Capítulo 12

Uma Flor Solitária

Ino não sabia há quanto tempo a guerra tinha começado oficialmente, mas parecia que faziam anos. A cidade tinha perdido a cor e a população evitava até mesmo se cumprimentar na rua. Era agoniante não ouvir mais a agitação de outrora e o estoque de comida estava acabando. A princesa tinha dispensado os empregados e tudo o que a população conseguia para comer, era o que cultivava. As exportações foram cortadas com o país, da mesma forma que mais nada importado chegava às mãos dos japoneses. Todos os dias, ela tinha que atender um representante de cada vilarejo. Os pedidos eram os mesmos: leite, farinha, ovos. Até mesmo o arroz estava em falta. Não tinha mais moeda de troca. Para quê? De que adiantariam ienes se não tinha mais nada para comprar? Infelizmente, a resposta de Ino era igual para todos os pedidos: desculpe-me.

- Pensativa? – era Sai. Ele ajudava a atender os viajantes que chegavam sem parar.

- O que faremos, Sai? Enquanto houver comida, eles farão o máximo para que ela dure. Mas quando tudo acabar?

- Eu não sei Ino. – de fato, quem podia prever o futuro?

- Será que Hinata está bem? Ela não mandou notícias desde que foi para Kakurezato. Já mandei três cartas para o distrito de lá e nenhuma foi respondida.

- Será que as cartas estão chegando? – sugeriu Sai – Provavelmente tenham cancelado o serviço dos mensageiros naquela parte do país.

- É mesmo! – Ino pareceu despertar – Sai, você tem razão! Não devem ter recebido as mensagens! Precisamos enviar Lee agora mesmo!

E ele foi enviado. Mesmo visivelmente mais magro, ele ainda tinha o fogo da juventude ardendo em seus olhos. Prometeu trazer notícias o quanto antes e aliviar assim, a tensão que tinha tomado à mansão Uchiha nos últimos tempos...

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O cheiro da água salgada se misturava ao sangue de pelo menos, oitenta homens mortos, apenas do lado japonês. Os guerreiros chineses eram realmente muito fortes, do tipo que não põe em prática estratégia alguma, apenas atacam. Foi aterrorizante ver tantos homens pulando de seus navios para as embarcações japonesas e como atacam de maneira voraz seus semelhantes, como se aquilo fosse capaz de alimentá-los. Sasuke admitiu ter medo, depois raiva e por fim, culpa. Todos aqueles homens que pareciam animais se atacando, choravam e pediam clemência ao se verem sem saída. O imperador pode ver nos amendoados olhos que, certa hora o brilho era assassino, um medo sem igual, ao sentir a lâmina que atravessava seu peito. O Uchiha apenas se defendeu, não esperava sentir tamanha culpa por ter tirado a vida de um homem. Todos sabiam bem do que era escrita a história de uma guerra, e lá estava a prova em vermelho, tingindo a água. As embarcações de velas vermelhas tinham se afastado e os homens que restaram ficaram observando elas como um ponto no horizonte, transformando-se num nada. E aquilo tinha sido apenas o começo:

- Imperador, o que devemos fazer? – era o Nara se pronunciando. Ele tinha um risco de sangue no rosto, risco esse que tinha esguichado da garganta aberta de um de seus homens que morrera em seus braços.

- Levante o nome dos homens mortos em batalha. Quem estiver em condições, - começou mais alto – cuide dos companheiros. Dividam-se para que possam cuidar deles e se alimentar. Não sabemos quando os chineses voltarão, então quero todos em alerta.

- Sim, senhor! – gritaram em coro. Sasuke podia jurar que metade da tripulação chorava a morte dos companheiros.

E como não chorar? Aquilo penalizava qualquer um que fosse. Tinha sido um massacre a bordo dos navios. Shikamaru tentou várias vezes observar o que acontecia a sua volta durante a troca de agressões. Era como se tudo fosse em câmera lenta: chineses pulando a bordo, espadas sendo sacadas, cortes sendo feitos, gritos de dor e gritos de guerra. Nenhum general, por mais experiente que fosse estava preparado para aquilo. Seus homens. Eles tinham família. Filhos, esposa. Lembrou-se de Temari e só não desejou morrer porque queria voltar vivo para os braços da amada. Viver era tudo o que desejavam naquele momento.

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- Queria poder te abraçar. – as palavras saíram naturalmente, como se estivesse visualizando-o a sua frente e pudesse toca-lo.

-Perdão?

- Não é nada, pensei alto. – Não sabia ao certo quanto tempo fazia que não o via, e o peito clamava de saudades. – O que será que Sasuke está fazendo agora? – Olhava para o céu, como se fosse encontrar algum vestígio do marido.

- Deve estar lutando bravamente, não acha Hinata?

- Eu também acredito, só espero que não custe a vida dele.

- Vai dar tudo certo. – a morena então voltou à atenção para o papel em que havia começado uma carta, endereçada a Sasuke. Algumas palavras tinham sido rabiscadas ali. Era uma confissão de seus dias e já somavam seis páginas...

- Obrigada. – Temari tentava me distrair. Passamos horas jogando conversa fora. Mas isso era antes, quando ainda tínhamos assunto. Agora são breves conversas, a maioria envolvendo vocês e nossas preocupações, nossos guerreiros. A realidade poderia ser outra...

- Nós é que deveríamos agradecer. – Assenti com um sorriso triste, às palavras de apoio. Agradecer... De certa forma sim. Mas de outra forma, agradecer a quê?

- Senhora! Senhora! Enfim encontrei! – Há algum tempo atrás eu diria que o rapaz correndo em minha direção era o Lee, mas aquele Lee que vinha era muito mais magro e desnutrido do que o Lee de antigamente. 'O fogo da juventude' que um dia tinha em todo o corpo agora se concentrava apenas em seus olhos esperançosos. E foi ai que percebi o impacto da guerra sobre as pessoas.

- Lee? Meu Deus Lee, como está? – a morena havia se levantada num susto ao ver o rapaz.

- Estou bem senhora, obrigada pela preocupação. Ino e Sai me mandaram atrás de noticias. Temeram que as cartas não estivessem chegando até aqui e me pediram para vir.

- Eu estou bem Lee – e depois ela completou - Bem preocupada com todos e com Sasuke, mas ainda assim, bem. Agora, por favor, vamos entrar você deve estar faminto e sedento devido à viagem.

- Não pretendo incomodar.

- De maneira alguma, por favor, entre. "Quando tudo isso irá acabar?".

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- Quando será que ele chega? – a loira balbuciou, observando o pôr do sol colorido, pintando o céu de rosa, laranja e amarelo.

- Ele quem Ino? – Sai perguntou, os pensamentos distantes.

- O Lee com noticias.

- Ah sim... – completou num fio de voz – Não se preocupe tanto, tem andado muito estressada com a guerra.

- Olhe em volta Sai. – os olhos azuis brilhavam emocionados – Faltam mantimentos, pessoas adoecem cada vez mais! Está tudo um caos! E eu nem sei como está meu irmão... – suspirou fundo. A mansão vazia dava-lhe a sensação de que estava abandonada. Ela se tornaria apenas mais uma passagem sem vida e silenciosa, da qual as pessoas não sentiriam falta.

- Quem pode saber, Ino? Guerras são imprevisíveis. Tem dias em que você ganha, outros, você perde.

- Em minha opinião, apenas perdemos... – suspirou. Queria tanto que ele a abraçasse e dissesse que estava tudo bem e que nada mais de ruim iria acontecer... Mas estava equivocada. Sai apenas continuava de olhos fixos no horizonte, o horizonte de onde deveriam enxergar os navios vindo. Mas não vinham há dois meses. Pareciam ter ido para não mais regressar. A linha azul que cortava céu e mar parecia vir tingida de vermelho e isso a deixava com o coração aos pulos, imaginando se não estaria o país entregue aos inimigos e as pessoas com o destino fatalmente traçado. Sentiu uma lágrima grossa brotando aos olhos e querendo cair, mas conteve-se quando viu duas crianças passando em frente à mansão.

- Pare de chorar, nee-chan... – pedia a menina maior à irmãzinha, vermelha, olhos apertados e soluços fortes.

- O que aconteceu? – Ino perguntou se aproximando preocupada. Em apenas dois meses, já não sabiam diferenciar quem era a majestade e quem era o plebeu.

- Minha irmãzinha está com fome... – explicou com a voz quase muda – O papai está na guerra e a mamãe não pode trabalhar... – agora as lágrimas vinham dela – Como tudo ficou tão horrível tão rápido?

Ino deixou-se cair ajoelhada no chão. Estava derrotada. Era verdade. Antes o país tinha fartura. Com o início da guerra, tudo começou a desandar lentamente, tendo um baque maior nos últimos dois meses. Enquanto os homens ainda trabalhavam, conseguiam manter o sustento do país com as mercadorias exportadas que ainda restaram, pois a China havia cortada toda e qualquer conversa com o Japão, como era de se esperar. Um país em crise não faz comércio com ninguém e não conseguiam se manter apenas com o cultivo da própria terra. Era um giro econômico que tinha sido ferido e em oito meses, era possível ver como a mudança atingiu principalmente ela, que se via um pouco mais magra, e às vezes, sentindo fome. Ela nunca havia sentido isso antes:

- Talvez eu tenha alguma coisa aqui dentro... Vocês querem entrar? – era Sai tomando a palavra. As meninas concordaram suspirando, rostinhos finos e molhados. Entraram na mansão silenciosa, apenas o baixo eco de suas pisadas. Sai achou algumas bolachas de farinha e leite. As meninas devoraram com tanta vontade que Ino precisou se afastar para não evidenciar as lágrimas. Que desespero! Estava ali, na sua frente à fome, o sofrimento, dor e abandono resumidos em duas crianças inocentes que quase um ano antes tinham tudo e agora, não tinham quase nada.

- Obrigada, moço. – a maior sorriu, limpando a boca.

- Imaginem... – deu um sorriso pequeno – Agradeçam àquela moça ali, a casa é dela. – Ino voltou-se para elas e limpou as lágrimas, que não foram notadas pelas pequenas.

- Obrigada moça – Ino sorriu e fechou os olhos. As meninas seguiram em direção à saída. A menor ainda mastigava com vontade a bolacha e a grandinha saltitava, como que incentivando a irmã a acompanhar. Lembrou-se de Sasuke. Ele fazia isso quando eram pequenos. Ele era muito mais aberto e contente. O tempo e as circunstâncias mudavam as pessoas.

- Precisa descansar.

- Eu não consigo dormir.

- Precisa tentar.

- Eu não consigo – a voz sumia entre as lágrimas – Imagine quantas crianças estão nessa situação, não só aqui, mas no país todo! E eu não posso fazer nada, eu, a princesa, a segunda na sucessão do trono não tem poder para nada! – estava com raiva de si mesma – Sempre fui reservada e muito tímida, mas de que adiantou? Sempre foi um empecilho para que se aproximassem de mim ou para que eu aprendesse alguma coisa! Apenas aprendi a ser uma dama, nunca uma líder!

- Como poderia saber Ino, o trono sempre foi do seu irmão por direito, nunca teve a obrigação de aprender nada relacionado a isso.

- Mas eu devia! – chorava, gritava desesperada – Sempre ouvi falar que a nação chinesa morria aos pés do palácio e agora vejo isso acontecendo com o Japão! Eu não consigo mover uma mão para ajudá-los! – as pernas fraquejaram e ela caiu sentada em uma das cadeiras de carvalho. Sabia que era uma boa madeira. Tinha tido aulas de artesanato. Alisou as mãos sobre elas. Dariam uma boa lenha. O inverno estava chegando, sentia na pele. As verduras estavam guardadas, mas eram muitas para apenas duas pessoas. – Que horas são, Sai?

- Umas cinco horas. – respondeu calmo. Em nenhum momento perdeu a paciência com a moça

- Sabe fazer sopa?

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Uma das moradas sentiu o cheiro de longe, mas não soube dizer o que era. Viu as crianças de sua rua parando de brincar com a bola e correndo todas para a mesma direção. Curiosa, saiu na porta e viu a multidão se aglomerando em volta da princesa Ino que trazia duas panelas muito grandes com algo quente dentro. A mesma abandonou seus afazeres e correu para a rua. Todos pareciam estar fazendo o mesmo. A notícia havia se espalhado mais rápido que o frio da noite e logo a rua estava lotada, vozes misturadas, gritos, risos. Sai tentava conter toda aquela gente, mas a voz em coro da multidão o cobria, obrigando-o a subir em cima da carroça e gritar, uma, duas, três vezes.

- Todos em fila única para pegar a sopa! Tem para todo mundo! – o povo se mexeu. Empurraram-se e alguns se bateram para entrar n fila – os mesmos foram parar no fim da mesma.

Demorou um pouco, mas logo todos estavam comportados e pegando suas canecas. Ino sorria e conversava com todos que vinham lhe pedir sopa. Era a primeira vez que viam a princesa sorrir tanto. Emocionada, por vezes Sai viu uma lágrima solitária brilhando nos olhos azuis. As lanternas iluminavam a rua de dourado e tudo parecia uma grande festa. Era como nos velhos tempos.

- Eles estão tão felizes, Sai! – sorriu, vendo todos sentados em grupos, comendo e conversando.

- Parabéns – sorriu contido.

- Pelo que?

- Você conseguiu. – e dessa vez o sorriso abriu-se mais.

- Nós conseguimos. – disse ela baixo, mas alto suficiente para ele ouvir. Arriscou e o abraçou, sendo surpreendida pelo retorno do gesto de carinho. O abraço apertou-se e ela se aconchegou nele, não sentindo mais medo ou vergonha. Não era clima para isso. Estavam em festa e seu coração também.

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Acordou no meio da noite, percebendo uma movimentação estranha. Sozinhos na mansão, qualquer som parecia muito alto. Era Sai, com uma bolsa nas costas. Iria embora. O coração da loira apertou-se. Ele iria embora! Depois de tê-la abraçado e ajudado a alimentar as pessoas da vila, ele iria deixá-la como um fugitivo que parecia ter roubado alguma coisa:

- E para onde pretende ir? – o moço foi pego no susto, ainda que não demonstrasse isso.

- Sou como um pássaro livre: vôo para lugares mais quentes no inverno.

- Quer dizer que volta na primavera? – os olhos encheram-se d'água. – Por que está fugindo?

- Não estou fugindo

- Se não estivesse sairia na luz do dia e pela porta da frente – respondeu, a voz embargada pela emoção. Não conseguiria segurar-se por muito tempo.

- Sou só mais uma espécie de erva daninha, Ino – ironizou com um sorriso triste – e você é uma flor.

- Uma flor solitária. – condenou aquele elogio. De que valeria ele se continuaria abandonada em meio a um luxo que a cada dia se perdia?

- A mais bela flor. – disse num só fôlego.

- Gosta de mim?

- Como eu jamais deveria ter gostado

- Por que não?

- Olhe para mim. – ele soltou a bolsa e abriu os braços – Só um pintor que bate de porta em porta. E você, uma princesa.

- Então olhe direito. – estava brava com a comparação dele, mas as lágrimas não conseguiam fazer que o sentimento fosse transmitido – Eu pareço uma princesa? Assim?

- Pareceria uma princesa até mesmo coberta lama. – respondeu, os olhos ainda firmes. – Ninguém aceitaria, nunca.

- Eu aceito, é o que basta.

- E o povo? Como reagiriam sabendo que uma princesa casou-se com um plebeu?

- O que meu irmão manda é lei.

- E ele mandaria me aceitarem? Ele aceitaria que a irmã mais nova se case com um pintor?

- Pare de se menosprezar! Sasuke se casou com uma fugitiva, acha mesmo que me impediria de casar com a pessoa que eu amo por um simples detalhe? – o eco dos soluços da moça acertou o peito de Sai como uma adaga. Aprendeu enquanto crescia a esconder seus sentimentos. Estava morrendo por dentro, mas nem mesmo isso o fazia se mover.

- Me ama?

- Não diria se não fosse verdade... – ela limpava as lágrimas, cabeça baixa para que ele não visse o rubor da face.

As mãos do pintor tremiam. Caminhou silencioso até ela, cada passo um peso infinito. E se tudo valesse mesmo a pena? E se ali fosse mesmo o seu lugar? Poderia não ser, mas sentia que apenas com Ino, qualquer lugar seria sua casa. Mas ele era um pássaro livre, não vivia engaiolado. Era a filosofia que levava para sua vida. Mas, ela nunca lhe representou uma prisão. Era com Ino que ele se sentia mais livre. Era como se a moça fosse sua primavera. Uma eterna primavera. Então, talvez tivesse chegado a hora do pássaro acalmar suas asas e pousar ante o Sol que se oferecia para brilhar para ele, somente ele. A abraçou e foi como se seu corpo tivesse sido tomado pela onda de amor e carinho que não sentia há muito tempo, tanto tempo que era como se nunca houvesse realmente existido. Era como se ele mesmo tivesse conseguido alcançar o Sol, aquela estrela tão enorme, mas que nem todos conseguiam ver. Era a estrela dele. E ele faria com que ela se sentisse assim.

Wee, e cá estamos outra vez, com atualizações atrasadas como de costume =D

Como vão povos e povas? Espero que bem ^^ O capítulo de hoje é focado no casal InoSai, porque eu acho eles fofos u-ú E o próximo será voltada pra guerra, a Nát promete *-*

A beta do dia vai dar uma palavrinha pra vocês agora

Kissus seus lindos *-*

OOOOOOOOOOOOOOI *-*

Cá estamos aqui outra vez, segundo Nat.

Espero que realmente gostem do capitulo. Fizemos com todo carinho *-* Como Nat disse, próximo capitulo voltado pra guerra, com fortes emoções.

Kissus coisas lindas *-*