Yes, She Comes.

"Não é possível." Pensava Kakashi sem parar em sua cabeça. E essa frase continuava a irromper-se em sua cabeça. Ele mal acreditava no que via e sua surpresa o deixou mudo diante da platéia.

As pessoas esperassem que Kakashi logo começasse a tocar alguns acordes e a cantar a música que ele fizera após uma declaração de amor como aquela. Mas o garoto simplesmente continuou apenas sorrindo para o nada. Ou melhor, para ela.

De vagar em meio a multidão surgia o vulto de uma silhueta feminina. Ninguém jamais a vira daquele jeito. Era difícil não notá-la. Aos olhos de Kakashi ela estava simplesmente linda naquele vestido preto, um pouco curto com a saia rodada trabalhada em renda, com um corpete de aparência medieval.

Com as luzes dos holofotes do salão a sua pele ficava ainda mais alva e reluzente. Seus cabelos muito negros brilhavam soltos e balançavam a medida que ela avançava no meio das pessoas.

Alguns murmuravam frases descontínuas como "É ela!", as quais Kakashi sequer prestou atenção. Tudo que lhe importava agora era ela. Somente ela. A garota por quem ele sofrera todos esses dias. A garota para quem ele escreveu uma música. A garota que ele finalmente descobriu ser a razão da sua vida. A garota de nome Takari.

Ela foi se aproximando cada vez mais do palco. As pessoas olhavam para ela curiosas. Takari estava encabulada por ter conseguido ser assim, o centro das atenções. Acanhada, ela abraça os próprios braços e olha buscando forças o chão.

Takari está em frente ao palco, a poucos metros de Kakashi. Ele sorri para ela, mas a garota permanece com o rosto virado não querendo encarar ninguém. Levemente, Takari morde o lábio inferior em sinal de constrangimento.

Kakashi se abaixa no palco e estende a mão para ela. A garota, ainda envergonhada pega a mão dele de leve. Ele sorri radiantemente para ela e diz sussurrado em meio ao sorriso:

- Que bom que você veio...

- Eu não devia. – responde ela. – Não devia estar aqui...

- Mas está. – completa ele. – E você vai ficar aí quietinha, pois eu tenho que te mostrar uma coisa que eu fiz para você.

Nesse momento Kakashi larga a mão da garota e se ergue em frente ao pedestal, deixando Takari com aqueles imensos olhos de coelho assustado ao encará-lo. As pessoas ao redor deles ficaram admiradas com tamanha fonte de amor que existia ligando aqueles dois corações jovens e, inconscientemente cada um daqueles estudantes torcia para que finalmente Takari e Kakashi pudessem ficar juntos como em um conto de fadas.

Kakashi se aproxima novamente do microfone e começa a tocar em sua guitarra a introdução. O coração dos dois se acelera cada vez mais. E finalmente ele começa a pronunciar aquelas palavras maravilhosas com sua costumeira voz rouca e avassaladora.

A garota se arrepia, Kakashi fecha os olhos e se concentra em tudo que está sentindo...

O som das batidas do violão eram ritmados com o coração dos dois, Asuma conseguiu acrescentar uma batida de bateria com a musica, que acentuava ainda mais a arritmia cardia dos dois.

As mãos de Takari suavam frio a medida que Kakashi murmurava os versos de sua música. Ela jamais vivera algo tão intenso com aquilo. Jamais sentira esse sentimento tão estranho. Kakashi era maravilhoso, lindo, romântico. Era o garoto de seus sonhos que estava logo ali na sua frente se declarando para ela naquela canção...

Ela mal respirava. Não tinha forças e não sabia o que fazer. Esse sentimento tão estranho, inconstante que a deixava com um aperto no peito estava tomando conta dela. Ela queria estar mais perto de Kakashi. Queria poder conseguir dizer o que sentia em seu coração, mas infelizmente não possuía palavras.

Takari suspirou mais uma vez não acreditando no que acontecia. Estava tomada pelo amor. Nada mais lhe importava. A não ser Kakashi...

A música terminou. Uma chuva de aplausos ecoou em todo salão. Aplausos que não acabavam e deixava Kakashi grato por ter conseguido emocionar tanta gente ali. O garoto agradeceu e rapidamente largou a guitarra em um canto.

- Vai lá! – gritou Asuma. – Para sua garota!

Kakashi pula do palco, que não era muito alto e pára a poucos centímetros de Takari. Estão agora um na frente do outro. As pessoas em volta se afastam e forma um círculo entre os dois. As luzes se apagam e somente um holofote lhes ilumina.

O garoto de cabelos prateados segura as mãos da garota. Ele sorri mais uma vez. Takari abre um leve sorriso. Seus olhos orbitavam de um lado para o outro, desconcertados com tamanha proximidade que estavam um do outro.

A poucos centímetros do rosto de Takari, Kakashi se esqueceu completamente da multidão a sua volta e murmurou somente para ela ouvir.

- Eu fiz pra você Takari. A música diz tudo que eu estou sentindo...

- Eu sei... – murmura ela.

Eles vão se aproximando cada vez mais um do outro. Os rostos estão cada vez mais próximos e...

- Takari. Eu te amo. – fala Kakashi.

- Eu... – começa ela, e uma lágrima escorre de seus olhos.

- Não diga nada. Por favor... – pediu Kakashi quase que por um sussurro.

"Não faça isso, por favor..." pensava ela. "É difícil resistir."

- Eu não posso... – disse Takari vertendo lágrimas.

- Shhh... Não estrague nosso momento... – pediu Kakashi. Takari ergueu a mão em sinal de proteção, o garoto a segurou próximo a seu corpo. – Você está gelada...

- Kakashi... – começou ela.

O garoto soltou a mão dela e, com as costas dos dedos começou a acariciar o rosto de Takari. Os olhos da garota se arregalaram e sua pele arrepiou toda. Com a outra mão, Kakashi entrelaçou seus dedos em meio aos cabelos de Takari. Suas respirações ficaram cada vez mais fortes. Ela podia ver todos os detalhes do rosto dele e ele observava calmamente suas lágrimas caírem.

Os dois foram se aproximando cada vez mais, as respirações já se misturavam e o coração parecia que ia explodir a qualquer momento.

- Feche seus olhos... – falou Kakashi. E ele foi se aproximando. Seus narizes se triscaram por um momento, o rosto dele se inclinou para mais próximo da garota e ele pôde sentir a suavidade de sua face. Os lábios dos dois estavam prestes a se encostarem e, por questão de milímetros não o fizeram.

Estava muito próximo. Perto demais. O tempo parecia infinito, mas Takari sabia que não era. Ela não devia. Não devia mesmo. O relógio corria. Ela devia voltar. O sonho da Cinderela nunca existiu. Na verdade, Takari sentiu que era ela que não merecia existir ali. Um beijo ia se iniciar, um romance também. Porém a garota era incapaz de acreditar em contos de fadas. Muito menos em príncipes.

E, nesse instante crucial e mágico, em que a garota anônima ia beijar o garoto incrível, o sonho termina.

Takari vira seu rosto e retira a mão do garoto de seus cabelos. Ela vira-se de costas, as lágrimas escorrendo freneticamente. Com a voz fraca e inconstante do choro murmura:

- Desculpe-me. Não posso fazer isso.

E sai correndo do salão, encontrando a saída muito rapidamente. Kakashi vê a garota de seus sonhos desaparecendo de vista. Ele permanece atônito por alguns milésimos de segundos, até que ele cai em si.

- Takari! – grita ele. E sai correndo atrás dela.

Kakashi está desesperado. Ele empurra quem ele encontra pela frente, até que sai do recinto do salão.

"Que diabos está acontecendo?!"pensa ele. "Por quê?! Por quê?!"

Ele chega num vazio imenso da escola. Estava escuro e frio lá fora. Ele olha ofegante para os lados e grita chamando pelo nome dela.

- Takari! Onde você está?!

Ele anda pelos lados a procura dela. Percorre caminhos na escuridão, perguntando-se por que ela fizera isso com ele. Por que fugir daquela forma? Ele caminha rapidamente pelos jardins da escola, pelos corredores, parando em cada cantando procurando por um mísero sinal de Takari. Qualquer coisa, qualquer sinal da existência dela ele pedia. Por um simples olhar, uma difusa sombra ele procurou, mas nada ele encontrou.

- Onde está você?! – perguntou ele em alto e bom som. – Por que você fez isso comigo?!

Uma lágrima escorreu de seus olhos. Nunca o garoto tivera tamanha decepção na vida. Ele encostou-se à parede do ginásio e sentou-se no chão. Apoiou sua cabeça para trás e apertou os olhos. Mais lágrimas escorriam, que ele escondeu enxugando-as na manga de sua blusa, pois, afinal, garotos não choram.

De repente, o garoto notou alguém se aproximando. Ele olhou descontrolado para os lados pensando na possibilidade de que podia ser ela, mas nada. Era apenas seu professor, Namikaze Minato que se chegara mais perto.

- Eu sinto muito. – disse o professor.

- Não enche o saco. – falou Kakashi emburrado.

- Eu não vim aqui para te dar tapinhas nas costas e te consolar Kakashi. – disse o professor. – Eu vim aqui te dar um aviso, que talvez seja do seu interesse.

- Nada mais me interessa no momento. – disse ele olhando para baixo.

- Não seja ridículo.

- Ridículo?! – repetiu o garoto tomando um humor sarcástico. – Todos viram o que aconteceu lá no salão! Ela me deixou sem explicações nenhuma. E agora eu que estou sendo ridículo.

- Se você quer ser o hostil aqui, fique por sua conta Kakashi. Você não foi o primeiro nem o último cara que foi deixado no meio da pista de dança por uma garota. Se você soubesse o tanto que eu era atrapalhado na juventude... Como eu era maltratado pelas mulheres...

- Agora você veio pra contar seus flashes backs de dez anos atrás... – diz Kakashi.

- Não é isso Kakashi. Aquela garota que estava com você era a Uchiha Takari, não era?

- Falou certo. Era.

- Eu vou te falar uma coisa Kakashi. Porque eu sei o quanto você está sofrendo em não conseguir saber nada a respeito dela. Você pode pensar que aquilo tudo foi loucura dela, em ter fugido daquele jeito. Porém a Takari tem uma vida mais sofrida do que aparenta ter.

- O que você está falando? – pergunta o Hatake.

- Entenda uma coisa. Aquela garota tem problemas que você nem imagina. Ela sempre foi odiada por todos da família desde o momento que ela nasceu. E se eu fosse você, buscaria ao menos compreender o choque que ela deve ter sentido ao saber que alguém a amava. Eu irei afirmar uma coisa. Aquela garota não conhece o amor.

- Onde você está querendo chegar?

- O irmão que cuida dela sempre a impediu de viver. Sempre a impediu de fazer o que gostaria, e sempre a culpou por uma tragédia que aconteceu no passado. Você tem idéia de como é suportar o erro dos pais, sento culpada todos os dias de sua existência? Eu não sei muito sobre ela, mas quando eles a colocaram nessa escola, foi pedido primordial de Uchiha Fugaku evitar que ela tenha amigos ou qualquer contato. Ele a odeia. E Takari sente que sua existência é nada mais que um fardo para todos eles.

- Eu não compreendo isso... Ela não devia pensar assim.

- Eu infelizmente não conheço muito desses podres da família Uchiha. Eles comentam, mas não posso garantir se as histórias são apenas um boato ou verídicas.

- Mas mesmo assim, professor Minato. Ela não tinha motivos para não fazer isso. – falou Kakashi.

- Você não sabe o quanto a presença do irmão dela, o Fugaku a sufoca. E há um ano atrás quase aconteceu uma tragédia. – comentou o professor.

- Tragédia?

- Takari quase morreu. – disse ele sério.

- Mas como? – perguntou Kakashi parecendo preocupado.

- Em uma tarde de agosto, Takari tentou suicídio.

Kakashi emudeceu-se após ouvir tal palavra. Seu corpo gelou. Nunca lhe passara pela cabeça que ela poderia tentar uma coisa dessas.

- Não se sabe ao certo o motivo. Mas ela escreveu um bilhete de adeus, trancou-se no quarto e bebeu um vidro de comprimidos analgésicos. – continuou o professor.

- Ela... – Kakashi não tinha voz para dizer mais nada.

- Ela ficou em coma por algumas semanas. Entre a vida e morte. Ela queria morrer, mais o destino queria sua sobrevivência. Ela acordou do coma. Mas ninguém tem certeza de que ela não poderá tentar contra a própria vida de novo.

- Você está querendo dizer que eu posso ser um motivo para ela tentar se matar outra vez?

- Não, Kakashi. Nenhuma pessoa é culpada pelas ações dos outros. E a Takari precisa saber disso. Eu só queria que você soubesse a bagunça que deve estar a cabeça dela nesse momento. Não vá atrás dela. Não por hoje.

- Você acha que ela pode tentar se matar outra vez? – perguntou Kakashi com um fio de voz.

- Eu não sei, Kakashi. Eu não sei. – respondeu Minato pensativo.

Logo depois ele pediu licença ao garoto e saiu. Então era isso que estava acontecendo com ela. Kakashi tinha medo do que poderia acontecer. Ele precisava falar com ela. Mas por fim, ele achou melhor seguir o aviso de seu professor. Não procurá-la por hoje. Amanhã ele falaria com ela. Reviraria aquela escola se fosse preciso para achá-la.