, Ikki nunca realmente havia internalizado dentro de si que havia envelhecido; em sua mente, ele devia sempre se ver como o cavaleiro que era aos quinze anos. Sentia-se um pouco tolo ao constatar isso, mas ver que para Hyoga era o mesmo o deixava menos apreensivo.
Hyoga... Jonir o havia dito que não achava seguro que Ikki fosse direto até onde Saori estava por causa do período necessário para adaptação e, assim, o enviara até onde Hyoga estava morando. Mas ele nunca imaginaria o companheiro de lutas estava morando com a mãe como se ele nunca houvesse pegado o navio para o Japão.
- Parece que vamos para o lugar onde há pessoas com quem compartilhamos memórias e temos alguma conexão sentimental, - explicara o cavaleiro de Cisne após o jantar quando ambos estavam sentados em frente à lareira, - Mas nem todos estão aqui. Ou é o que ouvi.
- Se não estão aqui, onde estarão?
- No inferno? – Hyoga deu de ombros. – Ou no Paraíso? Eu não sei... Talvez estejam. Não faço ideia do tamanho deste mundo, ou se há outros. E Jonir também me disse que nem todas as almas parecem vir para cá. Ele já tentou trazer alguém e quando foi seguir a ligação ele viu uma luz muito forte e voltou direto para o próprio corpo. A pessoa havia morrido de verdade...
Ikki recordou-se de um comentário acerca de ser possível desfazer a ligação com o próprio corpo.
- Eu sempre achei que minha mama estaria no Céu... Não fiquei muito feliz quando a vi em um lugar tão banal como este. Não há nada de ruim realmente, mas é uma eternidade aqui. Ninguém muda. A paisagem é sempre a mesma. Amanhece, anoitece, fica quente, fica frio, mas até esses ciclos naturais para nós do mundo dos vivos parecem falsos.
- Ainda assim, você não quer voltar.
- Não. – Hyoga levantou-se e caminhou até a cozinha da casa.
Então, a porta principal se abriu e um homem entrou trazendo lenha. Era o marido de Natássia, o padrasto de Hyoga. Ikki havia ouvido que a mãe de Hyoga passara a viver junto com aquele homem muito antes de o filho se juntar à família, mas ver aquela pessoa na sua frente era mais desconfortável que imaginar como o amigo se sentia sobre aquilo.
Hyoga apareceu de volta na sala a tempo de ver o homem pôr a lenha no local apropriado. Ele sorriu e disse que a janta estava na cozinha se ele estivesse com fome, pois Natássia já havia se retirado para dormir. Yosef aquiesceu e seguiu até o lugar de onde o enteado saíra.
- Ah, não os apresentei. – Hyoga sentou-se de volta no lugar, tinha uma caneca em mãos, da qual bebia algum líquido quente. Leite?
Ikki balançou a mão. Ele realmente não se importava de nunca falar com aquela pessoa. Havia assuntos mais importantes.
- Então, o lugar é muito longe daqui? – perguntou Ikki, como se houvessem sempre falado sobre aquele assunto que estivera em suspenso até então.
- Ikki, discutiremos isso amanhã. Esta noite, você precisa descansar.
- Não vou nem saber se terei sua ajuda, Hyoga?
- É estranho que o lobo solitário do grupo esteja me perguntando isso.
- Que seja. Você vai comigo ou não?
O cavaleiro de Cisne tomou um tempo olhando para o fogo a crepitar em sua lareira:
- Eu sou um cavaleiro de Athena.
- Se esse for seu único motivo, eu mesmo digo que fique.
- Não é. Não se preocupe, terá meu auxílio.
Ikki então assentiu.
- E eu não o vi, Ikki. Não sei por que me perguntou sobre Saori antes de falar do Shun, mas...
- Jonir me falou... Que ele não estaria aqui.
- Bem, parece que esta terra é infinita. Não se sabe, né? Não é como se eu tivesse ido muito longe... Tudo o que eu queria estava bem à minha frente quando acordei e vi um lugar idêntico a onde vivi na minha infância. Minha mãe pareceu sentir que eu chegara e veio correndo me receber. Era como um sonho. Ainda agora, parece que irei acordar a qualquer momento.
Ikki não queria discutir, por isso guardou o comentário para si, mas Hyoga de fato ainda podia acordar. E ele não entendia por que ele preferia ficar ali no meio da nova vida de sua mãe. Mas isso não lhe cabia.
Então, o cavaleiro de Fênix se levantou de onde estava e foi até o quarto de Hyoga, aquele onde havia acordado no início do dia.
- Partiremos cedo pela manhã, - anunciou e fechou a porta sem esperar por resposta.
Ikki já havia saído de sua cama improvisada no chão quando Hyoga acordou na sua própria. Depois que o amigo fora dormir, o cavaleiro de Cisne ainda ficara por um tempo ouvindo o barulho de Yosef na cozinha enquanto olhava para o fogo.
Tudo acontecera muito rápido, um dia Jonir simplesmente o avisara que sua deusa havia sido sequestrada e levada àquele mundo. Desde então, sua mente não parava de montar vidas alternativas para ele mesmo. Apenas ajudar na adaptação de Ikki, mas não se envolver estava fora de questão. Ele havia jurado proteger Athena.
Mas isso podia significar o desaparecimento de sua alma caso se envolvesse em alguma batalha e perdesse, como perderia posto que não era possível usar os cosmos naquele mundo. Era o que sua mãe e mesmo Jonir lhe contaram que acontecia quando alguém era morto ali. Ele simplesmente desaparecia. Naquele mundo, ao menos, não havia a eternidade.
Sua cabeça estava cheia só de pensar em todo o medo que sentia agora que recuperara sua mãe, que a tinha a seu lado. Era diferente de quando estava sozinho naquele mundo... Havia uma pessoa que ficava feliz quando ele chegava em casa, que lhe dava as boas-vindas.
Hyoga forçou-se a se levantar e foi tomar uma ducha. Ao sair, Ikki estava com Natássia na cozinha, ambos comendo alguma coisa.
- Bom dia, filho, - disse a mulher, levantando-se de sua cadeira.
- Bom dia... – Seus olhos inconscientemente atingiram Ikki com acusações. Sabia que o outro não era realmente o culpado, mas não podia deixar de associar sua vinda ao fim da vida pacífica que vinha levando havia tanto tempo.
- Prepare-se logo, - resmungou o cavaleiro de Fênix. Em seu tom, havia uma animosidade como se ele estivesse replicando seus pensamentos.
- E vocês vão demorar muito nessa jornada? – Natássia não fazia um bom trabalho em ocultar sua apreensão.
- Já conversamos sobre isso, mama.
- Eu sei... – Ela baixou os olhos.
Hyoga tinha vontade de voltar para sua cama, grampear-se ali para não ter que deixá-la mais uma vez.
- Eu voltarei, não duvide disso. – Enfim, ele lhe sorriu.
Natássia lhe respondeu também com um sorriso e então abraçou o filho, puxando sua cabeça para baixo como se fosse uma criança a precisar de colo.
- Já é hora. – Ikki levantara-se repentinamente de seu lugar, obviamente desconfortável com aquele momento.
- Eu sei, só vou comer alguma coisa e poderemos partir.
- Eu também preparei nesta manhã um lanche para os dois levarem. – Natássia já havia recomposto sua expressão calma de sempre e agora estendia dois embrulhos, um na direção de cada um. – Gostaria de preparar comida para todos os dias em que estarão fora, mas acho que isto é o máximo que me deixarão fazer.
Hyoga sentiu as lágrimas lhe virem aos olhos, por isso, fingiu-se ocupado com o café da manhã. Ikki aceitou imediatamente sua parte da oferta e pareceu agradecer, mas o cavaleiro de Cisne não tinha muita certeza, por não estar prestando atenção. Natássia pôs o embrulho dele à sua frente na mesa.
- Até breve, meu filho. Preciso ir à aldeia agora... – A mulher pousou a mão na cabeça do rapaz e, então, sua presença havia sumido daquele lugar.
Um silêncio se seguiu por tanto tempo, que Hyoga assustou-se quando Ikki o quebrou. Ele já havia se esquecido do outro ali.
- E então, é muito longe ou não? – perguntava-lhe, continuando o assunto da noite anterior.
Hyoga começava a se sentir como imaginava que Ikki se sentia naquele momento em que Shun não estava ali. Era tão complicado pensar em se separar da mãe que ele preferia não fazê-lo.
Continuará...
Anita
Notas da Autora:
Eu me atrasei um pouco com o capítulo e aliás, decidi após considerar muito dar um novo formato de publicação. A partir daqui os capítulos serão mais curtos, para que eu cons\iga manter a publicação com alguma peridiocidade. Sinto mutio aos fãs de coisas mais longas :( Por enquanto, dividi à metade, mas pode ser que o tamanho diminua ainda mais. O que tentarei evitar a todo custo é deixar de publicar sempre!
Por favor continuem acomapanhando e comentando!
